domingo, 12 de fevereiro de 2012

CARNAVAL 2012 - CIDADES DE BACO



RECIFE E OLINDA - O FEITIÇO DO MAIOR CARNAVAL DO PLANETA

Enfim, Carnaval! E se houvesse sinônimo apropriado para designar as cidades-gêmeas, este seria felicidade. Mas o problema é que Recife e Olinda não cabem em vocábulos. Não! E não precisa ser poeta para entender que apenas em rimas que exaltem belezas as deusas se revelam. Talvez a metáfora se aproprie no sentido de belas mulheres. E ainda que reducionista, o sentido simplista tomado no momento nos serve para evidenciar a complexidade de seus mistérios. Não falamos de simples e severas matronas, pois que ao contrário são amantes de Baco, que uma vez por ano as encharcam de prazer e odores. Por isso se enfeitam para se mostrarem nuas e exuberantes. Talvez nem sejam duas, mas apenas uma única cidade plural. Talvez nem sejam apenas mulher ou homem, mas também entidades. Talvez nem sejam apenas corpo ou sexo, mas também espaço que se completa e se complementa em corpulenta e graciosa majestade deitada em solo fértil. Independente do gênero é sabido que se ao ventre é permitido penetrar por rios, os seios ladeirados sobem aos céus para revelar imponência e soberania.


Não se afronta uma dona como Olinda, muito menos se ultraja uma deidade como Recife. Pois que são formosas, e por isso se permitem apenas a veneração. É preciso mais que magia para conquistá-las. É preciso encantamento. Ceder aos feitiços. Se ajoelhar e Implorar seu “Amparo” e “Misericórdia” para usufruir a “Boa Vista” ofertada. Apenas aos sábios é permitido bailar sobre suas curvas. Apenas aos belos é possível escalar seus relevos. E prá isso é preciso majestade, graciosidade e potência. Pois que não falamos de simples formas concretas, mas das duas mais lindas e encantadoras divindades que descansam etereamente nuas abaixo do equador, onde por natureza não pode existir pecados, faltas, culpas, maldades, lástimas e tristezas.

Aos desavisados é bom que se entenda: não se adentra Olinda ou Recife sem protocolos. No Reino de Momo é preciso se fazer animado. Por isso, fantasia é coisa séria, pois que rege a brincadeira e se transforma em passaporte ao jogo de sedução, onde seres mágicos se entregam ao deleite oferecido por Dionísio. E neste quesito se exige respeito e seriedade, pois que o traje precisa estar adequado e primoroso, condizente com o espírito. Um erro será fatal a quem deseja se enamorar nos dias de folia. É preciso que se entenda que carnaval em Pernambuco é multiculturalidade, e a isso se impõem diversidade, em gostos, gestos e tolerâncias. Acima de tudo se exige sabedoria, pois que tanto Recife como Olinda enganam e se camuflam. Um simples passo em falso e a brincadeira perderá o encanto para se transformar em aperreio e apuros. Por isso, como se diz no bom popular, “é preciso um olho no padre e outro na missa”.

RECIFE
Quem conhece nosso carnaval sabe que antes de disposição é preciso também saber onde se pisa. Estamos em solo sagrado, e por isso cheio de mistérios e proteções. E se as deusas são benévolas também se fazem caprichosas. Por isso, Recife e Olinda podem se mostrar implacáveis e perigosas, podendo se revelar furiosas diante de interesses descabidos e duvidosos. Aos adoradores de Baco, bem-vindos a maior festa popular do planeta. E que venham de peitos abertos à alegria e irreverência das cidades-gêmeas que transformam o carnaval pernambucano em uma grande orgia de som e de cor. A todos, bom carnaval.


OLINDA



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

CARNAVAL 2012 - PROSTITUIÇÃO DO RECIFE





CARNAVAL E PROSTITUIÇÃO NO RECIFE – A CONTRADIÇÃO DEMOCRÁTICA

Que o Recife é uma cidade contraditória ninguém duvida. Porém, mais contraditória se faz sua política de gestão. Neste ponto, seu carnaval não seria diferente. A uma semana da abertura oficial, sinais modestos da grande festa pernambucana surgem em pontos específicos. A Ponte Duarte Coelho, que atravessa o Rio Capibaribe, interligando as avenidas Conde da Boa Vista e a Guararapes já está parcialmente decorada [ou será que está pronta?]. Em aquarelas, passistas, caboclinhos, maracatus e la ursas, enchem de colorido a principal via de acesso ao maior bloco carnavalesco do mundo, o Galo da Madrugada, que desfila no sábado, dia 18 de fevereiro. Dizem que o carnaval é uma festa democrática, onde como já diz a velha canção: “com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco”. Porém democracia, que faz referencia direta a soberania popular, em certas situações parece tender a outros significados, evidenciando logicamente interesses que nem sempre são do coletivo.



Dizem ainda que o carnaval é a festa da carne. E disso ninguém duvida também. Especificamente em Recife, onde o calor atiça os sentidos, pouca roupa torna-se quase que obrigatório. Tal fato, aliado ao erotismo naturalizado pelos nativos, transforma a festa de Baco numa desenfreada orgia quase comportada. Afinal de contas, carnaval é concentração, aglomeração, e por conseqüência esfrega-esfrega, atrito de corpos suados, e por que não, azaração despretensiosa e descomprometida. Ao se falar de carne automaticamente pensa-se em desejo, sedução, excitação e tesão. Isso logicamente atrai milhares de pessoas, que vindas de outras cidades, estados e países, superlotam as ruas estreitas e mal cheirosas da capital pernambucana. Assim, podemos dizer que Recife respira sexo e fantasias neste período. Fantasias que vestem os corpos e fantasias que saciam os corpos. E é neste ponto que entra em cena [ou melhor, saem de cena] as profissionais do sexo – especificamente me referindo as prostitutas e travestis que se prostituem no centro da cidade.


No carnaval pernambucano a prostituta é inserida na festança como personagem tradicional. De certa forma, representa a liberdade e fonte de prazer. Objeto de desejo dos desacompanhados, dos solitários, e até, às vezes, dos casados, noivos e enamorados. É que carnaval também é o espaço de autorizo, onde os pobres mortais comungam com Dionisio, deus do vinho e da desordem. E quem mora em Recife sabe que prostituta boa e experiente se encontra na famosa Pracinha do Diário. De segunda a segunda elas pegam no batente circulando a mais antiga praça pública da cidade. Reconhecido território da prostituição feminina, a praça em si é uma vergonha. Não pela atividade exercida no local, muito pelo contrário, mas pela harmonia e cuidado de que carece tal patrimônio púbico [ou seria público?]. Mas esse ano, a exemplo de 2011, elas perderam espaço para o grande e luxuoso camarote da Rede Globo.

É que com a mudança de itinerário promovido pela prefeitura, o Galo da Madrugada abandonou definitivamente e apertada e tradicional Rua da Concórdia, para se espremer pela Av. Dantas Barreto. E se a tradição perde em essência, o turismo local ganha em dividendos, arejando os cofres públicos. Até aí nada de mais. Porém como falávamos em democracia, me ponho a pensar como permitir que uma empresa privada [e patrocinadora, vale salientar] possa se apossar de uma praça inteira para montar um simples camarote [local onde, democraticamente as prostitutas não circularão]. Mais impressionante ainda é o tempo do empossamento. É que, contrária a ineficiência da máquina pública, a “Deusa Platinada” instalou suas altas paredes metálicas e excludentes, no local, em meados de janeiro. Ou seja, quase um mês antes do carnaval. Neste caso, nós, pobres cidadãos que pagamos pela manutenção [ou falta desta] do tal patrimônio púbico ficamos privados da praça. E pior é que nem nos sobram às calçadas, o que nos obriga a fazer manobras em meio aos veículos que chegam a avenida.

Mas independente disso, parece mesmo que o carnaval é a festa do “deixa prá lá”. Não existe explicação ou convocação da população para tal concessão. Tudo é resolvido do dia para noite, provavelmente em meio a grandes festas [ou seriam reuniões?]. Fato é que sem a praça as prostitutas mais uma vez são sumariamente expulsas do território já conquistado e consolidado. Será que não deveriam ser indenizadas, ou pelo menos ressarcidas em seus prejuízos? E neste caso a quem caberia tal obrigação, a máquina pública ou a privada? Será que se as prostitutas invadissem a prefeitura ou a empresa dona do camarote seria a mesma coisa? Talvez não porque prostituta no Brasil, independentemente de carnaval, nunca foi cidadã. E olha que estamos falando da Praça da Independência, onde vale salientar, a prostituição é tão antiga quanto à própria cidade.


DANILO CARIAS EM FOLIA
Durante o domínio holandês a praça já constava nos mapas da época e era denominada como “Terreiro dos Coqueiros”. Depois foi rebatizada como Praça Grande; Praça do Comércio, devido à grande quantidade de lojas comerciais ao redor; Praça da Ribeira; e depois, Praça do Polé, porque no local foram instalados instrumentos de tortura, pelos quais se pendurava as vitimas com uma corda grossa de cânhamo, pelos pulsos e pelas mãos, com pesos de ferro presos nos pés. Em 1816, após reforma, foi chamada de Praça da União. E só em 1833 passou a ser denominada como Praça da Independência. Como na época não existia Galo da Madrugada, e muito menos Rede Globo, imagina-se que as prostitutas podiam circular livremente pelo espaço. Hoje, porém, talvez o mais aconselhável fosse mudar novamente o nome do patrimônio púbico para Praça Global. Quem sabe assim, quando acabasse o carnaval a mesma empresa privada não se responsabilizaria por sua manutenção? E neste caso, assim, até caberia tal descabimento e insensatez.

AMANTES DE GLÓRIA - DESDE 1979
Mas como dizem no popular, no carnaval como na vida, nem tudo são flores. Mas por outro lado se as prostitutas são expulsas do grande desfile [ou melhor, de seus afazeres durante o período momesco], um bloco carnavalesco fundado em 1997 lhes faz reverências. É o já tradicional “Bloco Carnavalesco Amantes de Glória”. Apesar das divergências, bem como das lendas que se criaram ao redor do bloco, fala-se que Glória era uma antiga prostituta, ou travesti do Recife, famosa no Bairro Antigo. Completando 15 anos de folia, os Amantes de Glória saem às ruas do Recife todos os anos para fazer a festa e arrastar multidões. Então, além de cair na candáia num dos blocos mais irreverentes da cidade, é bom torcer para que continue assim. Torcer para que não entre também no livro dos recordes. Por que senão as emissoras de TV vão invadir a cidade de camarotes quilométricos, e a prefeitura, sabiamente, vai transformar nosso carnaval em um grande circo, onde aos palhaços e cidadão [ou será a mesma coisa?] caberão apenas as estreitas e esburacadas ruas.

E só para lembrar, já que estamos falando em democracia, “A Praça é do Povo!”. Mas será que o prefeito lembra disso? [Plim-Plim!]

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

MENINAS QUE PASSAM E MORREM NAS RUAS DO RECIFE

CENTRO DO RECIFE





ENQUANTO O CARNAVAL NÃO CHEGA!

Uma menina vaga pelas ruas da cidade. Estamos na Praça Maciel Pinheiro, coração do Recife. No centro um grande chafariz se ergue. O lodo cobre não só quatro leões que imponentemente suspendem uma plataforma onde uma índia se banha, mas também a água que lhes caem da boca. Na base da bela obra de arte dezenas de crianças e adolescentes se banham num verde salobro e aveludado. Também são lodos, pois que se constituem na ignomínia e degradação. Escórias de uma metrópole impudica destoam da escultura, outrora branca. Em meio aos matos, pois que já não há jardins, Clarisse Lispector parece inerte e sem vida. O abajur está no chão e já não ilumina o teclado da velha máquina. Não foi só a inspiração que foi morta, mas também a luz que se recusa iluminar dejetos sociais que agora assumem aspectos humanos. Meia dúzia de famílias fixou seus lares sobre as velhas e históricas pedras de cor clara, por onde se estendem velhos colchões e roupas de uso, ou pelo menos o que sobraram delas. A ração diária lhes é servida em latas, mas representa a solidariedade cristã. Eles comem como cães famintos. Rosnam, se empapuçam, cheiram cola e depois caem desacordados. Em meio a tudo isso, a menina passa, as pessoas passam, o governo se ausenta e a cidade continua viva.

Ela não tem mais que 13 ou 14 anos, mas sua fisionomia resvala na velhice. As marcas das ruas estampam seu rosto, seu corpo, seus movimentos minguados. São cicatrizes profundas que desfiguram os que não têm nada. Ela vagueia como sem rumo, e talvez não o tenha de fato. Muito menos prumo. Um resto de tecido, que um dia foi amarelo, lhe cobre vergonhosamente os pequenos seios, enquanto que uma saia curta lhe expõe indevidamente a carne. Seus olhos enxergam a esmo e um sorriso débil lhe invade a boca desnuda e sem dentes. Um torço de cabelos grudentos lhe cai sobre os ombros esqueléticos. É uma sombra humana. Um fantasma atormentado e que atormenta. Seu cheiro incomoda, assim como incomoda seu aspecto animalesco. Resto de gente que se arrasta pelas ruas de uma cidade hipócrita. Alguns lhes viram o rosto enquanto elevam às mãos as narinas. Fingem espanto. Não fazem nada. Apenas observam e criticam enquanto a menina passa. E em meio a isso tudo, as pessoas passam, o governo se ausenta e a cidade continua viva.

Ela cruza a Rua do Hospício de forma louca e desequilibrada. Esquiva-se dos automóveis que reclamam em buzinas. Tropeça na calçada em desalinho e sempre esburacada. Ela ri de si mesma. Ela cai sozinha. Ela ri sem motivos, ou talvez de sua própria condição. É um bicho perdido e sem donos. É dona das ruas e por isso se impõe a uma cidade muito maior em sujeira. Agora três jovens moribundos e um adulto com aspecto doentio lhes abordam. Brincam com ela. Tentam agarrá-la a força. A menina se mostra escorregadia entre mãos pecaminosas e cheias de más intenções. Um senhor que passa do outro lado reprova o ato. Um bêbado grita: “fodam essa cadela!”. A brincadeira continua. A briga se agrava. Suas roupas se rasgam. Ela corre desorientada. Ela cai novamente, agora do meio fio. Ela ri sem motivos ao mesmo tempo em que um carro freia cantando pneus. Ela ri sem emoção. E a meio tudo isso, a menina passa, as pessoas passam, o governo se ausenta e a cidade continua viva.

Uma cadela corre as ruas enquanto é seguida por cinco ou seis cachorros. Deixa um rastro de cio que aglomera e atiça a selvageria. A menina passa seguida por anjos negros, pardos e anêmicos que a cobiçam. A tara também aglomera a selvageria. São todos bichos soltos. Uns naturalmente animais. Outros destituídos da condição humana. Todos primitivos. Todos selvagens: a menina que passa; a cadela que corre; os anjos pecaminosos, que a perseguem; os cães que rastreiam o cio e o povo que os acompanha. Inclusive eu!

Pela Rua Gervásio Pires ela some. Anjos indecorosos mantêm a perseguição. E agora sou eu quem passa. Relembro uma notícia de jornal e esmoreço diante de um destino previsto: “uma adolescente é encontrada morta em matagal da Região Metropolitana”. A cena me invade a mente. Vejo uma vítima atacada por cães humanos, raivosos e ensandecidos pela tara. Salivantes por cobiçar a carne alheia. Mesmo que magra em e sem vida, mas ainda carne. Mesmo que em forma de ossos, mas ainda corpo. Corpo que será vencido pela fúria dos desejos transgressores. Corpo que será escarnecido pelo ódio de quem não tem nada - limites, afetos, dignidade, cidadania, auto-referência. Aquela já não passa pelas ruas do Recife. Pelas mesmas ruas por onde as pessoas ainda passam. As mesmas ruas das quais o governo se ausenta. As mesmas e mal tratadas ruas de uma cidade que ainda permanece viva. Ela não.

Como tantas meninas feitas em vias desumanas, talvez a de sorriso débil consiga lutar contra os que a violam. Mas talvez não lhe restem forças diante de uma cidade indecente e emporcalhada. Uma cidade muito mais forte em sujeira. Quem sabe não sofra da ausência, digna dos imbecis e se refugie no escuro da alma, de uma forma que só os que não têm nada conseguem. Quem sabe sorria de forma demente resignada ao que o destino lhe reservara. E se o destino não lhe fez justiça, a sociedade lhe impôs a condição de cadela. E cadelas não têm direitos. Não têm cidadania. Apenas as ruas lhes darão guarida. Rogo então que seu futuro se faça diferente e que o escárnio social se transforme apenas em brincadeira. De um mau gosto que só os que não têm nada sabem brincar. Em silêncio rezo para que não estampe as capas dos jornais matinais. E neste exato momento, penso que talvez nem a morte a deseje, pois que a vida há muito a abandonou. E nesse naturalizado desinteresse pela vida, as pessoas passam, o governo se ausenta e a cidade continua viva.

E agora sou quem caminho desorientado. Tropeçando em remorsos. A foto do jornal me volta à cabeça. A batalha prossegue, e agora a vítima sem rosto assume as feições da menina ébria de drogas que vi passar. Seu corpo é corrompido. Transforma-se em caça de quem é caça também. Torna-se refém dos que se manterão reféns ainda por longos tempos. Nesse ato de violência não é carne que se penetra e se exalta, mas as mazelas da sociedade, também animal. Os subjugados subjugam seus pares na tentativa de apaziguar seus próprios sofrimentos. Ferem os excluídos por não poder lutar contra os que lhes excluem. Buscam aniquilar suas próprias angustias através da força que se estabelece em relações de poder, onde o mais forte aniquila o mais fracos. Mas que são todos fracos, e mesmo assim dominam para se sentirem menos dominados. Afloram a carne para se sentirem viris através do ato. O prazer não está no gozo, mas numa dor que também é sua. Pois que não lhes restam muito a não ser replicar o que lhe martelam a mente. De seus lugares de inferiores restam atos doentes que apenas refletem a enfermidade social. O bando se une na justiça dos injustiçados e amaldiçoam os impotentes porque estes também os espelham. Depois, cansados, fogem como lobos indefesos e arrependidos. Cães instintivamente saciados do nada. Mas não se pode exigir sanidade dos que não têm nada. Não pode exigir normalidade das pessoas que apenas passam, assim como de um governo que apenas se ausenta e de uma cidade que insiste em se fingir de viva.

Mais um corpo usado permanecerá inerte em meio ao lixo quando a noite cai sobre a cidade indiferente e desavisada. Já não haverá sorrisos débeis. O breu invadirá os céus e não haverá tropeços, não haverá reclamação. Ao longe, um galo cantará anunciando a esperança vã, pois que a luz se refará apenas para salientar um vermelho que escorre no verde mato. Do ventre ao mato. Do mato ao lixo. Do lixo aos vermes. Vermes que comem corpos para transformá-los apenas em restos de uma sociedade já putrefata e corrupta. Corpos, vivos ou motos reduzidos a dejetos de uma cidade que apodrece enquanto se mantém viva. O galo canta novamente. A brisa reclama movimentos. O céu chora sobre a violação do já foi sagrado. Depois, impiedosamente o sol se levanta. Mas, a menina não.

E agora sou eu quem caminha ébrio. Tomado por uma dor que sufoca e evidencia inércia diante do fatídico. Agora é minha própria carne que chora a dor dos desiludidos, dos incertos, dos impotentes. Os olhos salgam a boca. Agora eu passo, retornando por onde outrora passou a menina com restos de tecido que um dia foi amarelo. Agora as pessoas só não passam, mas me olham e se fingem penalizadas. Estão curiosas, mas não tocadas, pois que meus motivos e conflitos não são os seus. Na praça vasculho as famílias. Os olhos me desapontam por não acha o que procuro. Os meninos continuam no lodo, assim como os adolescentes, os adultos e os idosos que ali fixaram residências. Algo os abate e me abate. Baixo a cabeça perante a sociedade que me cruza. Um banho refresca pensamentos. A menina ressurge a mente. Desejo que amanhã esteja na praça. Ébria e trôpega. Uma forma de apaziguar minhas angústias e dívidas. Talvez sorria sem motivos, ou dos meus motivos. Talvez os leões se mantenham imponentes e dóceis, cuspindo fedores. Talvez a índia continue exuberante em seu banho de águas sujas. Talvez Clarisse suspenda o abajur para inspirar novos escritos. Novas críticas. Talvez sua voz ecoe sobre as desigualdades. Talvez a luz volte a todas as praças e ruas do Recife. Talvez o ano corra trazendo dezembro. Talvez a gente mude de governo. Talvez...

domingo, 5 de fevereiro de 2012

VIAGEM AO VELHO MUNDO EM 20 DIAS - Último Capítulo

DAS FRIAS RUAS DA EUROPA AS QUENTES MAZELAS DE RECIFE.


LA FONTANA DE TREVI - ITÁLIA

Esta semana a imprensa destacou as consequências das baixas temperaturas, que chegaram a menos 30 graus centígrados e assolaram a Europa. Por sua vez, do outro lado do Oceano Atlântico enfrentamos temperaturas acima dos 30 graus e também nos tornamos notícias. Frio ou calor? Inverso ou verão? Se os europeus entram no período de hibernação involuntária, nós entramos no período de ferveção que mexe com o imaginário popular. É que Baco, deus do vinho e que adora uma festa se aproxima e reivindica as ruas. Invade as cidades pernambucanas perpetuando seu reinado. Sim, nós também temos reis e rainhas, príncipes e princesas, condes, duquesas. E ainda temos calungas porque nossas raízes não são apenas de peles alvas, mas negras e indígenas. Somos mestiços. Nossa pele e nossa cultura são marcadas pelo sol.


CENTRO HISTÓRICO DE VERONA - ITÁLIA

Mas se engana quem pensa que nossas ruas estão repletas apenas de blocos carnavalescos. Não! Nós temos maracatus, mas temos também mendigos. Temos sambistas e fanfarrões, mas também miseráveis que se espalham pela cidade. E sim, nós temos festas e muita alegria neste período de farra momesca, mas acima de tudo, temos muita fome, inanição e doenças. Somos por natureza e característica uma cidade antagonicamente desleal durante os trezentos e sessenta e cinco dias por ano. Assim, posso dizer que conhecer a Europa, ou melhor, pequena parte desta, me possibilitou refletir sobre a população em situação de rua enquanto fenômeno universal. Dizem que as diferenças de classes sustentam a ordem mundial. Digo, porém, que a desigualdade aliena almas e mutila vidas. É fato que a crise econômica que desestabiliza a União Européia é algo novo no cenário mundial, mas nossa crise social, que perpetua desigualdades não. Talvez os europeus possam aprender um pouco conosco, pois que temos como estratégia infalível a tática do “deixa prá lá que as coisas se resolvem por si mesmas”. Se na Europa pessoas estão morrendo nas ruas geladas, aqui, recifenses morrem em ruas que mais parecem fornalhas. Não sei se o inferno é demasiadamente quente ou frio, mas o infortúnio parece o mesmo, independente de localizações geográficas. Pensando melhor talvez nem possamos ajudar muito, por não ter o que realmente ensinar, a não ser a prática da omissão. Afinal de contas temos séculos de experiência em crise econômica e nunca resolvemos a situação dos excluídos e miseráveis que ocupam nossas margens. O melhor seria retirar de nossa experiência o que não fazer. Poderíamos então servir como exemplo, pois que somos referência em descaso e desapreço.


VENEZA - ITÁLIA

Se a população em situação de rua em cidades como Roma, Verona, París, Londres ou Lisboa, em maior e evidente quantitativo, chama a atenção, nas do Recife parece não mais despertar cuidado e muito menos reflexão. É que infelizmente nos acostumamos e naturalizamos a desigualdade e a injustiça como regra da boa convivência. Já transformamos a miséria em cartão postal e até a exibimos como exemplos do que não se deseja, onde homens, mulheres, crianças e idosos são transformados em restos ou resíduos da sociedade. Tanto que a Avenida Conde da Boa Vista está repleta de meninos, meninas, mulheres e homens abandonados ao acaso, assim como também estão a Avenida Manoel Borba, a Rua da Aurora, Rua Sete de Setembro, Rua da União, Rua do Riachuelo, Avenida Dantas Barreto, Avenida Guararapes, bem como a Praça Maciel Pinheiro, a pracinha da Soledade, a Praça Joaquim Nabuco e o Parque Treze de Maio. Se a Europa esbanja beleza e organização social como atrativos turísticos, em oposição podemos oferecer a barbárie e a selvageria como forma de sedução. A noite na Rua da Imperatriz, por exemplo, assume ares dantescos, onde famílias se amontoam embaixo de marquises, nas calçadas e entradas de lojas comerciais. No Recife, um beco, uma escadaria, um gramado, um canteiro, uma carroça, um papelão velho, tudo serve para proteger a carne e diminuir os impactos da terra fria e indiferente sobre corpos indigentes e agonizantes. E se já estimulamos o turismo sexual, quem sabe não agregamos valor comercial vendendo também o turismo da miserabilidade?


CENTRO HISTÓRICO DE LONDRES - REINO UNIDO DA INGLATERRA

Nossa vantagem é que não dependeríamos das estações do ano, como eles, pois que com chuva ou sol será sempre possível presenciar restos humanos se arrastando pelas ruas e principais vias de acesso do Recife. Poderíamos até credenciar empresas especializadas, no melhor estilo europeu, para transportar turistas em cômodos ônibus refrigerados pelos principais trechos da cidade. É lógico que o Rio de Janeiro já oferece algo parecido, mas restrito a determinadas favelas. Mas nós ganharíamos em extensão e variedade. Partindo do Marco Zero, seguiríamos pelo Cais do Porto para ver a Comunidade do Pilar. Pela Ponte do Limoeiro, local adequado para se prestigiar a exploração sexual de crianças e adolescentes se entraria pela Avenida Artur de Lima Cavalcanti e chegaríamos a Praça do Onze, na Comunidade de Santo Amaro, por onde andam meninos nus e descalços. Pela Avenida Agamenon Magalhães os turistas poderiam verificar a quantidade de crianças que nos semáforos limpam os pára-brisas dos carros e fazem acrobacias no trânsito, além das várias famílias que utilizam a via para expor bebês recenascidos em troca de algumas moedas. Isso sem considerar os zumbis alimentados pelo crack que perambulam e assombram as margens do canal imundo. Pela Rua Fernandes Vieira atingiríamos a Praça do Parnamirim para ver como famílias desassistidas lavam e estendem as roupas de uso e fazem as refeições no melhor estilo piquenique.

CENTRO DE LONDRES

O ponto alto seria a Rua Oliveira Lima, que se emenda com a Rua do Riachuelo. Nas duas pracinhas localizadas no pequeno trecho poder-se-ia ver meninas e meninos em situação de prostituição, tráfico e uso de drogas e/ou cometendo pequenos delitos. Em frente à Faculdade de Direito, espécimes não raros vagueiam perdidas durante todo o dia. Ao desembocar na Rua da Aurora, bêbados dormem prestes a cair no rio e desaguar no mar. Pela Ponte Princesa Isabel chega-se a Rua do Sol que forma a margem contrária do Rio Capibaribe. Nela, em frente ao Edifício dos Correios a exploração do trabalho infantil seria o foco. Também tem crianças dormindo junto a cachorros sarnentos e mal cheirosos. Atravessando a Avenida Guararapes, abaixo das marquises do velho Trianon veríamos prostituição, assaltos e milhares de crianças que fazem das carroças confortáveis berços a que nunca tiveram direito. Praça Joaquim Nabuco, território da clandestinidade, repleto de prostitutas, prostitutos, travestis e cafetões, além de crianças e adolescentes perdidos em drogas, que também rodeiam a Casa da Cultura. Mais uma bela e histórica ponte descuidada dá caminho ao Cais José Mariano, onde se instala o famoso bem-me-quer. A rua escura não esconde pessoas e muito menos órgãos sexuais a serviço. Da Ponte de Ferro, que tem nome de imperador, até a Ponte Duarte Coelho mais pessoas em sonos insólitos as margens do rio.

 
Mas antes de seguir viagem vale uma olhadela na Avenida Conde da Boa Vista que nos revelará sujeira, animais e gente que se misturam em calçadas mal conservadas. Por sorte poderíamos presenciar uma das comuns batalhas que se trava entre torcedores ensandecidos e policiais não menos desorientados, em dias de clássico. O espetáculo com direito a pancadarias, balas de borracha e, em algumas vezes, com farta cortina de spray de pimenta levarias os turistas ao êxtase. Uma parada programada poderia servir para alimentar as câmeras havidas por novidades do submundo. Uma espécie de experiência única se daria se pudessem presenciar a distribuição da sopa da misericórdia realizada pelos religiosos de plantão. Talvez pudessem distribuir esmolas para apreender o sentido da gratidão e da solidariedade. Talvez o guia pudesse destacar nossa tendência a reciclagem ao transformarmos papelão em colchões e jornais velhos em lençóis.

 
Por fim voltaríamos ao Marco Zero, no bairro antigo, onde blocos de carnaval desfilariam pelas ruas de pedras e casarios históricos. Seria o contraponto entre a exuberância e a falta de brilho de uma vida nua e crua que também invade as ruas. Sem dúvida nenhuma os europeus adorariam a experiência e levariam para casa algumas idéias interessantes e viáveis para enfrentar a crise econômica que aos poucos aumenta seus contingentes de desassistidos, que como os nossos, buscam nas ruas frias novas possibilidades de sobrevivência. Quem sabe até eles não inventam um carnaval como o nosso, e assim aprendem a brincar e a ri da miséria e das próprias desgraças, como fazemos em Recife? Por via das dúvidas, melhor seria patentear a idéia. Será?

PRAÇA DA FIGUEIRA - LISBOA

PRAÇA DE FIGUEIRA - LISBOA

PRAÇA DO COMERCIO - LISBOA/PORTUGAL



PRAÇA DO ROSSIO - LISBOA/PORTUGAL


AVENIDA MAIS CARA E FAMOSA DE PARÍS - FRANÇA

sábado, 4 de fevereiro de 2012

VIAGEM AO VELHO MUNDO EM 20 DIAS - Capítulo XII

LISBOA - PORTUGAL

LISBOA: A CIDADE DO FADO

Diz à história que do cais de Belém, pelo Rio Tejo, no ano de 1500, saíram às naus portuguesas rumo às índias. Mas quis o destino, ou os interesses políticos e econômicos, que uma grande tempestade trouxesse a companhia de Cabral às terras brasileiras. E assim nos tornamos colonizados. Hoje a mesma viagem que durou meses em meio a tempestades e tormentas se faz em oito horas de vôo, não menos turbulentas. Chegar a Lisboa é quase retornar-se a casa. O filho pródigo volta ao lar. Ou como diria Buda, o rio sempre retorna por onde outrora passou [citação em Sidarta, de Hermann Hess]. E tudo funciona como uma espécie de retorno às origens. A fora a língua, a culinária, os modos, a arquitetura e a cultura nos são muito próximas. Pela Avenida República chegamos ao hotel, Albergue da Juventude, localizado no centro, próximo a Praça Marques do Pombal. Nela, uma grande estátua se eleva para homenagear o homem que reconstruiu a cidade depois do grande terremoto acompanhado de tsunami que a assolou e a reduziu a ruínas.


RIO TEJO
A Avenida da República é ampla e corta a cidade, divida em bairros tradicionais e históricos. Por ela chega-se ao Campo Pequeno, onde uma grande arena serve de espaço as touradas. O cantor brasileiro lançado ao estrelato internacional tem show marcado para fevereiro. Pena que a nossa primeira referência a invasão inversa, onde os brasileiros marcam presença nas terras dos lisboetas seja de tão discutível qualidade. Adiante se encontra a Praça Duque de Saldanha, de onde a avenida recebe o nome de Fontes Ferreira de Melo, para depois da Praça Marquês do Pombal se transformar em Avenida Álvares Cabral. A partir da Basílica da Estrela, localizada diante de um grande e harmonioso parque, esta será mais uma vez renomeada para se transformar em Avenida Infante Santo e desembocar na Doca de Alcântara, onde forma uma espécie de anel. Ao sul, a mesma via passa a ser conhecida como Avenida da Índia e nos leva ao centro cultural de Belém, onde hoje se encontra instalado o Padrão dos Descobrimentos. O monumento é belo e imponente, representando uma grande caravela que ruma em direção ao oceano. Pela orla alcançamos a Doca do Bom Sucesso. Atravessa-se uma ponte em madeira e entra-se na Torre de Belém, antigo castelo que se mostra rodeado pelas águas do Rio Tejo. No centro cultural oito museus contam e recontam as histórias e tradições de Portugal. Próximo ao Lago das Princesas está o Museu Berardo, acompanhado do Museu de Arte Popular, o Planetário e o Museu Nacional de Arqueologia. Na Praça de Málaca encontra-se o Museu da Marinha que resgata as grandes conquistas portuguesas, próximo ao Mosteiro dos Jerônimos que se estende soberano e revela a arquitetura clássica portuguesa. A poucos metros encontramos o Museu da Presidência da República e adiante o Museu Nacional dos Colches. Neste, a riqueza de detalhes se revela nas antigas carruagens utilizadas pela família real. Estão ali algumas carruagens presentaeadas aos papas e reis da Espanha, Inglaterra e França. Fecha-se o ciclo cultural [ou quase círculo] com o Museu da Eletricidade.


PADRÃO DOS DESCOBRIMENTOS
Voltando em sentido norte, pela mesma Avenida da Índia, chega-se ao Museu do Oriente, onde a via transforma-se em Avenida 24 de Julho, que nos leva ao Museu de Arte Antiga e depois ao Cais do Sodré. Alguns metros a mais e entramos na Praça do Comercio, de onde se pode avistar o antigo Castelo de São Jorge e a Igreja da Sé de Lisboa, no ponto mais alto da cidade. A crise econômica enfrentada pela Europa se faz mais presente e evidente em Portugal. É claro que na Itália e na frança se fala da crise econômica e se teme o futuro. Destacam a situação privilegiada do Brasil como futura grande potência e revelam certo ressentimento, até, pelas novas perspectivas. Na verdade verifica-se claramente o quanto a crise e o novo cenário atual tem atingido o orgulho e auto-estima européia. Neste ponto, Londres se mantém distante, mas não imune ao efeito cascata. Fora da União Européia, adota moeda própria e talvez por isso sofra menos os impactos. Mas em Lisboa a crise é claramente evidenciada pelos registros da cidade. A população em situação de rua revela uma realidade também muito próxima a nossa, considerando as proporções, claro. Na Praça do Comércio, por exemplo, moribundos, desempregados e idosos oferecem “marijuana” [maconha] a céu aberto. Também nos ofereceram cocaína. A situação, de certo modo, chega a ser acintosa, pois não se espera ver na Europa as mazelas dos países subdesenvolvidos. Mas em suas devidas proporções estão lá.

No sítio histórico, próximo ao Teatro Nacional D. Maria II, localizado diante de uma grande praça, homens desocupados, em sua maioria, negros, se amontoam em bancos e esquinas. A polícia municipal [ou estadual] se faz presente. Contudo, algo de estranho torna o ar tenso a um visitante mais atencioso. Seguimos nosso passeio e nos deparamos com a Casa dos Bicos, velha construção de paredes pontiagudas. Mais adiante se encontra o Museu do Fado e as Portas do Sol. No dia seguinte vamos até o Castelo de São Jorge. A subida a grande colina é feita de bonde e torna-se uma experiência única. As ruas estreitas revelam conjunto arquitetônico riquíssimo em detalhes que salientam o cotidiano das velhas vilas portuguesas. Apesar dos problemas sociais a cidade é extremamente limpa, bonita e organizada. Velhos casarios se estendem pelas vias de acesso, de onde se avista varais com roupas de uso que flamulam livre ao sabor dos ventos. Senhoras de cabelos grisalhos conversam das janelas. A cidade está viva e parece seguir sua rotina normal, indiferente a presença de estranhos.

ELEVADOR DE SANTA JUSTA
A TORRE EIFFEL DE LISBOA
 
CASTELO DE SÃO JORGE
Das ruínas do antigo castelo se tem uma visão panorâmica da cidade e entende-se um pouco de sua complexidade. Na verdade lembra as ruas e casarios de Olinda, ou do bairro antigo do Recife. Depois do maremoto que destruiu a cidade, os prédios foram construídos em formato quadrado e com estrutura para suportar novo ataque marítimo. Desta forma, a cidade foi planejada, o que lhe confere um sentido de ordem que se sobrepõe a desordem do momento atual. Um fato que chama a atenção é a quantidade de alunos em visita aos museus, comum na Europa, e erroneamente raríssimo no Brasil. São as aulas de história e arte que acontecem diariamente, contribuindo para a consolidação do orgulho e cidadania portuguesa, londrina, francesa e italiana. Das antigas muralhas do castelo verifica-se a movimentação da cidade. Na área externa ruas calçadas com paralelepípedos nos levam a antigos e históricos restaurantes. Não se come em Lisboa sem antes experimentar o tradicional pão umedecido no Azeite de Oliva.


TEATRO NACIONAL D. MARIA II
Portugal como os demais países que visitamos vive da cultura. É comum frequentar teatros durante os dias da semana. Seja terça ou quarta feira os espetáculos estão lotados. No Teatro Nacional D. Maria II assitimos “Quem Tem Medo de Virgínia Woolf”, de Edward Albee, encenação com três horas e meia de duração. No Teatro Comuna de Pesquisa, mais três horas para ver “Design For Living”, de Noel Coward. Apesar de longos os espetáculos mostram uma arte consolidada, madura e profissional. Diferentemente do Recife, é possível se viver com dignidade do teatro e das artes de modo geral na Europa. Na televisão a programação é diversificada. As novelas fazem sucesso e revelam a influencia sobre nossa cultura. “Morangos com Açúcar” seguem a formula da Malhação. Perece não existir horário fixo para as novelas, pois que as duas e meia da manhã ainda rende os capítulos de “Meu Anjo”, que entra no ar depois de “Santo Remédio”. No domingo após nossa partida estava prevista a estréia de “Proibido Amor”, cujo slogan alertava que “quanto mais proibido, mais apetecido será o amor” e com elenco formado pelos atores que estão em cartaz no D. Maria II. A quantidade de anúncios de remédios chama a atenção. Para um desavisado a sociedade lisboeta se mostra doente, ou hipocondríaca. Depois refletimos e constatamos que não é tão diferente no Brasil. Não existem propagandas de bebidas alcoólicas ou cigarros. O jornalismo alerta os compatriotas sobre a crise. O governo português reduziu benefícios e cortou 13º, 14º e férias remuneradas também para os empregados da rede privada. Entre as medidas mais drásticas, 15.000 aposentados perderam ou tiveram reduzidos seus benefícios. Os bombeiros entrariam em greve devido ao atraso nos salários e falta de condições de trabalho, inclusive falta de fardamento.

Neste   sentido, a Praça Marquês do Pombal serve de espaço para os movimentos sociais e políticos. Lisboa em comparação com París, Londres ou cidades italianas se mostra mais verdadeira e real, menos cenográfica. O povo vai às ruas para reivindicar direitos. Na conjuntura atual o turismo se mostra uma estratégia de sobrevivência. São amáveis com os brasileiros, latinos de modo geral e principalmente com os orientais. Assim como os brasileiros, os indianos se mostram a vontade e encantados com o velho mundo. Os japoneses, coreanos e todos os de olhos puxados andam pelas ruas em grupo, de mãos dadas, como cordas de caranguejos. Impacientes se mostram mal educados. Furam filas, falam alto e esbravejam a morosidade a que não estão acostumados. Um descuido e pode-se ser atropelado por eles em qualquer lugar das cidades européias. Mas apesar da agitação política e econômica que enfrenta Lisboa se mostra calma e tranquila, tanto que se pode andar de madrugada pelas ruas sem receio ou medo de assaltos. Aparentemente não existe violência urbana, pelo menos nas proporções a que nos acostumamos.

PARQUE EDUARDO VII
Na  verdade    a cidade dorme cedo  e acorda tarde, talvez devido ao inverno, que segundo eles ainda não havia chegado. Estávamos a 12 graus mais conseguíamos sair sem uma grande quantidade de casacos. Próximo a Praça Marquês do Pombal encontra-se o Parque Eduardo VII [descendente do rei gay inglês, Eduardo II, abominado pelo Reino Unido]. Belos jardins se elevam para cima da colina transformando o espaço em uma área exuberantemente verde. Uma ida rápida no banheiro público e mais uma característica nacional nossa se revela. A pegação se mostra persistente e acintosa, tal como no Brasil. Interligado encontra-se o Parque Amália Rodrigues, famosa cantora que desfia lamurias e casos amorosos no melhor estilo melodramático. São os amores proibidos que povoa o imaginário dos fadistas. À noite no Baixo-Chiado, bairro alto e histórico da cidade, é romântica e melancólica ao mesmo tempo. Sentar em um dos bares e apreciar uma boa cerveja, e principalmente o famoso vinho do Porto torna-se uma experiências fenomenológica e inesquecível.
PARQUE AMÁLIA RODRIGUES



A CRISE EUROPÉIA

Depois de uma semana em terra lusitana começa-se a compreender melhor a vida, a cultura e o cotidiano dos portugueses. Impossível se torna não identificar sua influencia sobre a nossa cultura, vida e cotidiano. No aeroporto, a agitação dos brasileiros nos faz começar a despertar para a realidade. É como se começássemos a sair de um sonho bom. Fala-se alto, gesticula-se demais. Existe uma variedade enorme de sotaques que agora nos parecem estranho, porém não menos belos. Nos identificamos de imediato. Nos encontramos ao sorrir com a espontaneidade brasileira. Somos frutos da mistura e por isso nos tornamos misturados dentro de uma mesma nacionalidade. Somos múltiplos, e acima de tudo somos vivos. Não somos mal educados, mas apenas seguimos uma ética de conduta própria e inigualável. Temos o sangue quente como o sol. É isso, somos a terra do sol. E somente isso nos torna Iluminados e únicos.

Próxima parada, carnaval de Recife e Olinda!

A TERRA DAS TOURADAS

FIM DE VIAGEM

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

VIAGEM AO VELHO MUNDO EM 20 DIAS - capítulo XI


CASA DE ARMAS DA RAINHA

LONDRES: UMA CIDADE REAL

Se desejar sentir na própria pele o significado da exclusão, deverá ir a Londres, capital do Reino Unido, na Inglaterra. Para se chegar até lá no entanto, vindo da França, será preciso enfrentar a calmaria do Canal da Mancha. Esse foi o percurso que fizemos. A viagem é bela, pois em pouco tempo avista-se terras nos dois extremos. Dois povos, dois países, culturas distintas. Gaiovotas sobrevoam a embarcação e parecem nos saudar ao longe. Algumas mergulham e sobem as nuvens carregando pequenos peixes. No navio tudo é muito grande e luxuoso. Possui três andares onde os passageiros podem se divertir em compras, almoços, lanhes e cafés. Tem cinema, sala de socialização, espaço para leitura e repouso. Se preferir pode-se chegar até a proa para apreciar as águas sobre as quais se flutua. O vento frio da um ar charmoso a viagem, que não é muito longa, mas que para quem tem medo do mar parecerá eterna. No restaurante a velha e tradicional comida inglesa: peixe frito acompanhado de batatas fritas. Nada mais como opção. Nada mais decepcionante. O aspecto é anêmico e pouco inspirador. O mar sacode o navio, que balança as mesas, que sacode os os pratos. Nosso corpo acompanha. O peixe parece vivo e remove-se no estômago. Nesse movimento a gororoba parece viva, desejando voltar a boca.


PONTE DA TORRE

No máximo em uma hora chega-se a Dover. Muralhas de rochas parecem formar o cais. No ônibus de turismo descemos a rampa do navio e seguimos para o estacionamento. Espera-se numa fila que parece quilométrica até chegar aos guinchês, onde deve-se apresentar o passaporte para permissão de entrada. A frieza dos londrinos se revela de imediato. Impacientes e desconfiados nos submetem a uma breve entrevista, em infglês, claro. A dificuldade no idioma pode ser um dos motivos para invalidar a entrada. Os londrinos não se esforçam em se fazer entender, e logicamente, em tentar entender o estrangeiro. Recorro ao auxílio da guia que nos acompanha em viagem. O homem louro e de bigodes e ar cisudo não lhe dar atenção e mantém os olhos cravados em mim. Um certo desespero me invade pois preciso tempo para organizar as idéias, traduzir o que me pergunta e pensar na resposta. Sou salvo pelo meu companheiro de aventuras, que a esta hora está no guinchê ao lado. Passaportes carimbados, o próximo passageiro é convocado ao local. Atravessamos um corredor e seguimos para o ônibus. O frio de Londres não se faz apenas na temperatura local.

 
Aos poucos nos afastamos por estradas bem estruturadas. Parecemos seguir na faixa constrária. Estamos no lado posto da via. Dizem que antigamente o transito era assim, e apenas o Reino Unido resolveu manter a tradição. Olhando os veículos que seguem ao lado, algumas vezes somos tomados de subto e imaginamos que se movem sozinhos. Na verdade o motorista oculpa o lugar do carona. Outras vezes, crianças que andam na frente junto ao condutor parecem dirigir. Já na cidade, paramos em um estacionamento para visitar um famoso castelo - Casa de Armas da Rainha, onde são guardadas suas jóias. Localizado na entrada de um bairro histórico, sua suntiosidade e elegância chamam a atenção. O Rio Tâmisa corre ao lado. Sob ele está a famosa Ponte da Torre. Como nos filmes, uma ponte suspende-se sobre o calabouço e nos leva até a porta do castelo real. Seguimos pelas margens do rio. Do outro lado avista-se o Canary Whaff, o maior e mais importante centro financeiro do mundo, onde nos hospedaremos. A luz se reflete nas grandes espigas envidraçadas. Um prédio ovaloide todo em vidro nos chama a atenção. É a nova prefeitura. Os flashes disparam apressados. Londres é apressada. Tudo tem horário marcado. Nada foge ao rigor. Por isso voltamos para seguir viagem. Somos severamente parados por uma Londrina negra e mal educada. Ela reclama o atrazo de três minutos e diz que teremos que pagar o dobro o valor do pedágio. Nossa guia, Ana Belém, de origem e temperamento espanhol junta-se a motorista, Tonni, italiana, para encarar a londrina. O bate boca aumenta de tom. Não adianta, ou se paga ou não se sai. A mulher de baixa estatura esbraveja enquanto libera a passagem. Acena em gestos grosseiros revelando sua reprovação.


CANARY WHARF

O Canary Wharf é um bairro construido sobre o rio. Uma ilha artificial formada sobre pilotis fincados nas águas. Em nada se compara a Veneza italiana, mais não podenos negar seu encanto e magia. No Britannia Hotel novo contratempo. Um dos passageiros com dificuldades de locamoção solicita auxílio. As instalações não oferecem acessibilidade. A recepcionista, fria e esquiva, comunica que esse é um problema nosso. Dá as costas. Segue imparcial no atendimento aos hóspedes. Mais uma vez a frieza que incomoda não vem somente dos ares gélidos, mas da indiferença. Tomamos os elevadores e seguimos por um grande corredor forrado com grosso carpete. O hotel é extremamente brega, meu ver. No quarto, as camas são colocadas em frente a um antigo móvel de madeira. Uma antiga penteadeira, tão conhecida por nós brasileiros nos anos 60 e 70. Cortinas marrons escondem a luz externa. Tudo parece abafado e úmido, inclusive o grosso tapete de cor verde oliva que cobre o piso. No teto um lustre dourado formado por vários cristais de vidro completam a cafonisse. Tudo cheira a tradição e conservadorismo. O hotel é quatro estrelas mais a decoração lhe dar um ar de quinta categoria. Existe uma mistura de paças na recepção. Arte oriental se mistura a esculturas gregas e romanas. O restaurante é amplo, porém sombrio. O banheiro é outro problema. A velha dificuldade em acertar a temperatura da água, a tradiconal ducha que deverá percorrer o corpo.



TROCA DA GUARDA REAL

Desço até a recepção e me encaminho para área externa, onde se poder fumar. Um grupo de senhoras bem vestidas [ou pelo menos acreditam nisso] acompanha um grupo de senhores trajando longas e grossas estolas. Eles também fumam. Um funcionário os adverte que devem permancer além do tapete vermelho. Uma senhora inglesa lhe esnoba o comentário e depois de fumar apaga o ponta do cigarro sobre o tapete. Me aproximo do grupo. Estou vestindo uma grossa calça, tipo moleton, e casaco por cima de uma camisa de malha. Os ingleses me olham dos pés à cabeça. Resmingam algo entre sí e se afastam grosseiramente. Escuto a palavra “latino” e, logicamente, entendo a ação [ou melhor reação]. Reflito sobre o processo de exclusão. Naquele momento somos todos parte de um mesmo grupo, pois temos em comum a hábito de fumar. Estamos todos excluidos, pois que nos reservam um pequeno espaço, longe do tapete vermelho. Porém, se o cigarro nos une, as origens nos separam e nos diferenciam. Depois penso como podem se mostrar tão intolerantes se mais de 50% das pessoas que vivem em Londres não tem origem inglesa. Entendo que eles não cultivam a familia real sem motivos. Talvez acredcitem na lenda do sangue azul, e por isso nobres demais para fumar junto a latinos. Independentemente das elucubrações sinto o quanto é dificil se sentir diferente, principalmente quando lhe fazem questão de resaltar as diferenças. E neste sentido, os ingleses são realmente os melhores.


BAIRRO DE PICADILLY

Comento com meu companheiro de aventuras e resolvemos descer até o bar. Os casais encontram-se sentados, quietos e mudos. Não existe interação, apenas olhares que se direcionam aos visitantes. Um certo estranhamento invade o ar. Aproveitamos o clima para conversar bastante, rir bastante e trocar olhares e observações multuas com os ingleses. Uma pequena forra para desfazer o mal estar. No dia seguinte saimos pela cidade. Segundo alguns historiadores, Londres foi fundada pelos romanos aproximadamente no ano 43 d.C. Era chamada de Londinium e sofreu invasões sucessivas. Depois de ouvirmos várias histórias pomposas sobre as sucessões de reis e rainhas, contadas pela guia local, perguntamos sobre um tal Eduardo II. A senhora com aspecto conservadora parece perder o riso. Insito e pergunto se existe registros na cidade do seu reinado. Ela de forma direta diz que não. Os ingleses não gostam desse período da história. Na verdade o Rei Eduardo II escandalizou o reinado com seus romances com homens do povo. A tradição inglesa foi quebrada quando o rei coroou um filho de açogueiro em lugar da rainha. O clero se juntou ao parlamento e tramou sua derrocada. Transfiado na masmorra durante anos, o Rei Eduardo II soi empalado com ferro quente. A rainha [que nunca engravidara do rei] subiu ao trono e tradição se manteve. Como se diz no bom ditado popular, rei morto é rei deposto. Assim, Eduardo II foi riscado da história.


RESIDÊNCIA REAL

A formalidade londrina é claramente estampada pela troca da guarda real, em frente ao Palácio de Buckingham, onde milhões de pessoas se atropelam diariamente. Milhares de flashes disparam ao mesmo tempo na tentativa de registrar algo de novo e inusitado. Soldados vestidos de vermelho empunham um grande chapéu preto na cabeça. Desfilam em filas, pelas ruas principais, em frente ao castelo, e seguem eretos. A troca da guarda real acontece apenas pela manhã e parece demorar uma eternidade. No pátio interno, os soldados, em pares, se dirigem até uma janela [onde supostamente estaria a rainha] e fazem reverências. O ritual se repete até que os últimos soldados voltem ao posto original. Tudo parece mecânico, mas lembram os velhos bonequinhos da infância. Na frente da residência real se estende o St. James´s Park. Uma tarde junto aos esquilos é sem sombra de dúvidas motivo de diversão. Eles correm, escalam árvores e percorre jardins repletos de aves, incluindo cisnes brancos como a neve. De uma ponte observam-se novos castelos e prédios históricos. Lembram os contos de fada. O Big-Bem se mostra imponente e parece combinar com as antigas cabines telefônicas e os tradicionais ônibus vermelhos.


ST. JAMES´S PARK

Andamos pelas ruas e chegamos a Picadilly, bairro artístico. Vários teatros oferecem grandes espetáculos. Num deles um grande sapato de salto alto resplandece. Priscila – a rainha do deserto está em cartaz, assim como Billy Eliot e mais uma porção de musicais. Como em São Paulo, cabines comuns de telefone público servem de espaço para divulgação de serviços sexuais. A prostituição feminina se faz presente na terra da rainha. Depois de horas andando, sentamos para um café e uma cerveja. Saio para fumar e preciso de fogo. Dirijo-me a uma mulher sentada na frente do boteco. Gentilmente solicito o isqueiro. Ela me estende o objeto, porém no bom inglês, me pede que seja “breve”. De volta ao Canary Wharf, tem-se a impressão de se estar em outra cidade. As grandes paredes de vidro substituem as grandes muralhas de tijolos e pedras. Chega o ano novo. Fogos explodem no ar. O frio invade os pulmões e passamos a noite tomando cervejas com um casal de cariocas. O dia amanhece chuvoso e cinzento. No dia seguinte partimos cedo para o aeroporto. Paro no saguão e percebo que do Reino Unido, prefiro as malas que me acompanham a saudade que não me assola.

Próxima parada, Lisboa!


CANARY WHARF