quinta-feira, 17 de maio de 2012

TRANSGENITALIZAÇÃO - A BUSCA POR SI MESMO



No último 04 de maio, o Jornal Diário de Pernambuco, publicou no Caderno Vida Urbana, a reportagem intitulada: Cirurgias de Mudança de Sexo Interrompidas. Nesta, a jornalista Marcionila Teixeira destaca a aposentadoria do Doutor e Professor João Sabino Pinho Neto, responsável pela equipe médica que realizou 22 cirurgias de transgenitalização pelo Hospital das Clínicas - HC, ligado a Universidade Federal de Pernambuco. Além da importância por contribuir para maior visibilidade da temática, a reportagem cumpre seu papel ao anunciar que o médico, único profissional no Norte-Nordeste a realizar cirurgias de Redefinição Sexual, não tem substitutos. Segundo a jornalista, “desde sua aposentadoria, o serviço está parado”, contudo, destaca existir negociações em andamento para que as cirurgias sejam custeadas pelo Sistema Único de Saúde – SUS.

A discussão relativa à cirurgia de transgenitalização ou de redefinição sexual é polêmica e divide opiniões. Conhecida popularmente como cirurgia da mudança de sexo, também é, muitas vezes, anunciada como cirurgia reparativa, ou ainda como cirurgia corretiva, o que parece contribuir para a patologização da transexualidade. Neste sentido, nos cabe a reflexão sobre o fato de tais terminologias conceituais carregarem em seu bojo o reflexo de uma cultura pautada na heteronormatividade. Se considerarmos que a sexualidade ainda plana como tema tabu para nossa sociedade, facilmente entenderemos certas dificuldades, e logicamente, resistências, no sentido de entender a orientação sexual como pertence ao campo da subjetividade, contrário aos papeis sexuais, construídos pela, e na, cultura. O que pretendo dizer é que ser masculino e feminino é uma produção cultural. Aprendemos com o passar dos tempos a nos comportar e entender como homens ou mulheres porque nos guiamos, ainda, pelo recorte biologista do sexo, que estabelece o padrão corporal pênis/homem, vagina/mulher. Se entendermos que masculinidades e feminilidades mostram-se variadas e flexíveis, constataremos que tal padrão torna-se insuficiente para compreender a amplitude das sexualidades. Assim, será que um homem que tem o pênis amputado, seja por alguma enfermidade ou acidente, por exemplo, deixará de ser visto, aceito e reconhecido como tal? Na mesma linha, uma mulher que retirou o útero deixará de se entender como mulher? O que realmente estabelece, contribui ou influencia a formação da identidade sexual, a biologia dos corpos, ou a subjetividade das emoções?

No meu entendimento a identidade se constitui a partir do que uma pessoa se reconhece; ou seja, somos o que acreditamos ser. A sexualidade é um processo de descobertas e não só de construções, logo, não pode ser entendida como opção. Se o fosse, muito provavelmente milhares de homossexuais, bissexuais, transexuais e travestis escolheriam o enquadramento limitante da norma social, e também jurídica, como forma de proteção e preservação de suas, integridades, seja física e/ou mental, diante de uma sociedade homofóbica e machista como a nossa. A patologização não é reflexo ou resultado das sexualidades estigmatizadas como “desviantes”, mas, fruto da cultura anatomo-fisiológica empregada na definição dos corpos considerados “saudáveis”. Ainda no caminho da fácil reflexão, podemos pensar no quanto de imperfeição corporal possuímos todos nós seres humanos, sejam héteros, homo ou bissexuais. Não se nega que as intervenções cirúrgicas tornam-se benéficas para a restauração e/ou fortalecimento da auto-estima. A cirurgia plástica também foi vítima de preconceitos e hoje o Brasil figura como país com maior índice desta modalidade, inclusive para fins estéticos. Quantos membros são transplantados nos dias atuais sem causar grandes celeumas? A medicina avança em benefício da humanidade, e é neste sentido que cumpre com seu papel e fundamento. Muitas vezes, nos olhamos no espelho e não gostamos do que vemos em nossa frente. Um sinal no rosto, uma cicatriz, um cabelo branco, uma sarda, uma ruga fora de lugar e tantos outros pequenos detalhes que nos trazem, muitas vezes, inseguranças, medos, receios, angustias e até sofrimentos. Para estes, a plástica, o botox, maquiagem, tinturas capilares e tantos outros recursos, sejam cirúrgicos ou não, nos servem como refúgios para a minimização ou neutralização das imperfeições. Já vi gente reclamando do formato do nariz, da textura do cabelo, da cor dos olhos, do formato da boca, do tamanho dos seios e nádegas. Já vi gente se martirizar por defeitos físicos possíveis de correção. Lidamos com tais sentimentos no cotidiano, e, também cotidianamente, recomendamos a busca por especialistas. Agora imagina se olhar no espelho e não se reconhecer. Imagina ser cobrados pela família, grupos de amigos, e pela sociedade como todo, a ser o que não se é em essência, ou a se comportar e a se entender por um modelo pelo qual não nos reconhecemos.

Infelizmente é pelo caminho da patologização que os/as transexuais ainda precisam trilhar para realizar o que o médico especialista classificaria como “a cirurgia da busca por si mesmo”. Não podemos ser simplistas ou reducionistas ao pensar que o que se busca através da cirurgia de transgenitalização é apenas um pênis [para os trans-homens] ou uma vagina [para as trans-mulheres]. É mais que isso. Busca-se por uma adequação corporal a identidade. E neste sentido, deve-se esclarecer que o contrário não se aplica, pois que a prática tem revelado a “construção” de transtornos. Se o corpo é passível de mudanças, de ajustes e redesenhos, objetivando a elevação e/ou fortalecimento da auto-estima, que se possibilite o acesso a todos como forma de garantia de direitos. Um pênis e/ou uma vagina são apenas órgãos, como qualquer outro, com funções e configurações específicas. Neste sentido, entende-se que não é a mudança ou transformação do corpo que incomoda, mas, a quebra da norma. E isso se classifica como preconceito, que se pauta em preceitos pré-estabelecidos muito antes de nossa existência, pois que somos contemporâneos.

Aproveito então, para destacar que apesar da importância da reportagem, é preciso atentar para o quanto nos mantemos presos na cultura limitante da heteronormatividade. Digo isso porque conceitos como “homossexaulismo”, “intersexualismo”, “transexualismo” e “travestismo”, usados na reportagem só contribuem para reforçar uma visão patologizante das sexualidades. Considerar a transexualidade como “transtorno mental” é contribuir para a consolidação da homofobia. É neste aspecto que sugiro uma reflexão quanto à utilização de termos como cirurgias corretivas ou reparativas, pois o que se busca na transgenitalização não é a correção ou reparação de algo errado, herdado pela natureza, mas apenas a adequação de uma forma corporal a própria identidade, que é individual e não generalizante ou generalizável.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

RECIFE SITIADA



UMA GESTÃO HIGIENISTA

Há mais ou menos um mês a Praça Maciel Pinheiro foi reaberta ao público sem grandes mudanças. Depredada e esquecida, por muito tempo serviu de refúgio a várias famílias e pessoas em situação de rua. Praticamente funcionava como uma espécie de abrigo a céu aberto onde, homens, mulheres, adolescentes e crianças passavam dias e noites. Colchões velhos cobertos por lençóis furados davam um colorido nada natural ao local. Crianças brincavam nas águas escuras do histórico chafariz, onde também se banhavam, e muitas vezes, mulheres lavavam restos de roupas. Uma cena dantesca para a maioria dos moradores e lojistas da região. Um exemplo vivo do despreparo e descompromisso público bem no centro da cidade. A praça em si parecia uma miniatura da “cracolândia” paulista, fazendo-se necessária intervenção urgente. Primeiro, a fim de garantir atendimento médico e social aos usuários que mais pareciam mortos vivos; e, segundo, visando restaurar o patrimônio público amplamente prejudicado pela poluição e sujeira que lhes causavam um aspecto escabroso.

Assim, a praça passou uns quinze dias, completa e misteriosamente isolada por tapumes de madeiras. Os operários demonstravam pressa e pareciam correr de um lado para outro com suas ferramentas. A população em situação de rua deslocou-se para as redondezas. E neste caso específico, as redondezas diziam respeito às sobras das calçadas onde foram armados os colchões e varais de sobras encardidamente coloridas. Terminados os serviços reparatórios, mas não restauradores, a praça foi reaberta. As esculturas foram aspiradas, voltando a revelar a brancura marmórea original. Os supostos jardins foram limpos, mas não arrumados. Até deram uma mão de tinta, ou verniz, na escultura da Clarice Lispector, que agora não possui mais abajur. Os bancos foram pintados e o chafariz foi desligado. Por isso os leões não cospem mais águas aveludadas. Por isso não existe mais lodo para as crianças se banharem. Por isso também, não existe mais espaço para se lavar velhos trapos que um dia foram considerados roupas. Não foi bem um trabalho de restauração, mas talvez uma ação de higienização, dessas promovidas de improviso e de forma incosequente como tanto se vê por aí a fora.


Talvez tenha sido a maneira mais prática e rápida que encontraram para limpar os restos e tralhas humanas que insistiam em parasitar sobre as históricas pedras claras. Acho que realmente estavam com muita pressa em resolver o velho problema, tantas vezes denunciado em jornais e blogs. A final de contas atender com prontidão as solicitações dos eleitores é obrigação de qualquer político sério. Principalmente quando se busca a reeleição. Porém, atender aos pedidos da população nunca foi coisa fácil. Como já diz o ditado popular, “não se consegue agradar a gregos e a troianos”. Ou bem uma coisa, ou bem outra. As duas, de uma só vez, impossível até ao mais esperto e astuto estrategista. Se existem divergências entre os interesses populares, opta-se sempre pela maioria. E assim se fez. E se a população em situação de rua, minoria, não saia por bem, teve mesmo que sair por mal. Mas ninguém pode negar que a gestão publica realizou intervenções no local. Não, isso não se pode negar. Eu mesmo vi profissionais da assistência social fazendo as famosas “abordagens de rua”. Tinha até veículo da prefeitura disponível, caso alguém desejasse ser removido, ou institucionalizado. Mas infelizmente população em situação de rua não é um segmento fácil de trabalhar. Não, não é mesmo. É preciso tempo, e logicamente, argumentações concretas e focadas nas necessidades e possibilidades individuais. E isso não se consegue da noite para o dia. O que se consegue nesse período de tempo, chama-se evacuação de área.


Como diz outro velho ditado, “não se pode cobrir um santo e descobrir outro”. Isso não é justiça social. Não é garantia de direitos. Higienização nunca foi à melhor solução. É preciso planejamento para efetivar as políticas públicas. E vale salientar que neste caso, a institucionalização compulsória não se aplica. Tem que se trabalhar na raiz do problema, porque simplesmente podar a copa, muitas vezes, só contribui para entortar ou atrofiar o caule. E nesse trocadilho todo, também não adianta justificar as falhas alegando que “pau que nasce torto, morre torto”. Apenas internar usuários de drogas em unidades de saúde para desintoxicação, sem garantir reinserção familiar e inserção no mundo do trabalho, é brincar de enxugar gelo. Sitiar uma praça pública para impedir a fixação de maltrapilhos desassistidos é transferir o problema. Até porque se a Praça Maciel Pinheiro está livre da população em situação de rua, a frente da Igreja da Imperatriz e o corredor comercial da Rua do Hospício, em frente ao Teatro do Parque, estão repletos. É que com a instalação de viaturas da polícia e alocação de guardas municipais, responsáveis pela proteção do patrimônio cultural e histórico, os antigos “moradores” foram obrigados a procurar novos abrigos em calçadas e becos, tão sujos e desprotegidos como outrora fora a praça.

Assim, perde todo mundo. A praça continua feia e sem atrativos dignos de uma sesta ou descanso ocasional por parte dos trabalhadores e transeuntes. A bela escultura, onde uma índia se banhava, ficou estática e sem vida depois que fecharam a água. Com certeza seu antigo aspecto e funcionalidade de bica eram mais respeitosos. Afinal de contas, “a praça é do povo, assim como o céu é do condor”. Resumindo a ópera, enquanto não se efetiva as políticas publicas de forma eficiente e eficaz, melhor deixar as praças e os céus aos “com-dor” e aos “sem-dor”, pois que se torna mais democrático. Já que nem esta, a democracia, tem garantido a efetivação da igualdade e a garantia de direitos que viabilizem a dignidade. E que esta, por fim, a dignidade, fique a cargo dos gestores públicos e políticos no desenvolvimento de suas atribuições. Talvez seja melhor, e mais rápido, realizar novo concurso público para aumentar o efetivo da polícia e garantir que todas as praças da cidade sejam sitiadas. Só não sei se dá para fazer isso tudo antes das eleições. Será que conseguem? Melhor, ver pra crer. A pena é ter que esperar para votar.


domingo, 13 de maio de 2012

DIFERENTES TEMPOS PARA DIFERENTES PESSOAS


 
Seu nome é Raul, mas poderia ser Pedro, Paulo, José, Marcos, Bruno, Henrique ou qualquer outro em iguais condições. Mal completara sete anos, mas poderia ter muito menos ou pouco mais, pois que o fato não mudaria sua sina. Sua voz transmitia a inocência, que como tantas se perderam e se perderão no tempo. Porque o tempo é urgente para quem se encontra na miséria. É fundamental para quem tem fome. Acima de tudo, é cruel para quem busca alternativas viáveis a transformação social de tantas crianças marcadas pelas desigualdades socioeconômicas e políticas. O tempo se perde no vento, assim como as vidas dos que não vislumbram perspectivas. Perde-se no espaço, que delimita e demarca destinos. O tempo mata! Quando não a vida, os sonhos, sem os quais não se vive. Esgota e se esgota em diferentes expectativas para sufocar a todos. Tanto aos que perdem a esperança, como também aos que nela se afundam. Assim, o tempo transforma-se em um implacável limite demarcador entre o fracasso e o sucesso.

Raul me disse que estudava quando tinha aula, o que nem sempre acontece. Também disse que gostava de matemática, e por isso vez cálculos, contando nos dedos das mãos e dos pés. Os dedos que se encontram feridos e calejados pelo trabalho forçado. Contou-me ainda que “limpava matos” com o pai, motivo pelo qual sem sempre podia comparecer as atividades desenvolvidas pelo projeto em que atuamos. Do seu jeito, revelou que não tinha tempo para ser criança. E nós não tivemos, ainda, o tempo suficiente para convencê-lo do contrário. Assim como não encontramos possibilidades, ainda, de convencer a sociedade do contrário. A violação de direitos tornou-se naturalizada para sua família. Sua irmã mais velha já cuida da casa sozinha. Ela lava roupa, cozinha, arruma e ainda arranja tempo para estudar, quando tem aula. Também “cuida” da irmã caçula e de um bebê da vizinha. É praticamente a dona da casa, me dizia ele, que não se esqueceu de mencionar que a mesma tem apenas nove anos.

Crianças como Raul, suas irmãs e mais uma enorme quantidade que vive as margens da sociedade parecem não lutar contra o tempo, mas contra as diversidades. Lidam com a violência cotidianamente, sem mesmo compreendê-la. Nem mesmo a percebem como tal, pois que esta se tornou referencial na construção de suas vidas e personalidades. Não reclamam da “lida”, mas apenas da falta de tempo para brincar junto com os demais. É neste ponto que o fracasso se faz angustiante. Como na velha história do boiadeiro, sacrifica-se um boi para salvar a manada. Quem atua no terceiro setor sabe do, e vivencia o, limite de abrangência de suas ações e atuações. Assim, focamos em restritos grupos ou segmentos da população, mesmo sabendo da sua mínima representatividade percentual no universo das vulnerabilidades. Recursos financeiros limitam pés e mãos. Transformam-nos em polvos amputados, incapazes de estender seus tentáculos aos excluídos. Trabalha-se numa perspectiva do que talvez pudéssemos chamar de “sorte social”. É sempre preciso “escolher” um pequeno grupo, um mínimo, para atender em um determinado tempo, e partir daí buscar e/ou favorecer a transformação social.

E é este mesmo tempo nos fragiliza ao revelar no final que precisamos nos contentar, e nos felicitar por tais empreitadas, muitas vezes, consideradas bem sucedidas. E quando olhamos o quanto deixamos de atender, ou ainda analisamos o quanto poderíamos ter ampliado nossas atuações em detrimento da demanda, os resultados obtidos mostram-se ínfimos e frustrantes. Conversas como a que tive com Raul se configuram como socos em nosso estômago. É como se dissessem “Olha, vocês não são competentes. Eu estou aqui e vocês não me viram. Vocês também me excluíram”. Olha-se para dentro e percebe-se a insuficiência do tempo. O mesmo tempo que mede e classifica nossa habilidade e capacidade profissional. O mesmo tempo que se configura em diferentes formas de velocidade para diferentes pessoas. Insuficiente para as crianças atendidas; mínimo para os operadores da ação; e, muitas vezes, demasiadamente longo e oneroso para os patrocinadores. Quem atua, ou pretende atuar na área social deve saber que sempre será necessário mais tempo. Para buscar novos financiadores, para convencer pessoas-chaves, para articular políticas, escrever projetos, definir metodologias, e mais uma vez, escolher os novos sorteados sociais. Será preciso esperar e respeitar a burocracia, assim como as hierarquias do poder, que estabelecem seus próprios tempos. Acima de tudo, se fará necessário respeitar nosso próprio tempo. Como uma espécie de alienação momentânea para poder voltar a respirar, refletir sobre a importância de suas ações e ideologias. É o “parar” para não parar. Não desistir. Não se perder.

A cada projeto “finalizado”, e digo isso considerando o tempo previsto, que logicamente se correlaciona aos recursos financeiros propostos, chega um tempo que é mágico. O tempo de chorar. E digo de cátedra que o choro é minha forma de [re]energização. Chorar pelo sucesso. Chorar pelo fracasso da impossibilidade. Chorar por relembrar todo o processo e a evolução humana estampada nos rostos risonhos de crianças antes invisibilizadas e destituídas de tudo. Chorar por ter que entregar seus destinos de volta. Chorar por saber que cada criança daquela se tornará inesquecível. Chorar pela incompreensão humana, pela insensibilidade alheia. E principalmente por você. Por acreditar nesta loucura que se chama garantia de direitos. É isso! Acho que mais uma vez chegou minha hora mágica. O tempo de minha fragilidade. O tempo de me agachar no piso do banheiro e abrir a água para lavar meu pranto. Tempo de purificar a minha alma despejando no ralo qualquer sinal de cansaço. É o tempo necessário para recobrar minha confiança, fundamental para os novos desafios, mesmo sabendo que o meu tempo será sempre diferente dos tantos e quantos Rauls que encontrarei pela frente.

domingo, 6 de maio de 2012

MAIS UMA REFLEXÃO SOBRE A POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA

DUAS VIDAS, DOIS DESTINOS.

Duas situações vivenciadas nesta semana me trazem de volta à temática: “população em situação de rua”.

Quarta-feira, dia 03 de maio. Na Av. Conde da Boa Vista o vai e vem de pessoas apressadas revelava o cotidiano de uma cidade isenta de culpas. Em um poste, diante de meu prédio, uma criança dormia sobre uma caixa de madeira tão frágil quanto sua própria vida. Eram dez horas da manhã e a cidade se revelava impune. Pessoas trombavam na cama improvisada. Algumas por acaso; outras, em propositados e desconcertantes desagravos. O corpo balançava no ritmo de músicas brega que invadem o ar cotidianamente. A inércia de um sono quase morte invalidava a defesa. Existia o risco de cair para além do meio fio. De se transformar em um pacote de carne e ossos atropelado por um ônibus qualquer. As pessoas se limitavam a observar a cena e a demonstrar reações, das mais diferentes formas. De repente o céu escureceu. Uma chuva grossa e pesada caiu sobre o corpo que demorou a recobrar a consciência. A natureza tomou as rédeas das providencias imediatistas e injustas, expulsando o garoto negro de seu berço débil.


Quinta-feira, 04 de maio. Na Av. Manoel Borba o vai e vem de pessoas apressadas revelava o cotidiano de uma cidade imune as suas mazelas. Um miado me chamou a atenção. Uma pequena gata chorava o abandono ao lado de um jovem adulto que há anos reside nas calçadas do quarteirão. “Acabaram de jogar ela aí”, disse ele de forma comovida. Desisti de meu destino e voltei com o pequeno animal para casa. Contudo, no caminho, me peguei pensando sobre o outro abandonado. Há quanto tempo o teriam jogado ali? Na verdade, a reflexão exige amplitude de análise e talvez por isso se torne incomoda, pois se refere não ao tempo, mas ao sujeito da ação. Ou seja, quem o teria jogado nas ruas sujas do Recife? A mãe, a família ou estado? Se pensarmos que o estado é apenas uma instituição, fruto da criação humana, para nos representar enquanto cidadãos de direitos, concluiremos que somos nós que jogamos diariamente milhões de pessoas as margens de uma sociedade inconsequente.


São duas vidas e dois destinos: um bicho gato e um bicho homem. Duas crianças rejeitadas pela sociedade, a espera de uma chance de vida. Ou melhor, são milhares de vidas sem destinos certos. Continuamos uma cidade de abandonados. São homens, mulheres, pessoas idosas e várias crianças e adolescentes sem condições dignas. Misturados a animais rabugentos e também indefesos. Um gato jogado no ralo se leva para casa, mas uma criança condenada aos esgotos, para onde levá-la? A quem se recorre? Que providencias efetivas se toma? Para que berço se transfere um menino sozinho acalentado pelas drogas? Hoje minha gata tem nome, tem lar, comida e local adequado para dormir. Os meninos da minha rua continuam soltos no mundo. Em três dias o pequeno animal se adaptou a nova realidade e ambiente. Corre segura de um lado para o outro do pequeno apartamento, enquanto que os meninos correm de uma rua para outra sem paradeiros. Meu animal tornou-se mais cidadão do que milhares de pessoas humanas que continuam invisíveis e invisibilizadas pela falta de políticas públicas eficientes.

Mais uma vez, paro para pensar sobre que invisibilidade realmente falamos nestes casos. Da que se torna característica de alguns segmentos da população desassistida; ou da que adotamos como mecanismo de defesa, para justificar nossas faltas? O misto de impotência e revolta que me invade sempre nas mesmas situações provocam reflexões sobre as reais possibilidades de mudanças tão desejadas. Quando adotaremos a máxima de que “Um país justo, é um país sem misérias”? Neste sentido busco amparo no desabafo de uma grande amiga, militante dos direitos humanos, que ao ler meu relato sobre a vulnerabilidade das famílias fixadas na Praça Maciel Pinheiro [ver: Meninas que passam e morrem nas ruas do Recife] reflete meus próprios sentimentos e incertezas:


“É foda! Desculpe a expressão, mas seu manifesto está me doendo na alma e foi meu café da manhã no trabalho. Estou com um sentimento que não sei descrever, a dor da alma é tão intensa que meu corpo dói. Pelo menos hoje, a imagem dessa menina não me sairá da mente e sei, voltará diversas vezes a me atormentar, a me envergonhar por me sentir fazendo parte de quem apenas chora a dor do outro... Vasculho a mente e me pergunto o que realmente posso fazer? Será que sairei dessa realidade sem poder andar em calçadas dignas, vendo pessoas com seus direitos garantidos, podendo olhar no meus olhos em vez de baixar a cabeça e me pedir centavos? Ou me atacar, motivada pelas diversas formas de fome? Será que ainda irei andar pelas ruas de Recife sem sobressaltos....? Sem sentimentos mistos de medo, tristeza e revolta pelo que está posto? E finalmente, será que realmente labuto em prol dessas pessoas ou apenas para garantir meu pão? Enfim, amigo, te agradeço "essa mexida" pois precisamos sair da inércia, chorar apenas não transformará o mundo e tenho consciência que muito precisamos fazer e vou nesse momento dar minha contribuição divulgando esse texto, não só na rede social, mas impresso para pessoas que podem acordar e se indignarem. Talvez assim, formemos um batalhão na busca de viés de mudanças reais e não as que executamos e que cobrem desejos, vaidades e satisfações pessoais de alguns”.

No mesmo sentido, relembro ainda do depoimento de outra grande profissional da assistência social, há quem muito admiro pelas convicções e coerências de ações, que dizia: “Não acredito em quem não gosta de animais”. Em consonância digo mais: não acredito em gestores que não gostam de pessoas, pois que as destituem de suas condições de humanos para rebaixá-las a de animais. E Recife é uma cidade que não cuida de seus animais, sejam estes naturais ou humanos.



segunda-feira, 16 de abril de 2012

VITÓRIA DO SPORT E DUAS MORTES NA BOA VISTA

AV. CONDE DA BOA VISTA EM 14.04.2012


FORAM APENAS DOIS GOLS E DUAS MORTES.

Ontem, 14 de abril, foi dia de jogo. Como diriam os fanáticos: “Dia de Clássico!”. E como sempre acontece, a batalha que se iniciou na Ilha do Retiro, sede do Sport Futebol Clube, se estendeu a Av. Conde da Boa Vista. Dois gols e duas mortes consagraram a vitória do Leão. Semelhanças a parte, acredito que está na hora de providências mais sérias e assertivas. Talvez seja necessário, urgentemente, redefinir as regras do jogo. Não do que acontece no gramado da grande arena, mas do que acontece nas ruas do centro da cidade, transformadas em verdadeiros campos de guerra. No ano passado postei sobre as dificuldades dos moradores do centro em sair às ruas em dia de jogo. É preciso contar mais do que com a sorte. É preciso criar estratégias de sobrevivência.

Em dia de jogo, a cidade sinaliza a inevitável barbárie. Ônibus chegam repletos de jovens uniformizados que se penduram pelas janelas aos gritos de guerra: “Ão! Ão! Ão! É no cu do campeão”. Dessa vez era a Inferno Coral, torcida organizada do Santa Cruz Futebol Clube, que as pressas tomaram a avenida. Em dias anteriores a Torcida Jovem, do Sport já vez suas vitimas, assim como a torcida organizado do Náutico. Mas ontem eram milhares. Estatura mediana, faixa etária demarcando a juventude, comportamento de malandros. Talvez o perfil desse tipo de torcedor possa variar um pouco, mas no geral torna-se via de regras a todas as torcidas. As ruas ficaram brancas, mas não sinalizaram a paz e fraternidade. A movimentação de patrulhas alterou, mais uma vez, a dinâmica da cidade. Pessoas correram de um lado para o outro, desorientadas e inseguras. Não que o recifense seja alienado, mas ninguém é obrigado a saber os dias de batalhas e selvagerias que se tornam cada vez mais comum no centro urbano. Talvez os patrocinadores do espetáculo sangrento, ou mesmo o governo, devessem estabelecer um calendário para as batalhas autorizadas e distribuir junto à população informações de como agir em situações de emergência. Isso com certeza não evitariam as tragédias, mais minimizariam os riscos para as pessoas inocentes, cidadãos que pagam altos impostos, pegos de surpresa.


O fato é que quem mora no centro do Recife torna-se prisioneiro em dia de clássico. Portas e portarias trancafiadas acuam os moradores em celas domiciliares. As janelas ficam repletas e se transformam em verdadeiras arquibancadas. E não é preciso esperar muito, pois logo termina a partida no campo a outra se estabelece diante dos olhos atônitos. Com um pouco de sorte, podemos inclusive presenciar a brutalidade de perto. Ontem, por exemplo, ao sair do cinema do Shopping Boa Vista, me vi em meio a uma multidão que seguia rumo ao cruzamento com a Rua do Hospício, ponto de concentração e demonstração de força e irracionalidade. Não se tem alternativas de fuga a não ser correr para casa e torcer para não ser alvo de pedradas e pancadarias sem pretextos ou motivos. Nestes casos, inclusive, é preciso entender que caso você se torne vítima das agressões, que podem ser físicas ou verbais, não terá sido nada pessoal. É apenas mais um reflexo da torcida ensandecida com o resultado do jogo. E neste sentido, ganhar ou perder também não importa. O fundamental é extravasar a energia acumulada. É exteriorizar os demônios, que quase sempre não estão relacionadas aos jogos, mas aos fracassos e as frustrações de vidas sem grandes perspectivas. O jogo em si, torna-se canal para liberar tensões. Um espaço para a catarse. Um meio para esvaziar o corpo e a mente já vazios de tudo, e assim aguentar os dias que se seguem e delimitam futuros insertos e insólitos.

 As batalhas de ruas já se tornaram problema e fenômeno social plausível de análises mais sérias e precisas. Claro que os jogos não são as fontes ou causas diretas da violência urbana. Esta, também enquanto fenômeno social da modernidade tem outras raízes. Os jogos de futebol apresentam-se apenas como a ponta de um iceberg que esconde fatores relacionados ao sistema socioeconômico que estabelece desigualdades, seja de classe, de etnia, de gênero ou geracional. A falta de acessos a serviços e bens comuns, com certeza, abre espaço para a criação e o estabelecimento de alternativas. Se não se tem acesso a espetáculos de qualidade, por exemplo, criam-se os próprios, onde inclusive se pode ser protagonista. E é neste aspecto que homens comuns tornam-se heróis, mesmo que agindo na contravenção. Não importa! O que verdadeiramente se se torna urgente é saciar a necessidade do protagonismo da situação, mesmo que de forma momentânea. Tornar-se dono do momento e do fato. Quebrar as normas excludentes e ditar as regras que definem as posições de poder. Um poder alcançado pela força. No peito e na raça, como no jogo. Isso também é um jogo, ou extensão deste. Se no campo se sai vitorioso é preciso se fazer reconhecido nas ruas. Se no campo se sai derrotado é preciso compensar em outros espaços, outros aspectos. Tudo se torna campo, tudo se torna jogo. O importante é entender as regras e saber jogar. Assim, as barbáries nas ruas, a meu ver, nada mais são do que movimentos de massa em prol de reivindicações de direitos a igualdade, mesmo que forma inconsciente.


Apesar de constantes, essas batalhas vêm ganhando espaços e corpo cada vez maiores. A de ontem atingiu o recorde de violência contabilizando duas mortes. Os espetáculos ganham novos recursos e efeitos a cada dia. Estabelecem-se as tramas onde os personagens se transformam em vilões e bandidos que disputam em arena aberta. A sonoplastia é enlouquecedora. O ruído provocado pelas sirenes e pneus das viaturas da polícia dá um toque surreal à cena. A fumaça provocada pelos fogos de artifício e spray de pimenta nos remete as imagens dos filmes americanos. Os transeuntes se transformam em figurantes correndo transloucados por todos os lados. E quem está nas janelas nem precisa pagar ingresso. Neste aspecto, penso que sendo este, o primeiro de uma série de jogos que definirá o torneio, poderia mesmo cobrar certo valor sobre o aluguel de minha janela. E vou logo avisando que a localização é privilegiada. De minha sala vejo todos os ângulos e ainda posso filmar para rever em câmera lenta mais tarde. Talvez seja essa uma alternativa viável aos moradores do centro. Quem sabe assim tiramos um pouco de proveito da violência que se espalha a nossa frente e nos igualamos aos patrocinadores da barbárie, representados pelos dirigentes dos clubes de futebol local. Se eles podem se preocupar apenas com o arrecadado nas bilheterias, sem se importar com as consequencias sociais e políticas de seus negócios milionários, porque nós simples mortais não podemos? E agora, com a possibilidade de presenciar mortes reais, em tempo real e vítimas reais, melhor ainda. Quanto mais sangue, mais lucro. Não é a lógica do capitalismo selvagem em que vivemos?


É o retorno ao pão e circo de sempre, e que sempre se mostrou como estratégia de controle e regulação da massa. Não é verdade que a contravenção, e consequentemente a violência, chega sempre onde o Estado se omite? E nestes casos, a violência não vem das ruas, mas para as ruas e avenidas onde se armam trincheiras e frontes de guerra. Definitivamente não se desce as ruas em dias de jogo. Não, não se desce! Pois que o melhor espaço é a janela de onde se presencia o resultado de um sistema sociopolítico e econômico fadado ao fracasso. Ontem foram apenas dois gols e duas mortes. Que venha a Copa do Mundo de 2014! Que venham os grandes clássicos, pois que estamos prontos para o confronto nos campos, regados por bebidas alcoólicas autorizadas, e também nas ruas desprotegidas, onde se estabelecem as verdadeiras batalhas. É ganhar ou perder. Façam suas apostas, porque os ingressos para o meu camarote particular já estão à venda.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

RECIFE

SOU DE RECIFE, SEU MOÇO
Epitacio Nunes
 
Se me perguntar de onde sou, bato no peito e digo: sou daqui mesmo, seu moço!
Da cidade onde o mar se arrebenta nas pedras complexas de vidas.
Das favelas repletas de vigas.
De palafitas suspensas sobre as marés.
Dos velhos sobrados e mucambos.
Das casas históricas, com ou sem eiras e beiras.
De morros e ribanceiras.
Das palmeiras onde conta o sabiá.
Sou daqui mesmo, seu moço!
Nativo das ilhas interligadas por pontes que se sobrepõem aos rios.
Da Veneza brasileira onde atracaram navios.
Que trouxeram estrangeiros de todos os cantos.
De onde os negros entoaram seu canto.
E encheram a cidade de luz para nos fazer multiétnicos e multiculturais.
Tenho origem mestiça e sou nordestino.
Não sou de além mar e nem dali.
Simplesmente sou daqui.
Sou assim mesmo, seu moço, e desde menino.
Mistura de mundos e fundos, de tudo e de todos.
Múltiplos em essência.
Junção de três raças, multiplicadas em cores.
União dos quatro elementos transformados em odores.
Atrevidos como a água que abranda o fogo, mas também mansos como o ar que percorre terras socadas.
E das mãos do Mestre Vitalino, saímos da terra molha.
Temos a pele suada, salgada no mar e dourada no sol.
Herdamos a beleza dos antepassados.
Fizemos a força nos braços.
Abrimos ruas ao Príncipe, à Princesa, à Imperatriz e ao Imperador de sangue azul.
Criamos terreiros para os Reis e as Rainhas do maracatu.
Construímos a Palmares de Zumbi.
Defendemos as florestas e matas de Tupan.
E olha seu moço, se nosso sangue é quente é devido à dor das guerras travadas.
E foram tantas as batalhas, que nem cabem nos dedos das mãos.
Acho até que essa gente daqui inventou a revolução.
Por isso quando me perguntam de onde sou, bato no peito e digo: sou daqui mesmo, seu moço!
Parente de Holanda e irmão de Olinda.
E das ladeiras gritei: Oh, que cidade mais linda, onde nasceu a primeira República.
Pela qual tombou Padre Roma, enforcaram Frei Caneca e mataram Abreu e Lima.
Mas também teve batalha nos Montes Guararapes, revolta nos Afogados e luta em Itputinga.
Por isso seu moço, não por acaso somos o Leão do Norte.
E não sem motivos nosso brado se fez forte.
Porque nunca contamos com a sorte.
Mas pela terra, seu moço, ofertamos a própria morte.
E se o sol castiga o corpo, a gente levanta cedo.
Pois é na marra que a gente vence o medo.
É no grito que a gente ganha à guerra.
Foi na força que moldamos a terra.
Terra de Lampião e Maria Bonita.
Da morte de João Pessoa.
Onde Maurício de Nassau fez o boi voar.
Até o “Zepelim”, um dia, seu moço, resolveu aparecer por cá.
E saiba que nestas ruas que por ora pisas já desfilaram a Rainha e autoridades.
O Galo da Madrugada, o Homem da Meia Noite e o Bloco da Saudade.
Temos as mais velhas e belas cidades.
Lugar onde nasceu a sobriedade e se forjou o caráter de homens fortes.
Por isso, seu moço, se me perguntar de onde sou, bato no peito e digo:
sou da terra do grande Paulo Freire e Miguel Arraes.
Do Francisco Brennant , Manoel Bandeira e muito mais.
Morada de Gilberto Freyre e de João Cabral de Melo Neto.
Destino dos tantos Severinos e Severinas.
Das edificações de Joaquim Cardoso, sem iguais, como as campinas.
Da sensibilidade de Ariano Suassuna à irreverência de Hermilo Borga Filho;
Da melodia de Luiz Gonzaga à sabedoria de Luiz Inácio Lula da Silva.
Todo filho do nordeste conta, canta, escreve e encanta suas sinas.
E até mesmo o Jomar Muniz de Brito com sua língua ferina,
ressalta as belezas da “cidade menina dos olhos de mar”.
E saiba seu moço, foi daqui que nasceram os versos de Carlos Pena Filho,
Ascenso Ferreira, Levinto e Capiba, que tanto encanta os carnavais.
Aqui também brincou Clarisse Lispector que encantou seus quintais.
Somos o berço dos maracatus, caboclinhos, samba e afoxé.
Somos da terra que ferve ao som de Alceu Valença, Lenine, Chico Science, Lia de Itamaracá e André. Somos o povo que dança o forró de pé de serra, coco de roda, ciranda e baião.
Acima de tudo seu moço, somos da terra do inesquecível Gonzagão.
Por fim, seu moço, se deseja saber mais, bata no peito e abra os braços.
Seja bem vindo à terra dos arrecifes de corais.

Texto apresentado na abertura do II Encontro Brasileiro de Geoprocessamento
Eletrobras/Chesf - 12 e 13.04.2011

terça-feira, 3 de abril de 2012

PRENUNCIO DO INVERNO

De minha sala escuto o cantar “zig-zadeado” de uma cigarra. Meus olhos correm para fora da janela, mas me defronto com as grandes paredes de concreto repletas de persianas coloridas. Estas torres de quadrados metálicos, forrados por cortinas, substituíram as árvores de minha infância. E era das árvores frondosas de meu quintal que as cigarras anunciavam a chegada do inverno. Quando elas cantam é sinal de chuva. Todo mundo sabe disso. Mas aqui a chuva também é diferente e não tem a mesma magia de outrora.

Chuva com sol, casamento da raposa com rouxinol, cantávamos quando crianças. Há quanto tempo não tomo um banho de chuva? Acho que da última vez estava a caminho do trabalho, e provavelmente reclamei e xinguei o mal tempo ou a má sorte. Quando nos tornamos adultos passamos a estabelecer outros tipos de relações com a natureza. É como se deixássemos de observá-la. O tempo da infância é diferente, parece maior. Os dias são mais longos e preguiçosos. Depois que a gente cresce não encontramos mais tempo para nada. Estamos sempre atrasados, o que nos gera angustia e estresse.

Não sei exatamente onde, ou quando, me perdi do menino que fui. Na verdade pouco me lembro dele. De um garoto que queria ser veterinário e desenhava em folhas de caderno. Que corria junto a um cachorro de pelo malhado, que dizíamos ser cor de burro quando foge. Um garoto que queria ganhar o mundo e descobrir coisas diferentes. Que se enfiava em livros e se perdia em mundos desconhecidos. Que subia em árvores e saltava de galho em galho durante o dia inteiro. Que comia azeitona roxa e pitomba, pitanga, araçá e caju. Que imaginava que podia ser “como gente grande” e pensava que sabia da vida. Não sabia!

Acho que todo mundo cultiva um pouco do complexo de Peter-Pan, querendo permanecer criança para sempre. As coisas parecem bem mais simples. Tudo é interpretado e absorvido com mais facilidade e sem grandes questionamentos racionalizados. Quando aprendemos a tornar as coisas complexas demais? Chatas demais? Difíceis demais? Provavelmente quando perdemos a ingenuidade. Quando insistem que não somos mais crianças e que devemos abandonar as fantasias e sonhos. Quando passam a nos tratar e nos olhar de outras formas. São essas coisas que vão demarcando nossos ciclos de vida. O próprio mundo parece se encarregar de nos dizer quando devemos abandonar a infância, quando saímos da adolescência, o quanto não se é mais jovens, e logicamente, quando nos tornamos idosos.

Provavelmente, o mundo também se encarregará de nos avisar quando deveremos nos preparar para morte e fim de nossa história. E neste ponto, planejo seguir a sabedoria dos elefantes, que se afastam do grupo para morrer sozinhos longe do bando. Não solitários, mas em paz consigo mesmo.