sexta-feira, 6 de agosto de 2010

HISTÓRIAS DO RECIFE - Capitulo XIII - Socialização Gay em Recife


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Do Bar do Karalho ao Shopping Boa Vista - A eterna luta pela definição de territórios


Como já dito anteriormente, minha chegada ao centro de Recife coincide com o período de abertura política, onde a censura se tornava mais amena com o passar dos tempos, e assim pude de certa forma, acompanhar as transformações que se deram durante e após a “revolução de oitenta”.

Durante minha pesquisa de mestrado recorri a velhos amigos, a amigos de amigos e pessoas que aos poucos me iam sendo apresentas, com o objetivo de tentar reconstituir um pouco o processo de consolidação e socialização gay em Recife. Através dos vários depoimentos colhidos pude constatar e revelar a efervescência das transformações pós-ditadura, período em que os espaços destinados aos homossexuais e/ou as vivências homoeróticas se restringiam a determinados locais onde, invisíveis aos olhos da sociedade burguesa, tornavam-se possíveis os encontros que se desenvolviam de forma restrita e limitada. Assim, em continuidade a formação e constituição das “tribos de Recife”, resolvi transcrever alguns trechos de minha dissertação no intuito de melhor clarificar a longa trajetória da consolidação de uma cultura gay que vem se afirmando como tendência entre os jovens e adolescentes que povoam nossas ruas de mãos dadas, aos beijos e abraços.

Esses adolescentes e jovens formam talvez a tribo mais alternativa e irreverente da cidade. Concentrados no maior espaço de socialização gay de Recife, misturam-se e diversificam-se em estilos, categorias, ideologias e classes sociais. E aos poucos transformam o cruzamento da Rua José de Alencar com a Rua do Geriquiti, num território que concentra hoje o maior contingente representativo de diferenças, sejam elas de caráter étnico/raça, gênero, geracional ou econômico. O perímetro tem ainda se estabelecido como maior área de empreendimentos econômicos voltados ao público gay alternativo, incluindo o Shopping Boa Vista, conhecido popularmente entre os jovens como “shopping boa bicha”; o Bar Mustang, o mais antigo bar em funcionamento no centro da cidade; Bar Pinthifouse, de público diversificado; Bar Sete Cores, localizado num belo e misterioso casarão antigo e uma sauna.

Considero oportuno, no entanto, voltar um pouco no tempo para melhor entender e explicar a extensão ideológica e cultural do que se pode reconhecer nos dias atuais como reduto da diversidade recifense. Desta forma, mais uma vez esclareço que as descrições a seguir são resultados de dois longos anos nas ruas do Recife e de conversas informais, entrevistas e leituras sucessivas, além claro, da minha própria observação sobre os fatos, que me possibilitaram um panorama geral sobre os processos de construção e reestruturações das performances de gênero em algumas categorias nativas. Saliento ainda, que em alguns trechos as transcrições das narrativas e depoimentos se mantêm fieis ao texto original, e que por isso algumas palavras ou nomenclaturas podem causar certo estranhamento (ou incômodo, porque não?)

Inicio então pelas conclusões de um de meus informantes que, por exemplo, descreve sem grandes romantismos as dificuldades relativas à dinâmica da “pegação” no início dos anos oitenta. Ele relata que existiam naquela época, os cinemas, que não passavam filmes pornôs, e alguns bares, entre os quais, o Savoy, na Av. Guararapes; o HC, na Rua do sossego; o Mustang, que ainda se mantém na Av. Conde da Boa Vista; o Mangueirão e o Bar da Cris, próximos a Universidade Católica, onde as azarações não eram acintosas, mas era onde se namorava e se paquerava. E onde também se podia depois acertar os futuros encontros, não necessariamente seriam sexuais.

A efervescência sexual gay de Recife coincide com o reconhecimento e reafirmação de sua própria homossexualidade, que antes “enrustida” o levou a efetivar uma relação marital, pautada no modelo heterossexista, por mais de trinta anos. Funcionário público, de classe média, pai de dois filhos, ao se separar da esposa fixou residência no bairro da Boa Vista e passou a vivenciar tardiamente a plenitude de sua sexualidade através de encontros e relações fortuitas que se davam em espaços de pegação. Para sua geração, os banheiros dos bares se destacavam como espaços onde os encontros eram certos e onde se tornava possível encontrar “homens que procuravam outros homens”.

Em alguns destes encontros o dinheiro sempre funcionava como “facilitador” e/ou agenciador para as práticas sexuais de caráter homossexual. Outro depoimento a respeito, evidencia que nestes locais, “alguns homens já esperavam pelas bichas com o pau duro. Deixavam a gente chupar e depois pediam o dinheiro da cerveja ou da passagem. Eram desculpas esfarrapadas, porque no outro dia eles estavam lá, do mesmo jeito”. Um segundo informante destaca que entre os espaços citados, os banheiros públicos e o famoso “quem-me-quer”, que margeia o Rio Capibaribe, sempre serviram como espaços de pegação para os homossexuais da cidade.

Neste ponto, vale salientar que atualmente, o espaço ainda hoje se configura como ponto de prostituição masculina homossexual, que se desenvolve no trecho localizado entre a Rua Dr. José Mariano, no perímetro compreendido entre a Ponte Seis de Março (mais conhecida como Ponte Velha) e a Ponte da Boa Vista (também chamada pelos recifenses como Ponte de Ferro). Nesse território, mais conhecido como Cais José Mariano, os vários bancos, árvores e um banheiro público servem, muitas vezes, como espaços para as práticas sexuais comerciais e/ou encontros homoeróticos que se dão na via pública em altas horas da madrugada.

Já nos banheiros dos cinemas “São Luiz”, na Rua da Aurora; e do “Veneza”, na Rua do Hospício, as pegações eram mais discretas e se configuravam como relações homoafetivas entre entendidos (denominação usual entre os gays nos anos oitenta e noventa). Um estudante universitário me relata que descobriu o mundo gay em tais banheiros, que na época ele tinha 19 anos e sua primeira experiência sexual se deu no Cinema Veneza: “o cara chegou no mictório de lado e ficou me olhando. Ele era bem mais velho e tinha uma bunda linda. Já comi muita gente nos banheiros dos cinemas. Naquela época era mais fácil, porque todo mundo sabia o que rolava nas cabines”. Conta ainda que antigamente os jovens gays saiam diretamente dos colégios, localizados no centro, para os cinemas (ou melhor, para os banheiros). E quem viveu a época sabe que muita gente, em sua maioria homens, que se posicionava em pé encostado nas paredes do final da sala de projeção, pouco se interessava pelos personagens fictícios. O atrativo da sétima arte consistia mesmo em presenciar ao vivo, ou mesmo vivenciar as fortes emoções dos explícitos encontros eróticos que se davam entre homens dos mais variados tipos, idade e classes sociais.

No final da década os principais cinemas do centro da cidade, como o “Moderno”, em frente a Praça Joaquim Nabuco; O “Astor” e o “Ritz” na Avenida Visconde de Suassuna; bem como o “Trianon” e o “Arte Palácio”, ambos na Avenida Guararapes, passaram a exibir exclusivamente filmes eróticos, e se tornaram espaços de circulação para prostitutas e boys de programa que atendiam seus clientes tanto nos banheiros quanto nas próprias salas de exibição. Nos dois últimos, haviam os camarotes localizados no final das salas, que nos tempos áureos serviram para demarcar as diferenças sociais, mas que, porém, no final dos anos oitenta serviram como espaços reservados as grandes “surubas” e demais práticas sexuais que envolviam tanto casais heterossexuais quanto homossexuais. Em determinadas horas, tais espaços concentravam mais gente do que mesmo as platéias, onde se tornava frequente a visualização de homens ajoelhados entre as cadeiras, meio às pernas de outros que fingiam prestar atenção ao que se passava na grande tela.

Fora dos cinemas, ao que tudo indica a prática da pegação também acontecia em toda extensão da Avenida Conde da Boa Vista e suas principais ruas paralelas. Tal fato é destacado por alguns entrevistados como marco para o processo de definição e reconhecimento dos espaços e territórios gay de Recife. Desde a década de setenta, os olhares e as trocas de sinais, combinavam os encontros que terminavam nas antigas pensões do centro. E segundo o artigo publicado no antigo Jornal Lampião da Esquina (1980), irreverente publicação voltada ao público gay, a cidade já mesmo na época da ditadura militar apresentava um roteiro de espaços onde os homossexuais podiam encontrar parceiros sexuais ou simplesmente apreciar os jovens rapazes que pescavam às margens do Rio Capibaribe, “onde existe o famoso quem-me-quer, um cais de ambas as margens - Rua do Sol e Rua da Aurora, sendo que nesta última, em frente ao Cine São Luis, a pesca acontece ao contrário, quer dizer, são os peixes que se lançam a pescaria (Albuquerque Jr. & Ceballos, 2004).

Esses registros demonstram que a vida gay recifense passou a se consolidar no bairro da Boa Vista, ainda no final da década de setenta. Mais um informante, destaca o inicio da ebulição da vida noturna no bairro revelando a existência da “Boate de Homero” e a “Boate da Tia”, ambas instaladas no Edifício Novo Recife, que se localiza por trás do Cine São Luis. Eram pequenos espaços de socialização, pois que se configuravam praticamente como apartamentos residências onde se promoviam festas dançantes. Porém já existiam os shows de travestis famosas ou conhecidas, nos mesmos moldes de hoje em dia, dublando os clássicos sucessos das divas estrangeiras. Já um outro antigo morador do bairro, chama a atenção para os bares do local que também funcionavam como espaços de socialização entre os homossexuais. Alguns como o “HC”, o “Louco Amor” e o “Doce Vício” viviam constantemente lotados e eram frequentados por ativistas políticos, artistas e “entendidos”, tornando frequentes as “azarações” e os encontros homoafetivos.

Contudo, ao que tudo indica, as pegações não se restringiam aos espaços privados, mas se estendiam a espaços públicos, como por exemplo, ao Parque 13 de Maio que é margeado de um lado pela histórica Faculdade de Direito do Recife, e de outro, pela Biblioteca Pública Central Presidente Castelo Branco. Esses três patrimônios públicos juntos formam o que se poderia chamar de maior espaço de socialização gay do Recife. Tanto que nos banheiros da biblioteca ou faculdade, as pegações e práticas sexuais entre homens se davam durante todo o dia. Nestes, segundo relatos, parece que questões relacionadas à idade, raça/etnia e classe social não se mostravam como demarcadores de diferenças tão significativos.

Neste aspecto, um funcionário da biblioteca que trabalhava no horário da tarde relata que quando chegava sempre dava uma passada no banheiro para ver como estavam às coisas. Registra-se então que ao meio dia, o movimento aumentava muito com “homens de todo tipo - brancos, negros, altos, magros, senhores sérios, garotos que vinham das escolas, e até estrangeiros”. E para o narrador parecia engraçado observar o clima de nervosismo que pairava no ar, tanto que “aproveitava para escovar os dentes e sempre conseguia ver alguém de pau duro, esperando do lado de fora, enquanto alguém se masturbava dentro da cabine”. Por isso ele sempre escolhia a pia próxima a primeira cabine, porque dava para ver no reflexo no chão, os “membros eretos em movimentos mastubatórios”.

Assim, parece que as estratégias e táticas adotas durante as pegações se diversificavam tanto quanto o perfil de seus praticantes, tanto que “alguns frequentadores, os mais afoitos, deixavam a porta entreaberta e as bichas fingiam que estavam na espera só pra ficar olhando o cara se masturbar”. E nestes momentos “algumas paravam mesmo, bem perto da porta e muitas vezes começavam a pegar no pau do cara, enquanto que outras até se baixavam para chupar”. Em meio a tantos relatos eróticos, ainda sobre as táticas adotas, o funcionário salienta: “Vi várias bichas dando o cu de joelhos nas bacias sanitárias para que ninguém de fora percebesse que tinham duas pessoas na cabine. Mas a gente percebia, porque ficava olhando o movimento das pernas do que estava comendo. Outras vezes, até se ouvia os gemidos quando eles gozavam. E também dava pra ver a gala pingando no chão”. Em outra passagem, deixa evidente a heterogeneidade que caracterizava os atores sociais envolvidos nas práticas sexuais: “Já vi garoto novo agarrado em cacete de negão bem mais velho, como também já vi negão tomar no cu como quem toma refrigerante. Quando as bichas tão na seca, não têm essa coisa de diferença. Todo mundo dá ou come. Na hora do sexo não tem preconceito, o que importa é o prazer”.

Já no Parque 13 de Maio, a pegação apresentava diferentes modalidades. Por ser um espaço aberto, e por isso mesmo mais exposto, os gays de plantão tendiam a se misturar aos transeuntes e visitantes. A paquera era o meio de chegada, e muitos ficavam parados em frente às jaulas dos animais (que na época eram muitos e das mais variadas espécies) e faziam sinais com os olhos, bocas ou movimentos corporais intencionais para deixar claro o interesse por determinado pretendente. Quando correspondidos, caminhavam separados até o banheiro do parque ou seguiam sempre um na frente e o outro atrás em busca de espaços mais reservados como motéis ou residências próprias. Os boys de programa também sempre frequentaram o parque e junto com as prostitutas, cada um a seu modo, aguardavam ou abordavam os clientes. Os boys, normalmente perambulavam pelas ruas mais arborizadas até encontrarem espaços menos movimentados onde fingiam urinar para exibirem seus pênis. Era um sinal para que alguém interessado se aproximasse e a negociação pudesse se realizar.

Nos dias atuais, os códigos e sinalizações assumiram um caráter mais sofisticado, ou talvez mais discreto, e as pegações passaram a se dar na pista de Cooper que se estende por toda a extensão do parque. E também na área reservada aos equipamentos de ginástica, onde corpos suados e malhados são constantemente exibidos através de performances que salientam as musculaturas e evidenciam a potência e suposta virilidade dos machos que buscam outros homens para se relacionarem sexualmente. Contudo, como em quase todos os lugares de socialização gay, os códigos gestuais parecem cumprir sua principal função, invisibilizar socialmente as identidades individuais.

Mas em outro registro de Albuquerque Jr e Ceballos (2004), as pegações em espaços públicos são descritas como práticas corriqueiras que atravessaram décadas e se consolidaram como característica da sexualidade recifense. Tanto que “para quem gosta de pegação de rua, não há nada como a famosa Rua Nova e suas transversais, da Palma e do Sol. Há de tudo, desde travestis bíblicos, passando por tudo que há no meio, até os midinight-cowboys, que geralmente não dispensam o assalto após a ‘operação’”. Já entre os bares mais famosos, onde também era possível se perceber tanto emergência da prostituição masculina, quanto a prática da pegação homossexual, que aconteciam mais frequentemente nos banheiros, o “Bar Nova Portuguesa”, localizado na Avenida Dantas Barreto; o antigo “Bar Savoy” e “O Botiginha”, ambos na Avenida Guararapes; exemplificam a expansão territorial da comunidade gay. Em alguns lugares, como por exemplo, o conhecido “beco do mijo”, localizado na Rua Siqueira Campos (até hoje reconhecido como espaço gay), os prazeres às vezes chegavam as “via de fato”. Neste sentido pode-se entender a ocorrência de práticas sexuais que incluíam sexo oral e sexo anal entre homens. Ali, as batidas policiais apesar de frequentes, não eram suficientes para banir ou mesmo afugentar os frequentadores noturnos. Até porque, como exemplo da Rua da Concórdia (citado no capitulo sobre a prostituição das travestis), era comum a interação dos fardados com alguns frequentadores ou visitantes do beco.

Porém acredito que o período de maior expansão entre os empreendimentos comerciais voltados ao público gay foi marcado pelo surgimento da Thermas Recife, primeira sauna da cidade, localizada na Avenida Mário Melo; bem como pela inauguração da Misty, primeira boate a empregar o conceito GLS (gays, lésbicas e simpatizantes). Esta, voltada à classe média alta, rompeu conceitos e padrões sociais da época, abrindo espaço às relações de gênero mais igualitárias, onde a azaração e sexo sem compromisso não se restringia mais ao mundo masculino. As mulheres agora levantavam as bandeiras da liberdade sexual e econômica, partindo para cima de seus objetos de desejos e assumindo definitivamente a iniciativa quanto a paquera e o assédio. Neste sentido, um bom exemplo de como o social tende a encontrar formas de ajustar novos conceitos, redimensionando e reformulando seus significados de acordo com as exigências de determinadas épocas, relaciona-se a meu ver, ao fato do conceito “azaração” ter se transformado numa tendência que foi ressignificada entre os jovens do novo século em “ficar”.

Essa necessidade de mudanças e flexibilidades nas condutas e comportamentos da sociedade, que marcaram as duas últimas décadas do século passado foi determinante para a consolidação de um comércio específico, destinado a um público multifacetado em estilos e ávido por novidades. A comunidade gay de certa forma estabeleceu e estabelece regras de funcionamento para o mercado, ao qual impõe características vinculadas a uma ideologia acromática quanto as nuances e formas de vida, que se pautadas numa irreverência e fluidez comportamental mostra-se capaz de provocar um redimensionamento geográfico constante e ininterrupto no centro da cidade. Talvez, na compreensão dessa nova tendência mercadológica a boate no inicio da década de noventa tenha se tornado ícone gay, que atravessando gerações adotou um processo de metamorfose identificado com seu público. Assim, as mudanças constantes na decoração e estruturação interna, incluindo a realocações dos bares, salas vips, pick-ups e áreas de socialização, bem como a criação de novos subespaços, davam ao estabelecimento um ar camaleônico capaz de seduzir e atrair públicos das mais distintas camadas sociais.

Essa característica também se evidenciava ao público através das mudanças constantes nas tonalidades de cores de suas paredes externas e fachadas, que mostrando flexibilidade também na construção e definição de sua própria identidade. A casa mudou de conceito e nome várias vezes, sendo chamada anteriormente como “Doctor Freud”, “Alcatraz”, até finalmente se estabelecer como “Metrópole” em meados dos anos 2000, e demarcar definitivamente a ideologia da livre expressão sexual simbolizada na bandeira do arco-íris hasteada na entrada.

Mas na contramão de uma identidade homossexual burguesa, o “Mangueirão”, boate menos glamorosa e mais antiga, localizada na época a Rua Bernardo Guimarães, era reconhecida como espaço gay alternativo comumente frequentado por estudantes, membros e simpatizantes de movimentos sociais, políticos de esquerda, artísticas de todos os seguimentos e mais uma grande variedade de gays. Estes, vindos em sua maioria dos bairros populares e municípios circunvizinhos, eram rotulados pejorativamente como “bichinhas suburbanas”.

O Mangueirão acolhia a um público mais receptivo e “cabeça” ao passo que representava a própria irreverência, personificada nas “bichinhas afeminadas”, boys de programas e travestis que participavam de concursos no melhor estilo Miss Gay, ou ainda de performances artísticas que envolviam coreografias de danças, declamações de poesias e dublagens. O local servia também como escoadouro para um estilo de arte marginal onde o teatro encontrava espaço para experimentar uma linguagem menos erudita, pela qual explicitava a cultura sexual popular através de personagens comuns do mundo gay, envolvidos sempre em situações corriqueiras onde o erotismo e o sexual se misturavam com o simples propósito de fazer rir. Alguns espetáculos satíricos do circuito oficial e profissional do teatro pernambucano, tais como, “A Louca dos Jardins” e “A Assembléia das Deusas”, chegaram mesmo a cumprir temporadas, em horários alternativos que se davam após a meia-noite.

Porém, talvez a grande contribuição deixada pelo Mangueirão, que encerrou as atividades no final dos anos noventa, tenha sido a evidenciação e divulgação das mais variadas formas de expressão sexual, como também a confirmação e reafirmação da multiplicidade de categoriais identitárias da comunidade gay. Neste sentido, as duas casas – a Misty e o Mangueirão - principais opções da época aos homossexuais, contribuíram de forma decisiva, cada uma a seu modo, estilo e ideologia, para o estabelecimento definitivo de uma identidade própria dos gays recifenses.

Posteriormente surgiram outras boates e casas noturnas, tais como a “Dyaguilaif” (será que era assim que se escrevia?), na Rua das Ninfas; o “Bela Bar Tok”, na Rua do Progresso; o “Comida Caseira”, que funcionava como restaurante durante o dia e a noite se transformava em boate, localizado a Rua José de Alencar; o “Taberna Gaúcha”, na Avenida Mário Melo; e o “Etc & Tal”, na Avenida Dantas Barreto. Estes empreendimentos, apesar do pouco tempo de existência parecem ter despertado a atenção do empresariado local para a necessidade de um maior investimento no quesito entretenimento e diversão gay na cidade. Tanto que nos dias atuais os novos espaços ou empreendimentos se multiplicam e se diversificam alterando e recriando a cada dia um novo cenário urbanístico para o centro de Recife.

O processo de territorialização na Rua José de Alencar, deu-se mais precisamente no final dos anos oitenta. Ali, onde hoje se encontra instalado o Shopping Boa Vista, existiu o “Bar do Karalho”, ou simplesmente “Bar do K...”, marcando época por ter sido o primeiro estabelecimento comercial a tornar público os encontros e relações homoafetivas, que eram explicitados através de beijos, abraços e carícias entre casais gays que se aglomeravam na rua sem o menor “pudor ou censura”. Outros tantos ocupavam o dancing, colados em duplas ou grupos, em coreografias que aquecidas ao ritmo das “lambadas” (renovada pela novela A Rainha da Sucata) lembravam sarros frenéticos ou simulações de surubas. Quando soltos, o ritmo da “disco-music” originados pela era discoteca, possibilitava as mais estranhas e divertidas performances gays que, muitas vezes, se estendiam até a rua.

Mas devido à “algazarra generalizada” provocada pela galera da livre expressão homoerótica ou homoafetiva, o bar foi alvo de várias denúncias policiais e ações de justiça, em atendimento aos moradores do bairro que reclamavam da “pouca vergonha” dos frequentadores e reivindicavam a manutenção da moral e dos bons costumes locais. E dos edifícios localizados em frente ao bar, eram jogados ovos, tomates e água nos homossexuais que resistiam à perseguição e à repressão sexual de forma pacífica e determinada. E a cada dia, a rua se consolidava como o território homossexual de maior expressão da cidade, uma vez que além do referido bar, foram inaugurados o “Porção Mágica” e o “Aritana”, que juntos ao “Mustang”, formavam uma espécie de oásis gay.

Esse processo de territorialização definida e bem demarcada coincide exatamente com a entrada das “Drag Queens” no cenário cultural de Recife. Exuberantes, engraçadas e escachadas, as drags divulgavam pelas ruas do bairro os últimos acontecimentos sociais da comunidade. E assim, festas, inaugurações de casas de shows, boates, saunas, vídeolocadoras e sex-shops eram anunciadas de forma divertida e “inconsequente” entre a multidão e a sociedade.

Era o inicio do processo de consolidação de novas tribos, e o começo de uma luta que tinha, e tem unicamente o objetivo de fortalecimento de uma categoria pela demarcação e definição de novos territórios, para assim se tornar visível e garantir direitos. Inclusive o de ser diferente dentro da própria diferença sem, contudo, perder a consciência quanto aos prejuízos da indiferença. Torna-se visível configura-se então enquanto luta, movimento e principio, para se estabelecer e se manter em pé de igualdade enquanto sujeitos e cidadãos plenos em direitos e deveres.


 

2 comentários:

  1. Alem de Ser um professor do karalho ..Desculpe a Expressão é uma cara pensante...Só vc Conseguia me fazer sair do trabalho numa quinta feira puta de cansada pra assistir aulas maravilhosas rsrsr Resumindo "Vc é o Cara" Bjs Prof.

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