quarta-feira, 9 de julho de 2014

BRASIL X ALEMANHA

SETE É CONTA DE MENTIROSO.

Primeiro gol, tristeza. Presságio de um jogo difícil. Segundo gol, surpresa. Silenciaram-se as ruas. Teríamos chances? A dúvida estampava rostos. Terceiro gol, incredulidade. O desalento aflorou as primeiras lágrimas. Quarto gol, derrota confirmada. Desilusão, frustração e abatimento. Quinto gol. Aquilo era indigno e causava confusão. Um massacre histórico diante de olhos estarrecidos. O amargor da derrota causou dor e sofrimento. Fomos abatidos impiedosamente em público, desonrados. A nação sentiu-se inerte, indefesa, fragilizada, perplexa diante da catástrofe. Esvaziaram-se as ruas. Torcedores acuados, calados, caminharam como sem rumo certo. O grito estrangulado incomodou e apagou os sorrisos. Que sensação estranha, inexplicável. Era um misto de dor com desamparo e sentimento de vazio.

Sexto gol. A vergonha virou piada de bar. Sétimo gol. Conta de mentiroso. E a mentira maior era nossa. Nunca tivemos verdadeiramente grandes chances. Sofremos com os patos mortos, apostamos forças, investimos pesado na emoção e redescobrimos a crença insana e utópica que nos transforma no país do futebol. O primeiro e único gol do Brasil contra a fortaleza alemã soou como espasmo de um paciente terminal. Livramos a buchuda em sinal de agonia antes de cerrar os olhos. A certeza de não sermos suficientemente fortes como pretendíamos, ou tentaram nos convencer, nos provocou a sensação de impotência. Fomos lubridiados por uma seleção milionária, moleque, ou pela mídia maquiavélica?

Não importa as respostas ou justificativas sobre o fracasso. Saber perder é parte do jogo, revela sabedoria e superioridade. Mas perder feio desse jeito é indigno. Sete eram os jogos para o campeonato. Sete foram os gols! Sete é conta de mentiroso! Simplesmente inaceitável! Terceiro lugar é consolo para tolo. Não somos os melhores do mundo, e uma pretensa vitória sobre a Argentina sábado não aliviará nossa frustração. Para mim a Copa Acabou ontem com a merecida vitória da Alemanha. Vou voltar a pensar e refletir sobre a Eleição que se aproxima para não ser ludibriado novamente. Até porque de engodo já estamos fartos. Mais importante do que torcer por uma seleção é escolher de forma consciente um postulante a Presidência da República. E isso sim, nos faz brasileiros. Até porque o orgulho ou vergonha que sentiremos pelos próximos quatro anos dependerá única e exclusivamente de cada um de nós. Assim, vamos investir energia no que realmente interessa. Os jogadores, patrocinadores e cartolas da Copa já estão com o futuro garantido. Agora é hora de garantirmos o nosso.


Eleições 2014. Mostra tua força Brasil.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

A MELHOR COPA DO MUNDO.



BOLA PRA FRENTE BRASIL!

Dia 28 de junho de 2014, meio dia de um sábado e tudo em cima da hora. Depois de uma noite de insônia, assistir ao jogo do Brasil contra o Chile não parecia uma alternativa, mas obrigação. Na cabeça apenas a certeza de que aquele seria o melhor jogo da copa do mundo! Nas ruas uma procissão de camisas amarelas seguia em frente, como pronta para a guerra. Com certeza uma das cenas inesquecíveis, considerando o clima de harmonia e felicidade que parecia invadir a cidade. O ronco do estômago, que exigia providências urgentes, não era menor do que o som das centenas de estridentes trombetas e cornetas bicolores. O relógio gritava o atraso. Dez minutos me restaria para atravessar ilhas interligadas por pontes intermináveis, encontrar um bom local e assistir ao jogo. Recife estava lindamente diferente. Havia vida no ar, a alegria substituía os contratempos do cotidiano de um centro urbano conturbado e desorganizado.

De frente ao Paço Alfandega milhões de pessoas se espremiam e se agitavam. A cada susto ou ameaça, um novo uivado coletivo. A bola passava longe, batia na trave, e as mãos se apertavam em preces. A religiosidade se fazia presente em suas diferentes formas e expressões. Não importava a doutrina, apenas o objetivo. Alguns se ajoelhavam em orações, enquanto outros oferendavam bebidas aos santos. Era a certeza e convicção de que Deus é brasileiro, e pelo jeito torce pela seleção canarinha. Religião, bebidas e futebol, temas complexos e que despertam emoções afloradas, às vezes descabidas, mas permitidas. A harmonia reinava nas diferenças fossem étnicas, raciais, de classes ou de identidades de gênero. Estranhos e desconhecidos se abraçavam, choravam, reclamavam, xingavam a mãe do juiz. A prorrogação provocou lamentos receosos. Mãos nas cabeças, murros no ar, gritos de desespero e lágrimas exprimiam a aflição generalizada. Um apito final nos condenava a uma espécie de mata-mata perigoso.

Como havia previsto, e temido, terminaríamos nos pênaltis. Defendemos o primeiro e o segundo. Erramos o terceiro e o quarto, para somente finalizarmos no ultimo e derradeiro chute. Um grito animalesco, que parecia preso em milhões de gargantas, me atravessou como uma onda de calor capaz de provocar arrepios. Era a vitória mais sofrida que já vivi em toda minha vida de leigo torcedor. Era belo e assustador ao mesmo tempo. Não representava apenas uma vitória no futebol, mas a energia investida de um povo. Era a catarse de uma gente guerreira, que acredita no país e em suas possibilidades de sucesso. Era uma expressão de raça, digna dos lutadores que vencem os próprios limites. Havia admiração e respeito nos rostos dos gringos. Havia uma alegria histérica que se transformava em festa. Aquele momento, que para mim será inesquecível, é a melhor representação visual do brasileiro.

Dia 04 de julho, faltando apenas dois dias para meu aniversário, uma nova empreitada. Brasil e Colômbia, a seleção de melhor campanha no mundial. O receio de ser derrotado era evidente na nova procissão que seguia determinada rumo ao Recife Antigo. A festa voltava às ruas e a cidade novamente se coloria de verde e amarelo. Impossível ao morador da Boa Vista ficar indiferente às manifestações da cidade. As pontes estavam tomadas, apinhadas de gente. Parecia uma nova versão do Galo da Madrugada. A diferença é que o verde e amarelo não parecia apenas fantasia, mas uniforme, roupa de guerra. A seleção estava também nas ruas com seus milhões de atacantes. Eram todos técnicos, eram todos capitães, comentaristas especializados, estrategistas e paliteiros. Eram todos guerreiros.

Na Fan Fest não havia mais espaço, não havia chão. Apenas centenas, milhares de pés enfiados em sapatos coloridos ou descalços. A frente outra centena de cabeças de diferentes formatos, cabeludas ou carecas, penteadas, desajeitadas, fantásticas, inquietas. A luta pelo melhor ângulo parecia estratégia de sobrevivência. No meio daquela multidão não vi o primeiro gol. Entendi que não veria os demais. O Recife Antigo estava totalmente tomado pela multidão. Na impossibilidade de permanência, resolvi buscar por um aparelho de televisão qualquer, em um bar qualquer, em uma rua qualquer. Na Madre de Deus um grupo de torcedores vibrava em frente a uma pequena tela. Um balcão serviu de abrigo e apoio. Aos poucos outros tantos frustrados se juntaram, formando uma torcida digna de um jogo de decisão. E lá estava eu novamente em meio a desconhecidos, gritando e vibrando com cada lance, cada nova tentativa de furar o bloqueio. Lá estavam novamente os gritos desesperados, os socos no ar, os aplausos do Neymar e os suspiros pela bunda do Hulk. Era o Brasil irreverente que espantava e fascinava estrangeiros ao mesmo tempo.

O mais belo gol foi do David Luiz e a prorrogação de cinco minutos a mais interminável do mundo. A contagem se tornou regressiva até o levantar do braço por parte do juiz, e mais uma vez o grito de alivio invadia a cidade. Impossível não se contagiar. Impossível não se sentir participante, não se sentir coletivo. Impossível não se emocionar diante da imagem dos jogadores enfileirados em campo, do hino nacional em lapela e na boca do maior couro popular do mundo. Certo ou errado, todos cantam, expressam o amor à pátria e a sua identidade. Nunca assisti uma copa no Brasil e não vou negar que o slogan “Somos Todos um Só” mexe comigo. Desperta o sentido de brasilidade, de nacionalismo ou nacionalidade. Afinal de contas, toda demonstração de patriotismo é sempre bela, mesmo quando bem exercido apenas nos momentos festivos. Assim, porque não me deixar alienar um pouco e seguir em frente, engrossando um cordão humano pra lá de barulhento, pra lá de festivo, pra lá de guerreiro?


Amanhã é Brasil contra Alemanha, a maior barreira do mundial de 2014. Vou sair pras ruas, me misturar ao povo. Vou ser, mais uma vez, povo também. Vou vestir verde e amarelo, buzinar, beber e me divertir. Vou me revigorar para enfrentar a próxima disputa, a próxima batalha em prol das mudanças necessárias. Sem sombra de dúvidas a mais importante para o Brasil, e que se fará nas urnas.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

A UTÓPICA SENSAÇÃO DE SEGURANÇA

15 DE MAIO DE 2014: O DIA EM QUE O RECIFE SE TRANCOU COM MEDO!

O Recife amanheceu diferente nesta quinta-feira! Como se a cidade não tivesse acordado, ou não quisesse levantar. O tempo parecia nublado, como anunciando algum pressagio, algo ruim, que não se sabia o que. A cidade parecia acuada e indefesa. A sensação de medo se estampava nos rostos dos que caminhavam intranquilos. Um cochicho, um lamento, um zumbido indecifrável. Um zum-zum-zum medonho. Pequenos grupos apreensivos buscavam noticias. Os boatos se espalhavam. Nunca vi recifense tão inquieto. Era a cara do medo.

As nove e trinta, tento voltar prá casa. Os alunos correram das faculdades, o comercio fechou, a praia esvaziou abaixo do sol quente. O transito na Beira Mar congestiona novamente, mas dessa vez é diferente. Há certa apreensão no ar. Alarmes sobre falsos arrastões se espalham e tiram o sossego. Motoristas buzinam o pânico que ameaça se tornar coletivo. O que fazer em uma situação de emergência? E se houver perseguição, bala perdida? Onde está a segurança prometida? A tranqüilidade vendida nos comerciais de governo? Quem mal cuida de um Estado, não consegue cuidar do Brasil!

Às onze horas alcanço a Boa Vista. As lojas mantêm as portas semi-abertas.  Muitas estão fechadas, repletas de funcionários acuados. Até o comercio ambulante desapareceu. Poucas pessoas transitam nas ruas, o que poderia ser sinal de paz. Mas ao contrário, os olhos se espicham ao longe, como se algo fosse esperado. Existe apreensão e angustia. As pessoas se olham desconfiadas, como se com medo da própria sombra. Um ruído maior e se acelera o passo. A sensação que tenho é que se alguém peidar mais alto o povo corre. Pequenos grupos comentam os saques na cidade vizinha e temem pelo improvável. Recife é rodeada por favelas. Corre o risco de ser invadida, depredada por vândalos. Não seria a primeira vez. Olho para o contingente de câmeras de monitoramento e penso na falsa segurança vendida nos discursos políticos. Quem não consegue garantir a ordem de uma cidade, não pode ser prepotente em achar que o fará no país.

Uma hora da tarde e a Conde da Boa Vista é tomada por motos, que gritam no asfalto. Centenas de homens e mulheres levantam as mãos em protesto aos baixos salários e as insatisfatórias condições de trabalho. São policiais exigindo segurança, reconhecimento, dignidade e respeito. A tensão toma conta da cidade e as pessoas correm para casa. O exercito desfila interditando passagens. A polícia bloqueia, agora é bloqueada nas ruas do Recife. O que esperar da falta de dialogo sempre marcou o governo? Quem não consegue se comunicar com seus conterrâneos, não saberá dialogar com a diversidade ideológica nacional.

Dezessete horas e os prédios se mostram repletos. Não é a primeira vez que o recifense se tranca acuado em casa. As grades estão em suas portas e janelas, mas a violência galopa nas ruas e avenidas estreitas e esburacadas, nos sinais fechados, nas esquinas e becos mal iluminados, coisas que não se monitora. A cidade é rodeada de desigualdades e em casos de rebeldias não se tem como fugir. Não há onde ou como se proteger. Assim, se fica a mercês da sorte ou se reza pra santo, porque proteção aqui, só divina. Não vem como deveria, como resultados dos altos impostos que pagamos. O recifense vive a utopia de um pacto pela vida que não se concretiza, insuficiente em divisão de renda, em educação e saúde de qualidade, redutores de violência. Mas, quem só conhece e se guia pela repressão e opressão, não contribuirá para a redemocratização de um país.

Dois dias de greve da polícia e bombeiros é mais que suficiente para fazer Pernambuco tremer, pois que nossa segurança é insólita e não real. Rotinas alteradas, economia comprometida, saques, assaltos, tumulto e tiroteio. Confusão, apreensão e medo são reflexos da fragilidade de algo que não se efetiva, a não ser na produção de números estatísticos que não revelam a realidade vivida e sentida. Estamos entre as dezesseis cidades mais violentas do Brasil, e entre as cinquenta mais violentas do mundo. Temos um dos maiores contingentes de população carcerária e presídios frágeis e insipientes, que em nada favorecem a [re]socialização. Temos câmeras nas ruas, grades em portas e janelas, mas não temos um dos fundamentais direitos constitucionais, o de ir e vir, livres e sem medo.


Por isso, chega de indigestão. De indigesta gestão. Tapioca com Açaí não combina, não rima, não afina, e muito menos alimenta uma nação de famintos por direitos como o Brasil!

quarta-feira, 9 de abril de 2014

QUEM TIVER SEUS BODES QUE OS EDUQUE!

Quem tiver suas cabritas que prenda, porque meu bode está solto! É incrível pensar que o famoso ditado popular, comum em minha infância, ainda seja repetido e ensinado como regra de comportamento em muitas cidades Brasil. O conceito em si, prega que os meninos têm por “natureza” um ímpeto sexual, quase insaciável, e logicamente incontrolável, que pode colocar em risco a integridade das meninas. Cabe então, exclusivamente a elas tomarem os devidos cuidados e se resguardarem, a fim de conservarem a tão cobiçada honra, o que lhes garantiria uma vida plena enquanto mulheres causadouras e honestas. Sem honra a menina será automaticamente destituída da condição de mulher. Diria que há quatro décadas tal modalidade de violência moral e nefasta seria até compreensível [e não entenda justificável], considerando a falta de informação e o não acesso a educação de qualidade durante os anos da ditadura militar. Naquela época mulher realmente não tinha vez, e nem mesmo era reconhecida como sujeito de direito. Porém, estamos em pleno século XXI, e é incrível que os costumes pareçam inalterados, consolidando uma falsa e hipócrita superioridade dos homens sobre as mulheres. 

Mais incrível ainda é constatar que as próprias mulheres [principais alvos e vitimas da violência de gênero], principalmente na condição de mães, e por extensão de educadoras, perpetuam a lógica da violência através da educação de seus próprios filhos, futuros agressores. Os meninos podem tudo, inclusive violar as meninas. As cabritas dos outros deixam de ser vistas como meninas e passam a condição de assanhadas ou safadas, alvos naturais dos potenciais garonhões que tanto orgulharão suas genitoras. Mas se há de pensar: triste da filha dessa mãe, que for vitima do garanhão alheio. Até porque, como salienta outro ditado popular: pimenta nos “olhos” dos outros é refresco. Tristes também das mães brasileiras que de tão violentadas em sua moral e cidadania incorporaram a cruel sentença machista, principal motivo das várias mortes no país. Considerando nossa realidade cultural, que representa um atraso e entrave para o estabelecimento de uma sociedade mais democrática e igualitária, e, consequentemente, para o desenvolvimento do país, não é de se estranhar os resultados da ultima pesquisa publicada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, divulgada no ultimo dia 27 de março, sobre a tolerância social do brasileiro sobre a violência contra as mulheres. E se o fato não é de se estranhar, é com certeza de temer, pois revela uma tolerância nefasta e indigna com a violência. Os resultados do estudo revelam um retrato cruel de nossa sociedade, principalmente considerando que 65% dos entrevistados eram mulheres, muitas delas mães que estão educando seus filhos para serem futuros violadores dos direitos das próprias mulheres. 

Considerando ainda que o Brasil sempre foi, e continua sendo, um dos países que mais mata mulheres no mundo; e que, a cada cinco minutos uma mulher brasileira é vitima da violência cometida pelos machões de carteirinhas, talvez possamos começar a reavaliar urgentemente nossos conceitos relativos as diferenças de gênero. Não dá para pensar em mudança de comportamento sem acesso a educação de qualidade, e aí, logicamente cabe ao Estado garantir tal direito. Não apenas com políticas públicas de proteção e combate a violência, mas principalmente com políticas de prevenção, e neste caminho a educação é a única solução. É fundamental entender que a punição é o resultado da ineficiência política que assola o país, pois que só será aplicado depois de cometido o delito. Mas, como nos diz mais um dito popular, “aí é tarde, a Inês é morta!”. Ou seja, “Não adianta chorar por leite derramado”. A violência tem que ser combatida em sua base, e esta está na formação do cidadão comum. É na escola, durante os primeiros anos que a criança, independente do sexo, e da orientação sexual, deve aprender e incorporar os princípios de civilidade e principalmente das noções de direitos e respeito às diferenças. Mas a escola é complementar da família. Logo, cabe aos pais primar pela educação dos filhos, iniciando-o na convivência social. 

A educação transforma, inclusive os velhos costumes. No cotidiano, é preciso inverter a lógica nos atos práticos e cotidianos, ensinando a nossos filhos, sobrinhos, netos, que homem que bate em mulher não é machão, mas sim marginal. E todo delinquente precisa ser severamente punido e responsabilizado por seus atos. Na mesma lógica, precisamos ensinar que mulher que apanha de marido ou de companheiro, namorado, parentes, não é safada, e sim vítima de uma sociedade machista. Do sistema sociopolítico e sexista que nós mesmos construímos. É inadmissível constatar, por exemplo, que nos dias atuais mais de 26% dos brasileiros concordem que mulheres que usam roupas decotadas ou que mostram partes do corpo mereçam ser atacadas. Assim como também é inaceitável que 58% da população acreditem que se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros. Esse tipo de posicionamento só revela a força da tradição [ou contradição]. Mas se roupa fechada fosse impeditivo de estupro, as muçulmanas não eram violentadas sexualmente. Se comportamento adequado [estabelecidos secularmente pelos homens como forma de coerção as mulheres] fosse impeditivo de violência, crianças e adolescentes não eram abusas ou exploradas sexualmente por seus pais, avôs, tios, irmão, primos... 

Então o problema não está nas roupas ou comportamentos sedutores e/ou convidativos das mulheres, mas única e exclusivamente na cultura. O corpo é um bem privado, cabendo a cada um fazer bom uso do mesmo. Mas isso só é possível com autonomia, direito de todo ser humano. Mulher com perna de fora ou decote saliente não está pedindo para ser estuprada ou assediada moral ou sexualmente. Assim como quem sai com um relógio caro, uma joia valiosa ou um carro do ano não está pedindo para ser assaltado ou morto. Pensar sob a culpabilidade da vítima é abdicar dos direitos, das próprias responsabilidades, e pior ainda, banalizar a violência. É preciso considerar que a tradição se configura como um conjunto de regras e normas, que se tornam costumes definidos coletivamente para possibilitar a harmoniosa convivência social. Neste sentido, um costume só se torna tradição quando deixa de ser questionado pelo grande grupo social. Um conjunto de tradições forma a cultura de um povo. Logo, nada é natural, mas apenas reflexos ou resultados de construções sociais. A violência também é uma construção humana. E toda construção pode e deve ser desconstruída, dando espaço a novas [re]construções que atendam as novas demandas e anseios da sociedade. E é exatamente isso que estamos fazendo com a violência contra as mulheres. Deixando de questionar e rever velhos conceitos e regras que já não atendem ao coletivo, mas apenas a um segmento da população – os homens ultraconservadores, que não conseguem se enxergar ou se firmar enquanto homens de verdade longe do poder da coação e da força bruta. 

Uma sociedade que afirma que existe mulher para casar e mulher para cama; assim como afirma que a mulher deve atender aos desejos sexuais do homem mesmo contra sua vontade, não pode ser vista ou entendida como civilizada, e muito menos como democrática. Este é o retrato da barbárie e da selvageria, caracterizado pelo silencio imposto diante do estupro domiciliar, cometido cotidianamente pelos próprios maridos no privado dos lares. Subjugação não é amor ou demonstração de carinho ou afeto, é violência! Se deixar ser penetrada ou mexida sem vontade não é devoção, respeito ou obrigação para com o companheiro, mas sim, estupro! Violência contra mulher não é natural, é animalesco, um dos crimes mais hediondos contra a humanidade. O silenciar diante da violência não pode mais ser visto ou tolerado como estratégia de sobrevivência, pois quem cala termina por consentir, mesmo que involuntariamente. Denunciar é a única forma de combate eficiente. Por isso, essa história de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher” é balela. Até por que omissão também é crime! Sociedade civilizada é que s utiliza de seus direitos para combater suas próprias mazelas. E a violência, em todas as suas modalidades e expressões, é uma mazela que vem se alastrando pelo país e contaminando populações. 

Só se transforma uma cultura, quando transformamos primeiro a nós mesmos. Só se muda costume, quando refletimos sobre eles e percebemos sua inutilidade ou falta de aplicabilidade sensata e justa. E aí vale uma excelente reflexão, pois mais curta do que as roupas das mulheres devem ser nossa vergonha e tolerância diante da violência. Até porque mais indecente do que suas vestes ou comportamentos é o ato de contribuir, mesmo que de forma inconsciente, para a manutenção de uma sociedade injusta e desigual, respaldada no machismo ultraconservador e perigoso. Mudemos então nossas próprias atitudes, para depois pensar em mudar o mundo! Combater a violência contra as mulheres e as minorias não é um papel exclusivo do Estado, mas de cada um de nós. Transforme você mesmo a educação dos seus filhos, netos, sobrinhos.., para que num futuro não tão distante possamos alcançar definitivamente a civilização. As mulheres não podem mais ser destituídas de sua condição ou essência, comparadas a cabritas, santas ou putas, pois que estas rotulações são por demais limitantes e preconceituosas. As mulheres precisam, e têm o direito de serem reconhecidas enquanto mulheres, enquanto sujeitos de direitos e donas de suas autonomias, inclusive para usar ou mostrar o corpo sem o risco de serem violadas ou ultrajadas. Assim, quem tiver seus bodes garanhões e irracionais que os eduque de forma correta, pois que violência é crime, e a irracionalidade somente deve ser permitida aos animais.

sábado, 15 de março de 2014

CORRUPÇÃO, MENSALÃO, ELEIÇÃO E EDUCAÇÃO - VERGONHOSAS ABOMINAÇÕES BRASILEIRAS


A EDUCAÇÃO E A CORRUPÇÃO NO BRASIL

Enquanto José Dirceu e companhia comemora a absolvição do crime de formação de quadrilha no esquema do mensalão, uma professora declara que precisa utilizar os matos que rodeiam a unidade escolar, onde trabalha, por falta de banheiro. - Os garotos vão atrás da escola e as meninas utilizam o matinho. Nós também utilizamos o mato - Diz ela revelando a vergonha comum aos indignados e impotentes. Mas vergonha mesmo, não deveriam sentir todos nós brasileiros diante de tais situações de permissividade danosa e nefasta? Enquanto os corruptos do mensalão são beneficiados pelos conchavos políticos, os estudantes brasileiros são punidos e alienados de seus direitos básicos. Sem educação não há desenvolvimento. Sem educação não há consciência política e muito menos autonomia cidadã. Sem educação não se combate a corrupção. Disso, os políticos já sabem e se aproveitam. Mas, será que o mesmo é sabido pela população em geral?

A situação das escolas públicas no estado do Maranhão citada acima, não é menos degradante do que a vivenciada por professores e alunos do estado de Pernambuco. Apesar das campanhas panfletárias e politiqueiras que tentam camuflar uma situação que já ultrapassa os limites da tolerância e da vergonha, a escola pública continua abandonada e os alunos tratados como cidadãos de segunda classe. Enquanto os políticos corruptos envolvidos no maior escândalo de desvio de verbas para financiamento de campanhas políticas poderão em menos de um ano estar de volta a suas casas, em Jaboatão dos Guararapes, cidade vizinha de Recife, capital do Estado, crianças precisam ser carregadas nos braços para chegar às unidades de ensino devido às dificuldades de acesso. Na frente das escolas públicas do município, valas a céu aberto escoam o esgoto contaminado e fétido, comprometendo a saúde da população; enquanto no Brasil inteiro o dinheiro do cidadão escoa pelo ralo da roubalheira política.

Enquanto nas unidades de ensino fundamental a água da chuva alaga as ruas, abrindo crateras que se transformam em verdadeiras lagoas de lama; na Suprema Côrte, a sujeira e o lamaçal da corrupção se configuram na vergonhosa impunidade cotidiana. A água também invade as salas de aulas repletas de cadeiras quebradas e sem a mínima condição de conforto ou segurança. Nestas, os banheiros danificados, impróprios, imundos e emporcalhados, mais parecem cenários de filmes de terror; mas, no Complexo Prisional da Papuda, onde os mensaleiros passam férias, as instalações mais parecem com as de um hotel de luxo. Enquanto os espertos surrupiadores reclamam a falta de água quente nos chuveiros; crianças e adolescentes das escolas públicas bebem água contaminada em copos improvisados que compartilham entre si. Os próprios profissionais da educação do município de Jaboatão reconhecem e denunciam a procedência da água impura e perigosa, que diariamente é servida aos alunos que insistem em frequentar a escola. E para não se dizer que se trata de um caso isolado, em Petrolina, a Secretaria de Educação tentou evitar a exposição calamitosa e vergonhosa da educação pública municipal, trocando, às pressas, as cadeiras das salas de aula, três dias depois da reportagem do Fantástico, programa apresentado em nível nacional aos domingos pela Rede Globo.

Esses são apenas pequenos exemplos da situação caótica e abominável da educação pública no Brasil, e principalmente no Nordeste. Não sei se minha indignação é maior enquanto cidadão ou enquanto professor. Educação Básica de qualidade é direito fundamental, previsto na nossa Constituição Federal, Estatuto da Criança e Adolescente, além de constar como premissa e princípios fundamentais ao desenvolvimento saudável, seja em importantes acordos ou tratados internacionais. Mas nada disso parece suficientemente importante aos políticos, que ainda vêm no analfabetismo uma forma de controle do voto, e consequentemente do poder. Apesar da retórica politiqueira, o descompromisso e descaso com a educação é uma moléstia nacional. Uma praga que se alastra e se propaga por todas as regiões, estados e municípios. Educar para quê? Povo educado é povo esclarecido, autônomo e consciente de seus direitos. Povo educado não vota em bandido, corrupto ou demagogo. Povo educado vai às ruas e exige mudanças através das urnas. Povo educado derruba governos. Disso, os políticos corruptos já sabem e se aproveitam! Mas, será que o mesmo é sabido pela população em geral?

Igualdade de justiça também é um direito estabelecido pela Constituição Federal e em todos os códigos jurídicos. Mas quem acredita em sua prática? E em sua eficácia, neutralidade e imparcialidade? Quais exemplos temos tido como referência no país? Sem educação não existe justiça, isso é certo. Mas, sem justiça séria não existe educação de qualidade. E se no Brasil, a primeira não cumpre com seu papel fundamental, que é o da transparência e legitimidade, não se pode pensar em garantia de educação de qualidade para todos. Em um país onde a justiça é cega, não falando metaforicamente, a educação oferecida só reforça as desigualdades sociais e as exclusões. Reforça-se também, as vantagens dos apadrinhados, do corporativismo, da malandragem, da esperteza e do voto de cabresto.

Não é contraditório, por exemplo, distribuir tablets e enviar alunos ao exterior enquanto as escolas não cumprem com seu papel básico, que é o de ensinar e preparar o sujeito para o mundo? De que adianta tanta tecnologia moderna, exaustivamente divulgadas em propagandas eleitoreiras, se não é ensinado o exercício da reflexão e os princípios e direitos de cidadania? Nossa educação continua, mesmo depois da ditadura, única exclusivamente voltada ao preparo do aluno para o mundo do trabalho. Ainda não tem pretensões verdadeiras de educar o aluno para o desenvolvimento intelectual e pessoal. O foco é única e exclusivamente o mercado do trabalho, que exige cada vez mais qualificação, e logicamente o desenvolvimento de competências e habilidades, principalmente cognitivas, que vão muito mais além de saber escrever o nome, ou decorar que 2+2 é igual a 04. Para que servem Tablets e computadores de ultima geração em escolas que apenas produzem analfabetos funcionais? Também não é contraditório verificar que os próprios profissionais da educação não sabem utilizá-los? Também não se tornam motivos de gozação quando as escolas não dispõem de internet, fato bastante comum no interior e áreas rurais dos estados nordestinos? Mas se nas escolas falta acesso, na Papuda, os mensaleiros continuam se comunicando a vontade através dos recursos tecnológicos. Da mesma maneira que os traficantes continuam comandando seus negócios atrás das grades. Muitas vezes, esses mesmos recursos servem como moeda de troca para quem não tem o que comer em casa, e muito menos nas escolas, porque provavelmente a verba da merenda foi desviada. Também não é raro que professores repassarem seus equipamentos aos filhos, sobrinhos, netos, quando não os utilizam em escambos.

Em minha humilde concepção sociopolítica, o faz de conta é sempre tão abominável quanto o não fazer nada. O enganar é tão ou mais prejudicial do que negar. Neste cenário de mentiras e hipocrisias éticas e morais em que vivemos tirar de quem tem para favorecer os pobres seria até plausível, considerando as premissas hobinhoodianas. Mas, roubar de quem já não tem nada para favorecer e enriquecer quem já mama as custa de nossos altíssimos impostos, é no mínimo vergonhoso e abominável. É realmente ultrajante o descompromisso e ineficiência com que se administra e gere o dinheiro público no Brasil. A falta de vergonha na cara dos políticos corruptos é reflexo e resultado direto do péssimo nível de qualidade da educação brasileira, assim também como os são os sentimentos de inercia e a impotência da população diante dos sucessivos escândalos envolvendo desfalques nos cofres públicos. Sem educação de qualidade não há autonomia, muito menos intolerância aos descasos. Disso os políticos corruptos já sabem e se aproveitam. Mas será que o mesmo é sabido pela população em geral?

Negar direitos fundamentais ao desenvolvimento saudável da população é condenar milhões de pessoas ao atrofiamento intelectual. E isso não é menos terrível do que a tortura física, pois que se condena aos poucos a morte. E viva a ditadura da democracia atual! Viva a politicagem do Pão e Vinho! Viva a Copa do Mundo no Brasil! Corrupção 10 x 0 na educação! Mensaleiros, 10 x 0 na Justiça!

quinta-feira, 6 de março de 2014

O MAIOR CARNAVAL DO MUNDO


 
FINALMENTE ACABOU!

Era quarta-feira e faltavam três dias para a abertura oficial do carnaval quando grupos fantasiados começaram a se aglomerar em frente à velha Igreja da Imperatriz. Mulheres com vestidos vermelhos e azuis e com bordados dourados desfilavam sem pressa. Graciosas senhorinhas pareciam bailar indiferente a grande desorganização da cidade, que nunca se prepara para o grande baile popular. O saudosismo invadiu o ar e, logicamente, me contagiou por completo. Aos poucos a folia transformava a Praça Maciel Pinheiro em um grande palco a céu aberto. Soaram os clarins e em pouco tempo centenas de foliões abriam o cortejo pela Rua da Imperatriz. Uma vontade louca de chorar me invadiu o peito. O Bloco da Saudade mais uma vez me condizia pelas ruas de minha cidade. Ruas por onde passei em seguidos carnavais entoando os mais belos e antigos frevos canções, através dos quais sempre afirmei “que o Recife tem o carnaval do meu Brasil”. Em macha lenta cruzamos a ponte velha rumo ao bairro do Recife Antigo, onde nos perdemos na multidão.

Quinta-feira, uma volta pelas ladeiras ensolaradas de Olinda me revigorou. Como todo bom pernambucano, esperei um ano para cair na brincadeira, e finalmente havia chegado a hora. Uma tapioca no Alto da Sé, uma água de coco na Praça do Carmo, um almoço rápido. Um banho, um chapéu de palha e novamente a disposição para brincar o maior carnaval do mundo. O Bloco do Miolo Mole estava na Rua da Moeda fazendo suas palhaçadas magistrais. Caboclinhos atravessavam avenidas e os maracatus percussivos estrondavam nos becos. A multiculturalidade dava o tom da festa. Havia samba, havia cores, havia festa. A noite parecia sorrir enquanto a lua majestosa e prateada parecia impressa nas águas mansas dos rios que nos divide em ilhas, mas nunca nos separa. As mesmas águas que nos isolam nos unificam. Assim é o Recife, belamente poética e contraditória ao mesmo tempo.

Sexta-feira é dia do Galo cantar na Boa Vista. Ninguém dorme mais. Da Ponte Duarte Coelho, apesar dos atrapalhos da prefeitura, é sempre inegável sua imponência. A decoração acanhada e mal finalizada passaria despercebida. Não é a primeira vez que a gestão pública erra. Isso virou tradição! E quem precisaria de iluminação artificial quando se tem luz própria? E se o Pálio não veio, o camarote do Gilberto Gil invadiu quase toda a Avenida Guararapes. Qualquer dia não se tem mais espaço para brincar. Que diga o camarote da Rede Globo, que agora não só se apossa totalmente da Praça da República, como também invade parte da Avenida Dantas Barreto. Até parece que o carnaval de rua do Recife virou coisa exclusiva de rico. Será? O importante mesmo é que apesar do brilho do carnaval, que parece fazer-se por si mesmo, independente dos gostos ou [d]eficiência dos gestores, a cidade estava mais escura do nunca. E olha que o apagão nem chegou por aqui. Talvez a ordem fosse economizar pra não faltar, o que justificaria aproveitar a pífia iluminação do natal, que mais parecia restos de algo que não funcionou. Neste sentido, alguém pode explicar o que significava aquelas redes de pisca-pisca na Ponte Mauricio de Nassau? Penso que se a ideia era homenagear os pescadores da cidade, faltaram os peixes. Mas se as ruas estavam extremamente escuras, o céu se iluminou com a queima de fogos na abertura do Marco Zero. Disso ninguém pode reclamar. Só precisavam avisar ao apresentador a hora certa da contagem regressiva. Para não dar a nítida ideia da desorganização que se revelou insistente durante todo o período festivo.

Sábado de Zé Pereira, finalmente o Galo estava de pé chamando seu séquito de seguidores. As ruas fervilhavam sob um sol escaldante que não deu trégua. Na Avenida Dantas Barreto, a tranquilidade de um camarote simples me possibilitou ver o desfile de um anglo diferente. Diria mesmo que é algo inexplicável. O povo ri como bobo. As diferenças parecem amenizadas e todos se abraçam e festejam independentes de raça/etnia, credo, identidades ou condições socioeconômicas. É a democracia da diversidade que nos transforma em um grande bloco de brincantes inconsequentes. Essa é a ideologia do carnaval. É o escape popular. Outro banho. Troca-se a fantasia, mas não o desespero. É chegada a hora de lutar por um taxi que nos leve a Olinda. É noite do Afoxé Oxum Pandá no Largo do Guadalupe, e lá vamos nós de ladeira abaixo, e também acima, em um sobe e desce incessante e elétrico. O povo se espreme, o cortejo força passagem e tudo vira festa. Não há desavença, não há tempo para mal humor. A tarde cai, a noite chega e a multidão se mantém indolente. Ninguém descansa. É preciso fôlego para aguentar mais três dias. O carnaval está apenas começando.

No Domingo, uma Mínie abraçada a Mulher Maravilha, brinca com o Zorro e a La Ursa. Um grupo de melindrosas passa correndo em minha frente. Colegiais dançam ciranda no alto da Misericórdia. Super-Heróis se espalham enquanto passistas saltitantes bailam no ar. É preciso firmeza para não derrapar nas pedras escorregadias de Olinda. O ruge-ruge da multidão provoca o roça-roça, muitas vezes involuntário. A erotização está no ar. É Baco na festa da carne novamente. Mais uma tarde se vai e a desorganização do transito se mostra recorrente. Os taxistas escolhem passageiros. Ninguém entende nada. Anda-se quilómetros em busca de condução. No Pátio do Terço, novo desfile do Oxum Pandá. É o encontro dos Afoxés em homenagem a religiosidade africana. O ritual é solene e o ritmo contagia. A energia provoca certa espécie de transe e corpo se embala na música que mais parece um lamento. Uma passada rápida em casa. O banho de água fria revigora. À noite, o Recife ferve em polos espalhados. As tribos se concentram. A essa altura, uma mesa com cadeira é tudo o que se pede. Um caldinho de feijão para animar. Outro em seguida. Depois uma acarajé. A barriga estufa, avisando que é melhor se mover. Os pés doem, as pernas latejam, o corpo reclama, mas a loucura continua. Só faltam dois dias. O carnaval tá indo embora. Por fim, a madrugada insolente nos expulsa.

Segunda-feira a gripe ameaça, mas Olinda não espera, começa cedo. E lá vem ladeira. Uma subida na Sé para apreciar a Tapioca recheada da Paula, onde se bete o cartão. Na Rua do Amparo o Aloma Bar é retiro. A mulher da Vara passa arrastando multidão. Chega o Minhocão correndo ruas estreitas. Os Bonecos Gigantes pedem passagem e se engarrafa com o D`Brack. A confusão chega ao ápice. O frevo vence o Axé insistente que perde espaço nas ladeiras. Uma volta até a Bodega nos conduz ao Peeiro de Olinda, bloco puxado por duas travas seminuas. O bloco do Présal atravessa o caminho melando o povo. Em uma varanda dos Quatro Quantos uma senhora assiste a tudo ao lado de dois cachorros. Em outras, casais de beijam. É a danação da folia que parece não querer acabar.

Na Terça-feira, finalmente a festança anuncia o gran final. O corpo resmunga exigindo descanso, doe e fraqueja. A gripe toma conta. Ainda tem o show de Rita Ribeiro no Pátrio de São Pedro. Respira-se fundo e segue-se a multidão. A desorganização da a cara novamente e a frustração se revela na antecipação da atração. O jeito é seguir para o Recife Antigo. Uma caipirinha para ajudar no resfriado. Dizem que limão é bom para gripe. A essa altura o povo parece ensandecido. A cidade continua escura, mas ninguém liga. Quem precisa de decoração, de iluminação, de organização? O carnaval sobrevive às mediocridades e descompromissos das gestões. Afinal de contas: o carnaval é a gente que faz! Olho ao redor e tudo se mostra lírico. O carnaval mais belo do mundo! Os olhos lacrimejam, mas é hora de recolher o bloco! A quarta-feira de cinzas chegou, e como diz o velho frevo, realmente “é de fazer chorar, quando o dia amanhece e obriga o frevo a parar...”. Mas, para mim chega à boa hora. Que bom que terminou! Que bom que carnaval é apenas uma vez no ano. Que venha 2015!

sábado, 1 de março de 2014

MENSALÃO: A PALHAÇADA DA JUSTIÇA NA TERRA DO CARNAVAL


Quando o Crime Sempre Compensa!

Se os mensaleiros não formassem uma quadrilha de corruptos, bem poderiam passar por um bloco de carnaval. Enquanto o país se prepara para a maior festa do mundo, nossa justiça dá mostras de sua ineficiência e de seu descompromisso com as reivindicações populares. Aprovado pela Suprema Corte, os mensaleiros foram inocentados do crime de formação de quadrilha, pelo qual deveriam pagar suas penas em regime fechado, ou seja, atrás das grades, de onde, aliás, jamais deveriam sair. Contudo, com o julgamento dos embargos infringentes foi possível absorve-los de penas mais rígidas, e assim, permaneceram em regime semiaberto, o que lhes obriga apenas a dormir nos presídios. Isso significa que em pouquíssimo tempo estarão livres nas ruas novamente. Depois do cumprimento de um sexto da pena, poderão passar a cumprir as penas em casa. Seria realmente cômico se não fosse trágico, ou pelo menos estratégico. Aproveita-se o carnaval, onde a atenção das massas se distancia da política, para mais uma vez se fazer valer a lei da impunidade.

Isso revela um lado obscuro de nossa justiça, cultura e principalmente de nossa política, onde tudo parece terminar em pizza, ou melhor, em festa. É a repaginação da antiga pratica do pão e vinho para ludibriar a lei e enganar o povo. Ou seja, diversão e um pouco de ração para a multidão esquecer as mazelas e os padecimentos de um regime corrupto e cruel. Pena de um povo que se deixa enganar! Pior para um povo que não cumpre com seu papel de cidadão consciente e autônomo, capaz de exigir a aplicação da lei de igualdade de direitos para todos. Como bem disse Cristovan Buarque, em artigo publicado em jornal no inicio do ano, Feliz 2015, pois que 2014, já se perdeu. Em um ano de carnaval, copa do mundo e eleições presidenciais não sobra tempo para o exercício da cidadania e muito menos da consciência política. Que lástima! Que decepção!

Não nos resta outra coisa a não ser cair na folia e se embriagar na alienação momentânea do carnaval. Só lastimo pela ressaca moral no final da quarta-feira de cinzas! Porque cinza será também nosso futuro daqui para frente. Acho mesmo que vou me fantasiar de bandido. Daqueles com camisas listradas que faziam tanto sucesso nos filmes em preto e branco. No peito vou colocar o número do processo do mensalão e nas mãos vou carregar orgulhosamente uma placa comemorativa onde se poderá ler: “O Crime Compensa!”. Só assim o processo do mensalão terá servido para alguma coisa – fazer a população rir de se mesmo! Então vamos comemorar por que nos fazemos constantemente palhaços sem o menor constrangimento. Que toquem os clarins e finalmente os trombones anuncie que a zona geral está liberada. E que Baco nos proteja a todos, e de todos, pois que a justiça brasileira acabou de mostrar que nunca funcionou e que nunca nos representará verdadeiramente!

Bom carnaval para todos!