segunda-feira, 4 de abril de 2011

PORQUE EM DIAS DE JOGO NÃO SE DESCE ÀS RUAS.

Helicóptero sobrevoa a avenida.



UM CAMPO DE BATALHAS NA CONDE DA BOA VISTA

03 de abril de 2011 – O dia que ficará para sempre na memória do Recife. Era exatamente 18:30 e os bandos se aproximam da trincheira. Soldados se armavam e o barulho das ruas invadiu minha sala. O zig-zag de hélices metálicas se faz ensurdecedor. Tinha um helicóptero sob minha cabeça e dele vinha uma luz azulada que a todos iluminou. Um facho que bailava em minha janela e como relâmpago clareava o interior de minha privacidade. Funcionou como flashs de máquina potente, hora acendendo, hora apagando, provocando sombras que dançavam nas paredes dos edifícios a minha frente. Me sentir cercado e coagido. A algazarra aumentava e as pessoas corriam amontoadas pela avenida sem destino certo. De todos os lados vinham comboios de carros patrulhas com sirenes que gritavam a reivindicação da ordem. Eles formaram barreiras no meio da rua, e hora por outra arranhavam o asfalto cantando pneus. Milhares de motos pilotadas por homens de preto berravam estridentemente à presença severa da polícia. Era o batalhão de choque. Era preciso reprimir a multidão que se aglomerava e avançava em sinal de conflito. Policiais formaram barricadas e paredões, preparados para o ataque. Voltava à gritaria e vozes se atropelavam em tons de defesa e de acusações. Eram dois times em lados opostos, eram dois povos. Um de frente ao outro. Ambos uniformizados, cada um ao seu modo. Cada um defendendo sua ideologia [se é que existe alguma neste tipo de coisa]. Não existiam bolas. Mas existiam balas.


A tensão aumentava e tomava conta da cidade. Mais uma batalha se iniciara diante dos olhares perplexos e incrédulos. Ônibus superlotados, veículos desviando pedestres que invadiam a pista, edifícios acesos com janelas repletas de curiosos. Todos inocentes, desesperados sem saber o que fazer para se proteger da melhor forma possível. Todos encadeados pela luz azulada que vinha do céu. Quando pedras começaram a voar pelos ares, abrigos das paradas de ônibus e portas metálicas de lojas se tornaram alvos e sofreram as consequencias. Pedra e metal reverberando a intensidade e insanidade da violência urbana. Repetia-se o quebra-quebra insensato e ensandecido de todos os dias de clássicos. Por isso não se pode descer as ruas nos dias de guerra, a não ser para fazer parte da briga. E mesmo sem motivos, ou ainda sem tomar partidos, nos tornamos prisioneiros em nossas próprias celas gradeadas. Não existe paz nos dias de jogo e por isso mesmo até os pombos, brancos ou pretos, fogem em revoadas para os pontos mais altos da selva de concreto armado [e armada]. O helicóptero que acompanhava as multidões também denunciava seus [e os nossos] movimentos. Era a invasão sem distinção dos espaços públicos e privados. Acho que a partir de agora, nos dias de jogo o esplendoroso e onipotente pássaro metálico sobrevoará nossa avenida, alto e inatingível. Fiscalizará as galeras e as nossas vidas facilitando a ação dos camburões de homens armados. Neste dia que entrará para a história do Recife, alguém ditava ordens de comando através de um megafone e fileiras em cor preta davam um passo à frente. Eram soldados preparados para abater caso preciso. De outro lado alguém ditava comandos com voz firme e muitos corriam para o recuo. Avanço e recuo. Hora um. Hora outro. Eram estratégias de guerra que visavam à ocupação de espaços, em pleno centro da cidade.
Av. Conde da Boa Vista
Eram momentos de baderna [como nos muitos dias de clássicos] que transformavam, mais uma vez, a Av. Conde da Boa Vista em cenário de combate. Bem poderia ser um filme de terror, daqueles onde os americanos adoram demonstrar seu poderio bélico. Tudo era muito parecido. Tinha as armas, o fogo nos olhos de homens raivosos e dispostos a lutar. Tinha criança e velhos pagando pela insanidade alheia. E alheios são sempre os inocentes que se tornam, na maioria das vezes, vitimas do destino. Porque é preciso aprender que em dias de jogo não se sai às ruas. É preciso se limitar as janelas e constatar que não há ficção. Pelo contrário, são sempre os mesmos personagens reais perdidos em um roteiro mal escrito e sem direção de arte. Porque não existe arte na violência. E neste dia que marcará nossas vidas, lá estavam eles novamente interpretando seus papéis de vilões e mocinhos, em pleno campo de batalha que se dá no cruzamento diante de minha janela. Nesse roteiro de ação repetitiva, restava-nos apenas a figuração e por isso ficamos inertes e impotentes, apenas compondo a cena. Até porque era apenas mais um dia de hostilidades na Av. Conde da Boa Vista! Mais um dia em que as torcidas organizadas saiam às ruas do centro para extravasar suas glórias ou derrotas. E neste sentido não importa qual o time que ganha, pois que todos perdem porque as mesmas situações sempre se repetem. Confronto entre torcidas organizadas virou modismo em Recife. Talvez seja apenas uma imitação barata de uma realidade que vem do sul. Talvez seja uma realidade nossa a partir de agora. Talvez o helicóptero seja incorporado a nossa paisagem cotidiana. Talvez a gente se acostume tanto quanto os cariocas.

 Penso então, no fato de precisarmos copiar modelos para nos sentir tão fortes quanto, ou quem sabe, tão comprometidos quanto? Será que nos sentiremos mais seguros? De qualquer forma, o importante é que na verdade não entendo de futebol. E muito menos de segurança pública. Acho que nem mesmo entendo dos novos fenômenos que se fazem em plágios sociais. Não sei se tem valor ou se tem sentido. Não sei se tem lógica. Não a imitação pela imitação, mas o uso da violência como instrumento da afirmação de identidades e consolidação dos lugares de poder. Não entendo realmente dessa modalidade esportiva, mas acho que a violência não faz parte do jogo. Ainda acredito na tola convicção de que não se combate violência com mais violência. Mas no caso específico das torcidas organizadas, talvez até tal insensatez se justifique por um processo de catarse coletiva pelo qual se deseje demonstrar a garra e a força dos que não competem em campo, mas se tornam extensões dos jogadores ao assumirem o passivo papel de torcedores. E por isso, o campo se transfere para as ruas onde o gramado e duro e cinza.
Av. Conde da Boa Vista

Mas, independente das besteiras que possa pensar ou falar a respeito prefiro acreditar que como qualquer fenômeno social, emergente ou não, a guerra entre torcidas organizadas merece estudo e análise. Na verdade penso se essa manifestação não está diretamente atrelada a outros fatores, também sociais, como desigualdades. Não que estas diferenças estejam tão visíveis nos campos. Mas nas ruas, não se torna necessário o potente refletor de um helicóptero para evidenciar tais dissimilitudes. Talvez a algazarra e o quebra-quebra se justifiquem pelas faltas que afetam os subúrbios e comunidades populares que se espremem as margens do Recife. Talvez não seja o sentido ou sentimento de vitória ou derrota que está em jogo. Pelo menos nesse jogo. Mas a raiva motivada pelo sentimento de injustiça e pelas faltas de possibilidades de mudanças em curto prazo. E neste sentido, penso na importância de se pensar no quanto de tempo representa este tão proclamado curto prazo. Será o tempo de uma partida? O tempo de uma batalha? Ou o tempo de uma curta vida, aspecto peculiar aos que se encontram as margens. Quem nasce marginal, vive nas beiras e consome as sobras. Para estes não existe a representação do longo, médio ou curto prazo. Aliás, não existem prazos, pois que o tempo é urgente e emergente. O tempo é o agora porque a fome, a sede e as falta de condições dignas são presentes e cotidianas.

 Talvez se quebre portas, janelas, ônibus, vitrines e abrigos como desforra sobre uma sociedade que nos quebra a vida, a honra e a dignidade. Talvez nem seja nada disso, mas apenas uma incosequente demonstração de descontentamento pela falta de perspectivas a longo, médio e curto prazo. Talvez sejam apenas devaneios de um tolo que busca compreensão no incompreensível e inexplicável. Mas fato é que o centro da cidade tem evidenciado cotidianamente momentos de extrema violência. Por isso dia de jogo não se desce as ruas. Para não correr o risco de ser agredido ou espancado, mesmo que sem justificativas ou motivos concretos. Dia de jogo fica-se em casa, trancafiado e acuado porque sem as ruas não se chega a lugar nenhum. Porque nesses dias o espetáculo não se dá nas telas de TV, mas ao vivo e a cores na frente de nossos olhos admirados. É o jogo das multidões que se espalha pelas ruas e avenidas. Jogo com regras diferentes, mas onde todos vestem uniformes e todos agridem e são agredidos, sejam bicolores, tricolores ou simplesmente em cores pretas. Jogo iluminado por tecnologia aérea que aumenta as sombras do medo. Jogo das tecnologias mecânicas de motores potentes que arranham asfaltos e cantam pneus. Jogo que põe a vida em jogo. Não só as dos torcedores, mas também as dos juízes que apitam a obediência e as dos inocentes que sem arquibancadas ficam expostos em meio às agressões e riscos.
Av. Conde da Boa Vista

Talvez existam motivos lógicos. Mas talvez nem exista lógica que justifique os motivos. Pode ser fúria, raiva ou revolta reprimida. Pode ser combate as desigualdades, as injustiças, as diferenças ou afirmação de identidades. Pode ser inconsequência juvenil. Pode ser consequência da falta de perspectivas e políticas públicas eficazes para a juventude e infância. Pode ser ausência de filosofia ou inexistência de ideologia de vida. Por fim, pode ser um pouco de tudo, ou um muito de nada. Talvez nem exista probabilidades de mudanças a longo, médio, e principalmente, em curto prazo. Talvez o helicóptero volte a zumbir sob nossas cabeças. Talvez a gente agradeça por se sentir seguro e protegido. Talvez o “batalhão” nos dê um choque de consciência. Talvez tenhamos banalizado a violência. Talvez a gente se acostume...

Talvez a gente aprenda que em dia de jogo não se desce as ruas para não ser atingidos por bolas [ou balas] perdidas. Até porque, nos dias de jogo, talvez o único “tiro de meta” seja o que lhe derrube no campo [de batalha]. Talvez valha a reflexão! Talvez não.


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

sábado, 2 de abril de 2011

UM GESTOR QUE DÁ AS COSTAS PARA SEU POVO


Av. Conde da Boa Vista



ACORDA JOÃO E VEM VER O RECIFE DE FRENTE

Acorda João e vem ver o recife de frente. Tem gente passando fome e necessidade. Tem gente dormindo ao relento. Verdadeiras famílias que fazem das ruas seus espaços de convivência e moradia. Não que as ruas sejam indignas, mas porque nelas habitam os animais! Não que as ruas inviabilizem a vida, mas porque elas estão sujas! Não que as ruas não se mostrem como alternativas, mas porque estão desprotegidas e abandonadas, como as famílias que nelas vivem! Nossas ruas estão desprovidas das condições mínimas para abrigar crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos, João. As ruas comprometem o desenvolvimento saudável, princípio básico dos Direitos Humanos. Corrompem a moral, afetam a auto-estima e destituem o homem do seu lugar de sujeito de direitos. Elas coisificam meninos e meninas, homens e mulheres, velhos e velhas senhoras. Mas talvez você não saiba por que nunca conseguiu ver o Recife de frente.

Ah, João! Não se pode olhar as ruas de costas. Quantas vezes já te alertamos? Elas nos desafiam a todo instante. As ruas escondem segredos e às vezes se fazem misteriosas só para nos intrigar. Também revelam surpresas que podem não nos ser agradáveis. Sim, as ruas são públicas, João. E por isso mesmo és o principal responsável. Se elas estão sujas, a culpa é tua por não gerenciar a cidade de forma adequada. Se elas estão violentas, também é tua a responsabilidade por não investir em prevenção. E não estamos falando no tradicional método do “vigiar e punir”. Mas em estratégias de governo que garantam educação, saúde e moradia digna. Estamos falando de garantias básicas e de igualdade em direitos. Mas você sabe do que estamos falando, não é mesmo? É claro que sabe, ou pelo menos deveria saber. Afinal de contas você nos prometeu em campanha. A questão é saber apenas se você lembra.

Av. Conde da Boa Vista
É preciso mudar a posição, João. Rotacionar o corpo para ficar de frente. É assim que se deve encarar as ruas. Até por que às nossas costas fica o passado. O que já se foi e não vimos ou não demos a devida importância e atenção. As nossas costas, de certa forma, invisibilizam fatos e situações que reencontraremos mais a frente. Nelas ficam nossos erros e equívocos, nossa insensatez e descompromissos. Mas é preciso entender que nossos desvios de conduta, sejam morais, éticos ou políticos só podem ser corrigidos se analisados de frente. Por isso, nunca dê as costas para as ruas João. Pois elas, provavelmente farão o mesmo com você nas próximas eleições.

Av. Conde da Boa Vista

Por tudo que temos te falado, acreditamos que o Recife não precisa de mais um prefeito que dá as costas para as necessidades urgentes e dos emergentes. Porque estamos órfãos e carentes de políticos que atuem nas linhas de frente. Que arregacem as mangas e que justifiquem nossas escolhas. Precisamos de gestores que se façam presente. Que saiam de seus gabinetes e cheguem às ruas onde se encontra seu povo. É verdade João. O povo está nas ruas. Ou melhor, o povo continua nas ruas. O mesmo povo analfabeto funcional que você ajudou a formar e deixou prá trás. O mesmo povo faminto, de quem você retira a comida e a dignidade, permanece esperando que cumpras com tuas obrigações. E para o povo João, promessa é divida. E dívida se paga com ações concretas e eficientes.

Av. Conde da Boa Vista

Não se dá as costas ao povo João! Principalmente quando se vive do voto alheio. E não estamos falando de trocas ou escambos. Mas de justiça e sabedoria popular. E pode até lhe parecer piada de mau gosto João, mas apesar de você negar educação o povo não é burro. Mesmo você negando saúde, o povo sempre vai encontrar força para fazer valer seus direitos e vontades. E mesmo negando assistência o povo manterá a voz firme. Porque aprenderam nas mesmas ruas que você mantém sujas e fétidas, que muitas vezes é no grito que se ganha uma batalha. A luta travada diariamente pelo povo que vive nas [e das] ruas impregnadas de seus dejetos os fez transformar subsistência em sinônimo de sobrevivência. E é essa resistência que sempre vai denunciar os descasos de sua gestão.

Av. Conde da Boa Vista

É preciso acordar cedo para vir às ruas. E olha João, não precisa ser todos os dias não, para não prejudicar seu sagrado sono que se dá em lençóis macios. Basta uma vez ou outra, para poder ver com teus próprios olhos a sujeira que você deixou se espalhar pelos contos e recantos da cidade. É sua a responsabilidade manter as ruas limpas. Só falta você fazer sua parte, porque a nossa já fazemos pagando os altos impostos. Acorda João porque não estamos te pedindo favores, estamos apenas te cobrando às responsabilidades assumidas e inerentes ao cargo que ocupas. Não objetivamos com isso perturbar as noites tranquilas de tua família, mas apenas minimizar os pesadelos cotidianos de quem não tem onde dormir. E isso não é pedir muito porque é tua obrigação. Não estamos te pedindo grandes esforços ou sacrifícios, e muito menos tua piedade. Não, não é nada disso. Reivindicamos apenas que conheças melhor as ruas do Recife. E isso não se faz de costas. Tem que ser de frente. Tem que deixar o estômago embrulhar ao ver crianças dividindo alimentos com animais. Tem que chorar ao ver a dor e a miséria tomar conta de corpos frágeis e indefesos. Perceber a doença comendo a pele e desfigurando gente. Tem que se sensibilizar ao ver pessoas destituídas da condição humana.

Av. Conde da Boa Vista
João, um dia desses tive dificuldades em diferenciar um menino de um animal rabugento. Era uma cena tão grotesca que não consigo esquecer até hoje. Ele não andava mais e se espremia em um canto agarrado a um tubo com cola. E não era noite. Eram exatamente oito horas da manhã. Mas que pena João, acho que você ainda estava no café da manhã com seus filhos e por isso não teve tempo para ver. Pena maior é saber que mesmo que já estivesses a caminho do trabalho também não verias. Porque você não anda por essas ruas. Não, você não anda. E também não sabe do que estmos falando porque no bairro onde você mora não tem população em situação de rua. Lá a policia não deixa, João. Lá tem segurança e por isso as ruas estão sempre limpas e arrumadas de acordo com o que vocês entendem por arrumação e limpeza.

Av. Conde da Boa Vista

Talvez na próxima campanha eleitoral você resolva passar por aqui. Mas também, talvez seja tarde porque não precisaremos mais de você para manter as ruas seguras e tranquilas. E olha João, não estamos falando da adoção de modelos higienistas a que políticos como você está [mal] acostumado, mas das possibilidades e direitos que garantam a dignidade humana. Estamos falando das condições mínimas e necessárias ao desenvolvimento saudável de toda pessoa humana. Não é misturado a cachorros, ratos, baratas e vermes que se desenvolve um cidadão sadio e consciente de seus direitos e deveres. Não é negando o sono seguro que se forma um homem. Não é dando as costas à população em situação de rua que se resolve as injustiças e desigualdades sociais. É preciso compreender João, que não é o povo das ruas que contribui para o aumento da violência que você e os seus tanto temem. É a violência social que contribui diretamente para o aumento significativo deste segmento da população. E isso também é responsabilidade sua.

Av. Conde da Boa Vista
Não é só policiamento e câmeras que garantem segurança João. Até porque esses recursos não servem e nem atendem a população de rua. Além do mais, segurança é um conceito mais amplo que é perpassado pelo sentido de bem estar, saúde, educação de base, alimentação saudável, assistência e moradia digna. Não sei se você estudou, mas segundo a teoria de Maslow, a necessidade de segurança vem depois da satisfação de nossas necessidades básicas. Isso é elementar,meu caro João!Ou seja, é preciso rimeiro saciar a fome e a sede, garantir o sono tranquilo, garantir e exercício da sexualidade. Isso é básico ao pleno desenvolvimento humano. Fortalecer a auto-estima restitui a dignidade das pessoas João.

Resgatar a dignidade do povo das ruas. É isso João. Era sobre isso que queríamos te falar. Mas acima de tudo, te falar também sobre a necessidade urgente do resgate da tua própria dignidade enquanto pessoa e enquanto político que não tem se mostrado sério e responsável. Mas isso é um processo individual. E neste aspecto, acho que não podemos te ajudar muito porque implica em conceitos morais e éticos que são pessoais e se aprende [e se apreende] desde cedo. Pensamos que talvez não tenhas prestado à atenção devida as aulas ética e compromiso social, o que comprometeu tua formação cívica e política. Ou talvez tenhas aprendido desde cedo a dar às costas as coisas [e causas] importantes. De qualquer forma, João, não é de costas que se respeita um povo. Assim esperamos, quem sabe, que na próxima eleição entendas melhor do que estamos falando.



quinta-feira, 10 de março de 2011

CARNAVAL 2011 - SOB A PROTEÇÃO DO OLHAR DE BACO


Sábado de Carnaval - Camarote da Metrópole - Recife/PE.



A VIGILÂNCIA E A COBIÇA DOS OLHARES.

 

Nada me chamou mais atenção neste carnaval do que os olhos alheios. Verdes, azuis, caramelados ou negros, todos, olhos. Intensos, opacos, arregalados, sobressaltados, insensatos ou arredios, todos olham. E se olham. E se vêem. O tempo todo e todo o tempo. E se é que existe um tempo exato para o exercício do olhar, este se perde no deleite dos corpos. Percorrendo cada parte, íntimas ou não, os olhos acompanham cada detalhe ou movimento de músculos que não raramente insistem em saltar de pequenas peças. E por mais coberto que se esteja sempre haverá quem nos desnude com olhos que cobiçam e desejam.

O carnaval é assim, como um grande mercado público onde a carne fica a mostra. E exposta ansia por ser devorada. E carne cobiçada se come com os olhos, ao mesmo passo em que se é comido, seja por olhares atrevidos ou ainda escondidos por trás de lentes escuras. E nesse jogo erótico quebram-se as regras quando as iris se dilatam para ampliar o campo de observação. O objeto de desejo é medido dos pés a cabeça e a imagem como que micro-filmada é mantida na memória para fantasias solitárias. Se nisso existe pecado, que culpem meus olhos, pois que se atrevem em adentrar por decotes e barras que moldam, ou se moldam a peitos e bundas. Que os condenem por infringir a norma ao invadir o privado dos corpos alheios para atiçar a imaginação. Se existe traição, que se ponderem os conceitos, pois que os olhos são arredios e desconhecem preceitos.

Nos clubes ou ladeiras as situações se repetem. Os olhos miram, avaliam e medem. Pessoas se transformam em imagens fotográficas que povoam. Os olhos indagam e inquirem informações complementares que se mostram sem grande importância. Essencialmente não é quem que se olha, mas a que ou o que. Pode ser parte, pois que nem sempre o inteiro agrada. Pode ser ângulo, pois que posições inusitadas escondem imperfeições. Pode ser detalhes, pois que nem sempre o conjunto fará justiça à obra. É a carne retalhada que se torna melhor esganiçada pelo selvagem. Aos que cobiçam ao longe a complacência, mas aos que forçam o ataque, os olhos condenam. Ou não. Sabe-se lá? O certo é que quem olha sabe o que pensa, mas em sua maioria desconhece os sentidos do outro. E se os olhos não autorizam, cortam, desdenham ou maltratam.

O olhar enigmático encanta. O perdido atiça a curiosidade. Mas o assertivo, muitas vezes desmonta o mais autoconfiante dos esnobes. Existem os languidos assim como se espalham os vivazes e interesseiros. Os sorrateiros e desinibidos. Numa festa luxuriosa como a nossa, todos olham e se provocam. Aprovam-se ou reprovam-se. Insistem ou buscam novos alvos mais condolentes. Tristes ou contentes tomam conta até mesmo de quem não conhecem. Por que no carnaval daqui é assim. Todos os olhos se sondam e se vigiam. Como que guardando a carne pretendida, ainda que nunca chegue a se consumida. São os olhares de posse e cobiça que se contradiz aos desconsolados, que rejeitados se fantasiam de velhas raposas que partem em busca de uvas menos verdes e inacessíveis. Olhos que se maltratam por ambicionar corpos narcisicamente inatingíveis.

Os olhos pidões clamam por piedade e talvez por isso se contetem com as sobras. São as velhas hienas devorando carcaças que se encharcam de salivas. Há também os românticos que nunca cruzam os olhos de príncipes ou princesas. São olhos tristes que não entram na dança e choram como pierôs apaixonados que esperam o desconhecido num próximo bloco. Na contramão da bucólica passividade, os olhares fulminantes ropem barreiras intransponíveis aos menos audaciosos. Encantam suas vítimas como boas najas e com beijos eloquentes roubam o ar dos desavisados.

Domingo de Carnaval - Ladeiras de Olinda/PE.
O olhar se traduz no ato de aplicar o sentido da vista. Procurar ver, algo ou alguém. Deriva do latim “adoculare”, que por extensão se entende como ato de fitar os olhos ou a vista, mirar ou contemplar. No sentido mais popular que nos cabe, olhar de cara é encarar. Estar de frente é estar voltado para alguma coisa ou algum lugar. Mas olhar também é pesquisar, observar, sondar, examinar ou estudar, mesmo que apenas possibilidades. Atentar ou reparar, ainda que com sentido zombeteiro e venal. Pois que os olhos também matam o que não se deseja, o que se repele ou não excita. Não se sai no carnaval sem ser olhado, avaliado e logicamente qualificado. Os mesmos olhos que categorizam também rotulam e estigmatizam os corpos. São os olhos dos debochados que não apenas reputam, mas também julgam e [des]consideram.

Tem olhos soltos e olhos presos. Tem os que se revelam e se expõem em paqueras incansáveis e voláteis. Outros se privam dos olhos gordos, pois que alguns são mesmo de mal argoro e por isso metem medo. Os olhos amedrontados se espantam com tanta algazarra e libertinagem e viçam em seus isolamentos. Fazem coro os olhos apavorados que diante de tanta comilança se benzem e fogem apressados. São olhos dos que se dizem salvos por canalizarem suas libidos aos céus e pedirem punições para as novas Sodoma e Gamora pernambucanas. A esses, os olhos de Baco sorriem, pois que suas carnes já servem ao banquete de outros deuses. A fora isso, que castigo haveria de vir se em Recife e Olinda não existe mais espaço para tanto fogo. Aqui, nosso fogo que queima também é divino, pois que o Rei Sol queima a carne por dentro e nos faz transpirar de alegria. Nossas lagrimas escorrem pelos [e nos] corpos que choram o suor que exala o cio visceral e assegura a fertilidade. Não é bacanal, mas é festa. ladeiras, flertes, pegações e multidões.

Assim, carnaval é vinculo com a natureza que se mostra em ebulição sob o comando de Dionízio. É o retorno aos ritos pagãos do deus Pã que autoriza a liberação dos instintos. Festa observada pelos deuses antigos através dos olhos de foliões. Sejam verdes, azuis, caramelados ou negros, serão sempre olhos zelosos que protegem, cuidam e velam por nossa sanidade. E se é verdade que “o que os olhos não vêem o coração não sente”, também vale a máxima de que “a carne é fraca”, e por isso no nosso carnaval, “quem não come com a boca, lambe com os olhos”.
Av. Conde da Boa Vista - Recife/PE.
Ruas de Olinda/PE.


Ladeira da Misericordia - Olinda/PE.




quarta-feira, 9 de março de 2011

CARNAVAL 2011 - O DESRESPEITO COM A TRADIÇÃO CULTURAL DE UM POVO

Sexta-feira de Carnaval - Bairro da Boa Vista - Recife/PE.









O FIM DO TRADICIONAL CARNAVAL DA BOA VISTA.

Seguramente podemos afirmar que este foi o carnaval mais tranquilo de todos os tempos. Ponto positivo para as gestões municipais das duas grandes cidades – Recife e Olinda, referências nacionais do carnaval multicultural. No entanto, por outro lado, registramos também o carnaval mais frio e desestruturado da nossa história. Ponto negativo para o estado de Pernambuco que sempre se consolidou como o melhor, mais irreverente e tradicional carnaval de ruas do Brasil.


Ponte Duarte Coelho - Sexta-feira de Carnaval - Recife/PE.

A magia foi comprometida em nome da mesmice e da falta de conhecimento de causa. Os transtornos começaram logo cedo com o Galo da Madrugada. Símbolo máximo da festa recifense, em plena sexta-feira ainda não apontava na Ponte Duarte Coelho para anunciar o reinado de Momo. Já no centro da Av. Guararapes os últimos retoques apressados tentavam recuperar em vão, o brilho e a beleza tradicional do gigantesco Pálio, representação do Maracatu que a mais de uma década se destaca por evocar a cromaticidade do nosso carnaval. Destaque-se ainda uma decoração inexpressiva que não conseguiu contagiar os foliões. Repetitiva e pobre com belas figuras femininas se que perderam nas dimensões das pontes que cortam a capital pernambucana.

Em algumas ruas as fitas vermelhas e amarelas se mostraram enquanto recurso ultrapassado que só evidenciou a falta de criatividade ou indisponibilidade de recursos. Assim, Recife pareceu mucha de alegria e cores. Revelou-se apagada diante de tanta propaganda e marketing. A falta de criatividade e descomprometimento sociopolítico também puderam ser sentidas, ou melhor, ouvidas em músicas chulas e apelativas que se espalharam pelos quatro cantos da cidade. Enquanto uma exaltava a “posição da rã” em referência direta as posições sexuais, outra repetia sucessivamente um trocadilho acelerado onde o verbo “fugir”  se confundia com o ato de “fuder”. Nesta despropositada fanfarrice super heróis se multiplicavam pelas ruas, avenidas e ladeiras cantando “Foge, foge Mulher Maravilha. Foge, foge com o Superman”. Não se ouvia os velhos frevos, mas em troca tivemos o chato suing do “toma negona... toma na bochecha”. Não se ouviu novos sambas ou afoxés, muito menos maracatus, mas talvez por falta de alternativas um eco humano pode repetir incansavelmente o refrão que dizia: “vou não, posso não, minha mulher não deixa não!”


Av. Guararapes - Sexta-feira de Carnaval - Recife/PE.

Ainda nesse cenário de incoerências o famoso e tão aguardado show de abertura oficial do carnaval recifense mostrou-se mais uma vez recheado de estrelas da música popular brasileira que nada entendem de frevo e por isso não representam nossa alegria. Neste sentido não pudemos culpar os artistas, pois que são excelentes profissionais em sua maioria. O que se pode e deve questionar é o valor agregado a nossa cultura. Somos multiculturais em sentido de expressões artísticas próprias que se mantém por conta, e a custa, da nossa tradição. É neste sentido que não se evidencia ligação nenhuma entre Marina Lima, Wanessa da Mata, Maria Gadú, entre outras/os com o nosso carnaval. Sem querer parecer bairrista ou mesmo invocar um movimento ou sentimento de exclusão das demais expressões artísticas e culturais, insistiria afirmando que somos ricos em diversidade e originalidade musical que melhor representam nosso carnaval. Sugiro então, que ao invés de se investir em grandes cachês para trazer toda essa variedade de artistas consagrados no cenário nacional, que tal repensarmos na valorização e resgate de nossos tradicionais blocos de rua, afoxés, caboclinhos, maracatus e escolas de samba, que sofrem para se manterem vivos? Isso sem falar nos ganhos com novas possibilidades de investimentos em composições, seja através de festivais de frevo ou patrocínios que possibilitassem a sobrevivência de nossa própria cultura e valorização de nossos artistas e nossa gente.

Mas como diz o ditado popular: “em casa de ferreiro, espeto de pau”. E numa lógica mercadológica que se pauta nas facilidades do “encontrar pronto”, pois que fazer o novo parece dar sempre mais trabalho, nossos atuais e geniais gestores preferem continuar investindo nossos impostos em uma espécie de processo de aculturação ao replicar uma cultura de massa que só tem contribuído para apagar nossa memória. Ponto negativo para a falta de entendimento e de comprometimento com nossas genuínas manifestações culturais. Ponto negativo para nosso povo que inconscientemente, ou inconsequentemente, de forma passiva aceita e incorpora músicas e melodias vazias que nada nos diz ou dirá de nossa gente, histórias e costumes. Neste aspecto é preciso que se entenda que esse processo de aculturação silenciosa compromete em muito o desenvolvimento sociocultural das futuras gerações pelo simples fato de alienar nossa originalidade e criatividade.

Desfile de Agremiação na Av. Conde da Boa Vista
Também vale o registro de que já algum tempo o carnaval do Recife, vem se transformando no Carnaval do Recife Antigo. Diga-se de passagem, num carnaval falso burguês que pode ainda ser classificado como festa para estrangeiro ver. Avitrinou-se o carnaval tendo como justificativa a reestruturação da Avenida Conde da Boa Vista que mais desorganizou e atrapalhou a vida do recifenses do que contribuiu com melhorias significativas. Não só se congestionou o trânsito, mas também o desfile dos blocos que foi comprometido em nome da preservação e manutenção da tão famosa via urbana. Baniram  os trios elétricos e freviocas por comprometerem o asfalto e assim, anularam a alegria de um povo que formava um tapete de cabeças coloridas e frevavam Recife adentro. Hoje poucos blocos refazem o percurso original e parecem ser estimulados a mudar de roteiro. Alguns seguem puxados por pequenos carros de som e escassas orquestras de frevo. Este ano a avenida se transformou em simples corredor de acesso, meio do caminho que levava ao nada. É que a escutura do galo da madrugada, apesar de mais bela e imponente que nos anos anteriores, permaneceu os cinco dias de carnaval num completo breu. Talvez não tenham tido tempo para pensar numa iluminação digna de sua esplendorosa plasticidade. Ou talvez, simplesmente tenha faltado, mais uma vez, os tão sonhados e necessários entendimento e respeito ao povo. De uma forma ou de outra, fato é que o carnaval a cada ano parece se afastar mais do bairro da Boa Vista, sendo concentrado no bairro do Recife Antigo.

Com a mudança do roteiro tradicional do desfile do Galo da Madrugada, que esse ano foi transferido para a Av. Dantas Barreto, o que facilitou sua fluidez, sumiu também o antigo pólo da Av. Guararapes que concentrava e animava os foliões moradores do bairro. Não havia palco montado e muito menos shows. No lugar, apenas a infraestrutura montada para o Galo da Madrugada, que readaptada e muito menos organizada e sem acomodações adequadas ao público serviu de espaço para o desfile das agremiações de caboclinhos, maracatus e escolas de samba. Era a representação máxima de um carnaval feito para pobres, onde tudo é muito feio e se dá numa avenida nua e desprovida de emoção e respeito. Que diga-se do descaso com o antigo prédio do Trianon, tradicional espaço de antigos e coloridos camarotes, que este ano se revelou desintegrado da folia. A central espiga branca de janelas quebradas continuou comportando seu público seleto, porém presos numa redoma sem encantos e desnudo do colorido tais foliões pouco viram do Galo e, consequentemente quase nada viram do verdadeiro carnaval pernambucano. Questiona-se então, se será este o fim do carnaval do também tradicional bairro da Boa Vista, ou terá sido apenas falta de cuidados? Para nossa sorte, ainda permanecem no bairro os espaços para as tradições de resistência negra que acontecem no Pátio do Terço e Pátio de São Pedro. Espaços estes, que continuam contando com menor infraestrutura enquanto se investe pesado nos espaços brancos e sem memória nos entornos do Marco Zero.

Av. Conde da Boa Vista - Sext-feira de Carnanval
Por fim, talvez esse seja mesmo o maior propósito das atuais gestões. Ilhar o carnaval e aburguesar a tradição que não é branca e nem tão pouco higienista, mas ao contrário é multicolorida em sua diversidade étnica e misturada em costumes que lutam para se manter íntegros e vivos em sua originalidade. Deste modo evidencia-se, também no carnaval, a eterna luta de vida e de morte entre a manutenção da tradição e a invensão da contemporaneidade de um carnaval vazio e sem grande expressividade.

Faltou originalidade no carnaval 2011. Acima de tudo faltou emprenho e investimento digno. Assim, se podemos afirmar que esse foi o carnaval mais tranquilo de todos os tempos, principalmente no bairro da Boa Vista, é simplemente pelo fato de não ter havido realmente carnaval em Recife.

E viva o Carnaval da inclusão!



Sexta-feira de Carnaval - Av. Conde da Boa Vista
 
Av. Conde da Boa Vista - Sexta-feira de Carnaval

Decoração do Carnaval - Ponte Duarte Coelho - visão do Antigo Trianon

Av. Conde da Boa Vista, Recife/PE

Desfile das Agremiações na Av. Conde da Boa Vista



Desfile de Agremiações e a desestrutura da Av. Conde da Boa Vista
 

sexta-feira, 4 de março de 2011

CARNAVAL DO RECIFE: O DIA QUE JOÃO DA COSTA SILENCIOU O GALO

Galo da Madrugada na Av. Guararapes. Foto do
Jornal do Commercio, 10.02.1991.


A CIDADE ATRASADA – O DESRESPEITO DE UMA GESTÃO INEFICIENTE

Enquanto morador do bairro da Boa Vista, me acostumei a acorda nas quartas-feiras das semanas pré-carnavalescas ao som do co-co-ri-có. Era o anuncio fantástico de que o Galo já estava de pé sobre a Ponte Duarte Coelho, que atravessa o rio Capibaribe para interligar as duas ilhas que forma o centro do Recife. Também me era comum, como aos muitos foliões que habitam os amontoados de prédios da Av. Conde da Boa Vista, correr a janela para reverenciar o símbolo máximo de nosso carnaval. Porém, para minha surpresa ou decepção, fui frustrado em minha atitude que já se configura como tradição. Não havia Galo. Não havia nada. Apenas a estrutura metálica que aporta o grande Pálio, localizada na Av. Guararapes figurava descoberta e sem grandes atrativos.

Esse, logicamente, não é o primeiro (e com certeza não será o ultimo) registro de descaso da atual gestão municipal, encabeçada pelo atual prefeito trapalhão João da Costa. É surpreendente e vergonhosa a ineficiência de sua gestão, como é ultrajante sua falta de comprometimento com a manutenção do patrimônio público. Tanto que ao longo dos dois últimos anos de mandato evidencia-se a insatisfação dos recifenses, que erroneamente decidiram apostar em um político e gestor totalmente desconhecido e inexpressivo, feito pelo prefeito antecessor. Pena para o povo que perde com o desrespeito a suas tradições e culturas. Pena também para a cidade que tem se tornado fedorenta e mal conservada. Pena das pessoas em situação de rua que se encontram desamparadas e sem cobertura da assistência. Penas que faltam nas asas do galo, que até hoje pela manhã estava ao lado de seu corpo esquelético e inerte, jogado sobre a ponte. Pena para a visível decepção no rosto dos transeuntes acostumados a desordem provocada pelas mudanças necessárias a passagem do bloco.

Nossa sorte é que o carnaval se faz por si só. Independente do reconhecimento e respeito dos gestores públicos, nossa alegria contagiante repara os equívocos e enganos inconsequentes dos descomprometidos enganadores do povo. É que o pernambucano não nega suas origens e muito menos suas tradições que se valorizam e se consolidam através de seus costumes. Somos com água que bate na pedra e furando-a exige passagem. Assim é o Galo da Madrugada, assim é o nosso carnaval que se faz em (e de) história. História essa que talvez o atual prefeito desconheça, ou ainda pior, desconsidere. História essa que vale a pena ser lembrada e recontada as futuras gerações. Em falta de conhecimento, talvez essas seguintes linhas consigam desperta gestores desavisados sobre o valor e importância das tradições que forma a cultura de um povo. Povo que é eleitor. Povo que não esquece os descasos descabidos.

Façamos então um retrocesso na história para tentar resumir uma história prá lá de secular e que se renova a cada dia, a cada novo ano. Neste sentido, dizem os estudiosos que o Carnaval é a uma festa dionisíaca. Dionísio, conhecido deus grego, que segundo a tradição realizava festas homéricas regadas a muita bebida, era também conhecido como o Rei do Vinho, ou Rei Baco entre os romanos. Assim, quando se fala em festa dionisíaca remete-se em sentido direto ao entusiasmo e inspiração criadora de seus seguidores. Pode-se então supor que o carnaval é uma festa divina que exalta os instintos mais naturais e espontâneos do homem. Dionísio, também conhecido como deus dos ciclos vitais e da alegria, representa a natureza agitada, arrebatada e desinibida, o que muitas vezes favorece o tumultuo, a confusão e a desordem, revelando traços da personalidade pernambucana. Traduzindo tudo, podemos dizer que o carnaval é a festa da liberação geral e da liberdade sem limites, onde tudo pode, sem grandes censuras ou regras normativas.

Entre o povo cristão, no período medieval, tais manifestações populares eram reconhecidas como período das festas profanas, que se iniciavam geralmente no dia de Reis e se estendiam até a quarta-feira de cinzas, marcando os jejuns quaresmais. O profano em si, consistia em festejos que incluíam manifestações sincréticas originárias dos ritos e costumes pagãos. Então o carnaval perde o sentido divino para ser reconhecido como profano, uma vez que tanto as festas dionisíacas (ou Baco), saturnais (em homenagem ao deus Saturno – Cronos, na mitologia grega) e lupercais (celebradas anualmente na Roma antiga, em 15 de fevereiro, em honra ao deus Luperco ou Pã, para assegurar a fertilidade) eram marcadas pela alegria sem limites, pela liberação da repressão e da censura, bem como pela liberdade exacerbada em atitudes críticas e eróticas. Desta forma, qualquer semelhança com nosso carnaval, com certeza, não terá sido mera coincidência.

Decoração do Carnaval ou Propaganda Política?
Ponte Duarte Coelho - Recife/PE.
Profano ou divino, o carnaval chegou ao Brasil ainda nos meados do século XVII, trazido pelos portugueses. Apesar dessa origem lusitana, sabe-se, porém, que a nossa festa tem influência européia, principalmente francesa, onde o carnaval acontecia nas ruas e salões de bailes. As mascaras e fantasias já eram recursos comuns e disponíveis aos foliões e a influencia estrangeira torno-se visível através das figuras do Rei Momo e das tantas Colombinas, Pierrôs e Arlequins, entre outras, que invadem nossas ruas. Neste sentido, a festa momesca assume o caráter de farsa e irreverência. Com o início do século XX, o carnaval se popularizou no Brasil, marcando o surgimento das machinhas carnavalescas. Dizem também que a primeira escola de samba, foi criada em 1928, no Rio de Janeiro, que na época chamada de Deixa Falar, passou a ser conhecida nos dias atuais como Estácio de Sá. Quanto à origem do samba existe uma verdadeira celeuma uma vez que alguns estudiosos destacam a origem carioca, ao passo que outros reivindicam o batismo baiano, e outros, o pernambucano. Discussões a parte, o que importa é que aqui nossa festa é marcada pela multiculturalidade, com sua principal representação no frevo.

O frevo que deriva de “frever”, que por extensão se entende “ferver” como água em chaleira quente, metáfora perfeita para nossa cabeça quente e explosividade aflorada onde se fala o que quer e o que pensa sem papas na língua. O frevo se afirmou como dança de rua e de salão, ritmada em compasso binário e andamento mais rápido que o da machinha carioca. Quem dança frevo é conhecido como passista, porque marca a dança num passo que se transforma em alegorias coreográficas individuais ou coletivas, improvisadas e frenéticas. Num entendimento extensivo, pode-se dizer que frevo assume o significado de desordem, arrelia e barulho, pois que se origina da capoeira que era modalidade de luta/dança dos antigos dos escravos.

Galo da Madrugada sobre a Ponte Duarte Coelho:
A decepção coletiva de uma gestão ineficiente.
Hoje em Pernambuco destaca-se o Clube de Alegorias Galo da Madrugada, criado em 1977, no bairro de São José, com o objetivo de reviver as origens e tradições dos antigos carnavais de rua. O Galo da Madrugada, como é mais conhecido, desfila a mais de três décadas no sábado de Zé Pereira para anunciar a alvorada do carnaval. A grande concentração acontecia na estreita Rua da Concórdia, onde os foliões se espremiam e se acotovelavam num empurra-empurra amistoso e divertido; com apoteose na Av. Guararapes que se torna pequena para acomodar a alegria de mais de um milhão e meio de fanfarrões. Considerado o Maior Bloco Carnavalesco do Planeta (Guiness Book, 1995), o Galo muda de itinerário este ano para melhor acomodar seus seguidores. Assim, abandona a tradicional Rua da Concórdia para se aventurar pela Av. Dantas Barreto, mais ampla e retilínea, mas a meu ver, menos glamorosa. De qualquer forma o bloco não perde sua irreverência ou filosofia carnavalesca de origem, e muito menos sua integralidade com o povo pernambucano.

Resta-nos apenas refletir e nos responsabilizar por nossas escolhas, bem exigir providências que priorizem o respeito a nossa dignidade. Não só relativa ao carnaval, mas principalmente em relação aos milhares de excluídos, que independente da modalidade da festa, continua o ano inteiro a margem de uma sociedade pautada na desigualdade social e amparada por políticas públicas ineficientes. Neste aspecto, considero válido repensar no carnaval das pessoas em situação de rua, afinal de contas eles compõem com certeza um bloco de excluídos que teria tudo para entrar também no livro dos recordes.

Av. Conde da Boa Vista - Recife/PE.
Que venha Momo, Dionísio ou Baco para nos trazer sensatez e consciência política e cidadã.

Bom carnaval a todos!

quinta-feira, 3 de março de 2011

O CUIDAR E O PODER NA PRÁTICA DA GARANTIA DE DIREITOS

Praia do Picãozinho - Paraíba

















O QUE SOMOS OU QUEREMOS SER - Ideal ou Fantasia?



Esta semana tive o prazer de participar de uma Oficina de Alinhamento Teórico-Metodológico, promovida por uma instituição internacional, que integra o SGD – Sistema de Garantia de Direitos e atua na perspectiva do Enfrentamento a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes no Brasil. Além da discussão a cerca da temática, um dos pontos tratados que mais me chamou a atenção dizia respeito aos Cuidados com o Profissional. Dentro dessa perspectiva fomos estimulados ao refletir sobre os sentidos do Cuidar. Palavra derivada do latim, “Cogitare”, que entre outros sentidos pode-se entender pelo ato de prevenir-se, acautelar-se, no sentido de ter cuidado consigo mesmo, com sua saúde e aparência. Num sentido mais amplo, pode-se dizer que cuidar corresponde a provocar inquietação. Assim, poderíamos dizer que o ato de cuidar correlaciona-se a prática da reflexão e provocação de mudanças de pensamentos e comportamentos.

Fomos levados imediatamente a pensar sobre nossa prática profissional enquanto atores técnicos, na assistência social e no sistema de garantia de direitos. Mais especificamente, comecei a refletir sobre minha própria atuação por questões obvias. O fato é que ao estarmos diretamente em contato com todo tipo de modalidade da violência, corremos o grande risco de nos tornarmos também, mesmo que de vez em quando, violadores de direitos. Talvez por introjetarmos determinadas práticas, falta de alternativas de ações mais concretas, outra variedade de fatores, além de nossas concepções pessoais, muitas vezes pautadas em nossa própria construção de sentidos que se deu (e se dá) no processo de inserção em uma determinada cultura, trazemos em nosso bojo conceitos preconcebidos que constantemente precisam ser revisitados e reavaliados. E vale salientar como esse exercício do cuidar de si mesmo nos traz gratas surpresas e constatações surpreendentes quanto aos preconceitos equivocadamente introjetados durante nossa jornada de amadurecimento pessoal e profissional. Na verdade poderíamos estabelecer uma relação imensa de fatores motivadores para a formação de nossas concepções pessoais, que logicamente interferem em nossa condução profissional, mas que acima de tudo revela traços de nossa própria personalidade, o que não seria meu objetivo neste momento.

Basta-nos então, por hora, avaliar o processo de adoecimento destes profissionais, que expostos as violências cotidianas, correm o risco de cometerem equívocos, mesmo que movidos pela crença das melhores práticas. E isso não é raro, o que nos leva a perceber, que em muitas situações o próprio sistema de proteção se torna também violador dos direitos humanos. E neste ponto, penso que se o sistema é feito por pessoas, que os constroem e/ou estruturam a partir de suas perspectivas de mundo (talvez filosofias de vida) e crenças, o problema não esteja no sistema em si, mas nas pessoas de fato. Dentro dessas premissas, acredito que o grande educador e filósofo brasileiro, Paulo Freire, já postulava que “todo oprimido se torna um opressor quando detém o poder”.

Mas qual relação entre o autor, que se destacou por seu trabalho na área de educação popular, voltada tanto para a escolarização como para a formação de consciência, com o ato do cuidar dos profissionais em questão? É que de acordo com sua teoria sobre a “pedagogia do oprimido”, o mesmo destaca a importância e eficácia do diálogo com as pessoas mais simples, não só como método de alfabetização, mas como um modo de ser realmente democrático. E aí poderemos pensar: afinal estamos falando do cuidar ou de democracia? Ao passo que destacaria que não existe cuidado, no sentido real da palavra, em regimes ou gestões antidemocráticas. É que a centralização de poder cerceia a liberdade de expressão e a criatividade humana, fundamentais para a resolução de problemas. Sem liberdade não existe, inclusive construção de novos conhecimentos, e logicamente gera o movimento de resistência, noção básica para todo e qualquer gestor que deseje ser bem sucedido em seus intentos.

Assim, em minha percepção, que logicamente não se traduz como verdade absoluta, vivemos ainda nos ambientes de trabalho sofrendo os reflexos da velha e cruel ditadura que nos martirizou e vitimou por mais de duas décadas. A ditadura é o exemplo máximo da negação de direitos por contrariar as premissas da liberdade e vida social saudável. Talvez seja a base do tão falado nos dias atuais “Assédio Moral”, que se respalda nas relações de poder. Mas se o poder é relativo, caber-nos-ia uma maior reflexão sobre o que de fato significa poder. Assim, podemos entender que tal palavra, derivada também do latim, “potere”, significa ter a faculdade de; possibilidade de; autorização para; meio de, conseguir; força para; ter calma, paciência para; ou ainda, ter força de ânimo, energia de vontade, para; ter o direito, a razão, o motivo de; o que coaduna com a capacidade de gerenciar de forma democrática.

Mas dentro dessa relatividade e complexidade de sentidos relativos a uma mesma palavra, o poder também pode se configurar como dispor de força de autoridade; ter força física ou moral; ter influência, valimento; robustez, capacidade de ter grande influência ou poder sobre algo ou alguém. Neste aspecto, o que desejo destacar é que o poder e o cuidar precisam andar juntos e alinhados em entendimento de sentidos. O poder coletivo é fruto da união dos poderes individuais, logo, se engana quem pensa que detém o poder soberano e absoluto, por que correrá sempre o risco de se tornar tirano. E tirania, que vem do grego “tyrannia”, configura-se enquanto prática de governos e gestões opressores e cruéis, pautados na violência e opressão do povo, representação máxima da coletividade.

O objetivo maior então é refletir sobre o lugar que muitas vezes ocupamos e nos empoderamos, seja pelo poder delegado e atribuído, ou violentamente autoproclamado. Nesta segunda, o cuidar fica comprometido, até por o discurso torna-se incoerente com a prática. O cuidar do outro, partirá de uma concepção egocêntrica de quem detém (ou acredita deter) o poder, pois que na verdade se busca e se pleiteia o cuidar de si próprio, que se traduzirá consequentemente, em autodefesa. A fragilidade de quem tem como prática o poder autoritário se revela na busca incansável de autopreservação, talvez da própria sanidade. É resultado, como diria Freud, da fragilidade egoica, que possivelmente pode ser solucionada a base de psicoterapia. E isso se explica pelo fato do processo de adoecimento se dar de forma inconsciente e no universo da subjetividade. Neste sentido, o sentimento de perseguição causa estranhamento e alucinações persecutórias, onde o outro se tornará sempre um inimigo potencial. Quanto maior a aproximação do outro, maiores os riscos e ameaças sentidas pelo tirano. Isso é como equação matemática, não existe possibilidade de erro.

Desta forma, quando escolhemos ou definimos trabalhar ou atuar, ou ainda, nos entender e reconhecer, enquanto cuidadores é preciso em primeiro lugar cuidar de nós mesmos. Não se cuida de alguém sem antes nos cuidarmos. Essa é a premissa básica do processo do cuidar do outro. É preciso provocar inquietações em nós mesmos, até para que possamos perceber se estamos no lugar certo, ou se apenas buscamos resoluções para nossos próprios conflitos e traumas pessoais. Ainda evocando Freud, diríamos que a construção da personalidade de um indivíduo se dá em um processo contínuo, mas que tem a base na infância. Com certeza uma criança desprovida de acolhimento, proteção e sentimento de pertencimento, no futuro se desenvolverá enquanto sujeito inseguro, desconfiado e ameaçado, dificultando suas relações pessoais e sociais. A desconfiança no outro embasa o sentimento de insegurança tornando-o pronto para o ataque sempre que se sentir frustrado. E isso também é matemático, pois que é científico e comprovado pelos estudos sobre mentes paranóicas.

Talvez o importante seja entendermos que o perigo nem sempre é, ou estar no outro, mas em nós mesmos. Para quem tem (ou acredita ter) e usa o poder autoritariamente cabe a reflexão sobre as fragilidades pessoais, seja no âmbito teórico necessário ao cargo que ocupa, ou ainda no campo emocional. E isso é cuidar de si mesmo, preparando-se para cuidar do outro, seja através de ações próprias e individuais ou de políticas públicas construídas para beneficiar o coletivo e não para favorecer interesses individuais. Assim, quem assume um lugar, independente de qual seja, deve se responsabilizar por suas escolhas. É preciso entender que a vida é dinâmica, e que tanto no campo profissional como na vida cotidiana, os lugares de oprimidos e opressores se revezam sucessivamente. Por isso é importante e fundamental definirmos que lugar se quer ocupar: o de eternos injustiçados e indefesos, que correm o risco de oprimir ao ocupar o poder; ou de indivíduos atuantes, que independentemente das situações adversas se empoderam conscientemente de sua faculdade de conhecimento e poder para modificar estruturas e sistemas opressores.

E como estamos em tempo de carnaval, nada melhor do que exercitar nossas fantasias mais arcaicas (infantis, psicanaliticamente falando) de poderes através das personagens que se traduzem em figuras de autoridade. Autoritárias ou democráticas, essas nos permitem também a reflexão sobre o lugar que gostamos ou gostaríamos de ocupar, e principalmente, dos lugares pelos quais gostaríamos de ser reconhecidos perante o coletivo. Por isso, antes de investirem na fantasia, que para muitas pessoas ultrapassa o período de Momo, melhor investirem no autoconhecimento e fazer da festa também um espaço de reflexão sobre a correlação necessária entre poder e cuidar na nossa prática profissional. Como um observatório da sanidade humana, onde inclusive se pode recorrer aos recursos do uso das máscaras para proteger ou esconder nossa própria identidade. Considerem contudo, que apenas no carnaval é permitido misturar fantasia e realidade, pois que se configura como espaço do autorizo as nossas loucuras e desejos mais inconfessáveis. O resto do ano é espaço da consciência plena e necessária ao exercício e prática do cuidar, primeiro de si, e depois do outro. Pensem nisso, vale a reflexão.

Bom carnaval a todos e todas.