segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

VIAGEM AO VELHO MUNDO EM 20 DIAS - CAPITULO II

RUÍNAS DA ROMA ANTIGA


ROMA - UMA CIDADE MILENAR.

Eram onze e meia da noite, horário local, quando partimos do Recife rumo ao velho continente. Oito horas depois desembarcamos no aeroporto de Lisboa, em Portugal. Hora de apressar o relógio. Já eram dez e trinta da manhã do dia 21 de dezembro. Algum tempo de espera e mais três horas de vôo para chegar a Roma, capital italiana. O frio estonteante, o cansaço e a diferença de fuso horário causam certa confusão. Saio sozinho em busca de uma área externa para acender um cigarro. O ar gélido da noite parece me rasgar os pulmões. Olho em volta e sinalizações indecifráveis surgem a minha frente. Estava em um mundo totalmente desconhecido e me sentia desorientado diante de tanta informação as quais não conseguia decifrar. Senti-me de imediato um analfabeto vagando pelas páginas de um grande romance. A sensação de medo me invade e faz a cabeça girar. Estava bêbado sem se quer ter ingerido uma dose de álcool. Milhares de pessoas passam por mim falando idiomas diferentes. Era impossível, de imediato, identificar algo ou alguém conhecido. Volto ao saguão do aeroporto e reencontro meu companheiro de aventura, certamente bem mais experiente e tranquilo que eu. Depois de alguns minutos visualizo um homem segurando um pequeno cartaz onde constam nossos sobrenomes. O profissional contratado pela agência de turismo não consegue compreender o que falo. De forma meio irracional recorro a gestos quase grotescos para me fazer entender. Se em brincadeiras as mímicas se tornam engraçadas, em situações de sufoco tornam-se constrangedoras. E ainda, se a sensação de não saber ler parece terrível demais, experimente não conseguir se comunicar com alguém que tem a solução para seus problemas.

CENTRO HISTÓRICO DE ROMA
Sem dúvidas, essas sensações causarão sentimentos de inadequação e desolação nunca experimentados antes. Senti-me estranho. Um pássaro fora do ninho. Não havia referencias pessoais e naquele momento me vi dependente de alguém para tomar decisões e conseguir me movimentar na cidade. A experiência apesar de incômoda me trouxe posteriormente a reflexão sobre as dificuldades sentidas por milhares de brasileiros que deixaram ou deixam os sertões e/ou interiores do país em busca de melhores condições nas grandes cidades. Apesar das diferenças proporcionais acredito que as sensações em sua totalidade são as mesmas. Naquele momento eu era um graduado analfabeto, ou mesmo um analfabeto funcional em uma terra totalmente estranha onde tudo parecia maior que eu. O nervosismo diante do desconhecido dispara mecanismos de defesa que nos deixa alerta a tudo e a todos. Os sentidos se atiçam, a pele se eriça e o estresse nos mantém em prontidão aos potenciais perigos oferecidos por um cenário que parece selvagem e perigoso. Assim se deu meu primeiro contato com Roma, cidade milenar e histórica cujas origens fundam-se na lenda dos gêmeos amamentados por uma grande loba selvagem. Roma respira histórias, e neste sentido é preciso voltar no tempo em busca de sentido para a construção e consolidação de uma cultura tão rica e intrigante. Desta forma, aventuro-me numa livre narrativa que em momento algum pretende ser entendida como fidedigno resgate histórico, mas apenas como uma despretensiosa forma de favorecer a leitura. Inicio então uma costura de fragmentos derivados de várias fontes, das quais me absterei da obrigatoriedade de revelá-las.

Seguindo a lenda tradicional, muitos séculos antes de Cristo uma nova cidade chamada Alba Longa foi fundada por um homem chamado Ascânio, que se tornou seu primeiro rei. Mais de quatrocentos anos depois, Numitor, herdeiro legítimo do décimo segundo rei é deposto pelo próprio irmão Amúlio. Este, para garantir o poder assassina seu sobrinho e oferece sua sobrinha virgem a deusa Vesta. Transformada em sacerdotisa, à Reia Sílvia é imposta a castidade. Contrariando seu destino a jovem mulher engravida e alega ter sido seduzida pelo deus romano da guerra Marte, dando a luz aos gêmeos: Rômulo e Remo. Temeroso diante da possível vingança dos filhos de um deus, Amúlio aprisiona Reia em um calabouço e ordena a um cervo que execute seus filhos. Contrário as ordens do rei o servo coloca os bebês em um cesto de vime e os abandona nas águas do Rio Tibre. Uma grande enchente os arrasta pra muito longe da cidade empurrando-os para as margens do Palatino. O choro das crianças atrai uma loba selvagem que acabara de perder suas crias e que os leva para o bosque. Durante anos o animal os amamenta enquanto os lambe com sua longa língua. Encontrados por um pastor de ovelhas chamado Fáustulo, os meninos passam a ser criados por sua esposa Aca Laurência.
CENTRO HISTÓRICO DE ROMA

Os gêmeos tornam-se fortes e ágeis caçadores de animais selvagens e junto aos pastores da região atacam os salteadores de passagem. Preso e acusado de roubo, Remo é levado ao rei Amúlio. Ao saber de suas origens, Rômulo vai até Alba Longa para libertar o irmão. Em luta sangrenta mata o rei. Vitorioso devolve o reino ao Avô Numitor e devota as honras a Reia, sua mãe legítima. Com o irmão volta ao local onde foram abandonados e juntos decidem fundar uma cidade. As divergências entre ambos começam. Rômulo pretende nomear a cidade de Roma, enquanto que Remo sonha em chamá-la de Remora. Apesar das várias versões para a história, uma delas descreve o assassinato de Remo, golpeado na cabeça por uma pedra lançada por Rômulo, que se apossa sozinho do poder. Assim, em 753 a.C. surge então uma nova cidade que recebe o nome de seu fundador. Com o tempo, de pequeno povoado Roma tornar-se-ia um dos maiores e mais importantes impérios da antiguidade.
 
Caminhar pelas belas e organizadas ruas da cidade é como viajar no tempo. Casarios, palácios, belas arquiteturas e monumentos remontam épocas distantes. Existe uma ebulição de informações que parece exigir nossa atenção. Um descuido e algo importante se perde. Belas esculturas parecem nos acompanhar com olhares incisivos, ora inquisitivos, ora meigos e piedosos. São os olhares de Roma [alguém já prestou atenção aos olhos do Recife?]. São os gestos e traços de uma cidade que parece querer nos falar algo mais sobre nós mesmos. Uma tarde em Roma nos revela o quanto somos desrespeitosos com nossa história e tradição. A cidade em si parece um grande quebra cabeças com partes espalhadas aos quatro cantos. Impossível para um leigo como eu entender como ou por onde tudo começa, e principalmente se termina um dia, simplesmente por que a cidade é viva. A história nos conta que a civilização romana tem origem na união dos povos gregos, etruscos [originários da Itália antiga] e italiotas [populações primitivas da Itália central – latinos, úmbrios, samnitas, etc] que passaram a habitar a península itálica e desenvolveram uma economia baseada na agricultura e nas atividades pastoris, do período de sua fundação até o ano de 509 a.C.
CENTRO DE ROMA

O senado então ganha grande poder originando um período republicano que se alastrará até o ano de 27 a.C. Este período é marcado pelas lutas dos plebeus que passam a reivindicar maior participação política através da participação popular no Consulado. Com a Lei Licínia [367 a.C.] o Consulado passa a ser constituído por um patrício e um plebeu, e põe fim a escravidão por dívida, ainda que apenas para os cidadãos romanos. Após o domínio de toda a península itálica os romanos partem para a conquista de outros territórios garantindo a supremacia no Mar Mediterrâneo. Ampliando suas conquistas, domina Cartago, Grécia, Egito, Macedônia, Gália, Germânia, Trácia, Síria e a Palestina. Enquanto alguns desses povos eram escravizados, outros passavam a pagar altos impostos ao império romano. Estas importantes conquistas não só fortaleceram o império romano como também foram a principal responsável por seu declínio. Com o crescimento urbano surgiram os problemas sociais, como desempregos e migrações da zona rural para os grandes centros em busca de melhores condições de vida [interessante pensar que apesar de antigo tal fato ainda nos é tão atual no Brasil].

CIDADE DO VATICANO - ROMA
Receando revolta por parte do grande contingente de desempregados o império adota como estratégia política a prática do “Pão e Circo”, que consistia em oferecer alimentação e diversão ao povo como forma de amenizar o sofrimento e a revolta diante da suntuosidade e opulência dos seus governadores [qualquer semelhança com nossa cultura política não será mera coincidência]. Assim, diariamente eram realizadas lutas de gladiadores nos grandes estádios, sendo o mais famoso entre estes o Coliseu de Roma. E estar no Coliseu é revisitar os feitos faraônicos. Cada pedra revela a magnitude de uma arquitetura e engenharia extremamente avançada. Das aberturas se visualiza as antigas ruínas, e sobre tudo a um romântico como eu seria impossível não visualizar antigos personagens caminhando por ruas e espaços. De repente os corredores que se escondem abaixo da arena, formando labirintos, ficam repletos de movimentos. Um leão corre apressado diante de uma platéia ensandecida pela carnificina. É o espetáculo do espetáculo a que nos acostumamos. A forma circular milimetricamente calculada converge os olhares dos pobres espectadores para tribuna dos imperadores. Destaca-se um sistema político pautado na divisão de classes. O espetáculo não é para os pobres, mas sobre eles próprios. Única e exclusivamente para o deleite dos que planam seus olhares sobre eles.

RUÍNAS DA ROMA ANTIGA
Seguindo ainda a história oficial, descobre-se que o império registra sua maior crise econômica e política devido à corrupção durante o século III. Os enormes gastos para manter o luxo dos imperadores e da classe burguesa, bem como os elevados investimentos necessários a manutenção dos exércitos forçavam o recolhimento de maiores impostos sufocando a população pobre [será que não herdamos isso também?]. O fim da escravidão, motivado pelo enfraquecimento das conquistas territoriais, provocou significativa queda da produção agrícola. O pagamento de tributos por parte das províncias também sofreu grande abalo acelerando e acentuando a crise econômica. Com os exércitos enfraquecidos abriam-se as fronteiras. Os bárbaros forçavam a penetração pelo norte. Como nova estratégia, no ano de 395 d.C. o império romano foi dividido em dois – império ocidental, com capital em Roma; e, império oriental, com capital em Constantinopla. Menos de cem anos depois o império ocidental é invadido pelos povos que os romanos classificavam como bárbaros: visigodos [oriundos do Oeste europeu], vândalos [antigos germânicos], suevos [povos germânicos], saxões [da antiga Saxônia, Alemanha], ostrogodos [austríacos], hunos [originários da Ásia central], pondo fim à era da antiguidade e dando inicio a Idade Média, quando o latim se espalha pelo velho continente dando origem ao português, ao espanhol, ao italiano e ao francês.

Sem sombra de dúvidas o legado a humanidade deixado pela civilização romana é incalculável. Assim como a língua original, o latim; o direito romano influenciou e influencia até os dias atuais as culturas ocidentais. De forma mais ampla não podemos esquecer as contribuições para a arquitetura, para as artes plásticas, para a filosofia e a literatura. Foi com os romanos que aprendemos que mitologia se consolida como forma explicativa para o que a ciência não consegue explicar [alguma semelhança?].

Próxima parada: ruínas da cidade de Pompéia!

PEDRAS DE ROMA ANTIGA




domingo, 8 de janeiro de 2012






“VIAGEM AO VELHO CONTINENTE EM 20 DIAS”

Ainda em 2011 resolvi enfrentar um dos maiores desafios de minha vida, atravessar o Oceano Atlântico rumo ao velho continente. Viagem marcada, sofrimento antecipado. Teria pelo menos seis meses para me preparar e rever velhos medos. Porém o atribulado das situações corriqueiras fez o tempo correr e um mês antes de embarcar a distonia já sinalizava a crescente ansiedade que me atormentaria durante as oito horas de vôo. Nestes momentos arrumar a mala torna-se sempre difícil, porém ajuda a aliviar a tensão. Cada peça de roupa sinaliza uma despedida. Mas na verdade não haveria do que, ou de quem me despedi. Eu estava só. É nessas horas que a ausência de um outro, seja este parente ou amigo, se acentua e incomoda. Não ter em determinados momentos com quem dividir sonhos, ansiedades ou receios, não receber um abraço ou mesmo votos de boa viagem é talvez a mais difícil situação quando se reside sozinho. Porém a vida tem constantemente me ensinado que somos sós em essência, e que acima de tudo somos livres para percorrer mundos e desafiar nossos próprios limites. Assim as possibilidades de novas experiências tem se tornado, a certo modo, um lema que venho adotando enquanto conduta de vida. E neste sentido, vencer os sentimentos de grandes inquietações diante das noções de perigos, reais ou imaginários, que sempre me acompanham em viagens longas torna-se sem dúvida um importante ponto de partida para mim.

CIDADE DE POMPÉIA - ITÁLIA
A viagem a Europa se configurou, entre outras coisas, como um grande desafio vencido. Mais que isso, voltar ao velho mundo foi sem dúvida uma grande oportunidade para melhor entender o momento atual que vivemos, seja ele político, econômico ou histórico. Uma espécie de retorno ao passado, as origens da civilização. A Europa é sem sombra de dúvidas um museu a céu aberto. Berço da civilização, da arte e da cultura. Percorrer as milenares ruas de Roma e redescobri lendas que fundaram tradições foi sem dúvida uma experiência impar. Visitar o interior do Coliseu, construído entre 70 e 90 d.C. e hoje considerado uma das “sete maravilhas do mundo moderno”, revela a grandiosidade da engenharia e arquitetura romana. De imediato a grandiosidade da cidade e de seus monumentos nos causa certa desorientação, contudo, aos poucos, ruínas espalhadas pelo centro histórico, a Cidade do Vaticano, as famosas esculturas, antigas pizzarias e os tradicionais cafés das esquinas começam a surgir como “velhas novidades” conhecidas. Para mim tudo parecia novo e conhecido ao mesmo tempo. Estava diante de monumentos só antes vistos em fotografias, reportagens ou livros de estudos. Era impossível não constatar que cada pedra de Roma parece remontar histórias. Como uma espécie de quebra-cabeças com os quais construí castelos durante a infância. E ali estavam eles, os antigos castelos dos contos de fada, os monumentos bíblicos, os personagens imortais que aprendi a admirar durante as aulas. Mais difícil ainda é não se encantar com as ruas estreitas que levam a “La Fontana di Trevi”. Majestosamente situada num cruzamento de três estradas a obra de arte por si justifica por que é considerada a maior e mais ambiciosa construção de fontes barrocas da Itália.

NÁPOLES - ITÁLIA
Seguindo ao sul da Itália, nos arredores de Nápoles, chega-se ao sítio arqueológico de Pompéia, antiga cidade romana que no ano 79 d.C desapareceu sobre as cinzas do vulcão Vesúvio. Pelas estreitas ruas cuidadosamente reconstruídas 2.000 anos de história se levantam diante de nossos olhos. Cada detalhe ou objeto evidencia uma civilização extremamente avançada para época. A antiga cidade era divida em regiões salientando a divisão de classe social. Em alguns momentos somos pegos a imaginar a movimentação cotidiana de seus antigos habitantes devido à perfeição empregada na reconstituição dos casarios, termas, praças e centros comerciais. Depois de conhecer Pompéia, seguir para o centro de Nápoles é viajar no tempo de volta ao futuro. A cidade é repleta de ruas e monumentos históricos em bom estado de conservação. No bairro alto avistasse o Vesúvio e entende-se sua magnitude. Devido ao inverno nuvens pesadas e escuras que encobrem seu pico surgem como prenuncio de uma nova catástrofe esperada há séculos. O velho vulcão adormecido parece esticar-se aos céus impondo respeito e ao mesmo tempo em que amedronta também causa admiração.

COLISEU DE ROMA - ITÁLIA
A cidade de Florença, capital e maior centro urbano da província de Toscana, foi por muito tempo considerada a capital da moda. Destaca-se como berço do Renascimento italiano possuindo um memorável acervo que inclui obras de Michelangelo, Leonardo da Vinci, Botticelli e Donatello, entre outros. Cortada pelo rio Arno, cada canto ou recanto da antiga cidade do século XV revela encanto e magia. Já na região do Vêneto, no nordeste da Itália encontramos Veneza. Mundialmente famosa por seus canais, destaca-se pelo romantismo dos passeios de gôndolas. Construída sobre um arquipélago formado por 118 ilhas, possui 177 canais apertados e de águas gélidas que interligam bairros onde se encontram velhos e históricos casarios, restaurantes e hotéis. Suas 400 pontes servem de cenário as belas paisagens e conduzem a Piazza San Marco onde se encontra a Basílica de di San Marco, a Torre do Relógio e o Museu Correr. Uma noite em Veneza, sentado diante do mar e aquecido pelos tradicionais lampiões a gás do Café Gabbiano é sem dúvida uma cena inesquecível. Ainda na mesma região encontra-se a rica cidade de Verona, uma das mais prósperas do norte italiano. Cercada pelo Rio Adige possui riquíssimo acervo cultural que inclui belíssimas muralhas, um anfiteatro romano que em muito lembra o Coliseu, um castelo medieval, além de igrejas e palácios seculares. No centro comercial a única rua em mármores leva a propriedade dos Cappellos, antiga e importante família local. Construída no século XIII, nos dias atuais é identificada como a casa de Julieta Capuleto, personagem fictício imortalizado pela obras de Shakespeare.

ALPES SUÍÇOS
Deixamos Verona no inicio da manhã e seguimos pelo norte da Itália rumo a Zurich, não sem antes atravessar os quilométricos Alpes Suíços. O frio aumenta à medida que se escala os mais de 4.500 metros de altitude. Correr na neve e afundar no gelo torna-se de fato uma experiência prazerosa e inesquecível. O cenário formado por imensas montanhas geladas, florestas de pinheiros e casarios com telhados brancos nos traz a nítida certeza que o natal até existe. Pelo menos o comercializado no mundo ocidental. Impossível não identificar os famosos postais onde o papai Noel parece deslizar em seu trenó puxado por ágeis renas aveludadas. Depois horas atravessando montanhas chega-se a Zurich, capital da Suíça. Famosa pela produção de leite e chocolates a cidade revela de imediato que a precisão vai além dos seus tradicionais relógios. Cortada pelo rio Limmat, a cidade salienta uma bela e organizada mistura de construções modernas e antigas que margeiam a grande lagoa formada pelas águas que descem as montanhas durante o verão. A noite suíça é extremamente fria e as ruas parecem desertas. Calçadas se confundem com ruas cortadas por trilhos por onde correm os famosos bondes. A riqueza é estampada nas vitrines bem iluminadas e na estrutura arquitetônica das estreitas ruas que mais parecem conduzir a lugares misteriosos. De modo geral a cidade parece um lugar onde tudo funciona de forma previamente planejada. Acordar em Zurich é despertar para uma realidade nunca antes vista, pelo menos para um marinheiro de primeira viagem como eu. Suas estradas parecem tapetes que se escondem por longos túneis que atravessam montanhas. Um deles com mais de 15 km causam espanto e certo desconforto claustrofóbico. O dia parece mais claro e pelas janelas protegidas do ônibus planícies e campos encantados vão desaparecendo rapidamente diante dos olhos.

MUSEU DO LOUVRE - PARIS/FRANÇA
A França é sem dúvida a França, e neste sentido tornam-se dispensáveis descrições ou apresentações. Num bairro de subúrbio chamado Màrie de Montreuil onde nos hospedamos salienta-se a imigração, com grande destaque para os negros nativos das colônias francesas. As ruas pacatas parecem revelar certa amistosidade entre os habitantes, contudo, os metrôs e prédios menos modernos evidenciam diferenças sociais. Como toda grande metrópole Paris é um verdadeiro centro de diferenças, sejam étnicas, religiosas, sociais ou econômicas. A cidade cortada pelo Rio Sena encanta pela beleza natural e patrimônio histórico. A Torre Eiffel destaca-se pela estrutura metálica vista de qualquer ponto da cidade. O Arco do Triunfo, ao final da Champs Elysées, mais rico e importante centro comercial da Europa, revela toda a magnitude da cidade luz. Não se conhece Paris sem se visitar o Museu do Louvre, onde extremamente protegida encontra-se a famosa Gioconda, de Leonardo da Vinci. Seu olhar enigmático e o aparente e sarcástico famoso sorriso parecem não apenas revelar mistérios de uma época, mas também os encantos e segredos da cidade mais famosa do mundo.

LONDRES - REINO UNIDO
Fundada pelos romanos ao norte do rio Tâmisa, em 43 d.C, a antiga Londinium durante séculos sofreu invasões e influências díspares e hoje desponta como maior e principal centro financeiro do mundo. A formalidade londrina é claramente estampada pela troca da guarda real, em frente ao Palácio de Buckingham, onde milhões de pessoas se atropelam diariamente. Cidade de belas e bem cuidadas praças, como o St. James´s Park, ostenta luxo e riqueza em monumentos e prédios que remontam as antigas realezas. O famoso cartão postal, o Big Bem, apesar do charme original me pareceu menos pomposo. De modo geral, se Roma inspira saudosismo histórico e Paris o charme e a elegância clássica, Londres ao contrário revela-se fria e distante. Diria ao certo que de todas as cidades que visitei a capital do Reino Unido certamente foi e será a que menos trará saudades.

VENEZA - ITÁLIA
Depois de quinze dias de viagem finalmente chegamos a Lisboa. A capital portuguesa é sem dúvida nenhuma mais próxima de nossa realidade. A Praça Marquês do Pombal, personagem responsável pela reconstrução da cidade após o grande terremoto que a reduziu a ruínas, parece revelar-se como palco de reivindicações e manifestos políticos. Ponto de convergência para grandes avenidas situa-se próximo ao Parque Eduardo VII que se interliga com o Parque Amália Rodrigues, famosa cantora de fado. No centro cultural de Belém a cultura portuguesa é exaltada, revelando o apreço de nossos compatriotas pela história e pela arte. Além dos 08 museus encontram-se no local o Padrão dos Descobrimentos, de onde partiram as caravelas de Cabral rumo ao Brasil, além da Torre de Belém, antigo castelo. A Praça do Comércio, de frente ao Rio Tejo revela uma das mais belas vistas panorâmicas da cidade. À noite no Baixo-Chiado, cidade alta, é romântica e melancólica ao mesmo tempo. Imperdível é o passeio de bonde ao Castelo de São Jorge, onde restaurantes charmosos e aconchegantes se espalham pelas ladeiras de pedras antigas e onde se saboreia o bom e tradicional bacalhau e as famosas sardinhas portuguesas regados ao aceite de oliva.

LISBOA - PORTUGAL
Impossível seria descrever tantas e tão diversificadas culturas em tão poucas linhas. Diria mesmo que resumir minhas impressões sobre cidades tão maravilhosas seria desrespeitoso com os legados deixados a humanidade. Partindo dessa perspectiva inicio então uma ampla descrição de minha “viagem ao velho mundo em 20 dias”. Antemão, saliento que meu intuito não se restringe ou objetiva a simples descrição de pontos turísticos, mas de forma mais pretensiosa, uma reflexão sobre as diferenças e influências destas culturas sobre a vida e cultura dos brasileiros. Assim, recortes históricos, étnicos, sociais, politicos, econômicos, religiosos e de gênero servirão como base a narrativa que por hora apresento em capítulos. A quem se aventurar, boa leitura e boa viagem.

LONDRES - REINO UNIDO

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

PARÍS - FRANÇA

domingo, 18 de dezembro de 2011

CIENTISTAS DESCOBREM VIDA EXTRATERRESTRE?




KEPLER 22B - O SONHO DO "TERRENO" PRÓPRIO.

O ano de 2011 termina com uma grande surpresa repleta de novos significados. Na segunda semana de dezembro cientistas da Agência Espacial Americana – NASA anunciaram a descoberta de um planeta com características parecidas com as da Terra. Localizado fora de nossa galáxia, a mais de 600 anos-luz de distancia da Terra, o novo astro foi batizado pelos norte-americanos como Kepler 22b. Segundo estimativas, ele possui dimensões 2,4 vezes maior do que o planeta que habitamos atualmente e tem temperatura aproximada de 22 graus centígrados. Para os cientistas estas evidencias tornam-se bastantes para se pensar as possibilidades de futuras habitações humanas (ISTOÉ 2195, 2011). Sem dúvida alguma essa é talvez a mais importante descoberta de todos os séculos. A notícia coloca não só a sociedade científica em ebulição, mas de modo geral o mundo financeiro. As perspectivas de colonização com certeza elevarão os índices das bolsas de valores, grandes investimentos em pesquisas espaciais serão feitos nos próximos anos e em pouco tempo missões científicas partirão rumo às novas terras. Inicia-se uma nova era para o que já se conhece como corrida espacial. Em 2011 o céu deixou definitivamente de ser o limite para o homem.

Sempre gostei de filmes de ficção científica. Repletos de misteriosos seres alienígenas sempre despertaram entre nós muita tensão e curiosidade. A simples possibilidade de existência dos seres extraterrestre sempre dividiu opiniões. Altos, magros, gelatinosos, com apenas um olho ou repletos de filamentos pegajosos, os ETs a muito tem despertado grandes emoções e elevado as bilheterias dos cinemas em todo o mundo. Violentos ou pacíficos se tornaram personagens clássicos em nossa literatura. Neste sentido, Kepler 22b representa uma grande chance de resposta a uma pergunta que nos persegue e intriga a milhares de anos. Estamos realmente sozinhos no universo? Na minha concepção, não. Na verdade acho que seria um imenso desperdício, além de enorme incoerência, existir vida apenas em um dos nove planetas que formam nossa galáxia. Não haveria sentido a existência de milhões de astros, estrelas e planetas totalmente desabitados. Seriam como grandes bolas flutuando no ar como simples bolhas de sabão soltas ao vento ou simplesmente meros objetos decorativos. Acredito que a questão não é se existe vida fora da Terra, mas que tipo, ou tipos de vida podem existir. É neste sentido que Kepler passa a representar uma concreta possibilidade de respostas a curto e médio prazo. Para os cientistas da NASA e especialistas do mundo inteiro encontrar vida alienígena é só uma questão de tempo.

Em séculos passados dominamos os mares para descobrir novas terras. Nos séculos futuros dominaremos o espaço em busca de novos planetas habitáveis, denominados pelos astrônomos especialistas como superterras. Com a colonização de Kepler, nós, habitantes do continente americano perderemos então o título de novo mundo. Na verdade a Terra se tornará nossa antiga morada. Acho até que com o tempo se tornará uma espécie de colônia do novo planeta. A idéia, por mais absurda que possa parecer nos trará imediatamente a memória terríveis filmes de ficção científica anteriormente considerada fantásticas demais e distante da realidade, onde seres humanos escravizados tornam-se reféns de aliens poderosos e malvados que extraem da Terra os recursos que necessitam. Porém, o enredo que se desenha a nossa frente parece revelar diferentes possibilidades. Não acredito que nos tornaremos reféns dos alienígenas, mas sim, reféns de poderosos homens que governarão Kepler. Neste sentido, acho que a ambição humana assumirá dimensões gigantescas, uma vez que o planeta a ser explorado é quase duas vezes e meia maior que a Terra. Numa dedução lógica, em poucos anos invadiremos o planeta. Então instalaremos hotéis de luxo em Kepler e pagaremos fortunas por um final de semana no outro lado do mundo. Os condomínios residenciais serão uma realidade futura. Verdadeiras cidades serão construídas, deixando os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Porções de terras serão oferecidas em comerciais de televisão. As grandes empresas abrirão suas filias e em pouquíssimo tempo “organizaremos” o planeta ao nosso modo. Abriremos estradas e rodovias, instalaremos shopping center, restaurantes, cinemas e mais uma porção de coisas necessárias ao conforto do homem moderno. As perspectivas de desenvolvimento econômico são imensas. Talvez Kepler apresente melhores condições de vida devido à preservação de suas estruturas originais. Talvez ainda não exista desenvolvimento [partindo do nosso referencial, logicamente falando], e muito menos poluição por não haver ainda o desgaste de suas reservas naturais. Definitivamente Kepler será nosso roteiro preferido. Porém nem todos terão acesso. Apesar de maior não haverá espaço para todos. Numa visão mais pessimista, diria até que Kepler abrirá para alguns, quem sabe, uma nova possibilidade de consolidação da supremacia de uma raça pura. Afinal de contas a eugenia é um sonho humano que se encontra apenas temporariamente adormecido. Não há duvidas que o modelo higienista volte a se impor no novo processo de colonização.

Mas independente disso tudo, Kepler é na verdade uma grande promessa para a perpetuação de nossa espécie. Trás em seu bojo certo alívio para os muitos que receiam o inevitável colapso terrestre, afinal de contas, não estamos mais em um beco sem saída porque já temos para onde nos mudar quando a vida aqui ficar impraticável. Ficção e realidade se misturarão para criarmos uma nova versão da “Arca de Noé”, mais potente e moderna, pela qual transportaremos pequenas quantidades de espécies da nossa fauna e flora. Entre os humanos, logicamente, serão selecionados os mais capacitados intelectualmente e aptos a atender as novas demandas. Não deve ser fácil conquistar um planeta muito maior que o nosso. Assim, será preciso enviar cientistas, filósofos, grandes artistas, empresários influentes e políticos que comporão a nata da nova sociedade. Logicamente que será preciso alocar pessoas operacionais, até porque alguém precisará colocar a mão na massa para consolidar construções concretas. Em curto prazo replicaremos as relações de poder e instalaremos um sistema econômico em Kepler. Talvez uma versão do capitalismo. Talvez algo mais nocivo.

Mas como nem tudo na vida são flores será preciso primeiro pensar [ou talvez repensar] algumas questões de ordem prática. A primeira refere-se diretamente ao direito a descoberta. Kepler será colonizado pelos norte-americanos, pela união européia, pelos japoneses, chineses, ou por quem conseguir chegar lá primeiro? Com certeza nessa corrida não haverá muito espaço para nós brasileiros. A não ser que a união dos países emergentes lance uma nova modalidade de parceria econômica, abrindo espaço para o surgimento de empresa de exploração planetária, do tipo “BRINC no Espaço”. Neste caso, com certeza seria uma nave espacial bem colorida devido a multicromagem das bandeiras brasileira, russa, indiana e chinesa. Talvez nada disso seja preciso e apenas uma tripulação multinacional, no melhor estilo globalização pacífica, inicie o processo de colonização. Além de mais econômico, a ação seria mais democrática. Independentemente disso, uma coisa é certa, será necessária a participação da iniciativa privada porque o montante financeiro exigido para tal empreitada será estratosférico.

Partindo da lógica “todos juntos venceremos”, se fará imprescindível a divisão dos lucros. Ou seja, o planeta terá que ser dividido como um grande bolo fatiado. Quais porções de terras habitáveis caberão a cada país participante da nova missão? Faremos mais uma vez, a replicação de nosso sistema político e econômico, dividindo Kepler em regiões de conflitos. Talvez até façamos uma nova releitura do “Tratado de Tortesilhas”, dividindo o planeta em hemisférios. Não é verdade que a fundamentação da nossa lógica capitalista costuma nos mostrar que as boas práticas devem ser replicadas? Isso poupa tempo para as tomadas de decisões e garante os resultados esperados [alguém duvida?]. Assim, estabeleceremos os mapas geográficos, onde algumas regiões serão inevitavelmente mais desenvolvidas que outras; onde nações ricas explorarão e subordinarão outras menos afortunadas. Será o reinício de uma nova tentativa para velhos problemas. O problema consistirá então em construir novos modelos. O que acho improvável. Porém, acho mais oportuno no momento pensar em coisas mais urgentes.

Segundo os cientistas, a órbita de Kepler é equivalente há 290 dias terrestre. Isso quer dizer que o planeta gira em torno de si mesmo em um tempo menor que a Terra no mesmo movimento [deu pra entender?]. De modo simples, isso significa que o ano Kepliano [ou seria Kepliniano?] é 75 dias mais curto que o ano terrestre. Será que precisaremos [re]pensar as dimensões cronológicas, caso contrário nossa vida em Kepler se tornará mais curta? Se uma década na Terra equivaleria a aproximadamente 3.650 dias, em Kepler esse número cairia para 2.900 dias. Ou seja, passar uma década em Kepler nos custaria 2,05 anos de vida. Será que se morre mais rápido em Kepler? E como ficará nossa ensandecida busca pela eternidade? Fora isso, precisaremos pensar quanto tempo de vida gastaremos para chegar até lá. Neste aspecto, confesso que como sempre fui muito ruim em física, resolvi recorrer à internet para descobrir que ano-luz é uma unidade de comprimento que corresponde ao espaço percorrido por um raio de luz em um ano [simples?]. Fato é que essa é uma medida grande demais para aplicações comuns aqui na Terra. Por isso tal medida destina-se a marcar distancias no espaço cósmico, entre as estrelas de uma mesma galáxia [o que não é o caso de Kepler] ou entre galáxias distintas [o que é o caso de Kepler].

Resumindo, ano-luz parece ser uma medida útil apenas para os astrônomos [o que não é o meu caso], por tanto para nós pobres mortais [o que é o meu caso] torna-se bastante imaginar que um ano-luz equivale a 9,5 trilhões de quilômetros. Isso corresponde a quase 63.240 vezes da distancia média entre a Terra e o Sol [deu para entender agora?]. Num calculo rápido podemos deduzir então que o novo planeta está a mais de 37.944.000 Km [trinta e sete bilhões, novecentos e quarenta e quatro milhões de quilômetros] de distancia. A questão então é a seguinte: se para o homem ainda é impossível se locomover na velocidade da luz, tal distancia se tornará ainda muito mais demorada para ser percorrida com os recursos que dispomos. Alguém consegue responder em dados simples o que significa 600 anos-luz? E ainda, diminuir minha ansiedade respondendo a uma simples pergunta: se hoje, com quarenta e cinco anos, eu saísse rumo a Kepler, com quantos anos de idade eu chegaria? Antes das respostas chegarem prefiro imaginar que com a claustrofobia e aerofobia que tenho morreria no caminho. Ou seja, Kepler está definitivamente fora dos meus planos turísticos. Meu único consolo é que tal situação parece se estender a todos de minha geração.

Devaneios a parte, o bom disso tudo é que fica mais evidente a existência de vida fora da Terra. Ou seja, os aliens podem existir de fato. O que acredito piamente. Isso nos traz outras reflexões bem mais difíceis de maturar porque mexe diretamente com questões mais complexas como religiosidades, sobretudo. Imaginemos por exemplo, que Kepler 22b já seja habitado. Não que isso possa impedir nosso processo de colonização, afinal de constas a história nos tem mostrado cotidianamente o poder de dominação e da violenta força de subjugação da raça humana. E não duvidem que se os Keplenianos se meterem a besta a gente passa por cima. O problema é pensar que se Kepler está em outra galáxia e têm habitantes, não seria provável que estes tenham também um deus, ou algo parecido? No caso da existência de um deus, esse por sua vez, será o mesmo que o nosso? Sim, responderão os mais apressados e convictos da fé cristã. Contudo, se os Keplenianos [ou será Keplianos?] tiverem também sido criados a imagem e semelhança de Deus, a coisa ficará confusa demais. Isso porque, ou eles serão semelhantes a nós, ou Deus nos terá enganado. Pior ainda, será pensar que talvez Deus nunca tenha nos dito isso, o que significaria que os escritos bíblicos se configuram como uma grande farsa. Uma simples criação humana. Numa outra hipótese, se seus habitantes tiverem outro deus, significa que o nosso não é único, onipotente e onipresente. O universo estaria então dividido sobre o domínio de deuses distintos e poderosos, o que nos colocaria em outra grande enrascada. Descobrir quem criou o universo. Além disso, precisamos pensar caso a hipótese se confirme, sobre a quem deveremos obediência cega e irrestrita? Passaremos a adorar dois deuses? Via de dúvida, e para não dá um nó maior em nossa cabeça, talvez seja melhor optarmos pela hipótese de uma possível dupla face de Deus. Acho que assim agradaríamos a gregos e troianos, ou melhor, corrigindo, aos Terráqueos e os Keplenianos.

Caso eles não tenham um deus, ou deuses, não seria problema para nós. Seria até fácil ensiná-los a seguir nossas doutrinas e dogmas. Já fizemos [e continuamos fazendo] isso tantas outras vezes, que de certa forma, já adquirimos a prática da indução. Imagino que não seria diferente do que foi a colonização do Brasil, por exemplo. Até de certo modo, imagino que adotaremos os mesmos procedimentos. Primeiro invadimos as terras do novo planeta. Depois numa ação amistosa e de paz tentamos lhes ensinar o sentido e significado de civilização. Por fim, os ensinaríamos a trabalhar para garantir o progresso do planeta. Com o tempo alienaremos sua cultura. Ensinaremos tudo o que sabemos aos novos camaradas, menos como se institui o poder. Para evitar problemas futuro. Seremos verdadeiros deuses, ou donos, dos inocentes Keplenianos, que a esta altura terão sido classificados como casta inferior. Na verdade o processo, provavelmente será até mais simples, sem os entraves e discursos demagogos do pessoal dos direitos humanos. Talvez nem existam movimentos em prol dos direitos humanos, porque esses provavelmente não serão assim considerados. Mesmo que nos sejam semelhantes, no máximo receberão a alcunha de selvagens, como fizemos com os indios que habitavam o continente americano; ou de sub-raça, como fizemos com os negros africanos, ou mesmo com os judeus. Prática para o estabelecimento das normas é o que não nos falta.

O grande desafio, porém, será a necessidade de refletir nossa soberba supremacia. Isso porque em Kepler talvez exista uma raça mais evoluída. Quem sabe até superiores em inteligência, forças e armas. Será que eles já não nos conhecem? Será que por nos considerem tão desprezíveis e/ou desinteressantes preferem nos ignorar? Talvez não sejam amistosos. Mas independente disso tudo, chegaremos até eles com ou sem autorização [e que ninguém duvide]. Kepler é para nós na verdade não uma escolha, mas uma possibilidade de manutenção da vida humana. Não podemos esquecer que sempre funcionamos dentro de uma lógica parasitária que nos impõe a necessidade de novos recursos para explorar e assim seguir vivendo. Durante os séculos no multiplicamos rapidamente como pestes. Invadimos florestas e mares e mesmo assim não dispomos mais de espaço com condições de habitação. Em suma a Terra se tornou pequena demais para nós humanos. A corrida espacial não difere das grandes navegações. Não estamos fazendo nada de diferente. Seguimos apenas uma lógica considerada “natural”. Kepler ou outro planeta qualquer que por ventura surja a nossa frente será inevitavelmente habitado. É uma questão de sobrevivência. De vida ou de morte. E nesse ponto, a morte sempre nos foi inoportuna. Nossa história é marcada por conquistas. Chegamos a Lua, conhecemos o Sol, chegaremos a Kepler, dominaremos o cosmo. Exploraremos planetas e galáxias distintas porque somos guerreiros. Em pouco tempo a Terra será apenas uma colônia que abastecerá os humanos de Kepler. E na sequencia, Kepler se transformará com o passar dos séculos em colônia de algum novo planeta porque continuaremos predadores. Contra fatos não existem argumentos. E a conquista do espaço é fato concreto.

Essa guerra pela sobrevivência perde espaços terrenos para exigir espaços mais amplos e universais. Não existirão limites para a raça humana. E mesmo as questões de ordem divina serão revistas, novas crenças e filosofias serão [re]criadas e a nova ordem [re]estabelecida. Neste sentido, Kepler torna-se recurso ou meio para se chegar aos fins. Abrirá espaço para questionarmos inclusive a própria existência de um deus único. Com o tempo encontraremos as devidas respostas, preenchendo lacunas seculares. Saberemos por exemplo, se Jesus também visitou Kepler. Isso partindo da crença em um Deus único. Ou ainda, se Ele os teria enviado outro filho? Neste rastro surgirão respostas para perguntas abertas até os dias atuais. Por exemplo, será que a Maria-Kepliniana também era virgem quando concebeu o filho do deus de Kepler? Será que esse também morreu na cruz para salvar seus habitantes? Será que já inventaram o natal em Kepler? E se não tiver carnaval? Se não tiver corrupção a gente envia um bando de políticos. Se os faraônicos templos religiosos desmoronarem diante da verdade absoluta criaremos outra forma de alienação de massa. Se tiverem armados ou tentarem resistir os dizimamos, afinal já fizemos isso antes.

Mas se em Kepler existir miséria, melhor. Aí sim nos sentiremos literalmente em casa. Mostraremos o poder de nossos princípios de caridade despretensiosa. implantaremos nossas políticas de assistencialismo bem sucedidas. Os subjugaremos e os dominaremos através de nossas doenças. Primeiro os infectamos e depois vendemos a cura. Negaremos saúde, como também educação e direitos. Criaremos leis poderosas e depois os manteremos trancafiados por desacato a supremacia humana. Instalaremos o tráfico de drogas em suas comunidades para torná-los dependentes do nosso sistema. Talvez até o nosso crack possa dizimá-los de forma mais rápida e assim economizamos com artilharia, como fazemos atualmente. Aos poucos, lenta e sorrateiramente alienaremos seus bens e seus corpos para nos tornarmos soberanos. Por fim, os chamaremos de povo, estabelecendo seus limites de acesso para garantir a ordem do poder. Nada muito diferente. Nada muito estranho. Nada muito contraditório a nossa natural conduta humana.

Sem dúvidas, o ano de 2011 entrará para nossa história, e dos Keplenianos também, como marco das grandes perspectivas incertas e duvidosas. Com certeza absoluta nossas vidas serão contadas a partir do antes e do depois dessa grande descoberta. Talvez até os tradicionais aC e o dC [antes de Cristo e depois de Cristo] sejam substituídos por aK22b e dK22b. Talvez esse seja apenas o primeiro planeta que invadiremos. Talvez consigamos expandir nosso poder de destruição pelo universo. Talvez nossas bombas e armas de guerra provoquem uma grande explosão futura. Quem sabe assim conseguiremos reproduzir a tão sonhada explosão que originou o big-bem. O problema é que talvez, diferentemente não originemos a vida, mas a morte e o fim da raça humana.

Boas reflexões para todos em 2012. Vamos rumo a Kepler!































quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

UM NATAL REPLETO DE BREGAS BORBOLETAS TENDENCIOSAS






NO RECIFE O NATAL É BREGA.

O natal é uma data extremamente brega! Engraçado como o passar dos tempos nos trás revelações inesperadas. Durante a infância, ou mesmo adolescência, se quer supus questionar antigos ensinamentos. Tão pouco na juventude. Era natal e pronto. O fato em si já referendava a magnitude simbólica. Tempo de paz, amor, solidariedade, e acima de tudo, caridade. Não se falava alto no natal, evitavam-se brigas e desavenças. Espécie de trégua momentânea em respeito aos dogmas do cristianismo. É preciso purificar a alma para se viver o natal porque Jesus morreu na cruz para salvar e redimir a humanidade. Sob esse argumento nos ensinavam a importância de refletir sobre os nossos próprios erros, purgar os pecados e fortalecer as promessas pessoais. Uma espécie de alto flagelo imposto pela cultura, pelo qual se buscava, e muitas vezes até se alcançava uma elevação caricata. Definitivamente não é fácil refletir sobre o natal. Na verdade torna-se extremamente difícil, e porque não dizer impossível, questionar símbolos secularmente fossilizados no imaginário das sociedades ocidentais. Via de dúvidas, prefiro esclarecer que questiono as construções do natal contemporâneo, engolido pelo capitalismo, e assim transformado em negócio rentável.

Talvez a comercialização do natal nem seja um pecado tão grande assim, visto a própria mercantilização da fé, fato que também se mostra secular. Na verdade, o fato me parece mais reflexo do que propósito. Aprendemos a comprar o natal, o que logicamente se diferencia do vivenciar o natal. Para mim um bom exemplo evidencia-se no marketing adotado por um clássico cartão de créditos cujo slogan destaca: “algumas coisas na vida não tem preço! Para o resto...”. Neste sentido, conheço pessoas, que guiadas pela lógica mercantil buscam inclusive obter até o que o cartão sabiamente salienta não poder comprar: sentimentos. Há muito tempo atrás, por exemplo, conheci uma senhora, irmã de um grande amigo, que comprava os presentes natalinos durante o mês de janeiro porque os produtos ficavam pela metade do preço. Ela costumava guardar “presentes” para possíveis necessidades sociais. Em uma destas, durante um natal que não lembro a data, ganhei um par de meias. E confesso que se esqueci a data, o mesmo não ocorreu com o presente. Não pelo valor comercial, mas pelo simbolismo agregado. Nunca conseguir usar as pequeninas meias de cor azul escuro, mas guardei-as por um longo tempo. Poderia mesmo dizer que considerava aquele, um presente inesquecível. Era um exemplo do que não se fazer no natal.

Também já vi pessoas criticarem os presentes solicitados por amigos secretos. Neste ponto, vale salientar que amigo secreto moderno estabelece até preço para as simbólicas lembrançinhas natalinas. Numa lógica do nem tanto e nem tão pouco, estabelece-se piso e teto para valorar a generosidade alheia. O bom do “negócio” é que se evita sempre que possível as decepções e situações constrangedoras. Cá prá nós, não existe coisa pior do ganhar no natal um presente que não tem haver com você. O mais engraçado e divertido desses eventos, no entanto, é poder presenciar a reação dos presenteados. Cara de espanto ou de surpresa é regra geral. Mesmo quando o presente é exatamente um dos três que você registrou na lista previamente organizada. Depois tem os comentários e críticas sobre quem acertou em cheio o que se desejava; sobre o valor que estava abaixo do estabelecido; sobre as más intenções por trás de presentes caros; ou, sobre as possíveis preferências das chefias. Os amigos secretos tornaram-se atravessados inclusive por recortes de classe. Sorte de quem for escolhido pelo diretor da empresa, azar de quem cair nas mãos do auxiliar de serviços gerais. No nosso natal solidamente capitalizado, o presente é o que menos importa, mas sim, o valor e o status que ele representa. É nesse sentido que tenho constantemente pensado no quanto nos tornamos bregas por vivenciar uma festa que parece ter perdido sentido. Ou seja, o que quero dizer é que para mim o natal é uma festa que parece repleta de obrigações costumeiras ultrapassadas.

Dentro da cultura popular nordestina, brega é sinônimo de cafonice e deselegância. Também nos serve como classificação de estilo musical, representado por canções melosas devido ao sentimentalismo empregado as letras. Há quem duvide que o brega tenha alguma qualidade artística devido à falta de refinamento poético. Há quem o classifique como arte menor por considerá-lo empobrecido. Mas penso que se arte representa uma capacidade humana de por em prática uma idéia, valendo-se da faculdade de dominar a matéria; ou ainda, capacidade criadora de expressar ou transmitir sensações ou sentimentos, tendo a acreditar que esta não necessariamente precisa de refinamento. Popularmente costuma-se dizer que viver é uma arte. Logo, acredito que se o brega enquanto estilo musical retrata o cotidiano de um determinado segmento da população, revelando sensações, percepções e sentimentos específicos, automaticamente deve ser entendido enquanto arte. Talvez a questão chave para as divergências se concentre no entendimento relativo ao conceito de estética. De outra estética que representa e configura o estilo de vida de quem não pertence à burguesia. É neste contexto que o termo brega parece também perpassado pelos recortes étnico/racial e de classe social. Assim, o que não é burguês torna-se automaticamente brega, porque na contramão do clássico, tende a quebrar uma tradição pautada na falta de excessos de ornamentações e no culto a simplicidade e a sobriedade. Elementos estes que segundo a tradição cristã prescrevem os fundamentos e as condutas natalinas.

Na prática brasileira, no entanto, o natal não é clássico. Pelo menos, não de forma generalizada. Primeiro, porque a sobriedade é utópica uma vez que a própria tradição incorporou o famoso brinde natalino. Pode parecer exagero, mas basta verificar as estatísticas sobre acidentes no transito, acentuadas pelo consumo de bebida alcoólica. Segundo, porque a simplicidade da festa exige champagne, taças de cristal, peru, presentes caros e roupas novas, entre outras coisas. Pode parecer contraditório, mas nem todo mundo tem acesso. E muito menos cartão de créditos. Terceiro, porque os excessos de ornamentações se tornaram marca de felicidade, seja nas decorações que iluminam as cidades e casas, seja nos acessórios que iluminam os corpos. Se a prática contraria o fundamento, e se o natal não corresponde ao conceito de clássico, evidencia-se sua tendência ao brega. Assim, o natal tem se tornado definitivamente uma festa prá lá de brega.

Uma pessoa mal vestida para os festejos natalinos, por exemplo, torna-se brega pelo desencontro com ultimo grito da moda. Mas na verdade a moda não grita. Ela dita, num sentido mais restrito de imposição e prescrição, as regras e tendências a partir de uma estética considerada como bom gosto. E isso é fundamentalmente necessário ao natal capitalista que incorporamos. E bom gosto significa gosto finalmente adequado às exigências da moda e dos costumes. Por sua vez, se os costumes podem ser entendidos como hábitos e práticas generalizadas pelo senso comum, automaticamente, contrariar as regras estabelecidas para o natal nos torna brega. Não será isso que fazemos a cada final de ano? Neste mesmo caminho, penso que usar brilho demais em terras marcadas por tamanha desigualdade social parece brega, mas não é, e sim status. Dessa forma, só nos resta classificá-lo como prática do pedantismo acintoso. Adotar comportamentos deselegantes durante as refeições é extremamente brega por contrariar a etiqueta gastronômica. Ri alto demais em locais públicos nem se fala. Mas acho que no natal tudo pode. Como pode também demonstrar decepção pelo presente recebido; incomodar a vizinhança, mesmo que para eles o natal não faça sentido; impedir que seus funcionários domésticos vivenciem o natal em família devido ao grande jantar que será oferecido para um grupo seleto de amigos, do qual logicamente, estes só devem, e podem, se aproximar para servir-los; ou ainda, promover festas natalinas que se configuram como espaços de articulação política ou extensão dos negócios.

Vale também que no natal não se olha para baixo, mas para cima. Não que dê azar, mas porque é no alto que se encontra a beleza das luzes que decoram ruas mal cheirosas e repletas de mendicantes. As luzes que iluminam árvores e prédios não se irradiam por becos onde se encontra a escória. Por exemplo, não existem borboletas coloridas na Av. Conde da Boa Vista. Elas também não chegaram às principais praças públicas do centro da cidade. Talvez porque nas praças Maciel Pinheiro, da República e Joaquim Nabuco, apenas para citar algumas, não existam flores. Talvez por que estas já estejam tomadas pelas mariposas, por extensão, prostitutas, que junto às travestis borboleteiam nas noites, independentemente do natal. Talvez, porque clarear tais espaços revele a segregação social e a ausência do poder público, o que não seria bem visto pelos de[votos]. Mas pelo menos, no caso específico de Recife, a Av. Agamenon Magalhães está repleta delas. Azuladas, rosadas, amareladas ou brancas, elas margeiam o canal que finda no Rio Capibaribe, dividindo a cidade velha em ilhas. Assim, suas lindas e criativas asas em material reciclado se limitam a sinalizar interligações entre bairros nobres. Não que o natal recifense seja apenas destes, mas que a queima de fogos fica mais bonita na praia de Boa Viagem ninguém duvida. Afinal de contas, natal nos dias atuais também é sinônimo de competição. Quem sabe um dia não se consegue melhorar a imitação de inspiração carioca. Neste ponto, me questiono se a imitação é um comportamento brega. Será que cabe no natal?

De forma resumida e simples, o que mais me consola é saber que depois do período natalino as bregamente coloridas luzes se apagam e a cidade volta rapidamente a sua rotina desorganizada e frenética. Isso se repete a anos. É tudo igual e nada muda, ou parece que mudará. Mas neste ponto, é realmente uma dádiva saber que tanto a Simone, quanto um séquito de padres cantores, reconhecidamente como legítimos comerciantes nataleiros, serão silenciados novamente por um bom e considerado período de tempo. Bom também saber que a poluição sonora mais uma vez diminuirá consideravelmente, e que o único e original brilho a iluminar a cidade virá do sol e da lua. O que tende a deixar tudo novamente menos desigual e injusto. Pelo menos no sentido da visibilidade das mazelas urbanas. Até porque os astros e satélites não costumam iluminar partes ou áreas, mas a todos, e de forma igualitária. E apesar de também virem de cima, não escondem as sujeiras e as condições subumanas em que vivem milhares de recifenses, para quem, muitas vezes, o natal capitalista que vivemos também não faz sentido, e muito menos trás melhorias.

Assim, que voem as borboletas do Recife. Não as das praças, porque cumprem com seus papeis sociais. Mas as que servem apenas como enfeites passageiros e efêmeros a pequenos e restritivos espaços. Que estas sobrevoem a cidade e irradiem os corações dos homens que verdadeiramente precisam de iluminação política social. Que abram suas asas para lhes ensinar o verdadeiro valor da sobriedade e simplicidade, elementos fundamentais para resoluções de problemas em cidades “classicamente” abandonadas não só durante o natal, como o velho e brega Recife.


domingo, 20 de novembro de 2011

DAS RUAS COLORIDAS DO RECIFE




CIRCULO DA AMIZADE
PROJETO CRIANÇA ESPERTA - PETROBRAS




CONSTRUINDO SONHOS

Envolvidos em mais um projeto social nos transformamos nos últimos meses em caçadores de tampinhas de garrafas PET. Com o novo desafio não posso negar meu espanto diante da inevitável constatação: Recife é uma metrópole totalmente tomada pelo lixo. Mais aterrador é poder constatar o quanto somos extremamente mal educados, sem a mínima noção de civilidade. Há muito tenho revelado meu descontentamento, bem como denunciado o descaso, descompromisso e ineficiência da atual administração pública comandada por um prefeito que continua dando as Costas para a cidade. Andando pelas principais avenidas ou paralelas torna-se impossível não observar a imundície que se espalha por ruas, calçadas, praças e prédios. Neste sentido, a herança “mascateira” parece ferver em nosso sangue, incorporada em nossa cultura. Para quem não lembra [ou quem não aprendeu devido ao comprometimento de nossa educação pública] o termo mascateiro figurava como alcunha depreciativa dada outrora aos portugueses do Recife pelos brasileiros que habitavam Olinda, e da qual derivou o nome de uma guerra iniciada em 1710 em nosso Estado - Guerra dos Mascates. Três séculos depois, tornamo-nos uma espécie de grande mercado público a céu aberto onde se vende e se compra de tudo - das saladas de frutas preparadas na hora e embaladas para viagem até artigos mais sofisticados. Das fantasias de carnaval às fantasias sexuais oferecidas por crianças e adolescentes que habitam as comunidades marginais [na etimologia da palavra margem]. E neste sentido é interessante ressaltar que o Recife, e por extensão o recifense, ao passo que margeia segmentos populacionais também se torna marginal [no sentido restrito a desvio de caráter moral e de ilegalidade] por negar igualdade de direitos e condições para o desenvolvimento saudável.

A omissão e a desorganização parecem ter se tornado nossas principais características. Vivemos numa cidade onde o comércio formal e os comércios informais travam verdadeiras batalhas diárias e adotam as mais esquisitas, e porque não dizer escabrosas estratégias para conquistar clientes. E falo da informalidade no plural para salientar a variedade na clandestinidade consolidada, que abrange inclusive as grandes e poderosas redes do tráfico, sejam de drogas, armas ou seres humanos. É o estabelecimento da “Lei do Autorizo”, ou lei do direito adquirido que se dá pela omissão. E neste vale tudo, tem-se sempre a impressão de que tudo cabe e tudo parece permitido. Assim, enquanto bicicletas adaptadas com potentes equipamentos de som anunciam as ultimas promoções, lojistas se valem de amplificadores e megafones para gritar a “queima de estoque”. O ruído ensurdecedor toma conta da cidade provocando incômodo e muito estresse. Quem mora em Recife não tem descanso. Definitivamente podemos afirmar que vivemos em uma cidade histérica, caótica e sem governo, onde se grita muito, se corre muito e se atropela demais. No meio disso tudo se constata ainda a existência de uma verdadeira máfia formada pelo comercio pirata que se alastra e se consolida entre ruas, avenidas e vielas. A ebulição de pessoas diante de praticáveis e carroças ambulantes revela a força do mercado informal. “Tudo pela metade do preço”, informam os comerciantes. Grandes estopas ou lonas plásticas são estendidas pelo chão e servem como mostruário aos artigos oferecidos. A luminosidade do sol refletida em CDs, DVDs, panelas de alumínio e produtos plásticos encadeiam e embaçam a visão. Empurrões e trombadas constantes provocam contusões e até ferimentos mais graves. Em dias de chuva a coisa tende a piorar mas ninguém parece se importar ou se incomodar com tamanho tumultuo. Recife tem assim se transformado em uma terra sem lei onde vale a máxima do “cada um por si e Deus por todos”.

Somos comerciários e comerciantes de origem. Vivemos e gostamos da “feira”. Incorporamos a prática da xepa diária. Praticamos o escambo e comercializamos todo tipo de artefatos. Negociamos honras, ideologias políticas, votos, vagas em filas, empregos e vidas. Vendemos carnes - animal e humana, não só em espaços ditos de entretenimento, mas também nas ruas. Os comércios desorganizados a cada dia congestionam mais as vias públicas espalhando uma quantidade imensa de lixo que se aglomera e entope as canaletas. O clima tropical parece atiçar os ânimos e assim, homens e bichos se misturam numa competição frenética por espaço, que não termina com o por do sol. Ratos que mais parecem gatos sorrateiros correm apressados entre os entulhos e famílias desassistidas. Em dia de movimento a cena é realmente dantesca, digna dos grandes clássicos de terror ou suspense. Nessa muvuca toda não seria de admirar que a quantidade de garrafas pet jogadas pelas ruas facilitasse nosso trabalho. Em uma pequena caminhada, com média de meia hora, por exemplo, é possível coletar até 150 tampinhas. E essa nos tem sido na realidade uma atividade quase que diária. E falo no plural porque a ação é conjunta e envolve outros profissionais vinculados ao projeto. Numa soma matemática despretensiosa podemos imaginar, que se a cada meia hora 150 tampinhas são recolhidas em apenas uma rua, durante um dia poderíamos chegar a 7.200 unidades. Se multiplicarmos o total diário por trinta dias chegaríamos a um quantitativo aproximado de 216.000 tampinhas, apenas nas principais ruas da cidade, o que em um ano assumiria a proporção de 26.280,00 garrafas descartadas de forma irresponsável.

GRANDE MOSAICO COM TAMPINHAS PET
PROJETO CRIANÇA ESPERTA - PETROBRAS

Neste ponto, saliento que é impressionante perceber como determinadas coisas ou fatos tornam-se invisíveis aos olhos quando nosso foco é outro. Não posso negar que já havia despertado para tal problema, porém quando nos tornamos envolvidos diretamente o mesmo assume proporções estarrecedoras. Mas esse exercício tem me servido de base para várias reflexões, principalmente sobre os impactos ambientais sobre a cidade, e consequentemente, sobre a qualidade de vida dos seus habitantes. De certa forma, até já desenvolvi uma base hipotética que norteia a lógica da minha teoria da Invasão PET: “por mais absurdo que pareça para cada garrafa jogada nas ruas existirá inevitavelmente uma tampa”. Em outras palavras quero dizer que ao se encontrar uma garrafa pet, logo em seguida será possível se deparar com uma tampinha colorida equivalente. Como a prática traz a perfeição, até já conseguimos identificar a cor da tampa pelo tipo de produto estampado nas embalagens: vermelhas para coca-cola; azul, branca ou amarela para água mineral; verde, laranja e roxa para águas com sabor, etc.

Variadas em cores e formas essas peças podem ser encontradas nas próprias garrafas ou abandonadas pelas ruas. A sequencia é simples e reveladora da conduta comportamental. Ou se joga a tampa primeiro, e depois a garrafa, ou vice-versa; ou joga-se ambas de uma única vez. O fato alarmante é que a nossa coleta tem revelado que nunca se deixa de jogá-las pelas ruas. Neste mau hábito coletivo, muitas até são frequentemente atropelas pelos veículos e se tornam inutilizáveis. Tem também as desafortunadas que rolam até os bueiros e se perdem para sempre nos esgotos poluídos. Outras, com o tempo vão sendo fincadas na terra como sementes que não vingarão nunca [o que de certa forma é positivo porque não se reproduzirão]. Independente de seus destinos, todas são tampas plásticas que poluem o ambiente e passarão séculos para se decompor. Numa visão mais pessimista poderíamos prever que daqui a algumas décadas não precisaremos mais do asfalto, pois que as nossas ruas já estarão cobertas por um enorme tapete impermeável. A situação em si, não parece alarmante ao recifense, e talvez até contribua para melhorar a imagem da cidade. Teremos então ruas extremamente coloridas. E quem sabe assim, os profissionais de marketing e publicidade possam descobrir que as ruas também podem se transformar em excelentes espaços de propaganda e divulgação. Nessa lógica, se as ruas são de responsabilidade administrativa do governo, vislumbrar-se-ia maior recolhimento de impostos. Quem sabe esse não se torna um bom projeto para a atual prefeitura? Imaginemos, por exemplo, como seria encantador residir em uma avenida refrigerante; ou mesmo morar em um velho e histórico sobrado instalado em uma ruela asfaltada com tampas de suco de laranja. Neste caso, as grandes organizações fariam o papel do governo e assim a atual gestão poderia até redirecionar os nossos recursos públicos para outros fins [de interesse coletivo, claro].

Confesso que a experiência de coletar tampinhas pelas ruas da cidade tem me revelado, e até propiciado situações bem engraçadas. Certo dia caminhando pela Rua José de Alencar, repleta de bares, fiteiros e ambulantes [verdadeiro paraíso para catadores de tampinhas], uma senhora mostrou-se incomodada com minha presença. Fato é que sem perceber, parecia seguir seus passos. Na verdade a mesma caminhava a beira das calçadas, e eu atrás, coletava as tais tampinhas jogadas nas canaletas. Em certo momento acho que apressei o passo, com a visão focada em duas tampinhas azuis livremente abandonadas próximas a uma banca de revista. A senhora assustada iniciou uma corrida desenfreada, com certeza temendo um assalto [o que não é incomum em Recife]. Em outra situação, estava em uma esteira de ginástica da academia que frequento. Na máquina ao lado havia uma garrafa quase vazia ainda com a tampa. Não iria conseguir passar despercebido, por isso, de forma automática afanei meu objeto de desejo. Um senhor que estava próximo reclamou a posse. Mas era tarde demais para ele, afinal eu havia sido bem mais ágil no ato de coleta. Essas e outras situações se somam as ações em restaurantes e lanchonetes comumente realizadas por mim e um companheiro de aventuras. Aos nossos olhos, tais tampinhas parecem verdadeiras pedras preciosas. São como rubis, esmeraldas, safiras e brilhantes que chamam nossa atenção e provocam certa ansiedade pelo desejo de aquisição. Quantas vezes nos prometemos que não coletaríamos naquele dia e minutos depois nos pegávamos agachados pelas ruas? Até competição já fizemos para ver quem coleta mais.

Talvez até possamos classificar nossos atos como nova modalidade de algum transtorno compulsivo. Isso porque com o passar do tempo a coisa parece se tornar um vício. Em alguns momentos até se faz necessário um esforço maior no sentido de resistir ao hábito recém adquirido. E neste caso específico, a melhor solução para controlar a ansiedade e os impulsos involuntários é evitar pegar a primeira tampinha. Num futuro próximo acho até que precisaremos dos grupos de apoio, seguindo a mesma lógica do “evite o primeiro gole”. Neste sentido, apesar de antiga a tática parece funcionar também conosco. Outro fato que merece destaque, ou tratamento refere-se ao fortalecimento de nossa auto-estima, diretamente atingida pelo olhar do outro. Neste aspecto torna-se interessante avaliar o impacto, ou impressão causada pelo nosso pequeno movimento sobre as pessoas. Do espanto a admiração, as expressões variam de acordo com as situações. Em algumas dessas, percebemos que as pessoas passam a nos observar de forma estranha. Como se fossemos malucos. A perplexidade estampada em muitos dos rostos curiosos evidenciam uma pergunta, ou indagação, muitas vezes silenciada pelas circunstancias morais: porque pessoas normais estariam se passando para coletar tampinhas de garrafas espalhadas pelas sujas e esburacadas ruas do Recife? Acho que algumas pensam se tratar de caridade ou algo no caminho do assistencialismo. Outras, talvez nos vejam como ambientalistas sonhadores e utópicos que pensam em salvar o planeta. Mas, a maioria com certeza tenderá sempre a nos rotular como doidos varridos. E talvez até sejamos.

CRIANÇAS E ADOLESCENTES PARTICIPAM DO
PROJETO CRIANÇA ESPERTA - PETROBRAS

Contudo, nossa causa tem um objetivo bem concreto: contribuir para construção do “circulo da amizade”, atividade lúdica e pedagógica desenvolvida junto a crianças e adolescentes de uma comunidade esquecida pelas políticas públicas. Na verdade o intento é montar um grande e colorido mosaico, com figuras formadas a base de tampinhas de garrafas pet, que expressam os mais puros sonhos e desejos de crianças e adolescentes comuns, que se diferenciam apenas pela falta de acesso aos serviços públicos de qualidade. Assim, não coletamos apenas tampinhas descartadas de forma irresponsável, mas contribuímos para a construção de sonhos, fundamental para o desenvolvimento saudável de qualquer ser humano. Não pregamos falso ambientalismo, apenas encontramos na reciclagem uma forma viável para ensinar através da educação possibilidades de transformações pessoais e sociais. Também não praticamos assistencialismos, mas apenas buscamos através da coerência pedagógica favorecer a inclusão social. E isso sim é transformador por viabilizar sonhos. Sonhos de adultos que acreditam na assistência social como alternativa concreta para diminuir [ou pelo menos minimizar] desigualdades sociais em um país tão rico em ideologias e tão pobre em educação e coerência cidadã.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

INVASÃO OU INVERSÃO DE VALORES MORAIS E POLÍTICOS





A INVASÃO DO PET VERSUS A INVERSÃO DO PETI.


A cada novo dia me convenço mais que estamos envoltos em uma revolução que poderíamos classificar como sócio-ambiental. Refiro-me diretamente a Invasão Pet. E antes que se apontem duvidas sobre um horizonte por demais nebuloso, esclareço que o PET a que me refiro nada tem haver com o PETI. E só para evitar confusões, é bom lembrar que o Peti [com I] – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil é um programa do Governo Federal que possibilita a articulação de um conjunto de ações, que tem como objetivo retirar crianças e adolescentes das práticas do trabalho infantil. Nessa lógica reafirma-se o velho jargão de que “Lugar de Criança é na Escola”. Mesmo que estas não funcionem ou não contribuam efetivamente para o desenvolvimento cognitivo e/ou moral das crianças e adolescentes, como se verifica em muitas comunidades isoladas nos confins de muitos municípios pernambucanos. E não pensem que me refiro aos distanciados geograficamente da capital, pois que esta é uma realidade bem próxima e atinge também a grande área metropolitana. A isso se chama Inversão do Peti.

Já o Pet [sem I] a que aqui me refiro, trata-se do Politereftalto de Etileno, que é um polímero termoplástico formado pela reação entre o ácido tereftálico e o etileno glicol [se algum químico de plantão souber explicar melhor, agradecemos], principalmente utilizado na forma de fibras para tecelagem e na forma de embalagens plásticas para bebidas. Logo esse Pet é mais conhecido, afinal de contas quem não toma refrigerantes e sucos em garrafas plásticas? E o pior, quem nunca jogou uma garrafa dessas no meio da rua? A isso podemos chamar de Invasão do Pet. E este, assim como o Peti, também se mostra mau administrado pela maioria dos municípios, não só de nosso Estado, mas creio que de forma generalizada por todo o país.

A diferença entre ambos é bem simples: o primeiro é classificado e deve ser entendido enquanto “programa”; já o segundo, classificado e entendido enquanto “produto”. Logicamente devemos considerar que todo programa tem como objetivo um produto final de qualidade; ao passo que, todo produto tem como premissa básica a qualidade de um programa operacional. Mas independentemente de suas classificações, ambos - programa e produto dependem da qualidade gerencial. Assim, podemos dizer da existência de um verdadeiro antagonismo praticado pela gestão pública no que se refere ao gerenciamento dos dois. Pois que, se o Peti trabalha na perspectiva da prevenção enquanto estratégia de proteção contra as situações de vulnerabilidades e riscos sociais a que milhares de crianças e adolescentes brasileiras estão expostas; o Pet, por sua vez, representa uma ameaça não só a essas, mas a toda humanidade.

Digo então, que entender sobre Peti e de Pet é mais que uma decisão voluntária, mas uma consciente obrigação por parte de todos os cidadãos brasileiros. O gerenciamento de ambos é uma responsabilidade direta da gestão pública. Quanto a isso não há dúvidas. Mas o seu monitoramento e controle pertence e cabe à sociedade civil como um todo. Neste caso, o antagonismo também se estende ao povo, ou melhor, as populações em geral. Se por uma lado o Peti gera renda, que logicamente movimenta o mercado; por outro, o Pet tem gerado altos custos devido aos impactos ambientais, pelos quais todos nós pagamos. Logo, os elevados custos diminuem os lucros, o que enfraquece o mercado. Sem mercado não existe geração de renda, o que inviabiliza o desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes. E assim sucessivamente.

O positivo da questão é que Peti e Pet mostram-se como grandes problemas administráveis. Mas para isso não basta boa vontade, mas educação. Principalmente educação de base, e consequentemente, educação política [o que logicamente difere da educação de base politiqueira]. Seguindo esse raciocínio, Peti, Pet e Educação estão diretamente relacionados. De forma mais simples e direta, a equação Peti/Educação/Pet respalda-se na possibilidade do Peti garantir educação de base também para o uso e controle do Pet por parte de crianças e adolescentes. E isso se faz na escola. Logo, vale a velha máxima de que o lugar de Pet é o mesmo da criança, ou seja, na sala de aula. O produto Pet se torna então instrumento de base para um programa de transformação social que se dará através da educação ambiental. E isso se faz através da consciência ecológica.

Amplamente sabe-se que criança bem educada contribui para a transformação familiar. Famílias bem informadas, não só sobre direitos, mas também sobre responsabilidades contribuem para a transformação social. Numa lógica seqüencial entenderemos que Educação de base transforma o indivíduo, que por sua vez transformará a família e consequentemente a sociedade. Se a sociedade transforma o Estado, sempre valerá a máxima de que só a educação será capaz de transformar o mundo. E isso é matemático, ou seja, é preciso [tanto no sentido de exatidão, quanto no sentido de necessidade].

Se o raciocínio lógico é fundamental ao desenvolvimento adequando dos indivíduos, também se mostra fundamental ao desenvolvimento do país. E isso se dá através do acesso ao ensino de qualidade. Que também será garantido a milhares de crianças e adolescentes em situações de vulnerabilidades e riscos sociais através do Peti. Mas este, especificamente, só funcionará e atingirá seus objetivos [que devem ser nossos enquanto cidadãos] se houver uma gestão política pautada na educação moral [o que infelizmente parece está em falta no mercado]. Será que a gente consegue? Melhor então deixar como reflexão.