quarta-feira, 21 de julho de 2010

HISTÓRIAS DO RECIFE -Capítulo III - As Travestis e a Prostituição
















Parada da Diversidade - São Paulo/2009

Travestis: Musas ou Deusas de Minha Rua?

Nos anos oitenta mudei-me do subúrbio para o centro do Recife, mas especificamente para um prédio meio esquisito, localizado no cruzamento entre a Rua da Concórdia e a Rua Marquez do Herval. Durante o dia, o centro da cidade era marcado por grande movimentação de homens, mulheres e crianças que se misturavam aos carros, motos, bicicletas e várias carroças, que se amontoavam e atrapalhavam o tráfego e as lojas de comercio. Essas carroças não eram puxadas por animais, mais sim por homens ou adolescentes, e às vezes até por mulheres ou meninas, que buscavam nas ruas as condições de subsistência e sobrevivência. Catavam papel, latas de refrigerantes ou cervejas, e muitas vezes, buscavam por comida, enfiando as mãos nos lixeiros mal conservados e mal cheirosos daquele corredor comercial. Era um mercado vivo e ambulante, composto por trabalhadores que vinham do metro ou do terminal de ônibus do Cais de Santa Rita. Tinham também os vendedores ou camelôs que circulavam pelas ruas apertadas, gritando seus produtos e seus preços. Assim, o burburinho desenfreado parecia avisar que a cidade nunca dormia, pelo menos naquele trecho, o que de fato acontecia, uma vez que, após o fechamento das lojas outro tipo de comércio se estabelecia no local (Souza Neto, 2009).

Era o “mercado de carnes humanas” que invadia a noite e atravessava a madrugada. Ainda no inicio da década de oitenta verificava-se grande movimentação em torno da Praça Joaquim Nabuco. Em uma das vias, existia um fliperama, antica casa de jogos eletrônicos, que parecem ter antecedido as famosas “Lan House” dos dias atuais. Tinha também o Cinema Moderno, onde hoje se encontra instalada uma loja de eletrodomésticos. Em um dos lados da praça fica o Restaurante Leite, um dos mais antigos e tradicionais, e que se mantém em funcionamento, mesmo com todo o processo de reestruturação urbanística e decadência local. Na outra extremidade da praça, basicamente na orla do Rio Capibaribe, que separa o Bairro de São José e o Bairro da Boa Vista, ainda encontra-se instalado o antigo “bem me quer”, ou mais conhecido como “quem me quer”. Uma espécie de parapeito em concreto, que forma um baluarte ao redor de todo o rio, se estendendo a sua outra margem que bate as portas do antigo Cais José Mariano.

Lembro que tantas vezes atravessei a praça, sem mesmo entender o que faziam aquelas pessoas, que por horas permaneciam sentadas, ou andando em círculos. Eram homens jovens e velhos e algumas mulheres, que também permaneciam paradas junto as paredes dos casarões antigos que povoavam o corredor comercial da concórdia. Alguns eram tão assíduos que se tornavam a mim, de certa forma, conhecidos de passagem. Tempos depois descobri que aquelas mulheres eram prostitutas, que ao cair da tarde chegavam a seus postos atrás de clientes. Então imaginei que os homens da praça seriam seus fregueses. Lerdo engano, pois que eram, de forma simplista, seus concorrentes.

É que naquela época já se configurava o conceito de territorialização da prostituição em Recife, fato desconhecido por mim e por muitos desavisados que não conseguiam de fato enxergar a cidade, mas apenas a viam, sem perceber suas mazelas sociais (entendem agora o conceito de invisibilidade social?). Explicando melhor, verificava-se que o trecho que compreendia a Praça Joaquim Nabuco até o cruzamento da Rua da Concórdia com a Rua Tobias Barreto, se consolidava o que se pode chamar de territórios da prostituição, que se dividia de forma muito organizada em subcategorias. Assim, na praça e fliperama circulavam os garotos de programa; do inicio da concórdia e transversais, como Ruas das Flores, abrangendo ainda Rua da Palma e Rua da Glória, eram as mulheres que batalhavam; e da Marques do Herval até a Tobias Barreto, desfilavam as travestis (Souza Neto, 2009). E neste sentido explico o uso do artigo feminino, por ter aprendido a me guiar pelo viés do gênero e não do sexo biológico. Logo, nossas identidades sexuais se estabelecem a partir do que nos reconhecemos, o que nos leva a entender as travestis como pessoas do feminino (esse ainda hoje é um excelente mote para acalorados debates acadêmicos e socias, claro).

Mas de minha janela podia vê-las em mini vestidos, com bundas e seios a mostra. Eram verdadeiras mulheres, extremamente, e muitas vezes exageradamente, maquiadas e arrumadas. Muitas eram loucas, mesmo tendo a pele morena ou negra. Autodenominavam-se mulheres e adotavam trejeitos e entonações vocais (se assim se pode chamar) no intuito de evidenciar o feminino. A enorme quantidade de adereços, entre pulseiras, brincos, colares, anéis e cintos, sinalizavam que ali não estavam mulheres comuns. Eram mais que isto. Eram seres “mitológicos” ou “lendários”, meio masculino, meio feminino, que perpetuavam fantasias e medos nas cabeças dos homens e a indignação das mulheres de família (Souza Neto, 2009).

Lembro-me de uma dessas louras, que passamos a chamar de “pentinho” devido ao habito de pentear os longos cabelos constantemente. Eram jovens em sua maioria, e logicamente sintonizadas com a última moda. Então se tornava comum vê-las em pequenas vestidos no melhor estilo “mate o velho”, ou pequenas blusas, tipo bustiê, que moldadas à base de “elastex” permaneciam justas e salientavam os seios. Esse tipo de indumentária facilitava ainda o movimento de sobe e desce, facilitando a exibição dos seios e bundas bombados (como se chamava na época) a base de óleo de avião, aos clientes que passavam andando ou em seus veículos.

Muitas vezes, elas passavam a noite inteira dando “pinta” e “fechando”. Não estavam ali atrás de clientes, mas talvez, apenas para se divertirem, conversarem ou desfilar a roupa nova. Iam as ruas pra se sentirem gente, livres e donas de suas próprias vidas, e isso só a noite podia lhes oferecer. A noite de certa forma, é sempre mais democrática. Não dizem mesmo que “no escuro todos os gatos são pardos”? Provavelmente porque, durante a noite as diferenças se tornam menos visíveis. Enxergamos menos na escuridão e talvez assim fiquemos menos críticos. À noite também tudo parece ser perdoado ou pelo menos amenizado. Talvez por que seja território masculino, da boemia e da caça pelos prazeres que não são possíveis na claridade dos lares. É como um jogo onde a fantasia parece dar as cartas e o breu ditar as regras e normas para se ganhar ou perder. E se durante o dia a norma social define os comportamentos e condutas aceitáveis, a noite parece existir para aliviar tensões e desejos perdoáveis. Dois mundos opostos regidos por grandes astros. Se o sol ilumina com seus raios dourado a honra aristocrática, a lua por sua vez, parece pratear a obscenidade democrática. Talvez por isso, a noite tenha se tornado o recanto, e por não dizer porto seguro dos desajuizados que teimam em contraria a norma médica e burguesa.

Mas esta mesma noite também liberava instintos e com eles seus perigos. A noite é à hora dos lobos que caçam implacavelmente suas vitimas. E a lua parecia permissiva ao contemplar as obscenidades, que não eram sexuais, mais sociais. Muitas das vezes pude acompanhar de “minha janela indiscreta” o ataque de animais raivosos e descontrolados. Era o limite da barbárie humana. Numa dessas “caçadas aos veados” promovidas pelos nobres filhos do sol aristocrático, vi uma das vitimas algemada em um poste ter o corpo encharcado por gasolina enquanto três fidalgos garotos se divertiam com isqueiros acesos. Era mais uma das tantas “Joana D´arc” a ser queimada para servir de exemplo aos hereges pecadores noturnos. Também assistir vários assassinatos comandados por um opala verde claro. Naquela época, matar travesti era diversão de rico. E nesse jogo de tiro ao alvo, as travestis tombavam as pés de um astuto caçador chamado Aracati.

Muitas histórias se contavam em relação a sua identidade. Alguns diziam ser um capitão (ou coronel) homofóbico, da policia, que queria restabelecer a ordem na cidade. Outros, porém, afirmavam ser vingança por ter sido roubado por uma das “travecas” (vulgarmente utilizado para denominá-las). Independente da origem ou motivos, o que se podia ver era uma verdadeira carnificina no centro da cidade. E o mais curioso, é que anos depois, quando da realização de minha pesquisa de mestrado (sim, é sobre prostituição, ou melhor, sobre as performances de gênero dos homens que se prostituem nas ruas do Recife), constatei não haver registros sobre o tão temido personagem e muito menos sobre suas vitimas.


Numa dessas emboscadas, uma das morenas de cabelos louros e longos foi atingida na virilha. Ela gritava de dor, caída ao chão. A polícia foi acionada para prestar o socorro (Afinal de contas não havia ainda as viaturas de pronto atendimento do disk 190. É esse o número?) e três policiais a pegaram pelos braços e pernas e a jogaram no camburão. Naquele momento a loura travesti já não era vítima e muito menos cidadã. E sim culpada por contrariar a ordem médica. Era uma espécie de bicho acuado que parecia assustar a noite com seus gritos de dor e protesto. E neste ponto, os tais policiais (heterossexuais de situação) bradavam eufóricos: "Tu não és mulher, então porque ta falando e chorando como homem?" (mas culturalmente homem chora?).

Refiro-me a esses homens da lei e do poder como heterossexuais de situação, por tê-los vistos, e outros muitos, em orgias sexuais com suas vitimas em plena rua (e logicamente diante de minha janela). Os tão temidos camburões da época transformavam-se mesmo em espaços para a satisfação de suas taras, pelas quais, logicamente não pagavam. E o serviço prestado servia como uma espécie de pedágio, ou como pagamento, não pela proteção, mas para que pudessem “trabalhar em paz”.


Nesse sentido, era interessante verificar o jogo que se estabelece entre quem subjuga e quem é subjugado. Se para os policiais e militares, que realizavam seus desejos sob o julgo da humilhação do outro, seus atos simbolizavam o poder e controle da situação; para as travestis parecia a inversão da situação, uma vez que também subjugava os pretensos heterossexuais de carteira, a ponto de não resistirem aos seus encantos e seduções. Desmoralizavam os machões viris ao mesmo tempo que eram também humilhadas. Estabelecia-se um jogo onde se misturavam os prazeres e desejos proporcionados pelos instintos, sejam eles sádicos, masoquistas, fetichista ou simplesmente fantasias sexuais impossíveis de serem realizadas durante o dia, ou em espaços regidos pela norma burguesa.

Em outras tantas situações, quando garotos de programa rondavam pela área, homens "fardados (ou fantasiados) de poder militar ou social" pareciam se transformar em frágeis fêmeas ao serem dominadas por seus machões, tão esteriotipados quanto eles próprios. Era a inversão de papéis experimentados sob a cumplicidade da lua. Era a quebra da norma que se tornava possível no escondido da noite.


Assim, passei anos me acostumando e conhecendo a dinâmica noturna, descobrindo personagens que povoam minha cidade. Acho que comecei a entender realmente alí o que se denominava papéis sociais (teoria de faculdade só serve se entendida e verificada na prática), pois que muitas vezes, encontrei durante o dia, algumas dessas pessoas portando de outras fantasias. Eram bancários, administradores, vendedores, politicos, desempregados, feirantes, advogados, médicos, professores e soldados, que muitas vezes levavam “vidas duplas”, talvez não por vontade própria ou consciente, mas por condicionantes temporais e situacionais para quem viveu os anos de ditadura cultural e militar.

Outra passagem que lembro refere-se à inserção de adolescentes e jovens no universo da prostituição. Uma das preferidas dos clientes, se muito tivesse completado quatorze anos, teria muito. Era de uma estatura mínima diante das adultas travestis de imensos saltos e de seus adultos clientes. Educada e treinada nas ruas, pelas professoras da vida e mais velhas, tornou-se mestra na arte de enganar e ludibriar os homens. De certa forma protegida pelo grupo, fugia das perseguições e batidas policiais. Mas, foi assassinada com menos de um ano de “batalha”. Não soubemos pelos jornais, mais sim pela declaração de guerra que anunciada na minha janela a cada travesti abatida. Nestes dias não tinha "programa" ou trabalho, pois que como amazonas, elas se preparavam para guerra e iam a forra. Era novamente o jogo de inversão, onde os nobres e plebeus tornavam-se vitimas e vilões. E o nível de violência não era diferente do que sofriam (seria uma espécie de dente por dente, olho por olho?). Era a lei da força que se estabelecia por quem detivesse o poder em determinado momento. E as ruas eram seus campos de batalha e ninguém conhecia melhor suas casamatas e trincheiras.

Também descobri nessas ruas, que prostituição e política andam juntas, ou são quase mesmo correlatas (desculpem, mas falo metaforicamente e não pretendo ofender as/os prostitutas/os). Teve até um dia que as ruas se transformaram em verdadeiro campo de guerra. É que desceu de um carro preto, um político tod empalitosado e bem conhecido. Alegava ele, ter sido assaltado por travestis que invadiram seu veiculo, ao parar num semáforo da redondeza. A polícia bem que tentou intervir no sentido de esclarecer a situação (tendenciosamente, lógico). Mas o tal politico conclamava seu prestigio e reutação moral (será mesmo que podia?). Acuadas, as travestis acusadas e que se diziam inocentes, sacaram suas giletes da boca e navalharam os próprios pulsos. Posso dizer que parecia filme de cinema. Daqueles de terror que jorra sangue para todos os lados (e sangue na época causava medo, lembram?). Ai, a situação terminou na imprensa e o tal político se afastou do cargo (penso que a política se tornou vitima de suas próprias vitimas, alguém discorda?).

E assim, convivi por anos no meu afastamento, que na época não era metodológico e acadêmico, mas social, com milhares de Sheylas, Michelles, Palomas, Vanusas, Lisas, Brigites e tantas outras, que em noites enluaradas cantavam suas alegrias e mágoas abaixo de minha janela. Eram as musas misteriosas, ou Iaras que cantavam próximas ao Rio Capibaribe e assim encantavam becos e corredores escuros, tornando a noite viva.


Mas antes de tudo, penso que eram seres humanos marginalizados, violentados e esquecidos no breu da estigmatização social. Seres da noite, pois que lhes era proibido e negado o dia. Pessoas presas e confinadas as ruas por falta de possibilidades, alternativas e ofertas para outras formas de trabalho (não mais dignas, mas talvez mais justas). Pessoas que continuam lutando, em pleno século XXI, para terem reconhecidas suas identidades, não sexuais, pois que já se reconhecem enquanto feminino, mas pelo reconhecimento da identidade social. Para que possam, ao menos, se reconhecerem pelo que se nomeiam: Robertas, Renatas, Sandras, Rosanas, Ednas, Moniques, Luzias, Naides e Monicas (...), e logicamente serem reconhecidas pelo que se reconhecem (será que entendem agora o papel das políticas publicas de inserção social, ou será necessário mais tempo aos politicos e gestores públicos?).

Assim, as tantas musas de minha rua que morreram em “batalha”, minhas homenagens. As que ainda vivem e/ou sobrevivem lutando por igualdade de direitos, meus respeitos. E a todas, meus agradecimentos por terem me ensinado o valor das diferenças e a importância da convivência pacifica e humana.

REFERENCIA
SOUZA NETO, E. N. Entre Boys e Frangos – análise das performances de gênero dos homens que se prostituem nas ruas do Recife. Dissertação de Mestrado – Programa de pós-graduação em psicologia – UFPE, 2009.
























Parada da Diversidade - São Paulo/2009


terça-feira, 20 de julho de 2010

HISTÓRIAS DO RECIFE - Capítulo II - A Prostituição Feminina

O Recife e a Prostituição



O resgate histórico do Recife me parece uma das tarefas mais difíceis e complexas. Seria necessário recorrer aos velhos registros, percorrer museus e arquivos públicos e conversar com pessoas de diferentes idades, que viveram diferentes épocas, na tentativa de encontrar informações precisas, além de um eixo matriz que possibilitasse uma definição cronológica dos fatos. Não que tal tipo de investimento acadêmico não me encante ou fascine, contudo, considero não ser esse o meu objetivo no momento. Assim optarei apenas por definir um viés pelo qual possa correlacionar história e mudanças (ou transformações) sociais ao longo dos anos. Também confesso me sentir mais seguro e confortável ao abordar um tema que pretensamente acredito dominar ou conhecer. Além de que, percebo na prostituição um elemento de fundamental importância para as possibilidades de se recontar e reconstituir as histórias de qualquer cidade brasileira. Considerando ainda a contemporaneidade de suas origens, prostituições e cidades misturam-se e confundem-se no tempo, e de certa forma, tornam-se indissociáveis.



Outro fator que julgo importante na escolha do “sexo pago” como viés para recontar a história de Recife, refere-se ao fato de que obrigatoriamente nos dias atuais se faz necessário falar de prostituição no plural. Contar das prostituições requer a reavaliação de antigos conceitos, ou como diria, preconceitos (que nada mais são do que conceitos previamente estabelecidos, alguém discorda?). Também se faz necessário considerar vários aspectos e fatores que contribuíram e contribuem para que a prática sexual comercial tenha se consolidado como uma das atividades comerciais mais antigas do mundo. E aqui esclareço que prefiro adotar atividade comercial no lugar de profissão porque muitas das pessoas que se prostituem, sejam mulheres, homens ou travestis, não a percebem como trabalho ou oficio, mas apenas como atividade temporária, em atendimento a determinados objetivos.



Inicio então evidenciando oposição ao que, de certa forma, todo mundo reconhece como verdade absoluta, e ao que vários estudos sobre a prostituição brasileira fortaleceram em nosso senso comum: a mulher como principal executora e principal personagem no cenário das práticas sexuais comerciais (Rago, 1996; Mazzieiro, 1998; Costa, 2004, Pasini, 2005). Alguns autores, por exemplo, ao analisarem as representações sociais da prostituição sob a ótica feminina, destacam a prática sexual comercial como uma atividade milenar, que tradicionalmente tem subvertido o exercício “controlado” da sexualidade via instituições sociais (Guimarães e Merchán-Hamann, 2005). Destacam ainda que em todo o percurso histórico do desenvolvimento brasileiro é facilmente verificada as várias tentativas de controle implementadas, ora pelas instituições religiosas, ora pelo Estado. E logicamente, neste sentido, acredito ser importante observar que a trajetória da concepção da prostituição no Brasil sofreu transformações marcantes de acordo com os conceitos e padrões sociais, bem como de conformidade com os fatos históricos de cada época, indo da “satanização”, até sua interdição através das leis proibitivas dos códigos civis.



Sabe-se, por exemplo, que a partir do final do século XIX, questões relativas ao comércio sexual na América do Sul estiveram diretamente relacionadas às questões do tráfico de mulheres européias, que eram trazidas de seus países de origem para se prostituir nas cidades portuárias (sim, também fomos vilões nessa história, e de certa forma, ainda o somos). Assim o Brasil esteve por muito tempo inserido no roteiro do tráfico internacional de mulheres, consideradas “escravas brancas”, que já nesta época se consolidava também no Novo Continente (alguém estudou isso nas aulas de história?). Alguns estudos ainda apontam que especificamente em cidades como Buenos Aires, na Argentina; e Rio de Janeiro, no Brasil, os debates sobre a prostituição se misturavam às discussões relativas ao trabalho doméstico infantil, a escravidão, as práticas coercitivas, bem como, sobre a intervenção do próprio Estado nas relações de trabalho (Pereira, 2005; Guimarães e Merchán-Hamann, 2005).



Na capital carioca, por exemplo, já na década 1840 os médicos passaram a conceber e a estudar a prostituição como “fato social”, utilizando-se da escravidão como referência obrigatória à metáfora da degradação moral. Destaca-se que esta correlação provavelmente tenha se dado devido ao fato da prostituição ter se constituído durante todo o período de regência da Corte Imperial, quase que exclusivamente por escravas negras (quem viu isso em história do Brasil?).



A partir de 1870, sobretudo com a chegada de um imenso contingente de trabalhadores europeus, tais metáforas tornaram-se generalizadas, como referências diretas à prostituição de mulheres estrangeiras. Assim, a expressão “escravidão branca” apesar de servir também para denunciar a exploração capitalista do trabalho feminino e infantil, por parte dos movimentos operários da época, tornou-se predominantemente associada à prostituição exercida forçosamente por mulheres européias em outros continentes (Cunha, 1845; Cf. Pereira, 2005). É obvio de se imaginar que a prostituição tenha causado diferentes repercussões em diferentes países da América, e que seus resultados variaram de acordo com as dimensões políticas e históricas de cada país. Desta forma, podemos sugerir que os diferentes fatores relacionados a significados particulares de cada cultura, configurações de gênero, bem como as práticas do comercio sexual de cada local, influenciaram diretamente na acomodação, mais ou menos conflituosa da prostituição em suas sociedades.



Mas no Brasil especificamente, constata-se que enquanto os “médicos e os homens da lei” se preocupavam em discutir a regulamentação da prostituição como medida profilática, e o tráfico de mulheres brancas como medida moralizante, as negras escravizadas permaneciam nas janelas das ruas centrais dos grandes cidades, tendo que se submeter à prostituição por imposição de seus senhorios (Será que já dá para se ter uma idéia sobre a importância dos tratados internacionais sobre direitos humanos?).



Ao se analisar o aspecto relacional entre a prostituição e o mundo boêmio nas grandes cidades brasileiras, podemos de certa forma, estabelecer o período de 1890 a 1940 como marco para o nascimento das antigas zonas de meretrício. Dentro desse contexto histórico, verifica-se que o processo de industrialização das cidades se configurou como principal fator desencadeante da imigração estrangeira para o Brasil, causando nos grandes centros urbanos um crescimento demográfico vertiginoso que exigiria das autoridades públicas o desenvolvimento de projetos e modelos de urbanização que possibilitassem a higienização das cidades. É aproximadamente neste período de ebulição que surgem, principalmente na capital paulista (mas também em Recife e cidades desenvolvidas), as confeitarias, os cafés-concertos, o teatro e o cinema, que se destinavam exclusivamente à diversão da família burguesa tradicional (Rago, 1996).



Fora desse eixo, quase que simultaneamente, foram instalados nas cidades os cabarés afrancesados, os clubes e os bordéis de luxo que se destinavam às prostitutas francesas, ou “afrancesadas”, que vinham em busca dos grandes e afortunados coronéis, que chegavam mesmo a “montar casa” para suas amantes. Este período parece também servir como marco da emergência das práticas sexuais de caráter comercial, desenvolvida por mulheres em toda a extensão do país, tanto que já no final do século, a prostituição é descrita por um dos maiores criminologistas da época como "um fenômeno social fatal necessário, mas que precisava ser controlado” (Cândido Motta, 1897; Cf. Mazzieiro, 1998). O então delegado Cândido Motta, também foi o responsável por instaurar no Brasil o primeiro instrumento legal de regulamentação da prostituição, composto por 220 regulamentos. E tal instrumento objetivava não apenas delimitar os espaços e os horários em que as prostitutas podiam exercer suas atividades, mas também, estabelecia as indumentárias e padrões de comportamentos para a prática da prostituição, com único intuito de resguardar a decência moral (Rago, 1996; Mazzieiro, 1998).



Observa-se então, que o cerne da questão não se concentrava na proibição da prática, mas unicamente na regulamentação da sexualidade feminina e no controle da prostituição. Era necessário estabelecer regras de boa convivência, conter os excessos e legitimar a prostituição feminina enquanto prática necessária que “explicava-se pelo derivativo que oferece às excitações genéricas muito intensas, sem a qual, não respeitariam, talvez, nem a infância, nem o lar doméstico" (Cândido Motta, 1897; Cf. Mazzieiro, 1998). E o Brasil, seguindo o modelo de controle instituído nos Estados Unidos (parece lógico, não?) nos anos cinquenta, tornou a proteção das crianças o principal argumento, como forma eficaz, para o apelo ao engajamento da população no enfrentamento à prostituição e à obscenidade; bem como, eficiente estratégia de controle e combate ao sexo comercial. A proteção das crianças configura-se ainda hoje como tática capaz de provocar a histeria erótica de massa, desencadeando um pavor contra a pornografia infantil, que tornaria os pedófilos tão estigmatizados quanto os homossexuais e os comunistas da era pós-guerra (Rubin, 1984).



E assim, os pressupostos higienistas impetraram à figura da prostituta um caráter inimigo a ser combatido por favorecer a degradação física e moral do homem, e por extensão, destruir as crianças e as famílias (Costa, 2004). Por isso se faria necessário impor o respeito à sexualidade dentro dos lares, para que as relações sexuais se mantivessem e se realizassem em conformidade com os padrões tradicionais e “naturais”. Para tanto os “desvios” precisaram ser combatidos e mantidos sobre controle rígido, a fim de se preservar e se garantir a reprodução vinculada à “sexualidade sadia” (entendem agora a relação Estado-Igreja?). Era preciso que o submundo da sexualidade fosse exercido, mas mantido distante dos lares, onde o sadio e o desvio não poderiam co-existir num mesmo espaço, “pois que não caberiam no mesmo teto, nem na mesma rua” (Mazzieiro, 1998).



Verificamos então que as formas institucionais concretas da sexualidade, em determinados momentos e lugares, sempre estiveram imbuídas de conflitos de interesse e manobras políticas (Rubin, 1984). Em São Paulo, por exemplo, por volta de 1913, com o acelerado desenvolvimento do comercio na capital, a prostituição tornou-se um problema de ordem pública, para o qual se fez necessário à adoção de medidas urgentes por parte do Estado, no sentido de reorganizar e “limpar” a cidade. A reforma urbana, iniciada em 1911, fez com que muitas casas particulares de prostituição localizadas na antiga zona de meretrício, onde “em cujas janelas, um pouco ocultas pelas venezianas, apareciam rostos de mulheres muito pintadas, convidando quem passasse a entrar” (Paulo Duarte, 1975; Cf. Rago, 1996), chegassem a desaparecer.



A preservação da moral figurava como principal justificava para as intervenções da policia, que passou a deter e, muitas vezes, fichar as prostitutas na Delegacia de Costumes. Assim, o período que marcou o fim dos tempos áureos da prostituição paulista caracterizou-se tanto pelo fechamento de várias casas noturnas, clubes e bordéis de luxo, bem como pela ação violenta da polícia, provocando o deslocamento das prostitutas para os bairros mais afastados do centro comercial.



Porém o período mais drástico, no que se refere à intervenção do Estado em relação à prostituição no Brasil, se deu durante a instalação do Estado Novo. Por volta de 1940, a prostituição em São Paulo foi confinada no bairro judeu do Bom Retiro, enquanto que no Rio de Janeiro, as prostitutas foram destinadas às regiões do Mangue. Com a ditadura, deu-se inicio ao processo de segregação e marginalização da prostituição no país, onde o fechamento das zonas de meretrício em 1954, por decisão do governo, fez com que as prostitutas passassem a fazer o “trottoir” nas ruas de diversos bairros paulistas e ficassem mais expostas e susceptíveis à violência policial (Rago, 1996). Surgia então, o artigo 282 do Código Penal Brasileiro, que passou a servir de base para a definição de punições a todo e qualquer cidadão que “ofendesse os bons costumes com exibições impudicas, atos ou gestos obscenos, atentatórios ao pudor e praticados em lugar público” (Mazzieiro, 1998).



Se sob a ótica legal, a prostituta tornou-se desqualificada e imoral e sua prática equiparada à vagabundagem e enquadrada como crime; no discurso médico, até meados da década de sessenta, as prostitutas foram classificadas e categorizadas como seres anormais, que padeciam da loucura ou degeneração inata (reducionista, não?). A construção dos estigmas relacionados à prostituição, bem como os mecanismos de respostas sociais de discriminação e preconceitos às práticas sexuais comerciais desenvolvidas ao longo dos tempos em nossa cultura resultou de sucessivos fatos históricos que centraram na “mulher de vida fácil” a responsabilidade pela disseminação de doenças adquiridas através do ato sexual (explicado porque Recife já foi denominado a Venérea Brasileira?).



De acordo com os pressupostos médicos e morais do início do século passado, a “meretriz” corrompia a moral feminina com seu comportamento sexual descontrolado. Ao manter relações sexuais por dinheiro e entregar-se à masturbação, à sodomia, e práticas antinaturais do gênero, a prostituta figurava como manual vivo da forma anti-higiênica de ser mulher. Assim, imaginou-se que essas perverteriam a moral da “mulher-mãe” com seu comportamento “incorrigível” e “irresponsável” para com a vida dos filhos, abortando-os, abandonando-os à Roda (excelente estratégia de proteção as crianças, criada pela Igreja Católica, não?) e expondo-os à imoralidade (Guimarães & Merchán-Hamann, 2005; Jurandir Costa, 2004).



Por sua vez, o discurso médico promulgava que o luxo era o pai espiritual da “mulher mundana”, e em sua esteira vinham os falsos prazeres, a moda, as diversões e todo o cortejo de condutas volúveis que impediam a mulher de amamentar (Costa, 2004). Em outras palavras, a prostituta por fim, corrompia a moral feminina por influenciar a mulher de classe média através do culto ao corpo, dos caprichos eróticos e da luxuria. Nesta ótica, a prostituição assume um caráter pejorativo e desviante da moral social, uma vez que, a sexualidade não estava estruturada a partir das relações de parentesco típicas, valorizadas pela moral dominante de uma sociedade pautada em relacionamentos estáveis. A moralidade social condenou a troca de parceiros sexuais ao estabelecer para a “mulher de bem” o casamento como modelo, e a reprodução como finalidade natural do sexo. Completando a tríade defensora da moral e dos bons costumes, o discurso religioso imputou as prostitutas o pecado por amar o luxo e a ociosidade, recaindo-lhes ainda, a acusação de atentar contra a mulher pobre e suas filhas, que atraídas pela luxuria e vaidade, poderiam vir a se prostituir também (Costa, 2004).



Especificamente em Recife, resgatar a história da prostituição torna-se um desafio quase impossível de concretização. Primeiro, por não se dispor de uma quantidade considerável de documentos e registros oficiais; e segundo, porque os poucos registros disponíveis centram-se no lado marginal vinculado a prática sexual comercial. Assim, pouco se sabe, mas muito se fala, sobre a dinâmica da prostituição que nos dias atuais tem provocado alterações significativas no cenário urbano e, por extensão, no comportamento dos recifenses. Saliento então, que as informações aqui apresentadas são resultado dos relatos de antigos moradores da cidade, boêmios e prostitutas que circulam pelas ruas e espaços de prostituição, bem como do garimpo realizado na internet e documentos confinados nos arquivos públicos, durante minha pesquisa de mestrado.



Na pouca literatura disponível, encontrei alguns dados que nos servirão de base para caracterizar o passado da capital pernambucana. Descobri por exemplo, que no século XVI o Bairro do Recife chegou a concentrar uma população de 27 mil pessoas por quilômetro quadrado, configurando-se como uma das maiores densidades demográficas já registradas pela história da humanidade (incrível, não?). Até o século XIX, tanto o lixo quanto a sujeira invadiam suas ruas estreitas. Para se ter uma breve idéia sobre a falta de infra-estrutura urbanística da época, destaca-se que a Rua do Bom Jesus era a mais larga do bairro. Nas demais as pessoas se acotovelavam, produzindo sujeira e caos (Será que mudou alguma coisa nos dias atuais? Talvez se deva perguntar ao atual prefeito João da Costa).



Nos registros do Instituto de Pesquisas Sociais da Fundação Joaquim Nabuco, constatei que no Porto do Recife, os boêmios perambulavam pelas madrugadas em busca das meretrizes, de bares, de bebidas alcoólicas, e/ou de amigos, e que as mulheres do bairro eram chamadas por Ascenso Ferreira (compositor, conhecem?) de “damas da noite” (Vainsencher, 2008). Durante três séculos o Porto do Recife, antes conhecido como “Arrecifes dos Navios” concentrou a vida e o cotidiano público e privado da sociedade pernambucana. A área da Alfândega era diariamente frequentada por homens e mulheres, ricos ou pobres, incluindo também os jagunços, escravos, meretrizes e mascates. Assim, verificamos que a vida noturna do bairro portuário sempre esteve ligada à boemia, às mulheres, à música, e, por que não dizer, também à prostituição, bem antiga em nossa velha metrópole (Cavalcanti, 1998).



Já no período de 1909 a 1927, o bairro passou por diversas reformas urbanas e no final da década de vinte, seu estilo arquitetônico inédito, foi classificado pelos especialistas como Eclético Novo-Recife (sem querer ser presunçoso, mas acho que sempre fomos o berço da arquitetura moderna brasileira). Em meio a toda essa modernização, o “Chanteclair” se destacava (Quem consegue me dizer quando serão concluídas as infindáveis obras de reforma? Alguém ainda lembra quando começaram?), instalado num conjunto de prédios formado por sete blocos independentes que foram projetados para atender às necessidades do porto do Recife. Concebido inicialmente como armazém, após sua desativação o prédio foi doado a Santa Casa de Misericórdia e transformado em uma das mais antigas e importantes casas de diversão da cidade.



No inicio de 1942, a sociedade pernambucana foi fortemente influenciada pela chegada das tropas americanas ao Porto do Recife, devido a Segunda Guerra Mundial. Os modos, procedimentos sociais e costumes da vida noturna dos recifenses foram radicalmente alterados e a história do Chanteclair passou a se confundir com a história boêmia do velho bairro e com a prostituição da cidade. Porém na década de sessenta, sofreu seu maior declínio, tornando-se o principal ponto de prostituição da região portuária.



No térreo, foram instalados os estabelecimentos comerciais e nos dois andares superiores as pensões onde as prostitutas moravam e recebiam seus clientes. Um dos empreendimentos comerciais mais badalados do local era o “Bar e Restaurante Gambrinus”, onde foi decretada a Constituição da República Independente do Recife Antigo, proclamada por um de seus ex-frequentadores mais assíduo e ilustre. Era o então ex-ministro Gustavo Krause que estabelecia que "no Bairro do Recife, situado do lado de baixo do Equador, ficava abolido o pecado".



Inaugurado em agosto de 1930, segundo o jornalista Sidney Motta, do Jornal o Beijo da Rua (2002), o Gambrinus foi o bar mais antigo do Bairro do Recife até o ano 2000, quando foi obrigado a fechar as portas para a restauração do Chanteclair (respondido as perguntas anteriores?). Em entrevista ao jornalista, o último proprietário do Gambrinus, Fernando Ribeiro Pereira, registrou uma das melhores passagens do local, destacando que em 1968, em visita a nossa cidade, a Rainha da Inglaterra ao ver tantas mulheres nas janelas, acenou por acreditar que estivesse sendo homenageada: “Quando a rainha passou, ela acenava para o alto. Para as meninas, sem saber que eram as putas e que sempre ocuparam os casarios antigos do bairro” (Motta, 2002).



Chamo a atenção para o fato de como a vida boêmia, bem como a própria prostituição no recife esteve, por muito tempo, atrelada economicamente a Igreja Católica. Digo isso, uma vez que tanto os donos das antigas boates, como as prostitutas que residiam e/ou realizavam os programas nos antigos casarões, eram em verdade inquilinos da Santa Casa de Misericórdia.



Para se entender melhor a dinâmica e o panorama de como a prostituição se desenvolveu e se mantém enquanto prática comercial institucionalizada em Recife se faz necessário considerar a influência dos fatores sociais e econômicos da capital, que destacados em tal entrevista me atrevo a reproduzir alguns trechos adiante. Na questão econômica, por exemplo, o Porto do Recife, figurou por muito tempo como impulsionador da prostituição, possibilitando a circulação de clientes nacionais e estrangeiros, garantindo a viabilização e a manutenção do desenvolvimento de práticas sexuais comerciais na região.



Com “o porto lotado de navios de várias nacionalidades... Tudo se cambiava por dólar", e a participação de estrangeiros na exploração da prostituição feminina, bem como no comércio local, fica evidenciado ao se constatar, por exemplo, que “quem explorava o Chanteclair eram dois portugueses, os irmãos Amorim”. Segundo Pereira, “eles ficaram ricos cobrando ingressos para se entrar no Chanteclair... o Gambrinus funcionava embaixo, como os outros estabelecimentos... e lá tudo mundo ia: usineiros, políticos, poetas e putas” (Cf. Motta, 2002).



Quanto às relações erótico-afetivas que se estabeleciam de forma mais estável entre as prostitutas e alguns clientes, destaca-se o fato de que “várias mulheres se casaram com ingleses e franceses, pois tudo se cambiava com dólar”. Esses casamentos e parcerias fixas, muitas vezes, favoreciam a mudança de status social das prostitutas que se tornavam “mulheres de bem” ou se estabeleciam como negociantes e/ou cafetinas.



“Teve uma, chamada Maria Matulão, que casou com um holandês e anos depois apareceu aqui já com os filhos criados. Sim, muitas se casavam. Algumas tinham as despesas da pensão pagas por usineiros. Muitos deles, quando enviuvavam, se casavam com elas. A Maria Magra foi prostituta aqui mesmo e depois virou dona de pensão. Casou com um comandante da marinha mercante, suíço ou sueco, está bem, morando num apartamento à beira-mar!” (Pereira; Cf. Motta, 2002).



Assim observa-se que dinâmica da prostituição no bairro era descrita ressaltando certo glamour saudosista, aliado ao requinte das prostitutas da época:



“As prostitutas do meu tempo, até os anos 60, não eram iguais às de hoje, não! Que andam de bunda de fora, de alpargatas ou de pé no chão. Elas andavam vestidas de longo, bom sapato e perfume francês. Só podiam descer da pensão a partir das nove horas da noite e ficar até as cinco da manhã, por determinação da polícia. Pra ser prostituta tinha que ter gabarito!” (Pereira; Cf. Motta, 2002).



As questões geográficas e espaciais, perfil dos clientes, status sócio-econômico dos mesmos, bem como o processo de naturalização da prostituição enquanto “ofício” e meio de circulação de renda no bairro, também é destacado:



“Todos os prédios eram da prostituição. A prostituição acompanhou a decadência do Porto do Recife. Isto aqui era cheio de vuco-vuco ou rendez-vous, como a gente chamava na época... a freqüência nos puteiros era muito misturada. O que mandava era o dólar, mas havia alemães, franceses, coreanos” (Pereira; Cf. Motta, 2002).



Já em relação aos processos de territorialização e mobilização da prostituição, ambos parecem diretamente relacionados a fatos e acontecimentos históricos nos quais a intervenção pública se fez presente. Inicialmente as prostitutas circulavam pelas ruas do centro, entre elas a:



“Rua Duque de Caxias, Rua das Flores, ali pelo Mercado São José e na Rua do Diário de Pernambuco. Em 1948, o chefe de polícia, Ramos de Freitas, transferiu as mulheres do Centro da cidade para o Bairro (Recife Antigo). Mas hoje elas estão voltando para lá” (Pereira; Cf. Motta, 2002).



Com a revitalização do Bairro Antigo a prostituição feminina voltou a ocupar os antigos espaços concentrados nos Bairros de São José e Santo Antonio. A Praça da Independência, conhecida como Pracinha do Diário, concentra hoje o maior número das prostitutas antigas, mulheres de meia idade, que se espalham ainda pela Rua da Concórdia e Av. Dantas Barreto. Um pouco mais afastados do centro, alguns espaços foram se estabelecendo como pontos de prostituição, entre estes, a Praça Sergio Loureto, a Praça de Afogados e trechos da Av. Norte (que hoje se chama Av. Norte Miguel Arraes, coincidência?).



Os riscos e a violência inerentes ao baixo meretrício e ao mundo da prostituição, bem como o processo de definição das áreas para atuação das prostitutas, pareciam ser definidos por subcategorias internas, assim:



“Não havia violência. Existia o batedor de carteira, o brigão que começava a beber... tinha a Rua da Guia, que era a região das prostitutas mais barra-pesada, mulheres valentes, todas cortadas de navalha” (Cf. Motta, 2002).



O processo de territorialização estabelecia uma segregação social que parecia explicitar o status social tanto das prostitutas quanto de seus clientes:



“Só quem ia com aquelas mulheres eram estivadores, indivíduos ignorantes que pegavam no pesado” (Cf. Motta, 2002).



Algumas generalizações relativas à identidade sexual e clandestinidade da prostituição também são explicitadas no testemunho do antigo boêmio empreendedor:



“tinha o Bacalhau, homossexual, que morava na Rua da Guia... O Lolita brigava com três policiais, lutava capoeira, e escapava de ser levado preso. Ele entrava sempre no Gambrinus pedindo dinheiro. Era moreno baixinho, mataram na Bahia. Um casal estava caminhando e ele passou a mão no rosto do homem. O cidadão levantou o paletó, tirou o revólver e deu dois tiros... Tem a Tereza, que hoje a gente chama de puta velha, mas na época ela não era assim não, gordona, era muito bonita e valentona, faturava feito o diabo. Mora até hoje aqui no Bairro! Ela diz que só sai daqui quando morrer” (Cf. Motta, 2002).



E por fim, a questão política aparece diretamente relacionada à decadência atual do baixo meretrício em Recife, como também ao fechamento do Bar Gambrinus, através da administração conservadora do então ex-prefeito Roberto Magalhães, que para o antigo proprietário, não valorizava a região. Neste sentido ele sentencia: "Mas, como confiar em quem não bebe, não fuma e não trepa?" (Cf. Motta, 2002).



Conclui-se então, que a prática sexual comercial sempre esteve presente na sociedade brasileira, gerando até os dias atuais exaustivas e polêmicas discussões. Aos pressupostos religiosos foram somados os discursos médicos, legais e higienistas, como forma eficaz no controle das condutas anti-sociais, anti-higiênicas e desmoralizantes praticadas pelas prostitutas. Ideais fundamentados numa concepção de prostituição enquanto ameaça a construção da família e às expectativas de edificação do Estado. Foi assim que o final do século XIX, e o início do XX, se configuraram como marco para a concepção brasileira da prostituição como mal necessário à preservação da moral da família burguesa, demarcando ainda o inicio do seu processo de criminalização e ameaça a vida social.



Era o fim dos anos dourados da prostituição brasileira e da boemia e irreverência do Recife antigo. Na década de oitenta, as práticas sexuais comerciais se expandiram pela Rua da Concórdia, que da minha janela, num terceiro andar de um prédio esquisito, pude observar, acompanhar e registrar todas as noites por aproximadamente dez anos. Mais isso ficará para o próximo capitulo.

REFERENCIAS:

CASTRO, Francisco J. Viveiros de. Atentados ao pudor (Estudos sobre as aberrações do instituto sexual). Rio de Janeiro, Editora Moderna. In: MAZZIEIRO, João Batista. 1998. Sexualidade criminalizada: prostituição e outros delitos. Revista Brasileira de História. Vol. 18, nº3 5 – São Paulo, 1895.

CASTRO, Francisco J. Viveiros de. Os delitos contra a honra da mulher. Rio de Janeiro, Freitas Barros. In: MAZZIEIRO, João Batista. 1998. Sexualidade criminalizada: prostituição e outros delitos. Revista Brasileira de História. Vol. 18, nº3 5 – São Paulo, 1932.

CAVALCANTI, Carlos Bezerra. O Recife e seus bairros. Recife/PE. Memorial Pernambucano, 1998.

COSTA, Jurandir Freire. Ordem médica e norma familiar. Rio de Janeiro, Editora Graal, 2004.

GUIMARÃES, Kátia; Merchán-Hamann, Edgar. Comercializando fantasias: a representação social da prostituição, dilemas da profissão e a construção da cidadania. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, Vol. 13, 2005.

MAZZIEIRO, João Batista. Sexualidade criminalizada: prostituição e outros delitos. Revista Brasileira de História. Vol. 18, nº3 5 – São Paulo, 1998.

MOTTA, Sidney. Papo cabeça com profissionais do sexo. Edição: Beijo da Rua, 2002.

PASINI, Elisiane. Sexo para quase todos: a prostituição feminina na Vila Mimosa, Cadernos Pagu, nº 25, 2005.

RAGO, Margareth. Feminizar é preciso: por uma cultura filógina. São Paulo/SP, Perspec., vol 15, nº 3, p. 53-66. ISSN 0102-8839, 2001.

RUBIN, Gayle. Notas para uma teoria radical da política da sexualidade. Original: Thinking Sex – notes for radical theory of the politics of sexuality, in Pleasure and Danger: exploring female sexuality, Carole s. Vance, org.. London, Routledge and Paul, 1984.

VAINSENCHER, Semira Adler. O Recife antigo. Recife/PE. Fundação Joaquim Nabuco. (http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode =16&pageCode=312&textCode=3129). 23/06/08: 14:07.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

HISTÓRIAS DO RECIFE – Uma Visão Pessoal


Capitulo I – A Origem

Há muito tenho pensado em escrever sobre a cidade do Recife. Mas precisamente sobre suas incoerências e contradições. Confesso que como residente do centro da cidade, me tornei de certa forma um “voyeur social” e gosto de observar, muitas vezes de minha janela, pessoas e comportamentos. E é engraçado perceber o quanto podemos nos integrar num processo coletivo que poderíamos chamar vulgarmente de “big brother urbano”, ou mais sofisticadamente como “grand frère urbain”. Talvez tal correlação se justifique porque posso dizer que moro em uma cidade vigiada (e porque não dizer sitiada) vinte e quatro horas por dia, por mais de quinhentas mil câmeras espalhadas pelas avenidas, ruas, becos, entornos, cantos e recantos do grande centro. Digo mesmo que hoje não conseguimos mais sair de nossas casas sem ser acompanhados, ou melhor, bisbilhotados por uns cem números desses equipamentos curiosos. São os olhos do Estado que nos vigia, para quem outorgamos esse poder. Mas isso é assunto que pretendo abordar adiante.

Por hora, esclareço apenas que não encontrarão em meus discursos simples relatos sobre a cultura local, ou ainda sobre as paradisíacas praias que margeiam nosso litoral, e menos ainda, sobre os pitorescos pontos turísticos que nos tornam um verdadeiro patrimônio histórico da humanidade a céu aberto. Encontrarão sim, as análises que consigo e gosto de fazer sobre fatos e situações corriqueiras. E também, logicamente, criticas sobre aspectos sociais e políticos que exprimem muito de nossa cultura e forma de vida.

Pretendo com isso abrir e provocar debates sobre conflitos atuais, diferenças sociais e processos de exclusões. Quero mais ainda, mostrar o outro lado da moeda, a cidade através da visão de quem está no outro lado, fora do aconchego dos edifícios luxuosos e confortáveis. De quem está fora das enormes quantidades de grades que pretensamente acreditam proteger a classe média e alta. E principalmente quero evidenciar a convivência (pacifica?) entre dois mundos que se abrem diante de meus olhos todos os dias: o diurno e o noturno.

Saliento apenas, como em anteriores escritos, que falo apenas de um lugar especifico - o de morador e habitante de um grande centro urbano. E por isso, minhas observações devem ser encaradas e entendidas como ponto de vista pessoal, construído e reconstruído a partir de minhas experiências e vivências, expectativas e perspectivas enquanto inquilino desse grande laboratório chamado Recife.

Assim, pretendo iniciar afirmando que sou pernambucano por natureza e logicamente tenho “orgulho de ser nordestino” por tradição. E tradição para nossa gente é coisa séria, que se deve respeitar. Porque como diria uma das mais belas homenagens, que cantada nos carnavais emocionam e nos enche de alegria, poderia resumir afirmando que “somos mamelucos, somos de casa forte, somos de Pernambuco e somos o Leão do Norte”. E neste sentido digo mesmo, que ser de Pernambuco significa de certa forma gostar de contar e ouvir histórias. E acima de tudo, claro, fazer também a história.

Então iniciarei dizendo que foi os nossos antepassados indígenas quem primeiro nos nomeou. Assim, prefiro dizer que nosso batismo é indígena e não católico, e se em tupi guarani (que deveria ser nossa língua oficial) nascemos “Paranampuka”, deveríamos nos denominar “Paranampukanos”, pois que somos filhos do “mar que bate nas pedras”. Como diz o velho ditado popular: “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, e é assim que nos vejo e percebo insistentes, persistentes e convictos. Somos fúria e calmaria ao mesmo tempo, pois que somos água. Somos guerreiros e pacificadores. Talvez por isso, uma das grandes e complicadas perguntas que sempre fiz na época de escola era como se podia dizer que o Brasil foi descoberto em 1500 se nossos ancestrais já corriam as matas e percorriam quilômetros de litorais há muitos séculos atrás. E é mesmo muito engraçado perceber como éramos contraditórios ao afirmar que quando os portugueses aqui chegaram, por um erro da navegação já que seguiam para as índias, encontraram a terra habitada por homens que andavam nus. Então nossa história começava por um erro do destino? Mas como, se na época das grandes conquistas “navegar já era preciso”? Como poderiam cometer um erro tão fantástico, e porque não dizer fantasioso, se os portugueses a época já dominavam a navegação e desbravavam mares longínquos? Ou devemos ainda crer que esses reis dos mares não sabiam ler mapas, e nem como nossos índios, se guiar pelas estrelas?

Considero pouco provável tais conjecturas, e assim prefiro acreditar que de certa forma herdamos sim de nossos compatriotas, uma espécie de adimiração irresponsável pelas grandes anedotas. Talvez tenhamos herdado também essa vocação cultural pelas mentiras, ou para ser mais ameno, pelas fantasias. Sei apenas, que de acordo com o que aprendi em salas de aulas, que esses mesmos portugueses levaram trinta e sete anos para nos “encontrar”. Sim, falo encontrar, primeiro porque nunca estivemos perdidos ou escondidos; e segundo porque se dormíamos nus sob as luzes de um céu estrelado, não tinham o que “descobrir”. Não havia lençóis naquela época e por isso já estávamos descobertos há tempos. Éramos expostos em espírito, inocência e também em sexualidade.

Mas o importante é que resolveram nos ensinar, e não sei “por que cargas d’água”, que em 1537 eles fundaram entre as águas dos rios Capibaribe e Beberibe uma espécie de colônia de pescadores, habitadas por pequenos comerciantes ou mascates que atravessaram o oceano em busca de novas oportunidades. Foram denominados “povos dos arrecifes” por se localizarem entre as margens do rio e do mar. O que nos leva a crer que habitávamos uma ilha. E aí relembro das minhas aulas de geografia da época, que nos ensinava a decorar que “ilha é uma porção de terra rodeada por água de todos os lados”. Será que éramos reducionistas a ponto de simplificar tanto as coisas? Ou imaginavam os ilustres professores que não tínhamos capacidade intelectual para introjetar e absorver mais informações relativas ao tema?

Mas eles, os professores reducionistas se limitavam a nos dizer apenas que aqueles eram povos perigosos e que ameaçavam a aristocracia que se elevava e protegia pelas altas ladeiras de Olinda. Assim, nossos conterrâneos, e logicamente bárbaros “descobridores” e afanadores, nos mantiveram colonizados por quase um século. Mas eis que em 1630 um conde malvado chegaria as nossas terras para acabar com a norma burguesa que separava os miseráveis “sem eiras e nem beiras” dos afortunados que ocupavam os grandes casarões de telhados ornados e decorados. Eles sim tinham beiras. E isso era sinônimo de status e riqueza. Mas aí os holandeses se apropriaram de nossas casas, queimaram Olinda e baniram os nossos “pobres descobridores”. E assim, em 1637 a antiga aldeia, que vivera a sombra da primeira capital pernambucana, transformou-se na “Nieuw Holland” ou Nova Holanda. Neste momento relembro, mais uma vez, meu período de escola onde escutava professores asseverando que os holandeses eram invasores injustos. E aí questiono sobre o que foram os portugueses na verdade? Caridosos viajantes que vieram em missão de paz? E se os holandeses eram bárbaros, como poderíamos ou deveríamos classificar os lusitanos? Mas interessante é pensar que os debates se restringiam a pontos de vistas a favor ou contra, de um ou de outro. Porém nunca me ensinaram o que acontecera com nossos antepassados. Foram os índios dizimados sem dó e sem piedade nos grandes massacres pela ocupação das terras? Ou simplesmente foram abduzidos por extraterrestres que os levaram em discos voadores luminosos para outras galáxias? E neste sentido, quem realmente eram os bárbaros? Portugueses, holandeses, indígenas ou os extraterrestres?. Nos livros de história não encontrávamos respostas para essas indagações (será que já conseguiram responde-las?). Será que “optamos” por omitir tal fato devido à menor importância que os mesmos representavam em relação ao processo de civilização?

E aí podemos pensar de que civilização estava se falando naquelas épocas? No conjunto de características próprias à vida social coletiva, que pode ser traduzido como cultura; ou, no tipo de sociedade resultante de um processo, ou o conjunto de suas realizações, em especial, aquele marcado por certo grau de desenvolvimento tecnológico, econômico e intelectual, considerando o adotado pelas sociedades ocidentais modernas, e que se caracterizam por diferenciação social, divisão do trabalho, urbanização e concentração de poder político e econômico? Provavelmente prevalecia o modelo europeu, visto como primeiro mundo, e por isso superior as culturas denominadas primitivas. Então podemos supor que civilização não é o oposto de cultura, e ainda, que cultura determina a civilização de um povo? E se assim o for, será que poderíamos ter entendido que os antigos índios brasileiros, e porque não dizer sul-americanos, tinham civilização própria? Dentro desse contexto prefiro deixar a cada um, o poder de refletir sobre o conceito de barbárie e/ou bárbaros, para que encontrem suas próprias respostas.

Mas voltando as nossas “histórias da carochinha”, com os vândalos (no sentido de invasores) chegaram os arquitetos e engenheiros. Registra-se até um tal de Pieter Post que se tornaria responsável pela definição dos traços arquitetônicos da antiga aldeia dos Arrecifes, que se transformaria numa Vila. Surgiram grande obras e edificações, entre elas, o primeiro observatório astronômico do Novo Mundo (como aprendemos a denominar o continente sul-americano). E com isso passamos a acreditar que estaríamos muito mais perto dos céus do que aqueles pobres indíos que não apenas falavam com as estrelas, mais nos escuros das matas se guiavam por elas.

No comando dos nossos novos invasores estava nosso grande e excêntrico visionário, o conde Maurício de Nassau (que era alemão e não holandês, e por isso se chamava Johann Moritz Von Nassau-Siegen). E com suas idéias extravagantes e civilizatórias (e por que não egocêntricas) criaria uma verdadeira fortaleza chamada de “Maurisstad”, ou mais comumente conhecida como terra Maurícia ou Mauricéia. Ergueram-se as pontes, diques e canais para interligar as ilhas, e construiu-se a maior e melhor malha ferroviária das Américas (só perdendo para cidade da Filadélfia, nos Estados Unidos), por onde escorreria nossas “doces riquezas” (Sim, falo da cana-de-açúcar enviada para a maior empresa holandesa, que pagava pelos feitos do admirável e civilizado conde europeu). Mas será que isso era roubo, ou apropriação indevida?

Por fim, e para abreviarmos a história, em 1823, já de volta a colonização portuguesa (talvez para nosso azar), a velha “Vila de Santo Antonio das Cacimbas do Recife do Porto” foi alçada a condição de cidade. Depois, e digo que não sei mais precisar em que data (será que os livros escolares atuais já conseguem?) nos tornamos apenas “Recife”, em direta referência aos antigos arrecifes repletos de atóis de corais avermelhados que cortavam o mar que banha nossa cidade. Assim, não poderíamos ser menos que a capital, pois que naturalmente somos mar que bate as pedras.

Hoje, conhecida como a “Veneza Brasileira” (mas em tempos passados, rotulada popularmente como “venérea brasileira”), Recife cresce e se desenvolve numa velocidade comum as grandes metrópoles. E também como os grandes centros urbanos, sofre com os benefícios e conseqüências de um crescimento populacional desenfreado. Assim atualmente vemos verdadeiras tribos, que não são mais indígenas, mas que se misturam, se acotovelam, dançam e se esbarram em ruas estreitas e mal estruturadas. São homens, mulheres, trabalhadores, desempregados, bêbados, pessoas em situação de rua, crianças exploradas sexualmente, pessoas com deficiências, prostitutas, travestis, boys de programa, e mais uma enormidade de personagens que dividem e/ou lutam por espaços e territórios, muitas vezes dentro de um mesmo perímetro.

E se durante o dia, o sol ilumina os “homens de bem”; à noite, a lua revela a outra face de uma bela cidade litorânea, mas que se mostra madrasta e corrupta a depender da sorte de quem a procura ou percorre. A quem se alvoroçar em desvendar seus encantos, a prudência. A quem se atrever a descortinar suas mazelas, feitiços e luxúrias se transformam em riscos de sedução. E ainda, a quem desejar conhecer suas verdades, se sobreviver a seus riscos e perigos poderá encontrar o fascínio. São as controvérsias de uma imensa cidade que se mostra múltipla e singular. Que se estabelece ao passo que concretiza diferenças, sejam elas étnicas, religiosas, sexuais, sociais ou culturais. E assim, se estabelece também em novas configurações espaciais e temporais, define e agrupa categorias de indivíduos em territórios estrategicamente escolhidos. Determina quem estigmatiza e quem é estigmatizado, quem subjetiva e quais serão subjetivados, ou ainda pior, quem objetifica e quais serão objetificados. Quem vende e quem compra, incluindo almas, vidas, corpos e prazeres. São as normas sociais, são as regras de um jogo difícil de entender e de se jogar, mas que a permite que se mantenha lindamente bela e tenebrosa ao mesmo tempo. Um jogo que acima de tudo possibilita que se perpetue misteriosamente irresistível e atraente.


Assim é Recife, assim é minha cidade e sua história.

domingo, 18 de julho de 2010

A HISTORIA DA MINHA VIDA - PARTE FINAL

Capítulo VIII – Lições de Minha História de Vida

Sintetizar quatro décadas de existência tem sido um grande desafio. Espanto-me ao perceber que minha anterior pretensão, que se restringia a contar e reavaliar minha vida em apenas poucos relatos, tenha se transformado numa narração tão extensa, e talvez cansativa ao leitor que por descuido se aventure a lê-la. Impressiona-me ainda mais verificar a quantidade de lembranças, boas em sua maioria, me chegaram e de certa forma se impuseram em minha narrativa. Sempre digo que a escrita tem vida própria, e muitas vezes, determina a forma e conteúdo de um texto. Algo involuntário termina definindo os caminhos e cabe ao autor o papel de simples instrumento pelo qual as palavras vão dando vida as histórias, mesmo ainda que esta seja sua própria história de vida. Acredito que escrever é uma arte, algo que se torna projetivo, permitindo imprimir uma característica própria e pessoal. E é assim, que agora relendo tudo que escrevi nestes últimos dias, percebo que cada história se torna rica apenas pelo simples fato de ser história. E ainda, mesmo que o personagem narrativo seja fictício, o que não é o caso aqui, revela muito de quem escreve. Acho mesmo, que não se escreve sobre alguém ou sobre qualquer coisa sem se falar um pouco de si mesmo.

Posso apenas dizer diante de tantas linhas escritas que aqui estou eu. Completamente exposto, e porque não dizer despido diante de tantos estranhos anônimos. E confesso ser inquietante verificar que pessoas que nunca conheci, e que provavelmente nunca irei conhecer passaram, a saber, sobre mim. Fiquei realmente impressionado também ao verificar que essa história não mais me pertence apenas, mas sim ao mundo, uma vez que os acessos ao blog registram lugares e países que só conheço geograficamente. A internet tem esse poder de tornar tudo instantâneo e imediato. Mais uma forma de se alcançar o mundo, e talvez perpetuar uma existência. Não avaliei ainda as consequências desse ato, porém acredito que se houverem serão apenas positivas.

Sei apenas que contar sua história de vida é talvez um ato de coragem, por possibilitar não só o conhecimento público de fatos muitas vezes guardados a sete chaves, mas principalmente por te remeter a um processo de auto-avaliação. É assim que me vejo, relembrando e reavaliando posicionamentos e posturas. Sei que algumas me causam orgulho, e que as faria exatamente da mesma forma; outras, no entanto, me surpreendem e revelam traços de uma personalidade que conheço, mas que de certa forma me dizem muito do que não sabia a meu respeito. Dizem de mim, da minha construção de caráter, de meus anseios e desejos, egoísmos e fragilidades. Essas muitas linhas me gritam condutas a serem reavaliadas e repensadas, mas não causam arrependimentos. De certa forma me proporcionam momentos de espontânea felicidade e diversão, uma vez que consigo perceber minhas próprias mudanças e conclusões de processos ou ciclos de vida. Assim, olhar para trás te trás saudades e saudosismos, mas trás também revelações ricas em detalhes sobre que és, e porque não dizer, sobre a pessoa em quem te transformasse.

Poderia mesmo, neste momento reavaliar minha relação com a religião católica. Sim, porque até certo momento de minha vida, posso dizer que fui católico, não apostólico romano, mas católico forçado. Como também fui torcedor do Sport (mesmo nunca tendo gostado verdadeiramente de futebol) por condicionamento e influência externa. Mas especificamente sobre a religião, relembro dois grandes momentos em que realmente pude sentir e certificar meu vinculo e ligação (que sempre digo direta) com o divino. O primeiro durante a infância, quando ao brincar com meus irmãos (que agora não lembro quais) fui empurrado de um batente do terraço de minha casa. Cairia sobre restos de um poste de concreto, que quebrado ao meio deixava exposto às ferragens internas. E foi como se voasse lentamente para meu destino trágico, até sentir uma força me impulsionar em outra direção. Sei que logicamente pode ter acontecido por um impulso involuntário, ou mesmo por extinto de sobrevivência que em situações de grande perigo nos revela forças desconhecidas. Porém, prefiro acreditar na intervenção divina. Sei que naquele momento meu anjo da guarda estava comigo (e felizmente bem atento). Dizem que “Deus” protege as crianças, e acho que realmente é uma grande verdade.

Outra situação que me fortalece tais vínculos ocorreu há poucos anos atrás. Estava em certa batalha ideológica (como muitas que vivi e viverei sempre que preciso) com uma antiga amiga (acredito que não possa mais denominá-la como tal, assim a definição servirá apenas para facilitar a escrita), por diferenças de conceitos e entendimentos relativos a condução de processos de trabalho. Na verdade sempre tivemos pontos de vistas diferentes, e de certa forma opostos, em várias outras situações e relações de trabalho (deve ser coisa de canceriano, já que ambos somos de julho). Mas o fato é que desta vez fui obrigado, por várias circunstancias, a recorrer à justiça (dos homens, e que por isso é cega). Começava meu inferno astral, como diriam os esotéricos. Fiquei endividado por uma divida que não era minha e cobrir despesas sem fundo de caixa. Confesso que entrei em crise. Não pelo dinheiro em si, mas pelo fato de ter sido traído e destratado por uma pessoa que usufruiu de minha amizade e bondade por quanto tempo lhe foi útil. Por ter sido enganado, difamado e prejudicado por uma pessoa, que inclusive teve as chaves de minha casa e acesso a minha privacidade. Por uma pessoa a quem sempre suportei e tentei administrar suas inconveniências e oportunismos por acreditar nos processos de mudanças pessoais. Sentia mágoa por ter sido afanado por uma pessoa que representava uma instituição séria, mas que a meu ver lhe proporcionava o falso poder comum às pessoas que confundem cargos de gestão com aquisição de força e autoritarismo. Por fim, estava tomado por um ódio que nunca experimentara antes e por uma sede de vingança que nos atormenta e aumenta a cada dia. Confesso que tenho certa dificuldade para lidar com as grandes injustiças, e aproveito para salientar que em relação a tal situação, essa é apenas minha versão dos fatos, o que não implica em verdade absoluta (fato que só a justiça poderá definir, assim espero).

Um dia fui levado até aos pés de Nossa Senhora da Conceição, e diante de sua imagem, chorei toda a mágoa que me sufocava e envenenava naqueles meses de ineficiência da justiça dos homens. Mas o fato é que senti mais uma vez um elo com o divino. Não precisava palavras, não se faziam necessárias as suplicas, pois naquele instante estávamos sós. Era uma relação de mim com uma força superior e invisível. Era uma relação de reencontro comigo mesmo. Olhei para o rosto da santa e sentir a tenacidade de seus olhos. Era como se me conhecesse em profundidade e em essência. O céu estava completamente azul, sem nuvens. Não havia vento e isso me deu a sensação de que o tempo tinha parado naquele exato momento mágico. Não conseguia desviar os olhos, pois estava numa espécie de transe, num momento indescritivelmente único (e como diriam os grandes psicólogos, fenomenológico). As lágrimas me escorriam pelo rosto e “eu chorava a cântaros”, como diria uma grande atriz amiga minha. Sentia uma quentura confortável que vinha daquela imagem e isso me lembrava o calor e aconchego maternal. E era exatamente isso que me parecia, estava sendo acolhido por minha própria mãe. Não sei precisar o quanto durou aquela experiência, mas acho que o suficiente para me esvaziar dos rancores. Já não sentia raiva, já não existia mágoa, mas apenas a plena certeza de perdão. Estava tranquilo e em paz comigo, ao mesmo tempo, que começava a entender a situação como decorrência da fragilidade de caráter que acomete algumas pessoas.

Não me tornei ou descobri católico após o fato. Apenas validei minha religiosidade, que não se enquadra nos moldes das religiões tradicionais. Mas que me satisfaz em plenitude da certeza de que estou ligado a uma força que rege as coisas. Talvez ao cosmo, por não encontrar outra nomenclatura que consiga traduzir minha forma de pensar. Sei apenas que o divino está em mim, e que este também sou eu. Assim minhas rezas tornam-se conversas, que provavelmente são comigo mesmo e impulsionam a força positiva que todo ser humano possui, mas que apenas muitas vezes, esquece de usá-la. O que quero dizer é que ao reescrever minha história encontro as devidas justificativas para tais posicionamentos. Aprendi durante minha trajetória que não preciso de códigos ou modelos propostos, mas que posso criar e até recriar meus próprios modelos. Seja sobre religiosidade, “time do coração”, posicionamento político ou filosófico, sempre seremos livres para buscar nossas próprias respostas e construir, ou não, as “formas” exatas, concretas ou simbólicas de nossas crenças pessoais.

Esses quarenta e quatro anos de vida me possibilitaram experiências e vivencias que me dão autonomia e respaldo para validar minhas próprias certezas e verdades. Não tenho só a idade atual, mas tenho guerras, catástrofes, regimes políticos e aberturas democráticas em meu currículo. Pude ver o mundo mudar e acompanhar suas mudanças, tenham sido elas inesperadas ou imprecisas. Mas são mudanças e somente isso. Aprendi que nos cabe refletir e decidir seguir em frente ou simplesmente abandonar a vida seja através de quais mecanismos ou formas. Durante esses anos enfrentei epidemias, crises econômicas, desastres climáticos. Perdi amigos de formas abruptas e inexplicáveis, sofri acidentes de carro, quebrei partes do corpo, fui assaltado, violentado de várias formas e modalidades, fui criticado, julgado por muitos, mas isso são apenas fatos. Acima de tudo, esses “anos dourados” me deram a certeza de que também fui amado e continuo amando muito, e não apenas aqueles com quem dividi minha intimidade, mas a todos que de uma forma ou de outra atravessam meus caminhos. Em diferentes intensidades, momentos e períodos, dediquei (e dedico) afeto e carinho. Os anos de minha vida me ensinaram acima de tudo o valor da tolerância e do perdão. Aprendi o sentido pleno de convivência e a importância da seletividade. Assim, escolho de certa forma a quem dedicar meus sentimentos mais puros, e com estes compartilhar momentos. Aos demais, tento dedicar respeito e atenção (digo tento porque sei que nem sempre consigo), mesmo que nem sempre seja possível estabelecer relações afetivas. Aprendi com a vida a não ter inimigos, mesmo que me considerem como tal. A não valorizar as tragédias, mas sim as conquistas.

Também aprendi que preciso me respeitar para me fazer respeitado, e isso num sentido mais amplo. Não me agrido em conveniências ou conformidades sociais do politicamente correto tão atual. Permito-me ser critico e magoar-me com as criticas que recebo, para posteriormente entende-las e assimilá-las. Porque respeito meu tempo e meus limites enquanto humano. Tornei-me diferente não por soberba ou sentimento de superioridade, mas por certeza de que sou único e individual como todos nós o somos. Descobri que sou critico não por petulância ou arrogância, mas porque aprendi e decidir ser sincero, e a não fazer tanto esforço para agradar por correr o risco de peder a naturalidade.

Aprendi a respeitar meu rio e me aventurar em suas correntes, mesmo que me tragam surpresas desagradáveis ou frustrações. E neste sentido digo que nenhuma frustração foi maior do que poder constatar que meu antigo reino, que se localizava num subúrbio chamado Camaragibe (e antes a gente escrevia com “j”) não era real. Ao retornar as minhas origens, talvez levado pelas águas do destino, pude constatar que o mesmo não passava de um pequeno lote de terra onde se entulhavam uma enorme quantidade de árvores, animais e dez crianças. A casa em sim era extremamente simples e as vias de acesso nunca foram encantadas. Não havia príncipes e princesas naquele lugar. Também não existiam comadres fulôrzinhas ou papa-figos e os céus não eram mais iluminados por fogos ou enfeitados por pipas (que a gente aprendeu a fazer e chamar de papagaio). Nada mais da minha infância ou adolescência estava ali, e sei logicamente nunca mais estarão.

Por outro lado descobri que as memórias jamais serão esquecidas e nada de nossa história se apaga definitivamente enquanto estivermos vivos ou as fizermos eternas. Assim, sei que meu reino viverá para sempre em mim e nas histórias que faço questão de contar. E não falo de lugar ou espaço determinado, pois que as belezas das coisas bem vividas se tornam atemporal. Vivi num lugar mágico e tive de certa forma uma vida de contos de fada que me fizeram criativo e sensível para viver o lado inverso da moeda. Os personagens, reais ou fictícios que povoaram minha história de vida seguirão comigo para sempre, porque aprendi que a magia se torna fundamental para espantar as mazelas da vida cotidiana e competitiva. Aquele lugar não existe mais porque o criamos e só através de nossas lembranças abrimos as portas que possibilitam um retorno salutar. Não é saudosismo, é riqueza de passado. Não é nostalgia e constatação de que a felicidade foi a base de nossas existências. Assim, aprendi a reverenciar meus pais e irmãos, que me proporcionaram histórias e experiências que contribuíram para consolidação de meus conceitos e caráter. A esses dedico meus agradecimentos e gratidão eterna por terem vivido e dividido comigo os momentos e fases mais importantes de minha vida, e por terem contribuído para que pudesse ter me tornado a pessoa que sou. Nem melhor e nem pior, apenas uma pessoa que se sente feliz e realizada em seus intentos e objetivos. E acima de tudo por terem me ensinado que a vida se aprende vivendo.

Sei apenas que o rio Capibaribe que cortava meu antigo reino, hoje corta a cidade onde resido. Não são as mesmas águas, pois que não sou a mesma pessoa. Transformo-me e renovo a cada dia como suas correntezas. Assim são os rios e assim sempre serão as pessoas. E neste sentido, gosto de me assemelhar ao grande Capibaribe que corre distancias, abre fronteiras e exige espaços. Essa é a dinâmica e lógica da vida. E assim pretendo seguir, até que minhas águas doces se acalmem e se percam para sempre no infinito do mar salgado.

Acho que é isso. Mas nesse momento confesso não saber terminar a história, talvez por que, por se tratar da história real de minha vida ela não finda agora. Afinal vivi apenas menos de sua metade. Quem sabe lá na frente, a mais quarenta e quatro anos (pelo menos) consiga complementá-la e definir um final. Neste momento peço apenas que sejam complacentes comigo, e se desejarem ou preferirem me ajudem a construir e escrever os próximos capítulos com as criticas ou comentários que julgarem pertinentes. Assim deixaremos, em certa medida, de ser estranhos anônimos uns aos outros, mas integrantes de uma grande história, que agora se torna coletiva.

E assim, como diriam meus pais: “entrou pela perna do pinto e saiu pela perna do pato. Senhor rei mandou dizer que contasse mais quatro”. E que a vida se encarregue por ela própria de contar o restante de nossas histórias.

Com carinho à:

Epitacio Filho e Alice Maria, Lidia Maria, Monica Maria, Rejane Maria, Eduardo Mozart, Verônica Maria, Eliel José, Ligia Valéria, Edson George e Pollyanne Conceição.

Meus sobrinhos, Hillus, Jullyana, Eduardo, Renan, Piêtros, Bruna, Rafael, Victor, Igor, Hugo, Brizza, Lucas e Georgia, e também aos cunhados e cunhadas, além dos sobrinhos-netos Iago e Alice.

Em especial a George Demetrios e Normando Viana, amigos irmãos, e a Danilo Cárias, amigo e assessor de comunicação.