quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

MERCADO SEXUAL HOMOERÓTICO DE BUENOS AIRES - Capítulo IIII


 
 
Viernes, 11 de Enero de 2013.

Após uma extensiva e exaustiva semana de aulas, reinicio minha peregrinação pelas ruas de Buenos Aires em busca de informações sobre o mercado sexual homoerótico da Argentina, objeto de minha pesquisa de doutorado. Uma consulta na internet facilita a definição de meu alvo: Calle Gascon. A “Boate B” fica situada em uma rua extremamente calma, em um bairro residencial. Sua fachada em tijolos aparentes revela uma imponência que sinaliza a diferenciação do publico. O ingresso é mais caro, porém a cerveja é livre durante toda a noite, pelo menos as sextas-feiras e em algumas festas realizadas aos sábados. O protocolo de entrada se repete. Homossexuais portenhos vão chegando, e aos poucos vão se posicionando em esquinas próximas ou pontos menos iluminados da rua. Raramente alguém para em frente ao estabelecimento. É como se houvesse um código, um ritual, que parece objetivar a invisibilidade. Segundo Ernesto Meccia (2011), sociólogo portenho, a homossexualidade na Argentina passa por um processo de transição social e histórica que se dá de uma perspectiva de “la homosexualidad” para “la gaycidad”. Em outras palavras, os argentinos se encontram em pleno processo de restruturação e consolidação de uma nova representação da homossexualidade, e logicamente da identidade gay, pela qual buscam se firmar diante de uma sociedade ainda fortemente guiada pelo modelo heteronormativo. De certa forma, a situação me parece estranha, uma vez que o país tornou-se o primeiro da América Latina a oficializar leis que estabelecem as garantias de direitos das pessoas de orientação sexual “no-heterosexual”, tais como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a adoção de crianças por homossexuais e a lei de gênero que garante a cirurgia de transgenitalização e mudança de documentação civil, inclusive para as travestis e transexuais estrangeiros residentes.

Posiciono-me próximo a boate, pouco afastado da entrada, cumprindo o ritual local. Tal localização favorece a minha observação. Dois jovens se encontram e iniciam uma conversa. Os argentinos falam rápido, o que quase sempre dificulta a compreensão. Eles falam sobre a noite, trazendo banalidades cotidianas. Começo então a observar comportamentos e posturas corporais. Diferentemente de Recife, os gays de Buenos Aires portam-se e vestem-se de maneira bem mais formal. Quase não gesticulam. Em duplas ou em pequenos grupos travam conversas mantendo o tom de voz baixo e discreto. Não existe a ferveção noturna recifense, muito menos a euforia dos encontros. Neste sentido, o que me chama a atenção é a diferença cultural que se revela no cumprimento social entre os homens, que se estabelece com um beijo no rosto. Uma “lesbiana”, classificação nativa para as homossexuais femininas, me aborda tentando vender seu ingresso, que comprado antecipadamente tem abatimento de 20%. Já meio alta, ela tenta me convencer das vantagens da barganha. Recuso a oferta e ela se afasta irritada. Nesse aspecto, percebo que as mulheres homossexuais parecem mais a vontade com o posicionamento social. A postura corporal e as indumentárias revelam de maneira mais evidente suas identidades e orientações sexuais. Penso então como se estabelece esse processo de transformação sóciohistorica e política também para as mulheres homossexuais portenhas. Minhas reflexões são interrompidas com a chegada de uma “Van-Escuela” (Van-Escolar) de onde descem uma travesti, acompanhada por seu companheiro, uma lesbiana e um homossexual, que aqui pode ser classificado como “munhequita”, denominação popular para os afeminados. Os boys de programa parecem seguir o modelo de estereótipo universal. Malhados, revelam a definição de musculaturas cuidadosamente trabalhadas em horas de academia. As roupas justas revelam volumes e também sensualidades. O mesmo ocorre com os munhequitas, em grande parte com seus cabelos descoloridos, tingidos ou modelados em gel. Por sua vez, as travestis parecem mais a vontade, imponderadas de uma autoridade garantida em lei. São reconhecidas e identificadas como mulheres. Porém, mesmo nesses grupos de categorias identitárias a discrição se estabelece como padrão.

Resolvo entrar na boate e aproveito para observar mais uma vez a movimentação. Aos poucos os homossexuais vão chegando a pés, de taxi ou em carros particulares. Outro ponto que chama a atenção refere-se ao fato de não existir filas de entrada. Com a abertura das portas, eles parecem seguir novo protocolo. Não se aglomeram, mas entram de forma individualizada e rápida. No exterior um mundo novo e específico parece se abrir as novas possibilidades. A socialização parece mais intima, com abraços e beijos. A música é alta e de pancada forte. Da pista principal, duas escadarias paralelas levam aos mezaninos, onde bares bem equipados e coloridos servem como espaços grupais. Já são quase duas horas da manhã e o dancing está vazio. Uma travesti magra e alta movimenta-se “bailando” pelo salão, como a convocar a todos para a grande festa. Um vestido vermelho vivo ajustado ao corpo revela sua magreza. Os cabelos ondulados cobrem-lhe parte do rosto e servem as performances das caricatas. No bar principal, de frente a pick-up, várias pessoas esperam sentadas, com copos nas mãos. O champanhe parece tradicional, que servido em copos finos e longos (canillas), parece reluzir em cores vibrantes ao comando da iluminação computadorizada. O espaço é amplo, com capacidade para mais de duas mil pessoas. No pavimento superior um mini-dancing aglomera pequenos grupos. Pergunto sobre a existência de fumódromo e sou direcionado ao banheiro masculino. A concentração de fumantes torna o ambiente quase insuportável, envolvido por uma espécie de neblina. Algumas cabines e mictórios compõem tais espaços, dotados de grandes espelhos. Enquanto fumo, observo o comportamento dos portenhos e constato a não existência da famosa pegação, comum as boates brasileiras. Indago se o fato é cultural ou imposto pela presença de seguranças da casa.

Três horas da manhã e finalmente o dancing está cheio. Apesar da multidão é possível se mover com facilidade e sem grandes tropeções ou atropelos. Os argentinos pedem passagem com um breve “permición” mesmo em lugares lotados. A cada esbarrão ou tropeço pedem “perdón”, o que nos obriga uma radical mudança de comportamento. No palco, onde se encontram os DJs, dois go-go boys dançam de forma sedutora. Os corpos musculosos, mais uma vez, se sobressaem e despertam a atenção do público. Uma pequena aglomeração se concentra diante dos deuses apolíneos. Mulheres aproveitam a proximidade para as fotos que insinuam erotismo. Os homens se mostram reservados e menos eufóricos. Novos dançarinos assumem o posto e dançam de forma comum, cumprindo um ritual específico. Os corpos bem torneados e suados parecem atiçar as libidos, mas diferente de Recife, as demonstrações de aprovação mantém-se dentro de um modelo de reserva.

Em um dos mezaninos uma grande cortina me chama a atenção. Resolvo explorar o ambiente que é acessado por duas escadarias em lados opostos. No corredor de acesso várias pessoas se mantêm em uma espécie de bem-me-quer. Sigo em frente e chego a um espaço que serve como dark-room. Centenas de pessoas se aglomeram em uma espécie de suruba generalizada. São homens, mulheres e travestis em práticas sexuais. Confesso minha surpresa diante da inusitada cena. De repente um único espaço abre possibilidades a dois mundos. Observo que as luzes se mantem acesas, o que possibilita a visualização de tudo que se passa. Naquele espaço não existe o anonimato comum a estes ambientes. É possível verificar as variações de encontros e práticas sexuais envolvendo duas, três, quatro ou multidões de pessoas. Por todos os espaços que já andei ou circulei nunca havia presenciado nada tão grandioso no que se refere à concentração e envolvimento de pessoas. Relembro que algo desta magnitude só havia presenciado na Praça da República, em São Paulo, durante uma das paradas da diversidade, fenômeno que denominei como “Árvore de Avatá”, em relação direta ao filme.

O sexo parece quebrar barreiras e liberar tensões. Ali, naquele espaço, parecia não haver medos, culpas ou receios de exposição. Existe de certa forma uma espécie de liberação consentida. Não sei se é precipitado de minha parte registrar a presença de seguranças da casa como forma de manutenção da ordem ou segurança, ou apenas como curiosos. Fato é que estes não se envolvem ou interferem nas ações. Acho que aquele é o melhor exemplo para reafirmar a sabedoria popular que diz que a noite todos os gatos são pardos. Não existem diferenças ou diferenciações. As identidades e desejos se misturam. Assim, pude observar a livre interação entre um homem, uma mulher e uma travesti, ao mesmo tempo em que constatava as interações entre homens, entre mulheres e entre grupos mistos. Do alto do bem-me-quer pude observar a indiferença da maioria das pessoas presentes nos demais ambientes da boate. Eram realmente dois mundos em um mesmo espaço. Para mim, era o inicio da compreensão de um universo que se estabelece em modelos universais, ao mesmo tempo em que define e expõe particularidades e especificidades: o mercado sexual argentino.

Cinco horas da manhã e resolvo voltar pra casa. Saio para a rua que se mantém calma e alheia. Nada chama a atenção ou viola a tranquila normalidade da cidade. Da faixada à estrutura arquitetônica, a boate se mostra integrada ao contexto da clandestinidade, também comum a outras cidades e regiões. Chego a Avenida Córdoba e a encontro vazia. Poucas pessoas transitam no local, talvez se direcionando aos locais de trabalho, ou chegando de outras festas. Tudo é muito calmo e discreto. Não há barulhos, espalhafatos ou algazarras. Sigo quatro quadras caminhando pelas calçadas até chegar a Jean Jaurés. Alguns grupos de jovens encontram-se sentados em frente aos prédios bebendo e conversando, enquanto algumas outras pessoas passeiam com seus cachorros. Tudo é muito silencioso, inclusive a circulação das viaturas da polícia municipal que parece garantir a tranquilidade e segurança de quem vivencia a noite portenha.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

MERCADO SEXUAL HOMOERÓTICO DE BUENOS AIRES - Capitulo II


Comunidade Peruana
 
DE VUELTA A LA TERRA DE LOS HERMANOS

Quatro de janeiro de 2013. Chegamos com o por do sol. Eram oito horas da noite e o céu estava amarelo. Abaixo de nós, nuvens cinza e espessas contrastavam a beleza colorida e luminosa. Uma inclinação suave para a direita e iniciamos o pouso. Não posso negar meu próprio espanto. Estava absolutamente tranquilo e pela primeira vez viajava sem medos ou receios. Acho que a idade trás sobriedade. Estávamos voltando à Argentina depois de seis meses e era de certa forma como se retornássemos para casa. Este lugar me trás a estranha sensação de algo conhecido e muito próximo. Algo que não consigo explicar e muito menos entender. Ainda do alto vislumbra-se uma cidade que parece geometricamente organizada, com vias longas e retas que parecem não ter fim. Apesar do verão anunciado, chovia bastante. Relâmpagos iluminavam o céu que era cotado por grandes e sucessivos raios. O Aeroporto Internacional de Ezeiza estava apinhado de gente. A mistura de idiomas sempre me deixa meio confuso e o fluxo de raças me desperta atenção. A burocracia para registro do visto provisório de residência toma mais tempo que o previsto. Apanhar as malas, se organizar, contratar um taxi, consomem mais alguns preciosos minutos. Significava um atraso que acarretaria multa. Na Argentina os incômodos são pagos em dólar. Quem aluga apartamento em Buenos Aires deve dar entrada no imóvel até às dez da noite, e saída a partir das oito da manhã. Não há acordos e muito menos o famoso “jeitinho brasileiro”. Assim, já estávamos no prejuízo. Quarenta minutos por estradas bem conservadas e devidamente sinalizadas revelam as vantagens da privatização das principais vias e rodovias. Um primeiro sinal para salientar as diferenças culturais. O veículo parecia deslizar sobre a pista molhada, livre dos solavancos tão comuns aos brasileiros.

Pela Av. Córdoba chegamos a Callle Jean Jaurés, no bairro de Abasto, nosso destino nos próximos vinte dias. O prédio é antigo e segue o padrão da arquitetura que classificaria como novo-portenha. Descemos do taxi em baixo de chuva e corremos para a marquise. Mas aqui elas não existem. Como bem sinalizou Tulio Carella, marquises é invenção brasileira. O interfone de estilo europeu é dourado e repleto de botões que indicam os andares por letras. Diferente do Brasil, as letras substituem os números dos apartamentos. Não havia ninguém para nos receber e o receio de ficar na rua nos apavorou por alguns minutos. Tempos depois, um casal de argentinos nos abriu a porta e contatou a síndica. Simpáticos e solícitos quebram uma antiga impressão pessoal relacionada à receptividade de “los Hermanos”. Não tenho dúvida de que tal impressão é resquício de uma antiga e fantasiosa rivalidade que alimentamos por décadas. A síndica é uma senhora meio agitada. Meio desconfiada nos recepciona e conduz ao apartamento. Uma sala grande é dividida em dois ambientes por um biombo. Um banheiro e uma cozinha completam o ambiente. Uma janela grande dá para os fundos de uma escola, onde vejo uma bandeira de Israel. Por um minuto receei o barulho durante a manhã. Com o tempo descobrir que os portenhos não incomodam vizinhos. Isto é regra. A síndica fala bastante rápido, o que dificulta a compreensão precisa das coisas. É necessário tempo, e certa paciência, para ajustar a escuta.

Na manhã do dia seguinte saímos cedo e percorremos as ruas para mapear pontos e identificar caminhos mais curtos que nos levem a universidade. Diferente do inverno, Buenos Aires se mostra mais colorida e leve. Também parece menos agitada, provavelmente devido ao feriado prolongado do final de ano. Para alguns estabelecimentos as férias se estendem até março. As praças estão floridas e as ruas mais limpas, ao contrário do que presenciamos em julho passado, período de grandes greves. O calor está ameno, mas o ar está abafado. Na Avenida Corrientes, esquina com a Calle Paraná, entramos no La Faina para uma refeição rápida. O tostado misto (que nada mais é do que nosso famoso mixto quente) acompanhado de café com leite ou gaseosa (refrigerante) está em promoção e custa a pequena bagatela de $ 23,00 (vinte e três pesos), equivalente a mais ou menos R$ 9,20 (nove reais e vinte e cinco centavos), dependendo da cotação do dia. Esse é um problema a se enfrentar de imediato, pois nunca sabemos realmente o valor das coisas. A carestia revela a fragilidade econômica e a desvalorização da moeda local. Fala-se muito em recessão e inflação, o que me faz lembrar a década de oitenta e inicio dos anos noventa no Brasil. Com um mapa sobre mesa sinalizamos o retorno pela Marcelo T. de Alvear, onde se localiza a Universidad Del Salvador. Já situados, retornamos ao bairro onde Carlos Gardel viveu ao lado de sua mãe seus últimos dias de vida. Sua antiga casa foi transformada em museu e serve como referencia ao local.
O bairro é residencial e apresenta uma mistura étnica e religiosa. Apesar da força da religião católica no país, pois a Argentina não é um país laico, pelo menos neste bairro é comum à presença de judeus. Ao lado se encontra uma rua denominada popularmente como corredor peruano. A identificação torna-se inevitável. Mulheres e crianças descansam embaixo de árvores ou sentadas nas portas das casas. Os homens por sua vez, se reúnem nos bancos das ruas para beber e conversar. De menores estaturas e pele morena, os peruanos circulam por várias quadras que parecem formar um gueto. Em meio a tudo isso, uma variedade de casas de show, bares, cabarés e kioskos com fachadas coloridas se espalha pelas ruas, revelando a força do tango. Carlos Gardel parece surgir em cada esquina, em cada estabelecimento. Várias escolas de dança oferecem opções para iniciantes e turistas que pretendem se arriscar nos passos de uma dança que já foi considerada imoral. 

Sigo pela Viamonte em direção ao centro. Pelo caminho revejo velhos endereços que compõem o mercado homoerótico da cidade, aos quais precisarei voltar para novas observações. As aulas só começam na segunda-feira, então resolvo continuar bancando o turista fascinado. Chego ao Teatro Colón. Na praça em frente há uma exposição de fotografias que remontam sua história. Torna-se engraçado perceber a passagem dos anos e as consequentes transformações urbanas que caracterizam cada cidade. Paro diante das fotos em preto e branco e me perco imaginando sobre a vida daquelas pessoas, que agora estampam sorrisos congelados no tempo. Dos jardins eleva-se a sinfonia de Bethoven e o caminhar lento e tranquilo dos visitantes mais parece um bailado. Existe uma harmonia encantadora entre natureza e historia naquele local. Arrependo-me por não ter trazido a máquina fotográfica. Pelo lado oposto chego novamente a Av. Corrientes e sigo em direção ao Obelisco, símbolo máximo da cidade. A diversidade de flores coloridas que o rodeiam me chama a atenção. Finalmente encontro a Calle Florida, centro de compras e fluxo de artistas populares. Ali também as diferenças étnicas se fazem presentes. Imigrantes, em sua maioria, “latinos”, pedem esmolas nas calçadas de ricas lojas de departamentos. Crianças e adolescentes perambulam em meio à multidão. Raças, estilos e tonalidades de peles se misturam formando um grande mosaico humano. Uma espécie de Torre de Babel onde os povos se encontram, cruzam, mas não se conhecem. A Galeria Pacífico está lotada, assim como as demais lojas e estabelecimentos comerciais locais. Homens e mulheres abordam transeuntes divulgando os serviços de prostitutas. Os panfletos em formas e cores diferentes se espalham pelo chão. Identifico alguns homens que supostamente parecem garotos de programa, porém não tenho dados ou informações suficientes que confirmem a hipótese. Cansado, inicio o retorno e volto para casa.

À noite volto a Boate, que aqui denominarei como “Boate A”. Justifico a utilização de códigos para os estabelecimentos como forma de preservar os segredos da cidade. Não me sinto no direito de expô-la de forma inconsequente, e nem desejo que minhas impressões sirvam como roteiros para o turismo sexual. Já é meia noite e o fluxo de homossexuais é pequeno para um sábado de um grande centro urbano. Garotos conversam encostados a um muro e parecem se proteger da visibilidade imposta pela rua. Um carro da patrulha municipal encontra-se estacionada na frente do estabelecimento. Observo que os gays portenhos são bastante reservados. Muitos se posicionam em esquinas paralelas esperando a abertura da casa noturna. As aglomerações também são pequenas, diferentemente de Recife. Acredito que existe certa repressão em relação à diversidade sexual. Muito raramente verifica-se a troca de carinhos ou demonstrações de afetos entre homens homossexuais nas ruas. Casais de homens andando de mãos dadas nem pensar. Até as travestis se mostram discretas e reservadas.

Inicio uma conversa com um rapaz que aguarda na frente da boate. Ele é de estatura mediana e pele bastante clara. Diz ser venezuelano e que está em Buenos Aires a estudo. Outro se aproxima e entra na conversa. Aproveito para conhecer melhor a realidade local. Questiono porque poucos se aproximam da boate e eles explicam que a reserva é uma característica portenha. Pergunto como se denomina popularmente os homossexuais. Respondem que vulgarmente se chamam “munhequitas”, porém tal classificação se emprega apenas aos “afeminados” e não aos “normais”. Questiono então sobre o que é ser um homossexual normal. Respondem que significa ser um homossexual discreto e que se veste como homem. Pergunto se sabem algo sobre a prostituição masculina nas ruas e informam-me alguns endereços que visitarei posteriormente. Chama-me a atenção uma categoria que utilizam para denominar heterossexuais que se envolvem ou se relacionam sexualmente esporadicamente com homens homossexuais. Estes são classificados como “Homo-Curiosos”, uma vez que as relações estão vinculadas a curiosidade, descobertas ou as possibilidades de novas experiências. Uma espécie de exercício ou elasticidade da sexualidade ou vivência sexual. Observo uma placa na entrada da boate. De imediato imagino que sinaliza as diferenças de classes sociais. Tal estabelecimento é descrito como espaço de diversão destinada a “Classe C”.

Os demais jovens parecem isolados, conectados ao mundo via celular. Ninguém fala, ninguém brinca, ninguém chama a atenção. Depois de um dia exaustivo decido não prolongar a noite e volto para casa sem conhecer o estabelecimento. Penso que terei bastante tempo e que as informações colhidas já representam um bom começo. Já consigo me comunicar com os nativos, mesmo não tendo a fluência necessária. São duas horas da madrugada e muitos moradores passeiam com cachorros pelas ruas. Apesar da grande violência anunciada, Buenos Aires mantém um ar de calmaria que me agrada.

O domingo é extremamente calmo. Acordo sem a tradicional suada do comercio da Boa Vista. As ruas também em nada lembram o Recife dos últimos quatro anos. São limpas e organizadas. Algumas obras revelam a ampliação da rede de metro, aqui chamado de “Subter”. As árvores estão floridas e a cidade parece paralisada no tempo e no espaço. Os restaurantes, cafés e kioskos estão abertos, contudo não interferem na calma silenciosa. Placas de sinalização pedem desculpas pelos transtornos das obras. Observo que as calçadas possuem estruturas de acessibilidade, possivelmente devido a grande concentração de pessoas idosas. O envelhecimento da população é uma constatação inevitável, porém o número de pessoas com deficiência física e/ou cadeirantes parece bem reduzido. As pessoas passam silenciosas. Não há gritos, ninguém anuncia produtos nas frentes de lojas. A população em situação de rua se espalha por vias e praças menos visíveis. Nas praças, pessoas se deitam nos gramados e jardins para curtir o sol. Como não existem casas, e muito menos terrenos, as praças são invadidas por várias famílias. Crianças correm e brincam sem grande baderna. Casais foram toalhas e armam espreguiçadeiras. Grupos de rapazes bebem e conversam amenidades. Tudo parece um grande pequi-nique.
Da janela observo a rotina de uma família portenha que mora ao lado da escola. São três mulheres e um menino de mais ou menos cinco anos de idade. Sobre a laje do primeiro andar, um terraço se estende até os muros da unidade de ensino. As mulheres, sentadas a mesa, conversam calmamente enquanto tomam chimarrão. Penso que podem ser irmãs ou amigas em folga. Da interior da casa surge a voz de Adele. A melodia me traz lembranças e saudades. A tarde chega e elas continuam no mesmo lugar e na mesma sonoridade. O dia parece preguiçoso para aquelas mulheres. A tarde finda, mas não escurece. São oito horas da noite e elas continuam bebendo e conversando. O céu ainda está amarelado. A noção de tempo é outra. A rotina é outra. A cidade é outra.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

MERCADO SEXUAL HOMOERÓTICO EM BUENOS AIRES - PARTE I


 

Um Estrangeiro na Capital Federal

Pela segunda vez em Buenos Aires, me ponho a refletir sobre a condição de ser estrangeiro. Descobrir ou desvendar uma cidade nunca foi ou será uma tarefa fácil. Penso que tenho me colocado na contramão das convenções. Sou um turista às avessas. Não me interessa o comum, o convencional. Sou um homem do mundo, e neste sentido, busco pelas partes e fragmentos que compõem o todo. Cada mundo estará sempre dividido em submundos, onde se estabelecerão novos universos. E cada uma dessas dimensões terá seu lugar, papel e valor. Cada submundo tem sua importância e sua historicidade especifica, assim como sua dimensão espacial, econômica, social e politica. Os submundos de uma cidade se transformam em fragmentos de um mundo dentro do próprio mundo. Tornam-se peças de um quebra-cabeça, que aos poucos se unem para revelar uma paisagem ou retrato de algo que supomos conhecer, mas que em essência é apenas superficialidade. Não se conhece algo em profundidade sem recorrer as suas bases. E estas não se revelam a olhos nus de forma imediata. As bases que formam uma cidade, um povo, uma sociedade, estarão sempre escondidas ou camufladas. Faz parte de outro mapa, uma espécie de guia que não encontramos em bancas de revistas. É preciso olhar além das fachadas, ler os subscritos e entender os nãos ditos.

Assim, não me basta à beleza, não encanta a superfície do mundo aparente. O que busco não é a verdade absoluta, pois que esta não existe. O que procuro está nas partes que compõem as verdades individuais, ou em suas representações, que formam ou estabelecem um mosaico coletivo e vistoso, porém não menos traiçoeiro. Parto das partes que compõe o todo, ou a representação coletiva deste. Neste sentido, sei que o que se apresenta de imediato nunca será realmente o que pretende se mostrar, mas apenas fragmentos de algo bem mais complexo. Assim é Buenos Aires, que não se revela instantaneamente diante do estranho. Suas verdades estão no obscuro do que não se diz ou se divulga, no escuro da noite, no submundo que forma suas margens. Minha intenção e propósito é conhecê-la pela raiz e não pela copa, que tende a se mostrar sempre frondosa e sedutora, e que por isso engana ou ilude. Meu objeto de investigação está entranhado em seu subsolo, em suas sarjetas, quinas e esquinas que formam o universo marginal. E neste ponto, sei que as margens são sempre menos belas e interessantes que os centros, focos dos olhares e flashes seduzidos. Penso que toda cidade é uma Medéia que petrifica olhares. Não se pode olhá-la de frente. Não se pode fita-la aos olhos. Faz-se necessário um protocolo. Pedir licença para acessar seus segredos. E isto, é o que tenho feito, cautelosa e pacientemente. Desvendar códigos de acessos, passes de autorizos que me levem além das transparentes cortinas que separam seus mundos. Dois mundos – superfície e subsolo. Dois espaços que geométrica e socialmente dividem e demarcam uma cidade em subúrbio e centro, compondo uma mesma dimensão.

Metaforicamente falando, Buenos Aires é realmente uma linda e frondosa árvore fincada nas entranhas culturais da Argentina. Mas ao contrario de muitos não olho para cima. São as raízes que me interessam, pois que estas adentram profundezas e conduzem a espaços e lugares aonde poucos chegam. Uma vez nestes, torna-se preciso encontrar as chaves através das quais se abrirão novas portas. Sem as chaves ou códigos de acesso corretos, corre-se sempre o risco de se perder no caminho, ou pior, de não poder retornar a superfície. Ninguém acessa segredos sem pagar um preço. No melhor das hipóteses o revelar dos mistérios nos imporá reformulações sobre nossas próprias concepções de mundo. Em casos extremos, a loucura. Ninguém se mantém indiferente diante do não dito, do não visto, do invisibilizado. Jamais se é o mesmo após acessar as margens e os submundos, pois que neles encontramos a essência humana. O homem-superfície é o mesmo homem-subsolo, contudo suas concepções de vida e de mundo se alternam e/ou se alteram em conformidade as regras e normas de cada espaço. Em um, se mostra racional e cumpridor de formalidades; no outro, se desvincula e nega a razão para se entregar aos instintos. Mas é no subsolo que lidamos com o cru, com o áspero, com as vísceras e com os restos. Não sei ao certo se o submundo estabelece os sistemas de poder, e consequentemente, os sistemas políticos que governam as massas nas superfícies, ou se apenas lhes servem como esteio e base de manutenção da hipocrisia social, culturalmente construídas para omitir perversões. Independente destas elucubrações, tendo a refletir sobre a relação dualista intricada na relação visibilidade/invisibilidade que separa e define tais espaços. Não existe o submundo sem o mundo superfície. Um necessita do outro, para juntos coexistirem e se manterem. Ambos, criações e construções humanas, e assim, servem apenas aos interesses dos homens. Neste aspecto, o mercado do sexo não se mostrará diferente.

A noite demarca seus limites, mas não define suas extensões. Ruas calmas e tranquilas parecem possuir portais mágicos que se abrem as permissividades condenadas na superfície. Paredes separam mundos e tornam-se fortalezas para possibilitar que o não dito e não visto se efetivem sem censuras ou repressões. Uma espécie de acordo de cavalheiros. Um espaço e um tempo para cada coisa. Um lugar onde se retira as roupas sociais. Um universo, onde parece não haver necessidade de máscaras. Penso, contudo, que o mundo do sexo comercial é tão ilusório quanto o mundo superfície. O que muda são os códigos, sejam corporais ou comportamentais. Porém as regras são tão rígidas, e detalhadamente definidas e negociadas, quanto no mundo-superfície. As normas são produções humanas que nos servem de guia e ao direcionamento de condutas. Não existem mundos sem regras ou normas. Digamos então, que o mundo do sexo comercial é uma tentativa do desmantelo organizado. Mas apenas uma tentativa utópica, não real. Os que acessam os dois mundos, parecem ansiar pela quebra de rígidos paradigmas, contudo, automaticamente reformulam e introjetam novos modelos que nada mais são do que novos contratos sociais. A norma se reestabelece, ou apenas se reconfigura, compondo novos códigos de condutas onde se delineiam o velho duelo entre o proibido e o permitido. A ilusão de liberdade genuína cria apenas uma nova ilusão de pretensa ou utópica liberdade. O homem se mantém preso em seus próprios sistemas, seja na superfície ou no subsolo, onde também nada parece ser o que realmente é, ou se mostra.

Saio às ruas e identifico estes novos códigos. Não há nada realmente novo em essência, nada imprevisto. Aqui ou lá os corpos se comunicam. O olhar torna-se o campo do não dito, do não explicito, onde os pares e/ou semelhantes se encontram. Mas é preciso astúcia para entender e decifrar mensagens ocultas, palavras não verbalizadas, não permitidas. Tudo funciona como uma espécie de intercambio invisível, ou melhor, propositalmente invisibilizado. É como se disséssemos: estou aqui e te vejo. Não mais te fazes oculto a meus olhos. E a cumplicidade se faz no silencio das palavras. A confirmação se estabelece em um breve movimento de cumprimento ou saudação. Uma espécie de confirmação pela qual se sinaliza: também te vejo e te reconheço. Estabelece-se o primeiro passo para uma potencial interação, seja social ou sexual. Só a experiência permite a identificação dos códigos específicos de dois mundos que se cruzam e se relacionam simultaneamente dentro de espaços de um ou de outro. O olhar também sinaliza recuo ou avanço, pois que entrega intensões. Objetivos e propósitos parecem ser codificados para evitar surpresas ou problemas. É preciso que o olhar codifique também os movimentos e posturas. Tudo é sinalização, tudo é aviso, tudo é alerta. Nada é bastante claro ou explícito. És a principal regra de quem acessa o universo do sexo comercial: ler e entender o não dito, o não explícito.

Desta forma, a experiência em Buenos Aires tem me proporcionado momentos incríveis e inusitados. Não se pode esquecer a condição de estrangeiro, que nos coloca em uma outra posição, em um outro lugar. As perspectivas se alteram, e neste sentido assumimos o lugar de “outro”. Tornamo-nos os diferentes, e em certo sentido, os intrusos. Muitas vezes, as interações sociais se estabelecerão em uma relação de receptividade e/ou repulsa, e o acesso a espaços, costumes e rotinas se fará lento. As diferenças se estabelecem a partir do idioma, e se estendem em hábitos, costumes e condutas. A tradição estabelece as regras e normas. Na perspectiva em que me encontro sou observador, ao mesmo tempo em que me torno observado. Lembro-me então do Tulio Carrela, professor argentino que viveu em Recife no início dos anos sessenta e que de forma biográfica revelou o submundo do universo homossexual da cidade. Apesar das diferenças temporais e socioculturais que separam nossos momentos, em muito as situações se assemelham. Num caminho oposto, saí do Recife para desvelar o submundo do universo homoerótico argentino. Enquanto suas impressões sobre a temática surgem de uma constatação quase que inusitada, não prevista ou pretendida, as minhas revelam-se como desdobramentos intencionais e previamente planejados. Representa a continuidade de minhas pesquisas sobre as sexualidades masculinas.

Identificar e conhecer um mercado homoerótico em Buenos Aires, para depois compará-lo ao de Recife, me estimula a analisar a influencia de diferentes culturas sobre a estruturação e consolidação das relações de gênero. Assim tenho estabelecido estratégias que me possibilitem a circulação e interação com a capital portenha. A cada estadia em Buenos Aires tenho me instalado em um bairro diferente. Anteriormente no Congresso e hoje no Abasto. As localizações geográficas tem se mostrado decisivas para o mapeamento do grande centro urbano que parece se estender por quilômetros de extensão. Outra estratégia é a inserção na rotina e no cotidiano local. Se envolver no emaranhado social na tentativa de diminuir a visibilidade estigmatizada pelas marcas corporais. Somos latinos. Não que os portenhos não o sejam, mas nos diferenciamos em estatura física, cor da pele e sotaques. Em contra posição, os nativos desta cidade se classificam como “Europeus de espírito latino”. Em meu entendimento tal classificação não representa apenas um conjunto de palavras, mas um conceito. Falamos de uma identidade que os diferenciam de seus pares. Nesta cidade não só a arquitetura é europeia, mas também os costumes revelam sua forte influencia. O argentino é pacato e reservado. Não é efusivo. À primeira vista nos parecem isolados, solitários e intransigentes. Mas cada povo tem seu jeito e suas características. De forma simplista poderíamos dizer que aqui, o espaço do outro termina na porta de casa. Existe um limite muito sólido entre o público e o privado. Os segredos são mantidos da porta para dentro. A vizinhança se estabelece pela cordialidade formal. Não há espaço para violação ou invasão, características tão comuns aos brasileiros. Assim, falar a mesma língua, comer as mesmas comidas, adotar os mesmo hábitos, acima de tudo, tem me possibilitado acessar os sujeitos que vão se tornando potenciais informantes. O processo é lento, mas extremamente necessário. Conhecer a cultura de um povo não se faz de imediato, desvendar sua essência e natureza muito menos.

Inicio então uma espécie de diário de bordo, na tentativa de descrever minhas principais impressões sobre a estruturação e consolidação de um mercado sexual homoerótico na capital argentina. Saliento, contudo, que estas são apenas minhas impressões e não verdades absolutas sobre a temática, sobre a cidade, e muito menos sobre a cultura de um povo. Meu objetivo é registrar uma experiência, que para mim tem sentido e valor pessoal e acadêmico. Servirá como experiência, como forma e estratégia de avaliar o paulatino desenvolvimento, bem como os processos de minha investigação.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A DROGA DO RECIFE GANHA ESPAÇO NA MÍDIA.


Há muito tenho chamado a atenção para a proliferação das Cracolandias no centro do Recife. Finalmente o assunto entrou na pauta da “Vênus Platinada”, revelando os efeitos e as dimensões do crack junto à população desassistida, bem como as inevitáveis consequências para a sociedade em geral. Assim como na frente do Museu de Arte de São Paulo – MASP, São Paulo; ou na Avenida Brasil, no Rio de Janeiro; em Recife o tráfico e consumo do crack, aliado a outras drogas, tem se consolidado nas principais ruas e avenidas do centro. Com o tempo novos territórios vão sendo demarcados, invadindo praças, calçadas, becos e vias de acesso, bem abaixo de nossos olhos. A permissividade autoriza o consumo descontrolado de uma droga que tem empurrado homens, mulheres, adolescentes e crianças para o universo da contravenção. A prostituição, bem como as situações de exploração sexual a que são submetidas crianças e adolescentes tornam-se meios para aquisição da droga e custeio da dependência como revelado também pela série de reportagens, produzida pela Rede Globo Nordeste, exibida durante essa semana no NETV 1ª Edição.
A iniciativa da emissora apesar de tardia é louvável. As cenas chocam pela crueldade decorrente da falta de políticas públicas eficazes e do descaso dos governos no que se referem ao enfrentamento e combate. São homens, mulheres, travestis, adolescentes e crianças consumindo drogas diariamente com o autorizo de uma sociedade também inebriada. As reportagens trazem a invasão das praças públicas, não menos abandonadas, por traficantes e usuários. É uma lástima chegarmos a tal situação. Mas, mais lastimável ainda é o despreparo dos órgãos competentes diante do fenômeno. Em entrevista, na semana passada, o sociólogo Hugo Acero Velásquez (Isto É 2247, 2012), responsável por transformar a cidade a cidade de Bogotá em exemplo mundial de segurança pública, afirmou que “o crime está organizado, as autoridades não”. Para ele, a problemática dos grandes centros urbanos como Rio e São Paulo situa-se no narcotráfico local, também chamado de microtráfico ou varejo do tráfico. “As peculiaridades estão na profusão de negócio ilegais paralelos a essa atividade, como a venda ilegal de armas, o contrabando, as mortes encomendadas, a extorsão, o sequestro e o tráfico de pessoas”.
A lógica é que a contravenção chegue sempre onde o Estado se omita. Isto é fato, e contra fatos não existem argumentos! É assim com a violência urbana; é assim com a pirataria; é assim com a exploração sexual de crianças e adolescentes; é assim com a corrupção. Problemas sociais de alta ordem banalizados pela população inerte, alienada inclusive de seus direitos enquanto cidadãos. Assim se dará também com a territorialização do tráfico nas praças públicas, ruas, becos ou favelas de Recife. Para o sociólogo, não reconhecer a crise da violência atual apenas torna mais difícil sua solução. Verdadeiros governos paralelos vão se formando, ganham forças e se consolidam no cotidiano de segmentos populacionais que se configuram como passageiros de segunda classe. Sujeitos invisibilizados, principalmente pelos interesses políticos. Não diferente da realidade recifense, este se torna o retrato das cidades sem Governos, resultado direto de uma sociedade que se mostra omissa em sua alienação política.  
O tráfico, nos seus mais variados segmentos – seja de drogas, de armas, de seres humanos ou de influência, tem constantemente desafiado o Estado de Direito, evidenciando a urgência de mudanças. O grande problema consiste no fato de que o mundo da contravenção é articulado, enquanto que o Governo não. O negócio da contravenção é rápido e estratégico, enquanto que o Governo, seja na esfera federal, estadual ou municipal, têm se mostrado burocrático e lento. Penso, porém, que se existe uma semelhança entre ambos, esta se dá na luta pelo poder. Ao mesmo passo que um busca a ampliação das áreas de domínio sobre a população pelo estabelecimento de novos mercados; o outro, busca pelo fortalecimento de espaços políticos, muitas vezes, negociando cargos públicos, que satisfazem apenas aos interesses e aos egos inflados de pequenos grupos ou sujeitos. Logo, o tráfico de influencia política consolida as condições necessárias e propícias ao fortalecimento dos demais segmentos contraventores. O Estado assume então o lugar de principal violador de direitos, inclusive constitucionais.
Quem mora em Recife sabe que as imagens das reportagens, por mais cruéis e brutais que sejam não revelam em sua totalidade o flagelo vivenciado em nossas ruas e praças. São homens desfigurados de qualquer semelhança humana, mulheres grávidas de misérias, adolescentes feridos em seus orgulhos, crianças deformadas pelas condições indignas de desenvolvimento saudável. Se existe um inferno, pode-se dizer que com certeza se encontra instalado no centro da cidade. A contravenção e as violências correlatas, com todas as suas consequências e impactos sobre a sociedade, se consolidaram nas principais vias e ruas do Recife. Não se combate a violência apenas com repressão. A segurança vai muito além das polícias, juízes e presídios. Neste sentido, Velasquez (2012) ressalta que nos espaços controlados pelo crime e pela violência existem mais do que criminosos, quadrilhas, venda de drogas e delitos. Nessas regiões existem também crianças e adolescentes fora da escola e em risco de serem recrutados pelo crime organizado; existem parques abandonados; ruas mal iluminadas, sem lixeiras; e há principalmente falta de serviços públicos. Em Recife isto também é fato. E contra fatos não existem argumentos!
Logo, instalar mais uma câmera de monitoramento na Praça Abreu e Lima, anunciada ao vivo, no NETV esta semana, como medida de enfrentamento ao tráfico não resolve o problema em sua totalidade. Muito menos, disponibilizar um veículo para transportar os usuários até um determinado espaço para se alimentarem não ameniza as consequências do abandono e descaso público. Falta qualificação profissional, falta entendimento, falta compromisso e seriedade. Enquanto as estratégias se pautarem em ações paliativas e emergenciais apenas fortaleceremos a contravenção. Política pública é instrumento de garantia de direitos e não material de propaganda política. Como cidadão de direitos quero ver as ações acontecerem de forma continuada longe das câmeras de TV. Quero ver e presenciar a efetividade de ações fundamentadas e respaldadas pelo conhecimento científico, respaldadas pelas práticas exitosas. É urgente a aplicação dos recursos financeiros, frutos dos nossos impostos, em ações de atendimento, acompanhamento e assistência às famílias e sujeitos vulnerabilizados, não em operação “enxuga gelo”. É preciso entender que a exclusão social é o nascedouro da violência. E neste sentido, não existe violência maior do que profissionais despreparados e desqualificados assumindo gestões públicas, que diante das câmeras disfarçam desconcertos e incômodos por não terem respostas concretas à população.
É um absurdo que o meu voto continue sendo deturpado em essência e fundamento, transformado em ferramenta e/ou instrumento de inconsequentes politiqueiros, porque é através dele que digo e luto por uma sociedade mais digna e igualitária. Confesso ser exaustivamente cansativo e desestimulante ver o dinheiro dos meus impostos ser aplicado em falcatruas, alimentando o mercado das propinas, aliciando ideologias e maculando a identidade nacional. Já basta de mensalões, mensalinhos, operações porto seguro e tantas outras de igual teor! A corrupção é a grande mazela da nossa sociedade. A transformação só se dará pela educação, pois fomos, e ainda somos culturalmente forjados para fazer desta uma prática social. Corrompemos e nos deixamos corromper por interesses particulares, alheios e/ou indiferentes às necessidades e direitos que são da ordem do coletivo. Roubamos a dignidade alheia por pequenos abonos, contribuições ou presentes “ofertados” com dinheiro público, e ainda nos sentimos felizes e espertos. Ludibriar o próximo tornou-se nossa meta. E nesse círculo vicioso abrimos mãos de nossos direitos e negociamos nossos valores morais, éticos e sociais. Aprendemos e ensinamos o favorecimento como moeda de troca, incentivando a lei da vantagem, que se traduz em safadeza e malandragem, em seus sentidos mais pejorativos.
Aproveitem a proximidade do natal e reflitam sobre os próprios conceitos e valores morais e éticos. Pregar a transformação do mundo sem rever conceitos pessoais e assumir as responsabilidades que lhes cabem é falácia, utopia e politicagem.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

ENTÃO É NATAL!!!



O dia começa cedo. O sol arde à pele. O ar abafado fica mais quente com as ruas repletas de camelôs. Chegou o período natalino. A cidade não muda e a calamidade é a mesma. O lixo invade as ruas, as canaletas transbordam, os esgotos correm a céu aberto. Apesar da precariedade urbana, nada impede o consumo insano! Lojas repletas, Shoppings Center congestionados, calçadas tomadas por ambulantes. Afinal, é preciso comprar o natal, ainda que as dívidas se multipliquem em parcelas intermináveis pelo resto do ano.  

Pessoas amontoadas continuam dormindo em meio a papelões e pés estressados. Muitos se tornaram notívagos devido ao uso de drogas. Para eles o natal não chega! Animais perdidos se juntam a moribundos, urinando e defecando nas vias. O mijo se junta a lama e a sujeira que a prefeitura há muito não recolhe. O odor torna-se insuportável, quase tóxico. Mas, nada interrompe o frenesi consumista do natal! É preciso pressa porque já não existe comemoração sem presentes. E presente tem que ter valor comercial agregado. Por isso, pessoas se esbarram, se ferem e se xingam. O transito reclama aos apressados enquanto bicicletas sonorizadas atropelam crianças e idosos. Mulheres perdem sandálias na pista, quebram saltos nas calçadas esburacadas, quebram pés em gelos baianos, mas torcem o nariz aos aperreios. Na modernidade aprendemos que no natal se reverencia o sofrimento!

Patrulhas cortam avenidas em alta velocidade, motos oficiais disparam sirenes, guardas apáticos apitam. Sempre há a quem perseguir, principalmente quando a multidão é evocada a invadir as ruas. Compra-se de tudo: árvores de plásticos, cordas de luminárias emborrachadas, bolas natalinas que não se quebram, papai-noel puxando henas que mais parecem jumentos famintos, guirlandas cafonamente repicadas. É que nos dias de hoje, o natal se tornou tão artificial quanto os sentimentos correlatos. Algo que se compra, mas não necessariamente se vivencia. Mas isso não importa, porque no mundo mercantilizado os valores se invertem, o “ter” torna-se superior ao “ser”. 

As horas passam. Vendedores anunciam promoções nas portas de lojas. O inferno toma conta da cidade. E nada alivia o estorvo do natal! Ruas exalam fedores. O suor encharca roupas e corpos. Senhoras se abanam cansadas. Meninos choram o incômodo. Mas nada para vence a histeria comercial do natal! Mãos puxam e rasgam tecidos. Em movimentos ensandecidos atingem rostos. Bocas gritam impropérios. Palavrões agridem tímpanos. Mas nada, nada consegue amenizar a sandice popular. É prá isso que existe o 13º salário. Para comprar as alegrias!

Uma mulher branquela e feia bate na cara do vendedor. O segurança entra na confusão. O gerente é chamado. A agressora é empurrada na rua. Outra mulher morena lhe diz desaforos. Viu a bolsa primeiro e quer a mercadoria. Elas se atracam. Os cheira-cola riem e dançam agitados. Policiais os afastam. As mulheres correm unidas e voltam a se agarrar na esquina. Mas nada, nada mesmo parece incomodar o vai e vem do natal! De repente, um corpo cai do edifício Sumaré. Não é primeiro corpo que despenca dos ares no centro do Recife. Gritos de horror ecoam na avenida. A multidão, como urubus, se alvoroça ao redor dos frangalhos, sobre o que restou de um homem que só queria comprar o natal. Algumas pessoas desmaiam e atrapalham o socorro que não chega. Uma mulher chora como se conhecesse o morto. Minutos depois entra em uma loja para escolher sapatos coloridos. Eis uma prova de que o natal também reconforta!

Um grito desesperado atravessa as ruas. Pessoas correm desnorteadas sem rumo. Ninguém sabe ao certo do que se trata, mas todos correm da catástrofe anunciada. Uma garota nervosa engole uma garrafa de água enquanto consome as próprias lagrimas. As pessoas assuntam o motivo, se mostram preocupadas. Outra prova de que o natal sensibiliza os corações! Param-lhe um ônibus. As sacolas impedem sua subida. Alguém se oferece para segurá-las. Ela teme ser roubada, e por isso, se espreme na multidão amassando os presentes.

Do interior do inferno metálico ouvem-se gritos. Sobre a lataria superior meninos entorpecidos de cola praticam surf. O natal para eles também nunca chega. A população se alvoroça. O motorista sai em disparada. Os meninos cambaleiam, mas não caem. A polícia dá o comando. O ônibus freia abruptamente. O povo grita enquanto meninos escalam janelas, atingem o asfalto e somem em becos. O susto passa. A polícia volta. O ônibus segue seu destino. Enquanto isso, na calcada um homem lava as frutas aquecidas pelo sol. Uma criança abocanha uma maçã. A mãe se acalma e o puxa pelos braços. Não se arrasta assim nem um animal. O menino tropeça. A maçã cai no chão. Ela apanha e lhe entrega enquanto encomenda as luzes que vão colorir sua casa.

Novo corre-corre. Um jovem avança sobre os carros em movimentos. Leva uma bolsa feminina entre os braços. Uma moça segue atrás. Ele some na multidão. Ela chora sozinha. O sol aumenta. O calor abafa mais ainda. A multidão se multiplica. E a cidade ferve enlouquecida. A suada se espalha. Ninguém se entende, mas todos se comunicam. A linguagem do natal, assim como a do mercado, se mostra universal, pois que se resume ao quanto custa. Uma senhora de boca cheia bate no filho. Outra reclama o ato. Início de novo rebuliço que se apazigua com o tempo. Alguém pede esmolas. Os olhares se viram. Afinal, os dias são de preparativos e solidariedade é coisa para o grande momento. Não se antecipa sentimentos natalinos.

No meio das incoerências natalinas, pelo menos um milagre aconteceu e a Simone não cantou a melodramática, chata e tradicional melodia de sempre. Mas como nem tudo é felicidade, o Rei do comercio fonográfico trouxe o compacto duplo de volta à moda. Três milhões de cópias em duas semanas e a multidão fez dele “o cara” do ano. Agora é torcer para que no especial da TV ele apareça vestido de papai-noel. Para que todos juntos, mais uma vez, cantem emocionados: “esse cara sou eu”. Talvez alguns chorem diante da grande tela nova. E seguindo o script se abracem e desejem felicidades mútuas. Talvez até saiam as ruas distribuindo os restos da ceia ou presenteando criancinhas pobres. Afinal de contas esse é o espírito do natal! Agora, se você ainda não comprou o seu é melhor correr para o centro do Recife. Na bagunça urbana promovida pela atual gestão sempre cabe mais um maluco por natais fabricados em série.

sábado, 1 de dezembro de 2012

NOVO ROTEIRO CINEMATOGRÁFICO PARA SPIELBERG.


CAPA:DIÁRIO DE PERNAMBUCO.



MAR,  CERVEJA, FUTEBOL E TUBARÕES.

A vida imita a arte ou a arte imita a vida? Creio que respostas à questão seriam tão complexas e inexatas quanto possíveis hipóteses acerca da primogenitura entre o ovo e a galinha, ou ainda, acerca da identidade sexual dos anjos. Mas, independentes das elucubrações necessárias, penso que ambas são correlatas e se complementam. A vida sem a arte não existe, do mesmo jeito que sem vida a arte não se faz. Ambas se inspiram e se referenciam mutuamente. Mesmo sabendo que arte é um conceito por demais amplo, gosto de defini-la como capacidade criadora humana, pela qual se transmite e se expressa sensações e sentimentos. Ou seja, o objetivo final de todo artista é causar sensações. Logo, neste sentido, seu produto final será sempre uma criação artística.

Nas décadas de oitenta e noventa, ir ao cinema era quase um vício. Sempre gostei dos filmes de suspense e terror. Steven Spielberg era apenas um cineasta iniciante, acredito, quando dirigiu o mega sucesso Jaw, exibido no Brasil com o nome Tubarão. A história se passava em um balneário paradisíaco, bastante frequentado por turistas. Na cena de abertura, um jovem casal resolve namorar no mar. Nadam até uma bóia marítima (sinalizador). A câmera d um close no rosto da moça. De repente ela sente uma fisgada na perna. O espanto transforma seu semblante. A famosa musiquinha invade a sala do cinema. Mais um sopapo e eles somem sobre as águas. É o início de um suspense que prenderá o espectador na poltrona até a última cena. Dias depois seus corpos são encontrados na praia, provocando espanto entre os nativos e visitantes. Desenrola-se então uma grande trama de interesses políticos. Os especialistas se alarmam com a violência do ataque e suspeitam de um grande predador marinho. Os governantes locais, contudo, pedem cautela e repelem a idéia com medo dos impactos sobre o turismo, principal fonte de renda municipal. Para piorar a situação, a pequena cidade encontra-se lotada devido ao torneio anual de acrobacias aquáticas. Ante o impasse, o silencio torna-se regra. Porque espantar os turistas se não existiam provas concretas sobre o eminente perigo? Os ataques continuam a ocorrer, mas são considerados casos isolados. Mesmo assim medidas paliativas são adotadas apenas como precaução. No dia do grande evento, finalmente o mistério se revela na forma de um imenso tubarão que ataca ginastas e banhistas. Moral da história, o que poderia ser evitado se transforma em uma grande tragédia, banhando de sangue o límpido mar azul.

Creio que descrever o final do filme torna-se desnecessário, uma vez que a película bateu recordes de bilheteria. Virou um fenômeno. Dizem alguns especialistas comportamentais que o filme contribuiu diretamente para a imagem negativa, associada pelo censo comum aos tubarões. Particularmente, desenvolvi uma fobia que me impede de entrar em mar aberto. No campo da psiquiatria fobia é uma designação comum às diversas espécies de medo mórbido. Denomina horror instintivo a alguma coisa. Uma aversão irreprimível. Contudo, entendo que a fobia, muitas vezes, desenvolve-se pela eminência de um perigo, ou risco, nem sempre concreto ou real. Mas em Recife, os ataques de tubarões são realidade. Isso ninguém pode negar. Já foram contabilizados mais de 54 ataques, alguns fatais. Logo, meu medo tem fundamento. Como o surf nunca foi uma prática esportiva que me despertou grande interesse ou fascínio posso dizer que de certo modo me sinto confortável. Porém, acredito que quando vidas estão em risco é preciso providências eficazes por parte dos gestores públicos, e logicamente da sociedade com um todo. Não se pode ser irresponsável, por exemplo, a ponto de acreditar piamente que quem entra no mar tem plena consciência dos riscos que corre.

Lógico que o tubarão não é grande vilão dessa história. Isso fica para o cinema. Os ataques são consequencias dos impactos ambientais, ou seja, resultado das ações desordenadas dos homens, que também são grandes predadores. Neste sentido, lembro de uma situação semelhante, quando especialistas e a imprensa chamavam a atenção da população sobre o risco da Cólera. O receio era que o banho de mar pudesse provocar o contagio de banhistas e a consequente disseminação do vibrião colérico. Para acalmar os ânimos e por um ponto final na histeria popular, o então prefeito de Recife, Joaquim Francisco, entrou no mar de Boa Viagem e nadou em frente às câmeras e a população. Será que na situação atual, algum dos gestores repetiria tal façanha? Questiono porque esta semana, os jornais locais estamparam nas capas, a captura de mais quatro tubarões, por pescadores, em menos de vinte dias, em praias bastantes frequentadas no litoral pernambucano. A notícia reacendeu o pânico de ataques a surfistas e banhistas. Segundo as informações divulgadas, no dia 10 de novembro, um Tubarão Cabeça-Chata foi capturado nas imediações do Porto do Recife; no dia 13, outro Cabeça-Chata foi capturado na praia de Pau Amarelo, em Paulista; no dia 16, um Tubarão-Lixa foi capturado na praia de Del Chifre, em Olinda; e, no dia 25, mais um Cabeça-Chata foi capturado no Pontal de Maracaípe, em Ipojuca.

Agora vamos aos fatos. Para o CEMIT – Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões, não há motivos para pânico, pois tais episódios são considerados normais, efeitos da pesca predatória. Do outro lado, o Propesca – movimento que defende o controle biológico dos tubarões através da pesca e extermínio – destaca a preocupação, alertando a população e governo para o risco de novos ataques. Alguém consegue ver semelhanças entre a ficção e a realidade? Será este episódio uma imitação da arte? Ou nos casos que envolvem grandes cifras, tal procedimento torna-se comum, e por isso a arte torna-se apenas a replicação da realidade e natureza humana? Talvez, a grande diferença entre o balneário fictício de Spielberg e nosso tranquilo litoral esteja apenas no evento turístico de grande porte. Será? Nós não temos torneio de acrobacias aquáticas, mas temos torneio de surf em Maracaípe. Também é bom lembrar que estamos no final de 2012. Dezembro tem reveillon em Boa Viagem, e tomar banho de mar ao romper do ano renova as energias. Dizem até que dá sorte. Será?

Ano que vem tem a Copa das Confederações, e um ano depois teremos a grande Copa do Mundo. O que nos alivia é que em São Lourenço da Mata, município onde ficará localizada a Cidade da Copa, não tem mar. Mas também não tem, ou terá hotéis suficientes para tanta gente, o que significa que os milhares de turistas estarão espalhados pela orla da Grande Região Metropolitana. O bom do negócio é que além de torcer pela seleção brasileira, que é sem dúvida nenhuma menos agressiva, também torceremos para que o time dos Cabecinhas Chatas resolvam curtir umas férias em outras paragens. Minha preocupação é porque jogo da seleção brasileira tem tudo haver com bebidas alcoólicas e praia. A primeira até já foi liberada nos estádios onde acontecerão os jogos. Já pensou que maravilha? A segunda, porém, com certeza não será bloqueada. Porque por aqui, proibida mesmo só a marca de uma das cervejas que farão a festa das multidões. Então, não querendo ser pessimista, mas apenas precavido, se você pretender romper o ano na praia ou assistir aos jogos à beira mar, melhor seguir os conselhos dos especialistas no assunto. O problema é escolher entre estes, afinal de contas no Brasil temos especialistas para tudo, seja nos governos, na imprensa, na academia, e principalmente nas rodas de amigos que curtem uma gelada na praia.

Para facilitar sua vida, trago algumas opiniões fundamentadas em expertises. Segundo Francisco Santana, por exemplo, presidente da Sociedade Brasileira para Estudos de Tubarões e Araias – SBEEL, “respeitar a sinalização é fundamental, principalmente nos meses de maio, julho e setembro, que somam o maior número de ocorrências”. Em que mês mesmo será realizada a Copa do Mundo? E a das Confederações? Ainda bem que o reveillon só acontece em dezembro. Segundo ele, “as pessoas não precisam deixar de ir à praia, mas devem ficar atentas às proibições”. Neste aspecto, acho que ele se refere aos 34 km de litoral pernambucano dotados de painéis informativos que orientam banhistas e surfistas. E vale salientar que estas placas estão “super-bem” sinalizadas e destacadas na orla do perímetro que vai da praia do Paiva, no Cabo de Santo Agostinho, até a praia Del Chifre, em Olinda. Você, com certeza já viu alguma delas! Mas, já de uma paradinha para ler? E os tubarões, será que também já fizeram o mesmo? Pergunto por que, provavelmente os dois engraçadinhos que foram capturados em Pau Amarelo e no Pontal de Maracaípe são novatos por aqui. Talvez fosse bom reeducar os peixinhos carniceiros sobre os limites para os ataques. Bom, de qualquer forma, temos tempo ainda para pensar alternativas menos graciosas. O negócio é não desanimar. Até porque já temos experiências com grandes eventos. No Carnaval mesmo, nunca houve registro de ataques de tubarão. Será?

O importante mesmo é saber que existem cerca de 500 espécies de tubarões em todo o mundo. E que deste total só registramos no Nordeste ocorrências envolvendo 45 espécies. Especificamente em Pernambuco os campeões na modalidade ataque-fatal são os Cabeça-Chatas e o Tigre, que só perdem em agressividade para o Tubarão Branco e o Tubarão Galha-Branca, e que estão presentes em nossa costa. Fora isso, que tal rever o filme do Spielberg? E por falar nisso, quem sabe se com a projeção internacional promovida pela Copa de 2014, Hollywood não resolve filmar a continuação da série em nosso paradisíaco e seguro litoral? Já pensou que maravilha seria? As tomadas de cena poderiam ser em Boa Viagem ou Piedade, onde ocorrem mais ataques. Nessa versão, poderíamos colocar todos os políticos surfando, comemorando aos resultados do turismo. De repente uma grande sombra cinzenta aparece nas águas claras. Eles começam a se juntar em blocos, desesperados em salvar a própria pele, como sempre acontece em situações de perigo. O tubarão emerge das profundezas e abre sua grande boca repleta de camadas sobrepostas de dentes afiados. A musiquinha infernal tocaria ao fundo enquanto o animal avançaria em direção ao grupo... [o final vocês decidem]. Brincadeiras a parte, é bom lembrar que logicamente tudo não passaria de pura ficção, até porque político que se preza não corre riscos. E aí, vamos torcer? Quem sabe você não consegue uma figuração? Sabe nadar? E fugir de tubarão? Então, melhor ler as placas de sinalização e torcer para que os especialistas estejam certos.

Fonte: diário de Pernambuco, 27 de novembro de 2012.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

BRASIL: R$ 1,5 TRILHÃO ARRECADADO EM IMPOSTOS



MUITO TRIBUTO E POUCO RETORNO: PARA ONDE VAI NOSSO DINHEIRO?

Você sabe como e onde é aplicado o dinheiro do seu imposto? Estudo recente, realizado pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário – IBPT, a partir dos dados fornecidos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCIDE, e da Organização das Nações Unidas – ONU, divulgado pela imprensa, revela que entre os países com as mais altas cargas tributárias, o Brasil é o país que oferece a pior contrapartida social aos contribuintes. De 30 países pesquisados, o Brasil ficou classificado na 12ª posição, com resultados piores do que os da Argentina e do Uruguai. Sabe-se que a arrecadação tributária é fundamental ao Índice de Desenvolvimento Humano - IDH, ou seja, a aplicação do dinheiro arrecadado através dos altos impostos deve retornar aos contribuintes em forma de serviços públicos de qualidade, tais como saúde, educação, segurança, transporte, seguridade e assistência social, além de qualificação para o mundo do trabalho. Pelo menos, essa é a lógica. O ilógico da questão é a não aplicação destes recursos visando o desenvolvimento saudável da população, o que já se tornou praxe no Brasil.

O mesmo estudo revela, que segundo dados do Banco Mundial, nós brasileiros passamos em média 2.600 horas por ano trabalhando. Os impostos consomem o equivalente a 110 dias de trabalho. O que significa que passamos quase quatro meses suando muito a camisa para sustentar os cofres públicos. Isso representa um terço de nosso ano produtivo. Não parece muito? Tomemos então como base de cálculo um exemplo simples. A hora/aula de um professor universitário, com graduação, especialização e mestrado custa em média R$ 35,00 [não se espantem, pois o valor está atualizadíssimo]. Se este profissional cumprir uma jornada de 100 horas/aulas/mês, receberá um salário de R$ 2.500,00 (dois mil e quinhentos reais). Lembrem-se, contudo, que esse é apenas um exemplo hipotético, pois não corresponde a realidade da maioria dos professores. Ao final de um ano, somando o décimo terceiro salário, o estressado e provavelmente muito doente professor contabilizará um valor aproximado de R$ 32.500,00 (trinta e dois mil e quinhentos reais). Deste total, R$ 10.000,00 (dez mil reais) serão gastos com impostos ao longo do ano, ou seja, um valor médio mensal de R$ 769,00 (setecentos e sessenta e nove reais).

Pela mesma base de cálculo pensemos em um profissional assalariado, realidade da grande parcela da população. Em 240 horas mensais, com uma média de R$ 2,59 (dois reais e cinquenta e nove centavos) por hora, o sujeito somaria ao final de um ano o patamar aproximado de R$ 8.086,00 (oito mil e oitenta e seis reais), incluindo o décimo terceiro salário. Desse total, com o qual não se garante as condições mínimas de sobrevivência, desconta-se uma média de R$ 2.488,00 (dois mil quatrocentos e oitenta e oito reais) referentes aos impostos, que divididos entre os doze meses do ano equivaleria a R$ 208,00 (duzentos e oito reais) por mês. Só para ter-se uma leve compreensão do que isso significa, basta saber que no ano de 2011, o país recolheu R$ 1,5 trilhão (um trilhão e meio de reais) somente com a cobrança de impostos sobre a população, o que representa 36,02% do PIB nacional, que é a soma de todos os bens e serviços produzidos no país.

Agora analisemos as contrapartidas. Que tal começar pela saúde pública? Ou seria melhor pela educação pública? Isso para não falar sobre as políticas de inserção social, inserção e qualificação profissional, desenvolvimento de tecnologias, segurança pública, saneamento, iluminação, fornecimento de água, transporte público e acesso a alimentação saudável. Quanto do nosso dinheiro é realmente aplicado em benefício dos contribuintes? Mais importante que isso, qual a qualidade desta aplicação? Pensemos nos impostos, que como bem define a palavra, torna-se um investimento imposto a população. Então, como investidor compulsório você se sente satisfeito com os resultados? Você conhece todos os impostos que paga? Sabe o que significa e pra que serve o dinheiro destinado ao INSS, IPTU, IR, ISS, COFINS, IPVA, somente para citar alguns? Afora isso, pagamos impostos sobre tudo o que compramos ou produzimos. E logicamente, não é pouco, nem um e nem outro. Em média o brasileiro paga 30% do valor direito de tudo que consome em tributos. Isto significa que a cada R$ 100,00 (cem reais) gastos, R$ 30,00 (trinta reais) são recolhidos pelos cofres públicos. Assim, por exemplo, se pegarmos um ônibus para ir trabalhar [o que nem todos têm o direito], o valor do imposto estará embutido na passagem. Se comprarmos um quilo de feijão [o que nem todos têm acesso], também lá se vai novas taxas. É como se pagássemos pelo direito de concessão. A gente paga para comprar, paga porque comprou e consequentemente, paga para usar. Por outro lado, quem produz pagará para produzir, pagará porque produziu, pagará para transportar, e consequentemente, pagará para vender. Além de que pagará novamente se você comprar o que foi produzido. É pagamento sobre pagamento. Traduzindo, tributação sobre tributação. Ou seja, somos cobrados o tempo todo e de todas as maneiras. Nada sai de graça, muito menos é dado de presente. Apesar dos políticos de carteirinhas adorarem introjetar isso na cabeça dos menos esclarecidos.

Definitivamente viver no Brasil não é tarefa fácil, pois além de pagarmos caro somos ludibriados o tempo todo. Em outras palavras, somos roubados. Se metade dessa soma fosse realmente aplicada em benefícios à população estaríamos em outro patamar de desenvolvimento e qualidade de vida. Vivemos em país onde a casa própria ainda é um grande sonho de consumo para mais da metade de população. Mantemos um país que mesmo nos cobrando 11% só de INSS, sobre todos os nossos ganhos mensais, ainda nos estimula a fazer previdência privada para garantir uma aposentadoria futura mais digna. Somos um país com uma grande rede de saúde pública, mas que nos obriga a pagar caros planos de saúde, porque tememos morrer nas filas de espera. Uma nação que nos obriga a blindar carros, gradear portas e janelas, instalar câmeras até... [onde não se deveria], além de pagar pela contratação de segurança patrimonial, para nos sentir protegidos. Até o IR sonegado pelos senadores teremos que pagar por eles tinham entendido que o que receberam nos dois anos anteriores era abono, o que não incide sobre a tributação por não representar salário direto.

A gente trabalha para juntar dinheiro, se sacrifica para conquistar a tal sonhada estabilidade financeira, e aí descobre que quanto mais se ganha [o que significa: mais se trabalha], mais se paga. E não adianta esconder porque se tem alguma coisa que ainda dá cadeia no Brasil é sonegação do Imposto de Renda. Então você compra um apartamento e pensa que ficará tranquilo para o resto da vida, livre do pesadelo do aluguel. Por alguns momentos pensará até que é o dono do próprio nariz. Ledo engano! Apesar de ter suado para comprar, terá que pagar mensalmente para usufruir. Você paga IPTU? Quanto custa o seu condomínio? E taxa a bombeiro? Seu prédio paga pela conservação das maravilhosas calçadas que vivem esburacadas? E o imposto de Marinha? Quem mora no centro do Recife sabe do que falo. Por acaso alguém já lhe informou que parte deste último imposto vai para os herdeiros da Família Real? Que isso faz parte do acordo de negociação para que o país se tornasse independente de Portugal? Ou você, em algum momento de sua vida, acreditou naquela história da carochinha que te contaram na escola sobre um príncipe bonachão que gritou a independência as margens do Ipiranga? Até hoje a “família real” brasileira, que sonha em reestabelecer a monarquia como regime político, suga nossas veias. Alguém perguntou se você concorda com isso? Será que poderíamos fazer um plebiscito?

Mas, voltando ao assunto, você tem carro? E estacionamento, você paga? Paga Zona Azul? E IPVA? Seguro? Pedágio? Taxa para a conservação das vias e estradas? E as multas? Paga ou prefere pagar as propinas constantemente solicitadas pelos que deveriam garantir a segurança no trânsito? Resumindo, mesmo sendo proprietário você terá que pagar para ter direito a uso. Ou seja, é quase um faz de conta. Igual ao direito democrático de ir e vir. Agora pensemos no quanto o país gasta dos nossos recursos para manter uma máquina administrativa falida, mais conhecida como Serviço Público, principal responsável pelo retorno de nossos investimentos. Você, com certeza, já precisou de algum desses serviços pelo menos uma vez na vida. Sinceramente, qual sua avaliação? Está satisfeito com a justiça, por exemplo? Ela atende a seus interesses ou apenas a de pequenos grupos? Será que se você tivesse cometido algum delito, ainda estaria sendo julgado, como os larápios envolvidos no Mensalão? Você já conseguiu, pelo menos uma vez, garantir seus direitos perante os tribunais? Eu tenho um processo em tramitação que há sete anos não avança. Você já precisou ser socorrido em hospital público? Já precisou acionar o SAMUR? Eu já e ele não veio. Sente-se seguro em usar os serviços da saúde pública? Será que vão conseguir te atender a tempo? Será que não vão aplicar leite ou sopa nas suas veias? Será que corremos o risco de infecção hospitalar? De o teto desabar sobre nossas cabeças? De faltar medicamentos? E se o plantonista tiver faltado? De qualquer forma acho que podermos recorrer aos postos de saúde. No seu bairro tem Policlínica ou “Pobre-Clínica”?

E quanto a educação de seus filhos, confiaria a uma escola pública, seja ela municipal, estadual ou federal? Será que tem professor nas salas de aula? E se tem, será que eles estão capacitados? Será que tem cadeira suficiente? E fardamento e merenda têm? Segurança não tem. Isso eu sei. Mas em compensação tem Tablet. E caso a aula não seja sedutora, ou o professor falte, seu filho poderá acessar o Facebook. Afinal de contas inserção digital também é responsabilidade do governo. Ou não? E a coleta de lixo? Passa regularmente na sua rua? Ela ainda não é asfaltada? Tem certeza? Já verificou na prefeitura de sua cidade? Vai ver asfaltaram e você não viu. E a água que sai de sua torneira? É de boa qualidade? Aqui no meu prédio se coloca toneladas de cloro. O bom é que parece leite jorrando na pia. Já pensou que fartura? E a energia, também é de boa qualidade? Tem apagão no seu bairro? Aqui no centro do Recife, de vez em quando fica tudo no escuro. O pior é que quando queima os eletrodomésticos nem adianta reclamar porque a justiça é cega.

Você confia na polícia brasileira? Se sente seguro andando nas ruas durante a noite? Já presenciou algum tiroteio? Aqui no centro de vez em quando tem faroeste de graça e ao vivo. Por acaso já precisou prestar queixa em delegacia? Ficou com medo ou não? E retirar algum documento urgente na polícia federal? Já tentou e foi bem sucedido? Mês passado precisei de uma declaração de nada consta, que tinha que ser original, e tive que esperar cinco dias. Como a declaração veio errada, tive que esperar mais três. Na terceira tentativa esperei cinco horas para corrigirem um novo erro. E por fim, para não me prolongar muito, quanto ao governante de seu município? O de Recife, felizmente, foi proibido de disputar a reeleição. Digo felizmente porque até um tsunami causaria menos estrago.

Agora o melhor de tudo. Você já observou atentamente no quanto os funcionários públicos têm a mania de nos tentar fazer entender que nos estão prestando favor? Não generalizando, claro, mas já percebeu como é doentio o mau humor e a falta de simpatia que nos destinam durante os atendimentos? E a disposição em se mostrar cortês e prestimoso? E quanto à iniciativa e pro-atividade? E olha que muitos ganham abonos por resultados. Você acredita que eles têm metas a atingir? E o mais incrível, que eles conseguem? Alguém já foi em um posto do DETRAN? Já precisou do atendimento rápido da prefeitura do Recife? Até para reclamar imposto indevido você sofre. Quem quiser que me chame de radical, mas enquanto o conceito e o fundamento de funcionalismo público se pautar em estabilidade, nada muda. Ou você nunca pensou em concurso público como sinônimo de regalia e pouco trabalho?

Como diz João Eloi Olenike, presidente do IBPT, órgão responsável pelo estudo, “não há problema em pagar muito imposto se o cidadão tiver em troca serviços básicos, como saúde, educação e segurança gratuitos e de boa qualidade”. O problema não é reduzir a arrecadação dos tributos, mas entender para onde vai esse R$ 1,5 trilhão, que sai anualmente dos nossos bolsos.

Fontes:

Jornal do Commercio, Economia, 27 de Novembro de 2012;

Diário de Pernambuco, Economia, 27 de Novembro de 2012.