sábado, 14 de janeiro de 2012

VIAGEM AO VELHO MUNDO EM 20 DIAS - Capítulo IV


Nápoles - Itália

NÁPOLES: TRADIÇÃO EM PIZZAS, VINHOS, PAPAS E MÁFIA

Deixamos a tranquilidade de Pompéia e seguimos direto para o centro da máfia italiana. Nápoles é uma cidade de origem grega, que foi conquistada pelos romanos durante as guerras travadas no século IV a.C. invadida e dominada várias vezes durante os séculos seguintes, apenas em 1861 foi anexada ao reino da Itália. Nos dias atuais é considerada a terceira maior cidade italiana, possuindo uma população estimada em mais de cinco milhões de habitantes. Mundialmente conhecida como a terra da pizza, tem também a reputação de cidade mais violenta e perigosa da Europa devido à taxa de pobreza que atinge 32% da população, além das elevadas taxas de criminalidade e desemprego. Devido às guerras entre os clãs da máfia local, a Camorra, Nápoles tem registrado anualmente centenas de mortes e cenas de violência dignas dos filmes de cinema, no melhor estilo “O Poderoso Chefão”.

Centro Histórico de Nápoles
Andar pelas ruas da cidade se constitui um verdadeiro desafio para o estrangeiro desavisado. O transito no centro é extremamente congestionado devido ao grande fluxo de veículos em ruas estreitas. Além de atenção redobrada será preciso muita destreza por parte do condutor a fim de evitar colisões e acidentes. Na verdade o transito de Nápoles parece se constitui em uma terra sem lei. Estaciona-se em qualquer canto, calçadas, ruas movimentadas, locais públicos ou mesmo nas faixas para pedestres. Neste sentido não será raro encontrar veículos abandonados em avenidas movimentas, formando filas duplas e/ou em sentido contrário. A agitação percebida parece nos sinalizar que os napolitanos vivem com pressa. Em determinas situações as calçadas perecem se constitui como grandes locais de perigo, uma vez que comumente também servem como vias para os veículos. O pouco tempo em Nápoles não fundamentaria uma maior análise sobre o critério educação, desta forma, prefiro dizer que os nativos apresentam uma cultura singular e própria, que logicamente contraria conceitos e regras universais.


Vesúvio e as Cidades de Pompéia e Herculano

Do ponto mais alto da cidade, que se chega depois de horas devido às loucuras do transito local, avista-se o Golfo de Nápoles. Ao longe surgem as cidades de Herculano e Pompéia que se estendem aos pés do grandioso e emblemático vulcão Vesúvio que parece se abrir aos céus. Repleta de monumentos históricos a cidade parece tranquila, apesar dos constantes avisos sobre a ação dos “carteiristas”. A terra dos papas Bonifácio V, Urbano VI, Bonifácio IX, Paulo IV e Inocêncio XII revela-se como grande celeiro da diversidade e segregação étnica e cultural. Neste aspecto, o centro comercial mostra-se como excelente exemplo, onde famosas lojas competem com camelôs, normalmente imigrantes ou clandestinos que encontram nas ruas a melhor forma para garantir a sobrevivência. Das ruas centrais derivam vários becos por onde pequenas lojas se espalham com grande variedade de artigos. A impressão que se tem é que em Nápoles tudo se compra e tudo se vende. Assim, o comercio também parece definir as divisões de classe, onde os brancos estão nas lojas de departamentos ou em pequenos estabelecimentos apropriadamente aquecidos e confortáveis, enquanto que aos negros restam as ruas extremamente frias e desprotegidas.
 
Centro Comercial
Não se passa em Nápoles sem experimentar suas tradicionais pizzas. Pequenos e aconchegantes restaurantes se espalham pelas ruas. No Totó Pizzeria Sapore, por exemplo, a preços bem modestos pode-se provar da original culinária italiana. Para os mais exigentes aconselha-se  desconsiderar o prato de entrada, pequenos bolinhos de queijo acompanhados de pequenos cubos de frango cozido, enrolados em um grande cone de papel madeira. A primazia fica realmente por conta das pizzas. Enormes, a ponto de transbordar nos pratos, em nada se comparam com as nossas pizzas brasileiras. De massa fina e crocante, recheadas com molho de tomate e especiarias local, deixam sem dúvida alguma a boca cheia d’água. Para acompanhar, um bom e tradicional vinho branco, ou um capuchino quente nos bangalôs externos [logicamente protegidos do frio pelos famosos aquecedores a gás] completará a cena que com certeza se tornará inesquecível aos mais românticos.

Pizzeria Totó - Centro de Nápoles




O Romantismo da Tradição

A Impressionante Magnitude do Vesúvio


Próxima parada, Florença!








quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

VIAGEM AO VELHO MUNDO EM 20 DIAS - Capítulo III




POMPÉIA – A HISTÓRICA CIDADE ENGOLIDA PELO VESÚVIO

O dia 23 de dezembro amanheceu extremamente frio. Apesar do aquecedor o quarto do hotel parecia úmido. Da janela avistava-se um bosque de pinheiros que pareciam cristalizados em meio à névoa esbranquiçada. Sem sombra de dúvidas era um sinal do que iríamos enfrentar pela frente. Tomar banho na Europa é talvez uma das maiores dificuldades enfrentadas por turistas em primeira viagem. Confesso não ser fácil esquecer nossos tradicionais chuveiros e substituí-los por complicadas duchas que deverão percorrer todo o corpo. Dominar os mecanismos que controlam as saídas de água fria e quente, a fim de transformar o banho em um ato prazeroso, dependendo da variação de temperatura diária, com certeza se tornará uma ação lenta e cansativa.

NORMANDO VIANA EM POMPÉIA - ITÁLIA
Escolher o que vesti será outra difícil tarefa. Uma camiseta de malha com certeza será insuficiente para manter o corpo aquecido. Duas camisetas sobrepostas talvez, mas só se auxiliadas por uma camisa ou casaco de malha grossa, reforçados por mais um casado de frio. Uma boa calça jeans só se tornará agradável se for vestida sobre uma calça de malha, tipo segunda pele. Isso sem esquecer-se do reforço nas meias, antes de calçar os sapatos fechados, de preferência de couro, com solado resistente. Adicione ao vestuário uma touca de lã ou de material equivalente, um par de luvas e um cachecol. Olhe-se no espelho e tente não se achar estranho [principalmente quando tentar os primeiros movimentos].

Não  só  isso  nos deixa meio consfusos  e surpresos ao mesmo tempo. Melhor esquecer os velhos hábitos e se abrir às novas experiências. Seu café da manhã será substituído pelo “pequeno almoço” local, que logicamente irá variar de região para região, e consequentemente, de hotel para hotel. Se não quiser perder o humor, melhor esquecer o tradicional pão francês torrado na manteiga e do nosso famoso café com leite. A viagem a Europa é antes de tudo uma maravilhosa oportunidade para as decepções gastronômicas. Correr para o ônibus de turismo e apelar para que imediatamente se fechem as portas é sempre uma excelente opção quando se busca aconchego, principalmente em locais aonde a temperatura pode chegar a menos dois graus centígrados. Assim é o inverno da região do Golfo de Nápoles onde se encontram os atuais municípios de Pompéia e Herculano, arrasados pelo Vesúvio, e nosso destino.
VISTA EXTERNA DE POMPÉIA

Para  entendermos  melhor   a  história  de Pompéia será preciso voltar no tempo mais uma vez. Tão antiga quanto à cidade de Roma, tem suas origens no século VIII a.C. quando os Oschi, primeiros povos itálicos chegaram à região e fundaram o primeiro agregado urbano. Pela localização estratégica, Pompéia tornou-se passagem obrigatória entre o sul e o norte, tanto por mar quanto por terra. Instalada aos pés do grande vulcão Vesúvio, foi totalmente destruída por uma das maiores catástrofes natural já registrada pela humanidade. Desenvolvida e cobiçada por potentes estados vizinhos, a cidade desapareceu debaixo das grandes quantidades de larvas expelidas pelo vulcão no ano de 79 d.C.. Mil e seiscentos anos depois Pompéia emerge das obscuras profundezas para recontar sua saga e história.
GRANDE FÓRO - VISTA DO VULCÃO VESÚVIO
Pela  estrada  que  corta a  região, ao longe avista-se o imponente Vesúvio, único vulcão no continente europeu a ter entrado em atividade nos últimos cem anos. A erupção de 79 d.C. é considerada a mais catastrófica de todos os tempos, espalhando uma nuvem de rochas, cinzas e fumaça tóxica que atingiram mais de 30 km de altura. Estima-se que a proporção e força da larva tenha chegado a um milhão e meio de toneladas por segundo, liberando uma quantidade de energia térmica milhões de vezes maior que a bomba atômica que atingiu Hiroshima, durante a II Guerra Mundial. As ondas de larvas com temperatura acima dos 700 ºC provocaram a morte instantânea de mais de 16.000 habitantes das duas cidades. A força de explosão provocou maremotos e tsunamis que varreram as duas cidades do mapa e as transformaram em ruínas. Em seguida foram encobertas por camadas sobrepostas de lama e cinza. Observar as expressões dos antigos moradores, atualmente em moldes de gesso e expostos no sitio arqueológico, é de certo modo experimentar o horror da tragédia. Impossível não se impressionar com a conservação dos corpos humanos e de animais, petrificados em situações corriqueiras. Mãos sobre os rostos, posições de encolhimento e expressões de pânico estampam o horror de um cenário apocalíptico.
  
Iniciamos nossa jornada pelas ruínas sob a orientação do guia local. O frio parece faca afiada e corta a pele. As extremidades do corpo parecem congelar com as rajadas de vento. Uns duzentos metros de caminhada e chegamos a “Porta Marina”, antiga e principal entrada da cidade, dotada de dois portões – um parara pedestre e outro para animais e veículos que traziam do mar peixe e sal. Próximo encontra-se a “Villa Suburbana de Porta Marina”, incrustada na muralha, rica habitação da época romana. Ao lado direito da porta avista-se o “Templo de Vênus”, deusa protetora de Pompéia. Seguindo a estrada da Marina encontramos a chamada “Casa de Rômulo e Remo”. Em seguida, passamos pelo “Templo de Apolo”, pela “Basílica” e finalmente atingimos o grande “Foro”, centro da vida política, econômica e religiosa de Pompéia. Ao sul do Foro avista-se as edificações destinadas a vida pública, incluindo a grande “Assembléia” onde se realizavam as funções eleitorais.

A cidade era dividida por regiões, compostas por vilas e pelas quais se davam as divisões de classe social. Pela entrada principal da “Via da Abundancia” encontram-se as “Termas Stabianas”, maiores, mais antigas e mais bem conservadas, estas eram compostas por casas de banho térmico para homens e mulheres. Uma das principais atrações é o “Teatro Grande” com capacidade para mais de 5.000 pessoas sentadas. Os templos de deuses surgem magníficos em vários pontos da cidade. “O templo de Ìsis”, ao lado do ginásio samnítico, destinava-se ao culto exotérico da deusa da trindade egípcia; o “Templo de Jupiter Meiichios”, na Via de Stabia, destinado ao culto de Zeus Meiichios originário da Sicília grega, revelando a influencia cultural dos vários povos que invadiram, conquistaram e governaram Pompéia antes do ano 310 a.C. quando foi dominada e incorporada ao estado romano. Outro aspecto que chama a atenção é a instalação dos prostíbulos, situados nas vilas mais afastadas do grande Foro. A prostituição era praticada por homens e mulheres, em casarios específicos, identificados por um falo instalado ao auto da porta principal. De certa forma, observa-se que a prostituição em si se organizava nos moldes como se apresenta na atualidade, ou seja, exercida de forma espontânea e consciente, ou através dos agenciadores, donos dos estabelecimentos privados.

Andar  por  suas  ruas  de pedras, repletas de casarios e lojas comerciais é sem dúvida alguma uma oportunidade para observar o inicio da estruturação dos grandes centros urbanos, onde comercio, cultura, religiosidade e política apresentavam-se em espaços distintos, demarcando hierarquias, poderes e status social. Acima de tudo é uma grande chance para se entender as influencias romanas sobre as origens dos modelos e sistemas políticos, bem como sobre a cultura das várias civilizações ocidentais, incluindo a nossa. Assim, a cidade fênix, a Pompéia ressurgida das cinzas, representa muito mais que um tesouro italiano, mas um patrimônio mundial por remontar parte da história da humanidade. Como diria o grande filósofo, conhecer a história é conhecer-se a si mesmo.  

Próxima Parada, Cidade de Nápoles.




CASARIO DE POMPEÍA


GRANDE TEATRO DOS NOBRES






AOS PÉS DO VESÚVIO

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


ESTREITAS RUAS DE POMPÉIA
  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


ANTIGO PRÓSTIBULO MASCULINO

CAMA DE UM PROSTÍBULO
  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


CORPO ENCONTRADO NAS RUÍNAS

CORPO ENCONTRADO NAS RUÍNAS



segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

VIAGEM AO VELHO MUNDO EM 20 DIAS - CAPITULO II

RUÍNAS DA ROMA ANTIGA


ROMA - UMA CIDADE MILENAR.

Eram onze e meia da noite, horário local, quando partimos do Recife rumo ao velho continente. Oito horas depois desembarcamos no aeroporto de Lisboa, em Portugal. Hora de apressar o relógio. Já eram dez e trinta da manhã do dia 21 de dezembro. Algum tempo de espera e mais três horas de vôo para chegar a Roma, capital italiana. O frio estonteante, o cansaço e a diferença de fuso horário causam certa confusão. Saio sozinho em busca de uma área externa para acender um cigarro. O ar gélido da noite parece me rasgar os pulmões. Olho em volta e sinalizações indecifráveis surgem a minha frente. Estava em um mundo totalmente desconhecido e me sentia desorientado diante de tanta informação as quais não conseguia decifrar. Senti-me de imediato um analfabeto vagando pelas páginas de um grande romance. A sensação de medo me invade e faz a cabeça girar. Estava bêbado sem se quer ter ingerido uma dose de álcool. Milhares de pessoas passam por mim falando idiomas diferentes. Era impossível, de imediato, identificar algo ou alguém conhecido. Volto ao saguão do aeroporto e reencontro meu companheiro de aventura, certamente bem mais experiente e tranquilo que eu. Depois de alguns minutos visualizo um homem segurando um pequeno cartaz onde constam nossos sobrenomes. O profissional contratado pela agência de turismo não consegue compreender o que falo. De forma meio irracional recorro a gestos quase grotescos para me fazer entender. Se em brincadeiras as mímicas se tornam engraçadas, em situações de sufoco tornam-se constrangedoras. E ainda, se a sensação de não saber ler parece terrível demais, experimente não conseguir se comunicar com alguém que tem a solução para seus problemas.

CENTRO HISTÓRICO DE ROMA
Sem dúvidas, essas sensações causarão sentimentos de inadequação e desolação nunca experimentados antes. Senti-me estranho. Um pássaro fora do ninho. Não havia referencias pessoais e naquele momento me vi dependente de alguém para tomar decisões e conseguir me movimentar na cidade. A experiência apesar de incômoda me trouxe posteriormente a reflexão sobre as dificuldades sentidas por milhares de brasileiros que deixaram ou deixam os sertões e/ou interiores do país em busca de melhores condições nas grandes cidades. Apesar das diferenças proporcionais acredito que as sensações em sua totalidade são as mesmas. Naquele momento eu era um graduado analfabeto, ou mesmo um analfabeto funcional em uma terra totalmente estranha onde tudo parecia maior que eu. O nervosismo diante do desconhecido dispara mecanismos de defesa que nos deixa alerta a tudo e a todos. Os sentidos se atiçam, a pele se eriça e o estresse nos mantém em prontidão aos potenciais perigos oferecidos por um cenário que parece selvagem e perigoso. Assim se deu meu primeiro contato com Roma, cidade milenar e histórica cujas origens fundam-se na lenda dos gêmeos amamentados por uma grande loba selvagem. Roma respira histórias, e neste sentido é preciso voltar no tempo em busca de sentido para a construção e consolidação de uma cultura tão rica e intrigante. Desta forma, aventuro-me numa livre narrativa que em momento algum pretende ser entendida como fidedigno resgate histórico, mas apenas como uma despretensiosa forma de favorecer a leitura. Inicio então uma costura de fragmentos derivados de várias fontes, das quais me absterei da obrigatoriedade de revelá-las.

Seguindo a lenda tradicional, muitos séculos antes de Cristo uma nova cidade chamada Alba Longa foi fundada por um homem chamado Ascânio, que se tornou seu primeiro rei. Mais de quatrocentos anos depois, Numitor, herdeiro legítimo do décimo segundo rei é deposto pelo próprio irmão Amúlio. Este, para garantir o poder assassina seu sobrinho e oferece sua sobrinha virgem a deusa Vesta. Transformada em sacerdotisa, à Reia Sílvia é imposta a castidade. Contrariando seu destino a jovem mulher engravida e alega ter sido seduzida pelo deus romano da guerra Marte, dando a luz aos gêmeos: Rômulo e Remo. Temeroso diante da possível vingança dos filhos de um deus, Amúlio aprisiona Reia em um calabouço e ordena a um cervo que execute seus filhos. Contrário as ordens do rei o servo coloca os bebês em um cesto de vime e os abandona nas águas do Rio Tibre. Uma grande enchente os arrasta pra muito longe da cidade empurrando-os para as margens do Palatino. O choro das crianças atrai uma loba selvagem que acabara de perder suas crias e que os leva para o bosque. Durante anos o animal os amamenta enquanto os lambe com sua longa língua. Encontrados por um pastor de ovelhas chamado Fáustulo, os meninos passam a ser criados por sua esposa Aca Laurência.
CENTRO HISTÓRICO DE ROMA

Os gêmeos tornam-se fortes e ágeis caçadores de animais selvagens e junto aos pastores da região atacam os salteadores de passagem. Preso e acusado de roubo, Remo é levado ao rei Amúlio. Ao saber de suas origens, Rômulo vai até Alba Longa para libertar o irmão. Em luta sangrenta mata o rei. Vitorioso devolve o reino ao Avô Numitor e devota as honras a Reia, sua mãe legítima. Com o irmão volta ao local onde foram abandonados e juntos decidem fundar uma cidade. As divergências entre ambos começam. Rômulo pretende nomear a cidade de Roma, enquanto que Remo sonha em chamá-la de Remora. Apesar das várias versões para a história, uma delas descreve o assassinato de Remo, golpeado na cabeça por uma pedra lançada por Rômulo, que se apossa sozinho do poder. Assim, em 753 a.C. surge então uma nova cidade que recebe o nome de seu fundador. Com o tempo, de pequeno povoado Roma tornar-se-ia um dos maiores e mais importantes impérios da antiguidade.
 
Caminhar pelas belas e organizadas ruas da cidade é como viajar no tempo. Casarios, palácios, belas arquiteturas e monumentos remontam épocas distantes. Existe uma ebulição de informações que parece exigir nossa atenção. Um descuido e algo importante se perde. Belas esculturas parecem nos acompanhar com olhares incisivos, ora inquisitivos, ora meigos e piedosos. São os olhares de Roma [alguém já prestou atenção aos olhos do Recife?]. São os gestos e traços de uma cidade que parece querer nos falar algo mais sobre nós mesmos. Uma tarde em Roma nos revela o quanto somos desrespeitosos com nossa história e tradição. A cidade em si parece um grande quebra cabeças com partes espalhadas aos quatro cantos. Impossível para um leigo como eu entender como ou por onde tudo começa, e principalmente se termina um dia, simplesmente por que a cidade é viva. A história nos conta que a civilização romana tem origem na união dos povos gregos, etruscos [originários da Itália antiga] e italiotas [populações primitivas da Itália central – latinos, úmbrios, samnitas, etc] que passaram a habitar a península itálica e desenvolveram uma economia baseada na agricultura e nas atividades pastoris, do período de sua fundação até o ano de 509 a.C.
CENTRO DE ROMA

O senado então ganha grande poder originando um período republicano que se alastrará até o ano de 27 a.C. Este período é marcado pelas lutas dos plebeus que passam a reivindicar maior participação política através da participação popular no Consulado. Com a Lei Licínia [367 a.C.] o Consulado passa a ser constituído por um patrício e um plebeu, e põe fim a escravidão por dívida, ainda que apenas para os cidadãos romanos. Após o domínio de toda a península itálica os romanos partem para a conquista de outros territórios garantindo a supremacia no Mar Mediterrâneo. Ampliando suas conquistas, domina Cartago, Grécia, Egito, Macedônia, Gália, Germânia, Trácia, Síria e a Palestina. Enquanto alguns desses povos eram escravizados, outros passavam a pagar altos impostos ao império romano. Estas importantes conquistas não só fortaleceram o império romano como também foram a principal responsável por seu declínio. Com o crescimento urbano surgiram os problemas sociais, como desempregos e migrações da zona rural para os grandes centros em busca de melhores condições de vida [interessante pensar que apesar de antigo tal fato ainda nos é tão atual no Brasil].

CIDADE DO VATICANO - ROMA
Receando revolta por parte do grande contingente de desempregados o império adota como estratégia política a prática do “Pão e Circo”, que consistia em oferecer alimentação e diversão ao povo como forma de amenizar o sofrimento e a revolta diante da suntuosidade e opulência dos seus governadores [qualquer semelhança com nossa cultura política não será mera coincidência]. Assim, diariamente eram realizadas lutas de gladiadores nos grandes estádios, sendo o mais famoso entre estes o Coliseu de Roma. E estar no Coliseu é revisitar os feitos faraônicos. Cada pedra revela a magnitude de uma arquitetura e engenharia extremamente avançada. Das aberturas se visualiza as antigas ruínas, e sobre tudo a um romântico como eu seria impossível não visualizar antigos personagens caminhando por ruas e espaços. De repente os corredores que se escondem abaixo da arena, formando labirintos, ficam repletos de movimentos. Um leão corre apressado diante de uma platéia ensandecida pela carnificina. É o espetáculo do espetáculo a que nos acostumamos. A forma circular milimetricamente calculada converge os olhares dos pobres espectadores para tribuna dos imperadores. Destaca-se um sistema político pautado na divisão de classes. O espetáculo não é para os pobres, mas sobre eles próprios. Única e exclusivamente para o deleite dos que planam seus olhares sobre eles.

RUÍNAS DA ROMA ANTIGA
Seguindo ainda a história oficial, descobre-se que o império registra sua maior crise econômica e política devido à corrupção durante o século III. Os enormes gastos para manter o luxo dos imperadores e da classe burguesa, bem como os elevados investimentos necessários a manutenção dos exércitos forçavam o recolhimento de maiores impostos sufocando a população pobre [será que não herdamos isso também?]. O fim da escravidão, motivado pelo enfraquecimento das conquistas territoriais, provocou significativa queda da produção agrícola. O pagamento de tributos por parte das províncias também sofreu grande abalo acelerando e acentuando a crise econômica. Com os exércitos enfraquecidos abriam-se as fronteiras. Os bárbaros forçavam a penetração pelo norte. Como nova estratégia, no ano de 395 d.C. o império romano foi dividido em dois – império ocidental, com capital em Roma; e, império oriental, com capital em Constantinopla. Menos de cem anos depois o império ocidental é invadido pelos povos que os romanos classificavam como bárbaros: visigodos [oriundos do Oeste europeu], vândalos [antigos germânicos], suevos [povos germânicos], saxões [da antiga Saxônia, Alemanha], ostrogodos [austríacos], hunos [originários da Ásia central], pondo fim à era da antiguidade e dando inicio a Idade Média, quando o latim se espalha pelo velho continente dando origem ao português, ao espanhol, ao italiano e ao francês.

Sem sombra de dúvidas o legado a humanidade deixado pela civilização romana é incalculável. Assim como a língua original, o latim; o direito romano influenciou e influencia até os dias atuais as culturas ocidentais. De forma mais ampla não podemos esquecer as contribuições para a arquitetura, para as artes plásticas, para a filosofia e a literatura. Foi com os romanos que aprendemos que mitologia se consolida como forma explicativa para o que a ciência não consegue explicar [alguma semelhança?].

Próxima parada: ruínas da cidade de Pompéia!

PEDRAS DE ROMA ANTIGA




domingo, 8 de janeiro de 2012






“VIAGEM AO VELHO CONTINENTE EM 20 DIAS”

Ainda em 2011 resolvi enfrentar um dos maiores desafios de minha vida, atravessar o Oceano Atlântico rumo ao velho continente. Viagem marcada, sofrimento antecipado. Teria pelo menos seis meses para me preparar e rever velhos medos. Porém o atribulado das situações corriqueiras fez o tempo correr e um mês antes de embarcar a distonia já sinalizava a crescente ansiedade que me atormentaria durante as oito horas de vôo. Nestes momentos arrumar a mala torna-se sempre difícil, porém ajuda a aliviar a tensão. Cada peça de roupa sinaliza uma despedida. Mas na verdade não haveria do que, ou de quem me despedi. Eu estava só. É nessas horas que a ausência de um outro, seja este parente ou amigo, se acentua e incomoda. Não ter em determinados momentos com quem dividir sonhos, ansiedades ou receios, não receber um abraço ou mesmo votos de boa viagem é talvez a mais difícil situação quando se reside sozinho. Porém a vida tem constantemente me ensinado que somos sós em essência, e que acima de tudo somos livres para percorrer mundos e desafiar nossos próprios limites. Assim as possibilidades de novas experiências tem se tornado, a certo modo, um lema que venho adotando enquanto conduta de vida. E neste sentido, vencer os sentimentos de grandes inquietações diante das noções de perigos, reais ou imaginários, que sempre me acompanham em viagens longas torna-se sem dúvida um importante ponto de partida para mim.

CIDADE DE POMPÉIA - ITÁLIA
A viagem a Europa se configurou, entre outras coisas, como um grande desafio vencido. Mais que isso, voltar ao velho mundo foi sem dúvida uma grande oportunidade para melhor entender o momento atual que vivemos, seja ele político, econômico ou histórico. Uma espécie de retorno ao passado, as origens da civilização. A Europa é sem sombra de dúvidas um museu a céu aberto. Berço da civilização, da arte e da cultura. Percorrer as milenares ruas de Roma e redescobri lendas que fundaram tradições foi sem dúvida uma experiência impar. Visitar o interior do Coliseu, construído entre 70 e 90 d.C. e hoje considerado uma das “sete maravilhas do mundo moderno”, revela a grandiosidade da engenharia e arquitetura romana. De imediato a grandiosidade da cidade e de seus monumentos nos causa certa desorientação, contudo, aos poucos, ruínas espalhadas pelo centro histórico, a Cidade do Vaticano, as famosas esculturas, antigas pizzarias e os tradicionais cafés das esquinas começam a surgir como “velhas novidades” conhecidas. Para mim tudo parecia novo e conhecido ao mesmo tempo. Estava diante de monumentos só antes vistos em fotografias, reportagens ou livros de estudos. Era impossível não constatar que cada pedra de Roma parece remontar histórias. Como uma espécie de quebra-cabeças com os quais construí castelos durante a infância. E ali estavam eles, os antigos castelos dos contos de fada, os monumentos bíblicos, os personagens imortais que aprendi a admirar durante as aulas. Mais difícil ainda é não se encantar com as ruas estreitas que levam a “La Fontana di Trevi”. Majestosamente situada num cruzamento de três estradas a obra de arte por si justifica por que é considerada a maior e mais ambiciosa construção de fontes barrocas da Itália.

NÁPOLES - ITÁLIA
Seguindo ao sul da Itália, nos arredores de Nápoles, chega-se ao sítio arqueológico de Pompéia, antiga cidade romana que no ano 79 d.C desapareceu sobre as cinzas do vulcão Vesúvio. Pelas estreitas ruas cuidadosamente reconstruídas 2.000 anos de história se levantam diante de nossos olhos. Cada detalhe ou objeto evidencia uma civilização extremamente avançada para época. A antiga cidade era divida em regiões salientando a divisão de classe social. Em alguns momentos somos pegos a imaginar a movimentação cotidiana de seus antigos habitantes devido à perfeição empregada na reconstituição dos casarios, termas, praças e centros comerciais. Depois de conhecer Pompéia, seguir para o centro de Nápoles é viajar no tempo de volta ao futuro. A cidade é repleta de ruas e monumentos históricos em bom estado de conservação. No bairro alto avistasse o Vesúvio e entende-se sua magnitude. Devido ao inverno nuvens pesadas e escuras que encobrem seu pico surgem como prenuncio de uma nova catástrofe esperada há séculos. O velho vulcão adormecido parece esticar-se aos céus impondo respeito e ao mesmo tempo em que amedronta também causa admiração.

COLISEU DE ROMA - ITÁLIA
A cidade de Florença, capital e maior centro urbano da província de Toscana, foi por muito tempo considerada a capital da moda. Destaca-se como berço do Renascimento italiano possuindo um memorável acervo que inclui obras de Michelangelo, Leonardo da Vinci, Botticelli e Donatello, entre outros. Cortada pelo rio Arno, cada canto ou recanto da antiga cidade do século XV revela encanto e magia. Já na região do Vêneto, no nordeste da Itália encontramos Veneza. Mundialmente famosa por seus canais, destaca-se pelo romantismo dos passeios de gôndolas. Construída sobre um arquipélago formado por 118 ilhas, possui 177 canais apertados e de águas gélidas que interligam bairros onde se encontram velhos e históricos casarios, restaurantes e hotéis. Suas 400 pontes servem de cenário as belas paisagens e conduzem a Piazza San Marco onde se encontra a Basílica de di San Marco, a Torre do Relógio e o Museu Correr. Uma noite em Veneza, sentado diante do mar e aquecido pelos tradicionais lampiões a gás do Café Gabbiano é sem dúvida uma cena inesquecível. Ainda na mesma região encontra-se a rica cidade de Verona, uma das mais prósperas do norte italiano. Cercada pelo Rio Adige possui riquíssimo acervo cultural que inclui belíssimas muralhas, um anfiteatro romano que em muito lembra o Coliseu, um castelo medieval, além de igrejas e palácios seculares. No centro comercial a única rua em mármores leva a propriedade dos Cappellos, antiga e importante família local. Construída no século XIII, nos dias atuais é identificada como a casa de Julieta Capuleto, personagem fictício imortalizado pela obras de Shakespeare.

ALPES SUÍÇOS
Deixamos Verona no inicio da manhã e seguimos pelo norte da Itália rumo a Zurich, não sem antes atravessar os quilométricos Alpes Suíços. O frio aumenta à medida que se escala os mais de 4.500 metros de altitude. Correr na neve e afundar no gelo torna-se de fato uma experiência prazerosa e inesquecível. O cenário formado por imensas montanhas geladas, florestas de pinheiros e casarios com telhados brancos nos traz a nítida certeza que o natal até existe. Pelo menos o comercializado no mundo ocidental. Impossível não identificar os famosos postais onde o papai Noel parece deslizar em seu trenó puxado por ágeis renas aveludadas. Depois horas atravessando montanhas chega-se a Zurich, capital da Suíça. Famosa pela produção de leite e chocolates a cidade revela de imediato que a precisão vai além dos seus tradicionais relógios. Cortada pelo rio Limmat, a cidade salienta uma bela e organizada mistura de construções modernas e antigas que margeiam a grande lagoa formada pelas águas que descem as montanhas durante o verão. A noite suíça é extremamente fria e as ruas parecem desertas. Calçadas se confundem com ruas cortadas por trilhos por onde correm os famosos bondes. A riqueza é estampada nas vitrines bem iluminadas e na estrutura arquitetônica das estreitas ruas que mais parecem conduzir a lugares misteriosos. De modo geral a cidade parece um lugar onde tudo funciona de forma previamente planejada. Acordar em Zurich é despertar para uma realidade nunca antes vista, pelo menos para um marinheiro de primeira viagem como eu. Suas estradas parecem tapetes que se escondem por longos túneis que atravessam montanhas. Um deles com mais de 15 km causam espanto e certo desconforto claustrofóbico. O dia parece mais claro e pelas janelas protegidas do ônibus planícies e campos encantados vão desaparecendo rapidamente diante dos olhos.

MUSEU DO LOUVRE - PARIS/FRANÇA
A França é sem dúvida a França, e neste sentido tornam-se dispensáveis descrições ou apresentações. Num bairro de subúrbio chamado Màrie de Montreuil onde nos hospedamos salienta-se a imigração, com grande destaque para os negros nativos das colônias francesas. As ruas pacatas parecem revelar certa amistosidade entre os habitantes, contudo, os metrôs e prédios menos modernos evidenciam diferenças sociais. Como toda grande metrópole Paris é um verdadeiro centro de diferenças, sejam étnicas, religiosas, sociais ou econômicas. A cidade cortada pelo Rio Sena encanta pela beleza natural e patrimônio histórico. A Torre Eiffel destaca-se pela estrutura metálica vista de qualquer ponto da cidade. O Arco do Triunfo, ao final da Champs Elysées, mais rico e importante centro comercial da Europa, revela toda a magnitude da cidade luz. Não se conhece Paris sem se visitar o Museu do Louvre, onde extremamente protegida encontra-se a famosa Gioconda, de Leonardo da Vinci. Seu olhar enigmático e o aparente e sarcástico famoso sorriso parecem não apenas revelar mistérios de uma época, mas também os encantos e segredos da cidade mais famosa do mundo.

LONDRES - REINO UNIDO
Fundada pelos romanos ao norte do rio Tâmisa, em 43 d.C, a antiga Londinium durante séculos sofreu invasões e influências díspares e hoje desponta como maior e principal centro financeiro do mundo. A formalidade londrina é claramente estampada pela troca da guarda real, em frente ao Palácio de Buckingham, onde milhões de pessoas se atropelam diariamente. Cidade de belas e bem cuidadas praças, como o St. James´s Park, ostenta luxo e riqueza em monumentos e prédios que remontam as antigas realezas. O famoso cartão postal, o Big Bem, apesar do charme original me pareceu menos pomposo. De modo geral, se Roma inspira saudosismo histórico e Paris o charme e a elegância clássica, Londres ao contrário revela-se fria e distante. Diria ao certo que de todas as cidades que visitei a capital do Reino Unido certamente foi e será a que menos trará saudades.

VENEZA - ITÁLIA
Depois de quinze dias de viagem finalmente chegamos a Lisboa. A capital portuguesa é sem dúvida nenhuma mais próxima de nossa realidade. A Praça Marquês do Pombal, personagem responsável pela reconstrução da cidade após o grande terremoto que a reduziu a ruínas, parece revelar-se como palco de reivindicações e manifestos políticos. Ponto de convergência para grandes avenidas situa-se próximo ao Parque Eduardo VII que se interliga com o Parque Amália Rodrigues, famosa cantora de fado. No centro cultural de Belém a cultura portuguesa é exaltada, revelando o apreço de nossos compatriotas pela história e pela arte. Além dos 08 museus encontram-se no local o Padrão dos Descobrimentos, de onde partiram as caravelas de Cabral rumo ao Brasil, além da Torre de Belém, antigo castelo. A Praça do Comércio, de frente ao Rio Tejo revela uma das mais belas vistas panorâmicas da cidade. À noite no Baixo-Chiado, cidade alta, é romântica e melancólica ao mesmo tempo. Imperdível é o passeio de bonde ao Castelo de São Jorge, onde restaurantes charmosos e aconchegantes se espalham pelas ladeiras de pedras antigas e onde se saboreia o bom e tradicional bacalhau e as famosas sardinhas portuguesas regados ao aceite de oliva.

LISBOA - PORTUGAL
Impossível seria descrever tantas e tão diversificadas culturas em tão poucas linhas. Diria mesmo que resumir minhas impressões sobre cidades tão maravilhosas seria desrespeitoso com os legados deixados a humanidade. Partindo dessa perspectiva inicio então uma ampla descrição de minha “viagem ao velho mundo em 20 dias”. Antemão, saliento que meu intuito não se restringe ou objetiva a simples descrição de pontos turísticos, mas de forma mais pretensiosa, uma reflexão sobre as diferenças e influências destas culturas sobre a vida e cultura dos brasileiros. Assim, recortes históricos, étnicos, sociais, politicos, econômicos, religiosos e de gênero servirão como base a narrativa que por hora apresento em capítulos. A quem se aventurar, boa leitura e boa viagem.

LONDRES - REINO UNIDO

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

PARÍS - FRANÇA

domingo, 18 de dezembro de 2011

CIENTISTAS DESCOBREM VIDA EXTRATERRESTRE?




KEPLER 22B - O SONHO DO "TERRENO" PRÓPRIO.

O ano de 2011 termina com uma grande surpresa repleta de novos significados. Na segunda semana de dezembro cientistas da Agência Espacial Americana – NASA anunciaram a descoberta de um planeta com características parecidas com as da Terra. Localizado fora de nossa galáxia, a mais de 600 anos-luz de distancia da Terra, o novo astro foi batizado pelos norte-americanos como Kepler 22b. Segundo estimativas, ele possui dimensões 2,4 vezes maior do que o planeta que habitamos atualmente e tem temperatura aproximada de 22 graus centígrados. Para os cientistas estas evidencias tornam-se bastantes para se pensar as possibilidades de futuras habitações humanas (ISTOÉ 2195, 2011). Sem dúvida alguma essa é talvez a mais importante descoberta de todos os séculos. A notícia coloca não só a sociedade científica em ebulição, mas de modo geral o mundo financeiro. As perspectivas de colonização com certeza elevarão os índices das bolsas de valores, grandes investimentos em pesquisas espaciais serão feitos nos próximos anos e em pouco tempo missões científicas partirão rumo às novas terras. Inicia-se uma nova era para o que já se conhece como corrida espacial. Em 2011 o céu deixou definitivamente de ser o limite para o homem.

Sempre gostei de filmes de ficção científica. Repletos de misteriosos seres alienígenas sempre despertaram entre nós muita tensão e curiosidade. A simples possibilidade de existência dos seres extraterrestre sempre dividiu opiniões. Altos, magros, gelatinosos, com apenas um olho ou repletos de filamentos pegajosos, os ETs a muito tem despertado grandes emoções e elevado as bilheterias dos cinemas em todo o mundo. Violentos ou pacíficos se tornaram personagens clássicos em nossa literatura. Neste sentido, Kepler 22b representa uma grande chance de resposta a uma pergunta que nos persegue e intriga a milhares de anos. Estamos realmente sozinhos no universo? Na minha concepção, não. Na verdade acho que seria um imenso desperdício, além de enorme incoerência, existir vida apenas em um dos nove planetas que formam nossa galáxia. Não haveria sentido a existência de milhões de astros, estrelas e planetas totalmente desabitados. Seriam como grandes bolas flutuando no ar como simples bolhas de sabão soltas ao vento ou simplesmente meros objetos decorativos. Acredito que a questão não é se existe vida fora da Terra, mas que tipo, ou tipos de vida podem existir. É neste sentido que Kepler passa a representar uma concreta possibilidade de respostas a curto e médio prazo. Para os cientistas da NASA e especialistas do mundo inteiro encontrar vida alienígena é só uma questão de tempo.

Em séculos passados dominamos os mares para descobrir novas terras. Nos séculos futuros dominaremos o espaço em busca de novos planetas habitáveis, denominados pelos astrônomos especialistas como superterras. Com a colonização de Kepler, nós, habitantes do continente americano perderemos então o título de novo mundo. Na verdade a Terra se tornará nossa antiga morada. Acho até que com o tempo se tornará uma espécie de colônia do novo planeta. A idéia, por mais absurda que possa parecer nos trará imediatamente a memória terríveis filmes de ficção científica anteriormente considerada fantásticas demais e distante da realidade, onde seres humanos escravizados tornam-se reféns de aliens poderosos e malvados que extraem da Terra os recursos que necessitam. Porém, o enredo que se desenha a nossa frente parece revelar diferentes possibilidades. Não acredito que nos tornaremos reféns dos alienígenas, mas sim, reféns de poderosos homens que governarão Kepler. Neste sentido, acho que a ambição humana assumirá dimensões gigantescas, uma vez que o planeta a ser explorado é quase duas vezes e meia maior que a Terra. Numa dedução lógica, em poucos anos invadiremos o planeta. Então instalaremos hotéis de luxo em Kepler e pagaremos fortunas por um final de semana no outro lado do mundo. Os condomínios residenciais serão uma realidade futura. Verdadeiras cidades serão construídas, deixando os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Porções de terras serão oferecidas em comerciais de televisão. As grandes empresas abrirão suas filias e em pouquíssimo tempo “organizaremos” o planeta ao nosso modo. Abriremos estradas e rodovias, instalaremos shopping center, restaurantes, cinemas e mais uma porção de coisas necessárias ao conforto do homem moderno. As perspectivas de desenvolvimento econômico são imensas. Talvez Kepler apresente melhores condições de vida devido à preservação de suas estruturas originais. Talvez ainda não exista desenvolvimento [partindo do nosso referencial, logicamente falando], e muito menos poluição por não haver ainda o desgaste de suas reservas naturais. Definitivamente Kepler será nosso roteiro preferido. Porém nem todos terão acesso. Apesar de maior não haverá espaço para todos. Numa visão mais pessimista, diria até que Kepler abrirá para alguns, quem sabe, uma nova possibilidade de consolidação da supremacia de uma raça pura. Afinal de contas a eugenia é um sonho humano que se encontra apenas temporariamente adormecido. Não há duvidas que o modelo higienista volte a se impor no novo processo de colonização.

Mas independente disso tudo, Kepler é na verdade uma grande promessa para a perpetuação de nossa espécie. Trás em seu bojo certo alívio para os muitos que receiam o inevitável colapso terrestre, afinal de contas, não estamos mais em um beco sem saída porque já temos para onde nos mudar quando a vida aqui ficar impraticável. Ficção e realidade se misturarão para criarmos uma nova versão da “Arca de Noé”, mais potente e moderna, pela qual transportaremos pequenas quantidades de espécies da nossa fauna e flora. Entre os humanos, logicamente, serão selecionados os mais capacitados intelectualmente e aptos a atender as novas demandas. Não deve ser fácil conquistar um planeta muito maior que o nosso. Assim, será preciso enviar cientistas, filósofos, grandes artistas, empresários influentes e políticos que comporão a nata da nova sociedade. Logicamente que será preciso alocar pessoas operacionais, até porque alguém precisará colocar a mão na massa para consolidar construções concretas. Em curto prazo replicaremos as relações de poder e instalaremos um sistema econômico em Kepler. Talvez uma versão do capitalismo. Talvez algo mais nocivo.

Mas como nem tudo na vida são flores será preciso primeiro pensar [ou talvez repensar] algumas questões de ordem prática. A primeira refere-se diretamente ao direito a descoberta. Kepler será colonizado pelos norte-americanos, pela união européia, pelos japoneses, chineses, ou por quem conseguir chegar lá primeiro? Com certeza nessa corrida não haverá muito espaço para nós brasileiros. A não ser que a união dos países emergentes lance uma nova modalidade de parceria econômica, abrindo espaço para o surgimento de empresa de exploração planetária, do tipo “BRINC no Espaço”. Neste caso, com certeza seria uma nave espacial bem colorida devido a multicromagem das bandeiras brasileira, russa, indiana e chinesa. Talvez nada disso seja preciso e apenas uma tripulação multinacional, no melhor estilo globalização pacífica, inicie o processo de colonização. Além de mais econômico, a ação seria mais democrática. Independentemente disso, uma coisa é certa, será necessária a participação da iniciativa privada porque o montante financeiro exigido para tal empreitada será estratosférico.

Partindo da lógica “todos juntos venceremos”, se fará imprescindível a divisão dos lucros. Ou seja, o planeta terá que ser dividido como um grande bolo fatiado. Quais porções de terras habitáveis caberão a cada país participante da nova missão? Faremos mais uma vez, a replicação de nosso sistema político e econômico, dividindo Kepler em regiões de conflitos. Talvez até façamos uma nova releitura do “Tratado de Tortesilhas”, dividindo o planeta em hemisférios. Não é verdade que a fundamentação da nossa lógica capitalista costuma nos mostrar que as boas práticas devem ser replicadas? Isso poupa tempo para as tomadas de decisões e garante os resultados esperados [alguém duvida?]. Assim, estabeleceremos os mapas geográficos, onde algumas regiões serão inevitavelmente mais desenvolvidas que outras; onde nações ricas explorarão e subordinarão outras menos afortunadas. Será o reinício de uma nova tentativa para velhos problemas. O problema consistirá então em construir novos modelos. O que acho improvável. Porém, acho mais oportuno no momento pensar em coisas mais urgentes.

Segundo os cientistas, a órbita de Kepler é equivalente há 290 dias terrestre. Isso quer dizer que o planeta gira em torno de si mesmo em um tempo menor que a Terra no mesmo movimento [deu pra entender?]. De modo simples, isso significa que o ano Kepliano [ou seria Kepliniano?] é 75 dias mais curto que o ano terrestre. Será que precisaremos [re]pensar as dimensões cronológicas, caso contrário nossa vida em Kepler se tornará mais curta? Se uma década na Terra equivaleria a aproximadamente 3.650 dias, em Kepler esse número cairia para 2.900 dias. Ou seja, passar uma década em Kepler nos custaria 2,05 anos de vida. Será que se morre mais rápido em Kepler? E como ficará nossa ensandecida busca pela eternidade? Fora isso, precisaremos pensar quanto tempo de vida gastaremos para chegar até lá. Neste aspecto, confesso que como sempre fui muito ruim em física, resolvi recorrer à internet para descobrir que ano-luz é uma unidade de comprimento que corresponde ao espaço percorrido por um raio de luz em um ano [simples?]. Fato é que essa é uma medida grande demais para aplicações comuns aqui na Terra. Por isso tal medida destina-se a marcar distancias no espaço cósmico, entre as estrelas de uma mesma galáxia [o que não é o caso de Kepler] ou entre galáxias distintas [o que é o caso de Kepler].

Resumindo, ano-luz parece ser uma medida útil apenas para os astrônomos [o que não é o meu caso], por tanto para nós pobres mortais [o que é o meu caso] torna-se bastante imaginar que um ano-luz equivale a 9,5 trilhões de quilômetros. Isso corresponde a quase 63.240 vezes da distancia média entre a Terra e o Sol [deu para entender agora?]. Num calculo rápido podemos deduzir então que o novo planeta está a mais de 37.944.000 Km [trinta e sete bilhões, novecentos e quarenta e quatro milhões de quilômetros] de distancia. A questão então é a seguinte: se para o homem ainda é impossível se locomover na velocidade da luz, tal distancia se tornará ainda muito mais demorada para ser percorrida com os recursos que dispomos. Alguém consegue responder em dados simples o que significa 600 anos-luz? E ainda, diminuir minha ansiedade respondendo a uma simples pergunta: se hoje, com quarenta e cinco anos, eu saísse rumo a Kepler, com quantos anos de idade eu chegaria? Antes das respostas chegarem prefiro imaginar que com a claustrofobia e aerofobia que tenho morreria no caminho. Ou seja, Kepler está definitivamente fora dos meus planos turísticos. Meu único consolo é que tal situação parece se estender a todos de minha geração.

Devaneios a parte, o bom disso tudo é que fica mais evidente a existência de vida fora da Terra. Ou seja, os aliens podem existir de fato. O que acredito piamente. Isso nos traz outras reflexões bem mais difíceis de maturar porque mexe diretamente com questões mais complexas como religiosidades, sobretudo. Imaginemos por exemplo, que Kepler 22b já seja habitado. Não que isso possa impedir nosso processo de colonização, afinal de constas a história nos tem mostrado cotidianamente o poder de dominação e da violenta força de subjugação da raça humana. E não duvidem que se os Keplenianos se meterem a besta a gente passa por cima. O problema é pensar que se Kepler está em outra galáxia e têm habitantes, não seria provável que estes tenham também um deus, ou algo parecido? No caso da existência de um deus, esse por sua vez, será o mesmo que o nosso? Sim, responderão os mais apressados e convictos da fé cristã. Contudo, se os Keplenianos [ou será Keplianos?] tiverem também sido criados a imagem e semelhança de Deus, a coisa ficará confusa demais. Isso porque, ou eles serão semelhantes a nós, ou Deus nos terá enganado. Pior ainda, será pensar que talvez Deus nunca tenha nos dito isso, o que significaria que os escritos bíblicos se configuram como uma grande farsa. Uma simples criação humana. Numa outra hipótese, se seus habitantes tiverem outro deus, significa que o nosso não é único, onipotente e onipresente. O universo estaria então dividido sobre o domínio de deuses distintos e poderosos, o que nos colocaria em outra grande enrascada. Descobrir quem criou o universo. Além disso, precisamos pensar caso a hipótese se confirme, sobre a quem deveremos obediência cega e irrestrita? Passaremos a adorar dois deuses? Via de dúvida, e para não dá um nó maior em nossa cabeça, talvez seja melhor optarmos pela hipótese de uma possível dupla face de Deus. Acho que assim agradaríamos a gregos e troianos, ou melhor, corrigindo, aos Terráqueos e os Keplenianos.

Caso eles não tenham um deus, ou deuses, não seria problema para nós. Seria até fácil ensiná-los a seguir nossas doutrinas e dogmas. Já fizemos [e continuamos fazendo] isso tantas outras vezes, que de certa forma, já adquirimos a prática da indução. Imagino que não seria diferente do que foi a colonização do Brasil, por exemplo. Até de certo modo, imagino que adotaremos os mesmos procedimentos. Primeiro invadimos as terras do novo planeta. Depois numa ação amistosa e de paz tentamos lhes ensinar o sentido e significado de civilização. Por fim, os ensinaríamos a trabalhar para garantir o progresso do planeta. Com o tempo alienaremos sua cultura. Ensinaremos tudo o que sabemos aos novos camaradas, menos como se institui o poder. Para evitar problemas futuro. Seremos verdadeiros deuses, ou donos, dos inocentes Keplenianos, que a esta altura terão sido classificados como casta inferior. Na verdade o processo, provavelmente será até mais simples, sem os entraves e discursos demagogos do pessoal dos direitos humanos. Talvez nem existam movimentos em prol dos direitos humanos, porque esses provavelmente não serão assim considerados. Mesmo que nos sejam semelhantes, no máximo receberão a alcunha de selvagens, como fizemos com os indios que habitavam o continente americano; ou de sub-raça, como fizemos com os negros africanos, ou mesmo com os judeus. Prática para o estabelecimento das normas é o que não nos falta.

O grande desafio, porém, será a necessidade de refletir nossa soberba supremacia. Isso porque em Kepler talvez exista uma raça mais evoluída. Quem sabe até superiores em inteligência, forças e armas. Será que eles já não nos conhecem? Será que por nos considerem tão desprezíveis e/ou desinteressantes preferem nos ignorar? Talvez não sejam amistosos. Mas independente disso tudo, chegaremos até eles com ou sem autorização [e que ninguém duvide]. Kepler é para nós na verdade não uma escolha, mas uma possibilidade de manutenção da vida humana. Não podemos esquecer que sempre funcionamos dentro de uma lógica parasitária que nos impõe a necessidade de novos recursos para explorar e assim seguir vivendo. Durante os séculos no multiplicamos rapidamente como pestes. Invadimos florestas e mares e mesmo assim não dispomos mais de espaço com condições de habitação. Em suma a Terra se tornou pequena demais para nós humanos. A corrida espacial não difere das grandes navegações. Não estamos fazendo nada de diferente. Seguimos apenas uma lógica considerada “natural”. Kepler ou outro planeta qualquer que por ventura surja a nossa frente será inevitavelmente habitado. É uma questão de sobrevivência. De vida ou de morte. E nesse ponto, a morte sempre nos foi inoportuna. Nossa história é marcada por conquistas. Chegamos a Lua, conhecemos o Sol, chegaremos a Kepler, dominaremos o cosmo. Exploraremos planetas e galáxias distintas porque somos guerreiros. Em pouco tempo a Terra será apenas uma colônia que abastecerá os humanos de Kepler. E na sequencia, Kepler se transformará com o passar dos séculos em colônia de algum novo planeta porque continuaremos predadores. Contra fatos não existem argumentos. E a conquista do espaço é fato concreto.

Essa guerra pela sobrevivência perde espaços terrenos para exigir espaços mais amplos e universais. Não existirão limites para a raça humana. E mesmo as questões de ordem divina serão revistas, novas crenças e filosofias serão [re]criadas e a nova ordem [re]estabelecida. Neste sentido, Kepler torna-se recurso ou meio para se chegar aos fins. Abrirá espaço para questionarmos inclusive a própria existência de um deus único. Com o tempo encontraremos as devidas respostas, preenchendo lacunas seculares. Saberemos por exemplo, se Jesus também visitou Kepler. Isso partindo da crença em um Deus único. Ou ainda, se Ele os teria enviado outro filho? Neste rastro surgirão respostas para perguntas abertas até os dias atuais. Por exemplo, será que a Maria-Kepliniana também era virgem quando concebeu o filho do deus de Kepler? Será que esse também morreu na cruz para salvar seus habitantes? Será que já inventaram o natal em Kepler? E se não tiver carnaval? Se não tiver corrupção a gente envia um bando de políticos. Se os faraônicos templos religiosos desmoronarem diante da verdade absoluta criaremos outra forma de alienação de massa. Se tiverem armados ou tentarem resistir os dizimamos, afinal já fizemos isso antes.

Mas se em Kepler existir miséria, melhor. Aí sim nos sentiremos literalmente em casa. Mostraremos o poder de nossos princípios de caridade despretensiosa. implantaremos nossas políticas de assistencialismo bem sucedidas. Os subjugaremos e os dominaremos através de nossas doenças. Primeiro os infectamos e depois vendemos a cura. Negaremos saúde, como também educação e direitos. Criaremos leis poderosas e depois os manteremos trancafiados por desacato a supremacia humana. Instalaremos o tráfico de drogas em suas comunidades para torná-los dependentes do nosso sistema. Talvez até o nosso crack possa dizimá-los de forma mais rápida e assim economizamos com artilharia, como fazemos atualmente. Aos poucos, lenta e sorrateiramente alienaremos seus bens e seus corpos para nos tornarmos soberanos. Por fim, os chamaremos de povo, estabelecendo seus limites de acesso para garantir a ordem do poder. Nada muito diferente. Nada muito estranho. Nada muito contraditório a nossa natural conduta humana.

Sem dúvidas, o ano de 2011 entrará para nossa história, e dos Keplenianos também, como marco das grandes perspectivas incertas e duvidosas. Com certeza absoluta nossas vidas serão contadas a partir do antes e do depois dessa grande descoberta. Talvez até os tradicionais aC e o dC [antes de Cristo e depois de Cristo] sejam substituídos por aK22b e dK22b. Talvez esse seja apenas o primeiro planeta que invadiremos. Talvez consigamos expandir nosso poder de destruição pelo universo. Talvez nossas bombas e armas de guerra provoquem uma grande explosão futura. Quem sabe assim conseguiremos reproduzir a tão sonhada explosão que originou o big-bem. O problema é que talvez, diferentemente não originemos a vida, mas a morte e o fim da raça humana.

Boas reflexões para todos em 2012. Vamos rumo a Kepler!