sábado, 17 de setembro de 2011

ONDE VOCÊ ESTAVA NO DIA 11 DE SETEMBRO DE 2001?






11 DE SETEMBRO – DEZ ANOS DEPOIS

Onde você estava no dia 11 de setembro de 2001? A semana passou apagando mais uma vez a tragédia. Durante quase um mês, a grande pergunta do momento girou em todos os espaços de encontro, fossem esses bares, escolas ou rodas de conversas entre amigos. Todo mundo tinha uma história para contar. Alguns até com riquezas de detalhes que surpreenderiam os mais crédulos, considerando logicamente o período de tempo que separava o fato da narrativa atual. Outros até choravam pela tragédia vivida por milhares de pessoas, que inocentes ou não, pagaram pelos erros de um regime político autoritário e arrogante. Como num surto nostálgico coletivo todos se empenharam em dramatizar suas histórias, dando toques especiais, e as vezes fantásticos [num sentido mais restrito a fantasia], com o único objetivo de se fazer evidente. O tema era o mesmo, mas o que diferenciava as narrativas eram os recursos utilizados para impressionar e prender a atenção dos ouvintes. Assim, todos pareciam querer se mostrar [e principalmente serem reconhecidos] como participantes ativos de um fato que entrou definitivamente para a história como o dia em que os americanos tiveram que baixar a cabeça diante da própria soberba.

Para não fugir a regra geral, lembro que estava em minha sala de trabalho, num grande centro logístico de um grande grupo de varejo, hoje de capital americano. O dia parecia tranquilo, como todos os demais e as rotinas estavam sendo tratadas dentro da lógica de resultados e metas estabelecidas para a área de recursos humanos. Nossa principal preocupação era a rotatividade de empregados [ou turn over], que logicamente gerava custos que precisavam ser controlados. O grupo que antes tinha “orgulho de ser nordestino” passava por um período de transição e readaptação as novas demandas do mercado globalizado. Deixávamos de ser regionalistas para ser universalistas, ligados ao um forte grupo holandês que não entendia nossa língua e muito menos nossa cultura. Neste sentido, esse tipo de invasão também desmorona pilares sólidos e destrói símbolos que nos são preciosos. Para nossos funcionários, naqueles anos o medo tinha algo de concreto – o desemprego. Como numa espécie de retorno ao passado, os holandeses tinham voltado a Pernambuco. Não havia Maurício de Nassau, mas havia impérios econômicos incorporando empresas nacionais e passando como um trator em cima de nossa regionalidade. O processo de aculturamento, onde uma cultura mais forte tenta se impor a uma mais fraca deixa estragos irreparáveis, principalmente no campo das emoções. 

Nosso corre-corre se justificava pelas metas a serem alcançadas. Para garantir o emprego era preciso falar uma nova língua, se tornar e mostrar qualificado dentro de novos parâmetros, investir na empregabilidade e, acima de tudo, ampliar nossas net work. Tornamo-nos uma espécie de nordestinos estrangeiros dentro do próprio nordeste. Até porque os holandeses tinham verdadeiro horror dos nossos “vixe” e muito menos toleravam o “ochente”. Não entendiam como podíamos gostar tanto de carnaval a ponto de nos orgulharmos do maior bloco uniformizado do mundo, que ganhava a avenida mesmo fora do período momesco. Os holandeses não se adaptaram ou não encontram os lucros pretensos. Nos tornamos então americanos, e assim mais uma vez revisamos nossos conceitos e costumes. Com a nova invasão cultural passamos a vestir outra camisa, jogar em outro time, o que simbolizava a perda da nacionalidade, influindo logicamente em nossa própria identidade. Interessante destacar que na era do mundo globalizado e das grandes fusões, comerciais vestir a camisa da organização não se mostrava suficiente. Era preciso tatuar a camisa, forma figurativa de evidenciar o comprometimento com seus interesses que prevaleceria acima dos interesses ou desejos pessoais. Não havia aviões despencando dos céus. Não havia terrorismo abertamente declarado. Mas havia ameaças e medos. Havia pânico no ar. E isso tudo também se dava de setembro a setembro.

Mas aquele dia 11 seria diferente. De repente a correria sinalizava algo imprevisto, fora dos padrões de controle. O telefone tocou e alguém do outro lado me comunicou o início da terceira guerra mundial. Literalmente, a notícia me caiu como uma verdadeira bomba. Nunca tinha vivido uma guerra e a única ameaça experimentada se dera na década de oitenta, quando os ingleses lutavam contra os argentinos pela posse das ilhas Malvinas. Desci as escadas e um grupo de funcionários, postados diante da televisão, instalada na área de socialização, assistiam abismados o choque dos aviões contra as famosas torres, que juntas pareciam também formar um numeral específico – 11. Era impressionante a nitidez das imagens, como também se tornara nítido o medo e angustia estampadas nos rostos das pessoas. Parecia mais um filme de ficção, daqueles considerados verdadeiras obras de arte devido à qualidade dos efeitos especiais.

As pessoas mudavam de canais procurando maiores informações e até mesmo melhores cenas. Havia de certa maneira um fascínio pelo acontecido. Era realmente fantástico, no sentido visual. Impressionante e hipnotizador. Sem dúvida era um momento histórico como dos poucos que temos a oportunidade de participar ou presenciar. Aquela cena em que o avião atravessa a torre nunca saiu da minha cabeça. Era perfeito demais para ser ficção cinematográfica. Aquilo superava Hollywood. Quando a primeira torre começou a desmoronar o pânico tornou-se histérico. Pessoas começaram a gritar, gente desmaiando, enquanto outros ficaram simplesmente atônicos diante da grande tela. Ninguém entendia direito o que estava acontecendo, mas todos sabiam das repercussões. Os impactos políticos, e consequentemente econômicos mexeriam com a vida de todo mundo. A história passaria a ser contada como antes e depois dos atentados de 11 de setembro. Os Estados Unidos jamais seria a mesma nação. O mundo jamais se mostraria o mesmo.

Dez anos depois, os americanos se empenham em restaurar a ordem perdida. Acima de tudo, os esforços se concentram na recuperação da soberania política. Novos espigões de concreto reforçado surgem em substituição às torres gêmeas para fortalecer mais uma vez o imaginário mundial da super potência. O fantástico novamente toma conta do mundo. Será que essas  torres suportarão outro ataque feito aquele? Serão realmente tão resistentes a ponto de suportar o impacto causado por um novo avião? As perguntas e dúvidas agora se concentram na possibilidade de novos atentados. E como numa espécie de desejo inconsciente, ou tendência natural às desgraças, de certa forma, o povo parece esperar por reviver a tragédia. Neste sentido, a mídia parece contribuir definitivamente para o novo surto coletivo da pós-modernidade, divulgando detalhes sobre as estruturas, cimentos super potencializados, novas estratégias de engenharia, haste metálica que possibilitará a manutenção da torre em pé nos casos de grandes impactos, e toda a parafernália da pretensa e utópica proteção doentia dos americanos. Isso mostra que na terra do cinema tudo se torna um novo espetáculo a cada novo dia. Não seria deferente com as torres gêmeas. Não seria contrário no governo Obama. É como se dissessem ao mundo: “queremos ver alguém derrubar agora”, ou no melhor estilo soberbo do Tio San, “estamos prontos para ganhar dos inimigos”. Mas neste sentido, talvez valha uma maior reflexão sobre quem realmente se configura como inimigo dos Estados Unidos. Na minha pobre, humilde e talvez infundada percepção política, os Estados Unidos se mostra o principal inimigo dos Estados Unidos.

Talvez neste momento que se diz de homenagem as vitimas, mas onde as pessoas se concentram exclusivamente no ato de relembrar onde estavam ou o que faziam no exato momento da colisão, seja necessário também refletir sobre o que representa a destruição das torres gêmeas. O que está por trás dos atentados. E sobre tudo, o que está por trás da reconstrução do conglomerado de grandes edifícios no mesmo local. A restituição da dignidade através do respeito e da admiração mundial será da nação ou dos americanos propriamente? Considero realmente confusa tais divagações, mas num sentido mais lógico, me parece que as vitimas da tragédia perderam espaço nas discussões e objetivos atuais. Neste sentido, penso até que ponto as mesmas não foram propositalmente transformadas em mártir e/ou heróis para esconder ou minimizar as culpas e erros de um governo obsessivo por guerras e mortes? Não se discute mais as responsabilidades do governo americano sobre o atentado [será que algum dia já se discutiu?]. Ao contrário lhes instituem o lugar de vítima injustiçada.

Mas neste sentido, será que o atentado de 11 de setembro é tão mais grave que os atentados americanos contra os iraquianos, por exemplo? Será que o número de mortos em setembro de 2001 é tão maior do que o contingente de assassinatos promovidos pelos americanos ao longo de todos esses anos? Ou a vida de um norte americano vale mais do que a vida de um vietnamita? Quantas mulheres e crianças foram e continuam sendo violentadas e mortas pelos soldados americanos? Quantos prédios foram destruídos pelos super sônicos e ultramodernos aviões de guerra dos Estados Unidos? Quantas aldeias foram queimadas? Quantas populações foram dizimadas? Ou será que isso não tem importância? Não foi com helicópteros invisíveis que os americanos invadiram o esconderijo de Osama Bin Ladem? Não foi a queima roupa que o filho dele foi assassinado? A mesma frieza não foi utilizada para matar também uma de suas esposas? E quanto a Sadan? Não foram os americanos que o mataram? Mas talvez isso não nos cause mais comoção [e muito menos emoção] porque nós mesmos instituímos aos Estados Unidos o papel e o poder para livrar o mundo do terrorismo. E para combater os terroristas vale tudo, inclusive disparar contra crianças indefesas e transmitir ao vivo para o mundo. É o espetáculo da barbárie promovido pelos mestres do cinema. Assim, talvez seja interessante repensar sobre quem realmente se apresenta como terrorista mundial? E sobre tudo, quem ou como nos defenderemos dele?


Acho que pensar sobre a tragédia do 11 de setembro é tantes de tudo refletir sobre as tragédias e terrorismos promovidos pelos americanos ao longo de suas histórias de luta. Ou será que já nos esquecemos de Hiroshima e Nagasaki? E neste ponto esclareço que não sou anti-americano, mas sou totalmente anti-hipocrisia política e discursiva. Por isso é sempre bom lembrar que não se exige respeito sem se respeitar o próximo. Não se conquista soberania ameaçando e aterrorizando os pares. Não se pode querer limpar o mundo da injustiça dos ditadores sem fazer o dever de casa. Não se combate torturadores praticando torturas. E não se protege vidas assassinando crianças e pessoas indefesas. 

Penso que num mundo de lutas pelo poder exacerbado não existe inocentes, mas apenas primitivos selvagens com egos super inflados que não enxerga um palmo a frente dos próprios olhos. Assim, ao invés de pensarmos sobre o que fazíamos, ou onde estávamos no exato momento da colisão dos aviões contra as torres gêmeas devamos pensar sobre a nossa parcela de responsabilidades sobre as tragédias que acometem a humanidade. Refletir sobre nossa inércia e omissão diante de tais situações. É preciso mudar a lógica vendida, para que o 11 de setembro se configure não como uma data para comemorações, pois não há o que se comemorar, mas simplesmente como espaço para reflexões futuras. Ponto ou fato de referência para se pensar até onde pode chegar a barbárie humana [a nossa própria barbárie].



sexta-feira, 2 de setembro de 2011

PROSTITUIÇÃO NA INTERNET - BOYS DE PROGRAMA VIRTUAIS OU REAIS?








OS BRUNOS SURFISTINHAS – BOYS DE PROGRAMA ON LINE

Essa semana ao acessar a internet, um anuncio inesperado chamou minha atenção. Na verdade era um convite de acesso a um blog pessoal. O simples acionar de uma tecla abriu diante de meus olhos um mundo [ou submundo] inusitado, porém não tão desconhecido a quem já algum tempo pesquisa o universo da prostituição. Na página em questão uma foto revela parte de um corpo jovem e atlético ao lado de uma prancha de surf. O cenário de fundo é uma praia do nordeste brasileiro, onde o sol forte também se insinua no bronzeado sobre a pele branca. A foto cuidadosamente montada é sucessivamente atravessada por uma coluna de mensagens digitais onde se pode ler: “Acompanhante de luxo. Sigilo total com garantia de prazer absoluto”. Qualquer semelhança com o blog da Bruna Surfistinha, imortalizada no cinema pela Débora Seco, no ano passado, com certeza não será mera coincidência. Na verdade o que se ver na tela é uma versão masculina da controversa ex-garota de programa que tornou público as dinâmicas e regras de um submundo invisibilizado. A estratégia de marketing é a mesma. O universo, ao contrário se renova por expor o homem, antes entendido como sujeito consumidor, na posição de executor da prostituição. 

“Bruno Surfistinha – acompanhante de luxo” com certeza já se tornou uma referência dentro de um mercado específico, que atende em sua maioria, a um público também específico. Considerando o quantitativo de seguidores, imagina-se que o jovem rapaz de 19 anos, pele clara, corpo atlético, com 1,76 de altura e nível universitário, faça tanto sucesso quando sua musa inspiradora outrora fizera. Na atualidade, a internet tem se apresentado como canal ou instrumento de e para divulgação e propagação de serviços especializados para quem busca por sexo casual. A mesma estratégia, antes limitadas a jornais [Fábregas-Martínez, 2000) e revistas voltadas a segmentos específicos, agora invade a rede virtual. A diferença em si, consiste nos recursos que a tecnologia disponibiliza, favorecendo maior interação e agilidade entre quem consome e quem negocia fantasias e erotismos. As possibilidades viabilizam além de maior espaço para descrição detalhada dos serviços ofertados, incluindo honorários, horários e locais de atendimento, a veiculação de imagens, sejam através de fotos ou vídeos de curta duração, que revelam demonstrativo das performances profissionais. Neste sentido, os risco relativos a enganos ou equívocos por parte dos consumidores parece minimizado. No melhor estilo E-comece, os produtos podem ser detalhadamente avaliados antes da efetiva compra ou aquisição.

Entro em outra página qualquer, via seguidores, e como que atravessando um portal que nos levaria a outra dimensão, me deparo com um vasto cardápio de corpos semi-cortados ou fragmentados, onde rostos são substituídos por bundas e pênis. É o mercado da carne que se abre a demanda rigorosa e exigente do mercado do sexo.  Um novo comando no teclado e novos portais se abrem. O prefixo do telefone deixa “Claro” o endereço e/ou área de atuação do “Negão 24 cm”. O anúncio evidencia os serviços oferecidos a um público que perpassa as fronteiras nacionais: “negão sexy e dotado para homens, mulheres e casais de bom gosto”. Como todo bom serviço gastronômico, o menu se apresenta pluridiomático: “Businness for gifted and sexy men, women and couples of good taste”. Ao passo que os boys de programa invadiram definitivamente a internet, a prostituição encontrou novas formas de se adequar aos contextos de um mundo globalizado, atendendo as solicitações de um mercado, que não diferente dos demais segmentos apresenta-se cada vez mais consolidado e competitivo. A inovação mostra-se como diferencial atrativo que busca despertar desejo. A diagramação visual desperta curiosidades levando o internauta a vasculhar conteúdos que podem se revelar surpreendentes. O requinte e qualidade das fotos evidenciam certo cuidado e esmero que objetivam agregar valor as embalagens corpóreas. O marketing se mostra assertivo, deixando claro o produto comercializado – fantasias, virtuais ou reais.  Outro “acompanhante de luxo” sinaliza dançando seminu: “venha realizar suas fantasias comigo. Gosto de experimentar coisas novas.” A cada movimento de abrir e fechar a toalha branca, que não expõe, mas evidencia o produto, a mensagem é traduzida do português para o inglês: “come out their fantasies with me. Like to try new things”. Outro site, outro convite: “Sarado 21 cm – Gato ativaço em Copacabana”. Mais um, e o convite agora chega do Recife. É o RafaSafado que oferece prazer de dimensões gigantescas, com garantia de qualidade e aprovação popular: “quem provou, gostou. Venha você também sentir a dimensão do prazer nordestino”. A mensagem pisca na tela enquanto lábios carnudos são vigorosamente umedecidos por uma língua provocativa.

O marketing adotado busca correlacionar dimensões físicas ao tamanho do prazer proporcionado, recorrendo as subjetividades construídas culturalmente, ao longo dos séculos, a partir de uma perspectiva falocêntrica. Neste mercado de corpos divididos em pedaços, ou blocos, como que peças de um grande quebra-cabeça [ou melhor, sem cabeças] vende-se e compram-se partes ou conjuntos, mas nunca o todo. Mas também não é o que se busca, considerando-se os depoimentos dos pretensos clientes. “Você é lindo, maravilhoso”, diz um deles, postado recentemente. Leio e me pego perguntando a quem se refere, ao boy de programa sem rosto, ou ao pênis ereto que balança em movimentos rotatórios? O sexo comercial concentra-se então na particularidade anátomo-fisiológica, onde pênis e bundas assumem identidades [Roludo 23, Kacete Kid, Gulosão Safado, Bundinha Gostosa, Super Pica, entre outros]. Nesta perspectiva, ambos parecem representar ou se configurar enquanto focos para o descarrego ou alívio das tensões da libido. Numa espécie de frigorífico humano, as peças de carne são expostas de forma fatiada - coxas, panturrilhas, pés, mãos, peitorais, costas, e raramente partes do rosto. E como na lógica capitalista de consumo toda carne tem um preço, esses pedaços muitas vezes revelam-se como pequenas mostras grátis de um todo que pode ser acessado via pagamento eletrônico. 

Apesar das inovações tecnológicas, observa-se que a lógica falocêntrica continua respaldando a base mercadológica. É neste sentido, que os centímetros parecem fazer a diferença. É a particularização da particularidade. Dentro dessas premissas um pênis de vinte um centímetros parecerá substancialmente diferente de outro com apenas vinte centímetros. Pelo viés onde pequenas diferenças anátomo-fisiológicas assumem significativo de grandiosas dimensões subjetivadas, a “dimensão do prazer nordestino”, por exemplo, será vendida como diferente da “dimensão prazerosa do sulista”. Assim, a lógica que demarca diferenças físicas, correlaciona centímetros as subjetividades históricas e geográficas, definindo diferentes preços as práticas sexuais comerciáveis. Também os recortes étnicos/raciais e geracionais mostram-se configurados como fatores de valorização mercadológica. Nessa perspectiva, um jovem negro pode tornar-se sinônimo de super garanhão, valente e viril, logo, dominador. Por sua vez, um adulto de pele clara poderá ser entendido, ou visto como menos potente, passível de dominação, e consequentemente menor força. 

Se o capitalismo cria produtos pautados no imaginário de consumo, homens e máquinas, ou homens-máquinas, podem ser pensados em questões de potência e força, que aqui se traduzirá em virilidade. Não é o homem em si que se comercializa, mas a simbologia de sua força. Neste sentido, o mercado do sexo não se direciona aos indivíduos guiados pela racionalidade concreta e fria, mas para os emotivamente imbuídos numa lógica consumista globalizada. O corpo torna-se apenas a embalagem, que bem adornada esteticamente respaldará o simbólico poder da aquisição ou compra. Se vender centímetros é trunfo, comprar ou consumir polegadas é status. Trava-se uma luta paradoxal através das relações de poder que mercantiliza os corpos. E neste aspecto, talvez valha a reflexão mais apurada: quem tem os centímetros a mais detém o poder da negociação? Quem compra polegadas obtém o poder na transação comercial? Ou vice-versa?  Nessa relação, o poder torna-se situacional ou relacional? Ou ambos? Ou ainda, nem uma coisa e nem outra? Neste mercado ainda, se a potência sexual tem tamanho ou medidas, também parece possuírem cor. É neste cenário que os negrões [ou negões como descritos e autodenominados] e os mestiços, simbolicamente maiores em tamanhos, parecem preferidos aos boys de programa de pele branca, simbolicamente menos dotados.

Na mesma perspectiva, o marketing comercial televisivo se utiliza da mesma estratégia. atualmente um comercial sobre um determinado carro, indaga os consumidores se os mesmos preferem a potencia dos cavalos selvagens [símbolo de virilidade] ou dos “pôneis malditos”, que rosados, mostram-se e consolidam-se no imaginário popular como delicados, e consequentemente menos potentes. Não é a mesma correlação que respalda a simbologia da potência dos motores das super-máquinas automobilísticas? Não é a mesma lógica que transforma atividade e passividade, entendidas enquanto preferências sexuais, em moedas valorativas simbólicas de potência/virilidade? A força então se configura enquanto fantasia. E é neste sentido que o mercado do sexo se consolida. Não é o corpo, ou parte do corpo que é negociado, mas a fantasia correlacionada. “Me informe seus desejos e farei o melhor para satisfazê-los [let me know your wishes and Will do our Best to satisfy them]” esclarece o negrão paulistano bem dotado. Apesar de sulista, sua origem ou raízes dizem no censo comum dos clientes das diferenças geográficas. Sua virilidade não se revela apenas pelos 24 cm de “dote”, mas também pela capacidade simbólica de sua força de trabalho: “disponível 24 horas por dia, 07 dias por semana, para programas, acompanhamentos e viagens [available 24 hours a day 07 days a week, programs, travel and dishes]”. 

Talvez essa seja a representação máxima da lógica capitalista, que explora a força de trabalho humano, também no comercio do sexo. Os atrativos físicos tornam-se elementos fundamentais a evidencia de habilidades e competências profissionais: “sou experiente na maioria das posições e fantasias sexuais, gosto muito de sexo e erotismo e possuo dote de 24X18 cm grosso não circuncidado para o seu deleite”, revela outro boy paulistano que também estende seus serviços ao público estrangeiro [I AM experienced in most positions and sexual fantasies, I Love sex and eroticism and have a dowry of 24X18 cm thick uncircumcised for your enjoyment]. Interessante observar que o fato de não circuncisão imprime ao dote o sentido ou status de natural inviolável, o que parece lhe conferir maior valia. Neste aspecto, a reflexão estende-se a denominação dote enquanto sinônimo do pênis. Gramaticalmente, derivado do latim, “dote” configura-se como conjunto de bens que leva a pessoa que se casa. No campo jurídico, o dote, relaciona-se aos bens incomunicáveis que a mulher, ou seus ascendentes ou terceiros, transfere ao futuro marido para ajudá-lo na satisfação dos encargos matrimoniais. Traduzindo em outras palavras, a mulher recebe o dote alheio [ascendentes ou terceiros], ou seja, o poder através dos bens de outros. O homem, ou esposo, possui o dote próprio [simbolizado pelo pênis], que concederar eventualmente a esposa. Logo, numa rápida analogia, no negócio da prostituição masculina a configuração das negociações também parecerá exata na centralidade e primazia do pênis. O cliente pagará para se beneficiar das satisfações matrimoniais temporárias, ou seja, entrará na transação conjugal, ou conjunção carnal, através do dinheiro [os bens]; enquanto que, o executor da atividade comercial lhe concederá eventualmente o poder simbólico de seu dote [falo]. Complicado? Se entendermos que popularmente o dote, na cultura brasileira, assumiu a configuração e sentido de “dom natural”, “merecimento”, ou como também predicado físico, o pênis torna-se um bem herdado, que transformado em produto, passará a servir como moeda de troca.

Talvez por isso, seguindo essa lógica, quanto maior o dote ofertado pelo boy de programa, maior será o bem [valor monetário] com que o outro [cliente] entrará na contratação da conjugação. Na nossa cultura se diz que vender por um dote, equivale a vender [algo] muito caro. Se neste caso, o dote estiver diretamente correlacionado à maior masculinidade [simbolicamente representada pela esteriotipação de força e virilidade masculina], maior se tornará seu valor comercial, o que talvez justifique o tabelamento das polegadas ou centímetros supostamente prazerosos. Mas num sentido mais amplo, no comercio do sexo, o dote também passa a se configurar no todo, pois que vem acompanhado de outros atrativos simbólicos, relativos a aspectos que se correlacionam [também simbolicamente] a segurança, higiene, grau de instrução, estética e beleza. Tanto que nos sites e/ou blogs pessoais dos boys de programa, tornam-se lugares comuns um endomarketing que salienta altura, grau de instrução e massa corpórea: “Negro, universitário, 25 anos, ativo liberal, magro, “corpo legal”, 1,90 de altura, 85 Kg, dote 24 Cm”. O conceito de corpo legal corresponde à estética atual que embasa o padrão de beleza mundial. Certa noite, em uma boate, me posicionei próximo a um grupo de jovens homossexuais para escutar um pouco da conversa [e não entendam como simples curiosidade, mas como característica peculiar do pesquisador]. Alguém pretendia apresentar um futuro “ficante” ao amigo. O primeiro passo foi relatar características valorativas, do tipo: universitário, bem sucedido financeiramente, liberal, bom beijador [...]. A lista parecia enorme, e de certo modo, até já se vislumbrava um Reinaldo Gianequine da vida. Parecia na verdade, o sonho de consumo de todo jovem gay que se encontra atrás de um grande amor, ou aventura fortuita. Porém, não foi suficiente. Em meio a tantas informações que evidenciava um excelente perfil, o jovem pretendido queria apenas saber se a estética corporal corresponderia as suas condições e exigências básicas. De forma direta e sem grandes receios do constrangimento conceitual do politicamente incorreto da pós-modernidade, indagou taxativo: Ele é gordo? Numa simples palavra, mas que traduz um conceito de representação social, o possível romance foi por água a baixo. E assim, o Gianequine tupiniquim foi descartado pelo simples fato de não possuir os famosos tanquinhos comuns aos malhadões das academias urbanas.

O conceito malhadão passa então a associa-se também ao dote, realçando potência a juventude e estética corporal. “Gato presença: 23 anos, 1,75 de altura, 82 Kg, moreno claro, corpo bronzeado, liso, do tipo malhadaço”. A massa corpórea reforça os estereótipos de masculinidade e embasam as performances de gênero. Como todo produto, o corpo também tem que apresentar garantias de resistência que se configurará no imaginário como prova de boa qualificação e desempenho sexual. Como salienta Normando Viana (2010), no negócio do sexo, os corpos precisam ser pensados e estruturados para o exercício da prostituição. “Macho gato: tatuado, 21 cm de rola reta e grossa sempre “duraça”. Sem decepções”, destaca um boy que atende em Boa Viagem, bairro nobre do Recife. Outro, do Rio Grande do Norte, salienta: “Boy ativo safado: 19 anos, branquinho, surfista, 1,78 de altura, magrinho, bem filé para te satisfazer com meus 20 cm de kacete cheim de leite. Atendo homens, mulheres e casais. Apesar da idade, tenho experiência e sou profissional”.

Neste aspecto, destaca-se ainda, que apesar de vários estudos evidenciarem a concepção de profissionais do sexo como categoria identitária não aceita e/ou reconhecida pela maioria dos executores da prostituição [Fábregas-Martínez, 2000], o profissionalismo é sempre divulgado nas chamadas, descritivos e oferta dos serviços, através de afirmativas como: “Atendimento personalizado e profissional, com hora marcada para homens, mulheres e casais”. Como verificado em Recife, [Viana, 2010], as práticas sexuais comerciais se configuram pela mesma lógica trabalhista ao assumirem e/ou determinarem parâmetros comuns ao regidos por legislações específicas, através do estabelecimento para horários de atendimentos, indumentária utilizada para o exercício da atividade e valores relativos aos serviços prestados. “Sarado gato ativaço: atendimento personalizado com hora marcada. Atendimento 24 horas. R$ 150,00 no meu apê, em Copacabana, R$ 200,00 em motéis ou residência dos clientes”. Na mesma perspectiva, GP de Luxo, boy de programa de Brasília, destaca: “Sou acompanhante de luxo. Realizo suas melhores fantasias. Sou educado, profissional e curto homens sem frescuras, casados, amantes e etc. Curto putaria com dinheiro. Pagando bem que mal tem?”

Por fim é isso, na atualidade apenas nos cabe pensar até que ponto  precisamos sair do mundo real para realizar nossas fantasias virtuais, ou sair da vistuosidade para  satisfazer nossos desejos concretos?

terça-feira, 16 de agosto de 2011

FOTOS DE FERNANDO DE NORONHA

PORQUE AS IMAGENS DIZEM MAIS QUE SIMPLES PALAVRAS.

Bosque em Meio as Ruinas no Centro Histórico


Ruinas Históricas





















Visão da Praia do Cachorro



















Praia do Meio


Vista dos Morros dos Dois Irmãos






















Praia Cacimba do Padre

Bica Histórica na Praia do Cachorro
Museu do Tubarão
 
Parque Externo Museu do Tubarão




Estuário dps Tubarões






A DIMENSÃO DE FERNANDO DE NORONHA


Fernando de Noronha

ENCANTOS E DESENCANTOS ABAIXO DO  EQUADOR
 
Estando em Fernando de Noronha, distrito turístico do estado de Pernambuco, torna-se impossível negar sua dimensão paradisíaca. Torna-se ainda, incontestável a riqueza de seu patrimônio natural. Rica em encantos e em cultura, diz-se na ilha que certo dia fora descoberta a infidelidade de um casal enamorado. Ambos casados, ao tornarem-se amantes passaram a se encontrar nos longínquos recantos que se escondem aos olhos, onde praias de águas claras serviam de cenário às cópulas que manchavam as normas. Aos beijos, foram pegos desnudos e enlaçados, como unidos pela e para eternidade. Amaldiçoados, foram condenados a pagar pelo desvario e sandice comum aos amores desvairadamente proibidos. Não creio ser difícil enlouquecer em Noronha, tão quanto se entregar as tórridas paixões desventuradas em meio a arrebata beleza. Mas assim não pensavam os feiticeiros e maus feitores da ilha encantada que determinaram que suas vergonhas fossem expostas perante todos, e que vistas de qualquer lugar ou ponto do arquipélago, servirem de exemplo a todos os pérfidos apaixonados. A natureza evocada, e cúmplice, fez cumprir a profecia. E das profundezas da terra elevou aos céus dois símbolos que registrariam para sempre a aleivosia. No centro da ilha surge então o Morro do Pico, que como um totem adorado e reverenciado ultrapassa as nuvens. Em meio ao mar, os Morros dos Dois Irmãos evidenciam a volúpia e a inquietude de uma amante afogada em lágrimas. Assim, quem sobrevoa Noronha logo se depara com um grande falo soberano, que desvirginando nuvens de algodão, serve de marco geográfico que denuncia o paraíso luxurioso encoberto. Abaixo, em pleno mar verde azulado, dois grandes e voluptuosos seios se exibem perante olhares incrédulos e admirados. 

Morro dos Dois Irmãos

Falo e seios, positivo e negativo, simbologias das masculinidades e feminilidades - sexualidades nativas. Virilidades e sedução em harmonia com os quatro elementos da natureza: TERRA, representada pelo conjunto de montanhas formadas por pedras e rochas vulcânicas; AR, que baila em forma de brisa, cortando olhares e agouros; ÁGUA, que transborda em praias de clara transparência para se derramar sobre areias finas; e, FOGO, figurativamente revelado na luxuria e desordem dos amores clandestinos. Mistura de sal e areia que encanta e salga a boca, Noronha não é só banhada por águas mansas, mais pelo sol que esquenta e atiça sentidos enquanto queima a pele. Cercada não só pelo mar, mas também por misticismos, crenças e costumes que povoam histórias que vão além do encantado e do fantástico. Impossível não se emocionar diante da inocência preservada entre seu povo. Difícil não ceder a tentação em se instalar para sempre em um arquipélago histórico, enlevado e misterioso. Improvável não se entregar e se abrir a tamanho encantamento inspirador, capaz de nos fazer pensar que a felicidade é eterna e inerente ao homem. 

Centro Histórico de Fernando de Noronha

História é o que não falta na ilha que herdou o nome de um português judeu, convertido ao catolicismo, vivente do século XV [ou talvez XVI]. Também conhecido como Fernão de Noronha, ou Fernão de Loronha, o rico e astuto empreendedor tornou-se um dos primeiros e mais afortunados exploradores do pau-brasil nas terras recém-descobertas. Natural das Astúrias, juntamente como outros novos cristãos comerciantes portugueses recebeu concessão da coroa imperial portuguesa para explorar os recursos naturais na nova colônia. Dizem os mais sábios que em 1503, junto a um rico banqueiro da época, financiou a expedição de Gonçalo Coelho, que em 24 de julho descobria a ilha e a batizaria com o nome de seu patrono. Com a extração da valiosa madeira, o “grande bem feitor [???]” multiplicou fortunas. Dados históricos revelam, por exemplo, que apenas em 1506 foram retiradas das virgens terras mais de 20 mil quintas de pau-brasil. Mas a façanha [e a ganância] do grande homem não se limitaria apenas a despojar nossa flora, tanto que em 1511 o ladino explorador voltou a Portugal com uma carga repleta de especiarias e riquezas que incluíam além das 05 mil toras de pau-brasil, uma grande variedade de animais exóticos e mais de 40 escravos, em sua maioria mulheres nativas. Assim talvez, possamos imaginar que o tal Fernão de Noronha se apresenta na história do Brasil como um dos primeiros chefes das redes do tráfico de seres humanos. Talvez seja também a base para nosso senso de explorador, no sentido mais pejorativo que nos é comum.

Praia do Meio

A história também se preserva [mas mal se conserva] na antiga capital do distrito federal, Vila dos Remédios [destituída do título em 1988, quando o arquipélago foi reintegrado ao estado de Pernambuco]. Os velhos casarios se espalham por ruas de pedras antigas que se perdem em ladeiras que desembocam no mar. Formado por 21 ilhas [e ilhotas] o arquipélago se perde em meio ao Oceano Atlântico, tendo sua principal ilha 17 km², estando localizada a apenas 545 km do Recife. Caminhando por vias e ruelas estreitas encontram-se vestígios das várias invasões estrangeiras [entre francesas, americanas, holandesas e logicamente, portuguesas]. Descendo entre paralelepípedos negros e pontiagudos chega-se ao centro histórico, repleto de ruínas com fortes paredes de tijolos aparentes. Velhas construções se perdem em meio ao mato e ao descaso. Mas apesar disso, resquícios da importante história brasileira ainda podem ser garimpados, revelando os tempos difíceis da ditadura militar, ou da influencia católica sobre a região.  Pela descida íngreme chega-se a Praia do Cachorro, onde se localizava a antiga bica, que apesar de depredada e mal conservada ainda proporciona um bom banho de água doce. Em todas as praias de Noronha vale a velha máxima de que “o mar está prá peixe”. Diante de espelho tão transparente não raramente se verá o movimento livre de arraias e cardumes de peixinhos coloridos que brilham aos raios do sol. 

Praia da Cacimba do Padre

Adiante se chega a Praia do Meio. Caminhar na areia fina e limpa permite um contato inusitado consigo mesmo. A água brinca e lambe os pés enquanto pequenas gaivotas bailam em mergulhos de mira certa. Um, dois, três... Perdem-se as contas em meio aos tantos e sucessivos ataques que elevam do mar filetes brilhantes. A Praia da Conceição tem uma imagem sobre as pedras, e logo, o sincretismo religioso salta aos olhos. Ao passo que Iemanjá parece reverenciar a saudosa África, o mar formado por suas próprias lágrimas parece se lançar do distante continente para se quebrar em pequenas marolas que banham o altar. As rochas saltam da terra e formam verdadeiros caminhos encantados. Duas pequenas enguias malhadas colocam a cabeça para fora averiguando quem chega. Guaiamus escuros de patas vermelhas correm apressados para se esconder enquanto deixamos os rastros de nossa passagem.  Os passos marcados na areia logo serão apagados, eliminando vestígios. É como se a natureza lutasse para se manter pura e virgem da curiosidade que arrasta milhões de espaços e territórios longínquos. Acho que ali é um lugar sagrado que não cabe aos estranhos e invasores.

Centro Histórico - Vila dos Remédios
Uma das trilhas em mata fechada que fizemos, por exemplo, nos levou ao Mirante do Boldró, antigo ponto que serviu como base de observação para testes e lançamentos de mísseis teleguiados dos militares norte-americanos [boldró, deriva do inglês Bold Rock, que significa Pedra Saliente]. Do alto uma inebriante vontade de se lançar ao mar nos invade. É que o azul que se avista adiante alucina ao se misturar ao céu recheado por finas estrias brancas que flutuam preguiçosas e sem rumo certo. Outra trilha, cortando a mata em sentido contrário nos coloca diante da Cacimba do Padre, fonte de água doce histórica perdida na passagem. Sem preservação necessária se perde na floresta e apaga-se sua significância. A desatenção e o desrespeito tamanho com o patrimônio histórico e cultural do lugar nos convencem de imediato do quanto somos pobres em espírito e consciência. 

Trilha para o Mirante do Boldró
Se do alto, em meio às nuvens, o já arquipélago encanta, o passeio de barco revela surpresas em cada baia, em cada praia, onde vultos, imagens e rostos se configuram em rochas pré-históricas. Avistar o “falo gigante” diante dos “seios exuberantes”, de pleno mar, pode lhe causar a impressão da constante presença do sagrado e do intocável. Cada rocha, cada pedra delicadamente sobre posta configura o paraíso diante dos olhos. Mergulhar na Baia do Sancho é desvendar um mundo mágico onde tudo parece preciso e harmonioso. Tudo parece certo e tranquilo, dentro de uma lógica incomum para alguém metropolitano demais como eu. Do alto das colinas aves enormes parecem nos observar, enquanto pequenos animais correm sobre as pedras em sua rotina habitual. Nada parece os incomodar. E tudo parece permanecer exatamente em seu lugar através dos séculos. Neste sentido, delicadeza e destreza se evidenciam parecendo revelar nossa insignificância, nossa “desnecessidade de estar”. Temos a nítida impressão de que apesar de ser bem vindos, não somos necessários. De que ali, nós humanos não contamos a história, e nem fazemos parte da mesma. Somos limitados a apenas a presenciá-la. Alçados ao posto de pequenos espectadores, insignificantes figurantes, perdidos em um cenário de dimensões prá lá de cinematográficas. Talvez ali entendamos o quanto somos por demais pequenos diante da gigantesca e lógica natureza. 
Mergulho na Baia do Sancho
À volta ao velho porto nos relembra saudades nunca outrora sentidas. Não sei se todo porto cheira a despedidas, mas aquele em especial parece nos dizer da impossibilidade de ficar. Da obrigação de partirmos, e de que a memória será nosso único vinculo mais concreto [será que é por isso que dizem que as ilhas enlouquecem?]. Adiante uma estrada em madeira nos aponta direções inevitáveis. De um lado a Baia da Bimboca, onde as arraias novamente parecem insistir em nos fazer sentir intrusos. Do outro, bem ao alto, as ruínas do Forte Santo Antonio nos convida ao relento momentâneo e fugaz. Se é verdade que existem sereias e seres mitológicos que habitam os oceanos, acredito que ali eles se divertem ao cair do sol. E este sobre a imensidão azul do mar nos provoca uma comoção tão grande, que só mesmo o vento frio parece capaz de acalmar nossos pêlos que insistem em se eriçar diante da grandiosidade cósmica. A experiência fenomenológica vivenciada me dá a certeza de que diante de tais situações a racionalidade tradicional se esvazia e o divino torna-se a explicação mais lógica.
A Imensidão do Azul
Ir a Fernando de Noronha é realmente uma experiência inesquecível. É na verdade, e acima de tudo, uma grande oportunidade de reflexão sobre nós mesmos enquanto homens construtores de sociedades e predadores “naturais”. É que no paraíso perdido no Oceano Atlântico tudo assume grandes dimensões, do Pico do Morro as velhas estradas mal conservadas; Do charme e elegância dos “golfinhos rotatores” a visível falta de infraestrutura de habitação; do misterioso Buraco de Raquel ao enigmático cotidiano de crianças e adolescentes expostos as possíveis investidas do turismo sexual; da beleza esbranquiçada da mulher estrangeira que ri ao sol a pele escura da mulher nativa que chora no escuro dos escombros por sofrer violência domestica. E se é verdade, como dizia o poeta, de que “não existe pedado do lado de baixo do equador”, talvez possamos acreditar que estes, os pecados sociais, não são construções socioculturais e humanas. E que assim, também não temos culpas, e muito menos responsabilidades. 
Baia dos Porcos
É que se em Fernando de Noronha as belezas e encantos saltam aos olhos, as contradições nos aperta o estomago. O que inevitavelmente nos faz entender que nem só de beleza e importância histórica se constitui um lugar. Ali também a miséria chama a atenção e alarma, ao passo que micro favelas parecem se espremer em espaços ermos e abandonados. A fartura que a primeira vista se sobressai, é a mesma que encobre a miséria. Ao mesmo passo, a acessibilidade de poucos assunta a necessidade de muitos. Nada muito diferente para quem conhece outras realidades semelhantes, seja estas, em Porto de Galinhas, Tamandaré ou Itamaracá – também importantes distritos turísticos. Talvez a única, e mais gritante diferença consista no fato de se estar em meio e sobre a imensidão oceânica, isolado e acuado em uma estrutura socioeconômica que metaforicamente lhe confere a condição de apêndice. Por isso, quem conhece um determinado espaço ou território por fora, pela superfície, deve também buscar conhecê-lo por dentro, em profundidade. É o que chamo de turismo consciente. E que considero como única forma viável para compreendermos [e reconhecermos] o quanto herdamos do caráter “explorador” dos nossos bem “feitores” portugueses dos séculos passados, no significado e sentido mais pejorativo que nos é comum. 

 
Paraíso Abaixo do Equador




Centro Histórico - Visão Palácio do Governo
Porto de Fernando de Noronha

Normando Viana na conferência da Assistência Social


terça-feira, 2 de agosto de 2011

O MERCADO HOMOERÓTICO DO RECIFE



"REPORTE POR UM DIA" [vejam o vídeo]

Falar sobre o mercado homoerótico em Recife é destacar o crescimento de um segmento que tem se consolidado de forma vertiginosa nas ultimas décadas. Procurado pela equipe jornalística do jornal Diário de Pernambuco, vivi na ultima semana de julho uma experiência inusitada: revelar para os leitores e sociedade a dinâmica e estruturação de um comercio específico, voltado ao publico LGBTT. Assim, passeando pelas ruas do centro da cidade ao lado da jornalista Elisa Brito, vivi meu momento “reporte por um dia”.

Recife tem como característica o comércio que se espalha pelas diversas ruas do centro, onde se encontra uma variedade de produtos e artigos, que vão desde o tradicional artesanato até a comercialização de hortaliças, legumes, verduras e frutas tropicais. A negociação em si parece ser barganhada no grito, onde os camelôs ou vendedores ambulantes tentam competir com as lojas de departamentos e empreendimentos comerciais varejista. De tudo se vende e de tudo se compra, inclusive fantasias e desejos. E é especificamente no campo da sexualidade ou do erótico que se estabelece o mercado homoerótico, formado por estabelecimentos comerciais formais e informais. Neste cenário, o centro da Boa Vista, um dos principais centros comerciais da cidade, figura como espaço adequado a convivência, nem sempre pacífica, dos grupos sociais que se dividem [e subdividem constantemente] em categorias identitárias. São adolescentes, jovens, adultos e idosos que compartilham, muitas vezes, os mesmos espaços geográficos e consomem os produtos oferecidos e/ou ofertados.

Diferente do mercado tradicional, o mercado homoerótico apresenta maior efervescência [e porque não reverência] ao cair da tarde. Porém ilude-se quem acredite, ou imagine, se tratar de um segmento notívago, voltado apenas aos adoradores da noite e da boemia. Certo que grande parte dos empreendimentos iniciam suas atividades após o raiar do sol. Contudo, por se tratar de um mercado vasto e multifacetado, mantêm-se aberto quase que vinte e quatro horas por dia. As especificidades dos negócios estabelecem horários de funcionamento, localizações geográficas, público alvo e logicamente, valores e produtos comerciáveis. Normalmente discretos tais empreendimentos, muitas vezes, tornam-se invisíveis ou invisibilizados ao grande público. São as estratégias de um negócio, que em geral precisa oferecer privacidade e sigilo como forma de garantia do anonimato da clientela.

Iniciando pela Rua da Soledade, pode-se encontrar o Cinemix, espaço destinado a exibição de filmes eróticos voltados tanto ao público hétero quanto ao homossexual. Na programação da casa, que funciona manhã, tarde e noite, além das películas de sexo explícito se pode prestigiar os shows e performances de gogo-boys conhecidos da noite recifense; bem como, apresentações de sexo ao vivo protagonizadas por homens e mulheres, homens e homens, mulheres e mulheres, gays e gays, profissionais e publico, e mais uma variedade de possibilidades, que acontecem tanto no palco como na platéia [em dias e horários específicos]. O espaço oferece ainda área de convivência, estruturado com bar e decoração discreta e reservada. Seguindo pela Rua da Igreja da Soledade, chega-se a pracinha, que a noite torna-se território da prostituição masculina. Entra-se na Rua Oliveira Lima, que emenda com a Rua do Riachuelo para se chegar ao maior espaço de convivência e confluência LGBTT do Recife. A pracinha do Riachuelo aglomera a maior quantidade de estabelecimentos e empreendimentos comerciais que formam o mercado homoerótico da cidade. De frente a boate MKB oferece diversão noturna durante os finais de semana. Principalmente as sextas e sábados, o casarão antigo abre suas portas a uma variada gama de categorias identitárias, que vem dos subúrbios e bairros mais afastados. Muitos vêem dos municípios circunvizinhos e se espalham para além de sua estrutura física, que inclui um dancing, um espaço brega, um espaço para o samba, bares e áreas de convivência. A maior ferveção, porém, parece mesmo se dá na praça e ruas paralelas onde a grande concentração se espalha pelas barracas de pastéis e bebidas. Assim, o comercio formal e o informal se integra para formar o grande conglomerado dos alternativos e antenados que buscam diversão. Gays, lésbicas, travestis, vendedores, comerciantes, artistas, intelectuais, jornalistas e taxistas, entre outros, desfilam e/ou trabalham em meio à grande burburinho. Alguns batalham e atendem a grande variedade de clientes que buscam saciar desejos e fantasias em troca do sexo comercial. A grande contravenção em si, se da pela exploração sexual de crianças e adolescentes facilmente identificadas no local. Neste ponto, trona-se necessário destacar que a prostituição e as situações de exploração sexual não se configuram como fenômeno característico, específico e inerente ao mercado homoerótico, uma vez que as mesmas também se dão em espaços voltados a outros segmentos da população.

Caminhando em frente, chega-se a Rua Gervásio Pires, onde se concentram pousadas, hotéis e um sex-shop. Este último oferece grande variedade em fitas de vídeos com temáticas eróticas que podem ser locadas ou assistidas em cabines privadas, instaladas no pavimento superior. Na mesma rua, após o cruzamento com a Av. Conde da Boa Vista, encontra-se um novo bar voltado ao público LGBTT. Retornando pela Av. Manoel Borba se chegará a Boate Metrópole. Moderna e sofisticada, a casa conta com dois dancings, bares ultramodernos em cada pavimento, piscina e espaços de convivência. Na cobertura encontra-se instalado o Bar Brasil, onde a conversa e paquera rola solta abaixo do céu estrelado. Além da boa musica eletrônica, DJs famosos comandam pick-up envenenadas até as cinco da manhã. O palco alternativo do segundo andar oferece espaço para os quinze minutos de fama aos anônimos e entusiastas das dublagens e performances que homenageiam [ou imitam] as grandes divas da música internacional. Os shows com gogo-boys locais e de outros estados completam as atrações.

Seguindo mais a frente chega-se a Rua Dom Bosco e consegue-se voltar a Av. Conde da Boa Vista. A Select, loja de conveniência de um posto de gasolina e parada obrigatória, de segunda a segunda-feira. Os bandos se misturam e a irreverência e alegria seguem pela madrugada adentro. O local é seguro e respeitoso, com bom atendimento e convivência pacífica entre as tribos. Seguindo pela rua do consulado e pegando a Rua do Progresso encontra a Sauna Progresso, voltada ao público gay. A casa oferece rodadas de cerveja até determinada hora, possui cabines privativas, salas de vídeos e espaços de convivência. Na área externa, o palco serve com espaço para shows com travestis e artistas da noite. Também tem os sambões que acontecem nos domingos, com muita gente enrolada em toalhas ou despida circulando pelos cômodos. Em meio aos clientes, boys de programa oferecem seus serviços ou revelam seus dotes a partir das negociações financeiras.

Mais a frente encontra-se outro grande espaço de convivência LGBTT da cidade. O bar Sete Cores é discreto e enigmático. O Pinthyhouse é aberto, com mesas na rua e grande concentração de adolescentes e jovens de todas as classes e tribos. As paqueras e pegações acontecem nas ruas e em torno do Shopping Boa Vista, que agora possui até passarela que atravessa a Avenida Conde da Boa Vista e interliga-se ao novo Edifício Garagem. As duas praças de alimentação servem como espaços de convivência aos jovens gays e lésbicas da cidade. As paqueras acontecem mais ou menos livres, porém o estabelecimento já foi alvos de vários processos devido as ações preconceituosas e homofóbicas por parte de funcionários não tão bem treinados e preparados a atender o público específico e exigente. Logicamente que as pegações e azarações correm soltas no banheiro e também no estacionamento, mas nada que o diferencie dos demais shoppings espalhados mundo a fora.

Voltando a Gervásio Pires, agora em sentido contrário, se pega a Rua Corredor do Bispo, onde se localizam a Sauna 111 e o Cine/Sauna Boa Vista, ambos voltados ao público gay da cidade. Pelo mesmo corredor volta-se a pracinha do Riachuelo, e seguindo em frente chega-se ao Bar Nosso Jeito. Relativamente novo, o bar se consolida como espaço voltado as lésbicas. A programação inclui shows com grandes cantoras da noite pernambucana. O espaço é pequeno, e por isso, o calor é enorme. Vale atentar para os banheiros, que indevidamente mal projetados não apresentam condições de acessibilidade a quem foge da forma e estética valorizada no meio. Andando algumas léguas pode-se chegar a Thermas Boa Vista, ou mais conhecida como TBV. A sauna é moderna e espaçosa, classificada como uma das melhores do Brasil. Sofisticada, com decoração arrojada, sobressai-se pela qualidade dos serviços. A abordagem dos boys de programa é mais discreta que a sauna anteriormente descrita, porém os valores negociados são maiores. Além das cabines privativas, o espaço oferece salão de jogos, lan-house, salão de beleza e estéticas, salas de massagens, labirinto, salas de vídeos, bares e espaços de convivência.

Mas afastado, na Rua da Aurora, encontra-se instalada há pouco tempo a Boate Rouge. O casarão antigo parece espaçoso e dizem que a música é boa. No mesmo trecho da rua situa-se o “quem-me-quer” que margeia o Rio Capibaribe, e é consolidado como território de prostituição masculina. A estrutura se estende por toda a orla, até o Cine São Luiz, um dos mais antigos e belos cinemas do Recife. Fora desse perímetro urbano ainda pode-se conhecer o MOCA, novo espaço alternativo, instalado na Rua do Lima, próximo a TV Universitária. No local também se encontram instalados alguns novos bares, com destaque para o Capitão do Lima. Apesar de não serem espaços LGBTTs, figuram como alternativos e a freqüência é grande e a convivência harmoniosa. Na rua pode-se ver a antena da Rede Globo Nordeste, que a noite parece fazer apologia ao universo LGBTT, devido a iluminação colorida que lembra a bandeira da diversidade.

Seguindo para o bairro do Pina, chega-se a Galeria Joana D´árc. O Anjo Solto apresenta-se como ótima alternativa antes da balada, e o Mexicano se destaca pela decoração colorida e despojada. O espaço é amplo, com ambientes privativos. O problema, que não é exclusividade do local, reside no atendimento. De modo geral o ambiente é atrativo e agradável, repleto de gente bonita e descolada. Em Boa Viagem se encontrará além de boates, a Sauna Blue, nas imediações da principal pracinha do bairro. Nos finais de semana a concentração acontece na praia, principalmente no Posto 10, com direito a bandeira da diversidade e jogo de vôlei masculino. À noite a orla torna-se território da prostituição masculina.

Algumas festas itinerantes acontecem na cidade, em espaços alternativos e inovadores. Em setembro, sempre no domingo após o desfile militar, ocorre a Parada da Diversidade, que este ano completa dez anos e arrasta milhares de pessoas pela Av. Beira Mar. Aos poucos, o mercado invisibilizado se abre e se consolida enquanto segmento econômico viável e estável.

Fontes: Souza Neto, 2009; Viana, 2010.
Diário de Pernambuco: http://www.dzai.com.br/pernambuco/video/playvideo?tv_vid_id=134031
Dia: 22/07/2011.