quinta-feira, 3 de março de 2011

O CUIDAR E O PODER NA PRÁTICA DA GARANTIA DE DIREITOS

Praia do Picãozinho - Paraíba

















O QUE SOMOS OU QUEREMOS SER - Ideal ou Fantasia?



Esta semana tive o prazer de participar de uma Oficina de Alinhamento Teórico-Metodológico, promovida por uma instituição internacional, que integra o SGD – Sistema de Garantia de Direitos e atua na perspectiva do Enfrentamento a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes no Brasil. Além da discussão a cerca da temática, um dos pontos tratados que mais me chamou a atenção dizia respeito aos Cuidados com o Profissional. Dentro dessa perspectiva fomos estimulados ao refletir sobre os sentidos do Cuidar. Palavra derivada do latim, “Cogitare”, que entre outros sentidos pode-se entender pelo ato de prevenir-se, acautelar-se, no sentido de ter cuidado consigo mesmo, com sua saúde e aparência. Num sentido mais amplo, pode-se dizer que cuidar corresponde a provocar inquietação. Assim, poderíamos dizer que o ato de cuidar correlaciona-se a prática da reflexão e provocação de mudanças de pensamentos e comportamentos.

Fomos levados imediatamente a pensar sobre nossa prática profissional enquanto atores técnicos, na assistência social e no sistema de garantia de direitos. Mais especificamente, comecei a refletir sobre minha própria atuação por questões obvias. O fato é que ao estarmos diretamente em contato com todo tipo de modalidade da violência, corremos o grande risco de nos tornarmos também, mesmo que de vez em quando, violadores de direitos. Talvez por introjetarmos determinadas práticas, falta de alternativas de ações mais concretas, outra variedade de fatores, além de nossas concepções pessoais, muitas vezes pautadas em nossa própria construção de sentidos que se deu (e se dá) no processo de inserção em uma determinada cultura, trazemos em nosso bojo conceitos preconcebidos que constantemente precisam ser revisitados e reavaliados. E vale salientar como esse exercício do cuidar de si mesmo nos traz gratas surpresas e constatações surpreendentes quanto aos preconceitos equivocadamente introjetados durante nossa jornada de amadurecimento pessoal e profissional. Na verdade poderíamos estabelecer uma relação imensa de fatores motivadores para a formação de nossas concepções pessoais, que logicamente interferem em nossa condução profissional, mas que acima de tudo revela traços de nossa própria personalidade, o que não seria meu objetivo neste momento.

Basta-nos então, por hora, avaliar o processo de adoecimento destes profissionais, que expostos as violências cotidianas, correm o risco de cometerem equívocos, mesmo que movidos pela crença das melhores práticas. E isso não é raro, o que nos leva a perceber, que em muitas situações o próprio sistema de proteção se torna também violador dos direitos humanos. E neste ponto, penso que se o sistema é feito por pessoas, que os constroem e/ou estruturam a partir de suas perspectivas de mundo (talvez filosofias de vida) e crenças, o problema não esteja no sistema em si, mas nas pessoas de fato. Dentro dessas premissas, acredito que o grande educador e filósofo brasileiro, Paulo Freire, já postulava que “todo oprimido se torna um opressor quando detém o poder”.

Mas qual relação entre o autor, que se destacou por seu trabalho na área de educação popular, voltada tanto para a escolarização como para a formação de consciência, com o ato do cuidar dos profissionais em questão? É que de acordo com sua teoria sobre a “pedagogia do oprimido”, o mesmo destaca a importância e eficácia do diálogo com as pessoas mais simples, não só como método de alfabetização, mas como um modo de ser realmente democrático. E aí poderemos pensar: afinal estamos falando do cuidar ou de democracia? Ao passo que destacaria que não existe cuidado, no sentido real da palavra, em regimes ou gestões antidemocráticas. É que a centralização de poder cerceia a liberdade de expressão e a criatividade humana, fundamentais para a resolução de problemas. Sem liberdade não existe, inclusive construção de novos conhecimentos, e logicamente gera o movimento de resistência, noção básica para todo e qualquer gestor que deseje ser bem sucedido em seus intentos.

Assim, em minha percepção, que logicamente não se traduz como verdade absoluta, vivemos ainda nos ambientes de trabalho sofrendo os reflexos da velha e cruel ditadura que nos martirizou e vitimou por mais de duas décadas. A ditadura é o exemplo máximo da negação de direitos por contrariar as premissas da liberdade e vida social saudável. Talvez seja a base do tão falado nos dias atuais “Assédio Moral”, que se respalda nas relações de poder. Mas se o poder é relativo, caber-nos-ia uma maior reflexão sobre o que de fato significa poder. Assim, podemos entender que tal palavra, derivada também do latim, “potere”, significa ter a faculdade de; possibilidade de; autorização para; meio de, conseguir; força para; ter calma, paciência para; ou ainda, ter força de ânimo, energia de vontade, para; ter o direito, a razão, o motivo de; o que coaduna com a capacidade de gerenciar de forma democrática.

Mas dentro dessa relatividade e complexidade de sentidos relativos a uma mesma palavra, o poder também pode se configurar como dispor de força de autoridade; ter força física ou moral; ter influência, valimento; robustez, capacidade de ter grande influência ou poder sobre algo ou alguém. Neste aspecto, o que desejo destacar é que o poder e o cuidar precisam andar juntos e alinhados em entendimento de sentidos. O poder coletivo é fruto da união dos poderes individuais, logo, se engana quem pensa que detém o poder soberano e absoluto, por que correrá sempre o risco de se tornar tirano. E tirania, que vem do grego “tyrannia”, configura-se enquanto prática de governos e gestões opressores e cruéis, pautados na violência e opressão do povo, representação máxima da coletividade.

O objetivo maior então é refletir sobre o lugar que muitas vezes ocupamos e nos empoderamos, seja pelo poder delegado e atribuído, ou violentamente autoproclamado. Nesta segunda, o cuidar fica comprometido, até por o discurso torna-se incoerente com a prática. O cuidar do outro, partirá de uma concepção egocêntrica de quem detém (ou acredita deter) o poder, pois que na verdade se busca e se pleiteia o cuidar de si próprio, que se traduzirá consequentemente, em autodefesa. A fragilidade de quem tem como prática o poder autoritário se revela na busca incansável de autopreservação, talvez da própria sanidade. É resultado, como diria Freud, da fragilidade egoica, que possivelmente pode ser solucionada a base de psicoterapia. E isso se explica pelo fato do processo de adoecimento se dar de forma inconsciente e no universo da subjetividade. Neste sentido, o sentimento de perseguição causa estranhamento e alucinações persecutórias, onde o outro se tornará sempre um inimigo potencial. Quanto maior a aproximação do outro, maiores os riscos e ameaças sentidas pelo tirano. Isso é como equação matemática, não existe possibilidade de erro.

Desta forma, quando escolhemos ou definimos trabalhar ou atuar, ou ainda, nos entender e reconhecer, enquanto cuidadores é preciso em primeiro lugar cuidar de nós mesmos. Não se cuida de alguém sem antes nos cuidarmos. Essa é a premissa básica do processo do cuidar do outro. É preciso provocar inquietações em nós mesmos, até para que possamos perceber se estamos no lugar certo, ou se apenas buscamos resoluções para nossos próprios conflitos e traumas pessoais. Ainda evocando Freud, diríamos que a construção da personalidade de um indivíduo se dá em um processo contínuo, mas que tem a base na infância. Com certeza uma criança desprovida de acolhimento, proteção e sentimento de pertencimento, no futuro se desenvolverá enquanto sujeito inseguro, desconfiado e ameaçado, dificultando suas relações pessoais e sociais. A desconfiança no outro embasa o sentimento de insegurança tornando-o pronto para o ataque sempre que se sentir frustrado. E isso também é matemático, pois que é científico e comprovado pelos estudos sobre mentes paranóicas.

Talvez o importante seja entendermos que o perigo nem sempre é, ou estar no outro, mas em nós mesmos. Para quem tem (ou acredita ter) e usa o poder autoritariamente cabe a reflexão sobre as fragilidades pessoais, seja no âmbito teórico necessário ao cargo que ocupa, ou ainda no campo emocional. E isso é cuidar de si mesmo, preparando-se para cuidar do outro, seja através de ações próprias e individuais ou de políticas públicas construídas para beneficiar o coletivo e não para favorecer interesses individuais. Assim, quem assume um lugar, independente de qual seja, deve se responsabilizar por suas escolhas. É preciso entender que a vida é dinâmica, e que tanto no campo profissional como na vida cotidiana, os lugares de oprimidos e opressores se revezam sucessivamente. Por isso é importante e fundamental definirmos que lugar se quer ocupar: o de eternos injustiçados e indefesos, que correm o risco de oprimir ao ocupar o poder; ou de indivíduos atuantes, que independentemente das situações adversas se empoderam conscientemente de sua faculdade de conhecimento e poder para modificar estruturas e sistemas opressores.

E como estamos em tempo de carnaval, nada melhor do que exercitar nossas fantasias mais arcaicas (infantis, psicanaliticamente falando) de poderes através das personagens que se traduzem em figuras de autoridade. Autoritárias ou democráticas, essas nos permitem também a reflexão sobre o lugar que gostamos ou gostaríamos de ocupar, e principalmente, dos lugares pelos quais gostaríamos de ser reconhecidos perante o coletivo. Por isso, antes de investirem na fantasia, que para muitas pessoas ultrapassa o período de Momo, melhor investirem no autoconhecimento e fazer da festa também um espaço de reflexão sobre a correlação necessária entre poder e cuidar na nossa prática profissional. Como um observatório da sanidade humana, onde inclusive se pode recorrer aos recursos do uso das máscaras para proteger ou esconder nossa própria identidade. Considerem contudo, que apenas no carnaval é permitido misturar fantasia e realidade, pois que se configura como espaço do autorizo as nossas loucuras e desejos mais inconfessáveis. O resto do ano é espaço da consciência plena e necessária ao exercício e prática do cuidar, primeiro de si, e depois do outro. Pensem nisso, vale a reflexão.

Bom carnaval a todos e todas.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O CARNAVAL DE PERNAMBUCO: A Diversidade do Erotismo



Baile do I Love Cafuçú, 25.02.2011 - Clube Interncional - Recife/PE.





A Grande Festa - da Carne ao Peixe, do Sirí ao Bacalhau.

Dizem que no carnaval pernambucano o folião "Oxum Pandá". Não tem meio termo, pois que somos extremista. Como diz a música, “quem é de fato um bom pernambucano espera um ano e se mete na brincadeira”. E entre nós a brincadeira é livre em sua diversidade e multiculturalidade. Não posso afirmar que temos o melhor carnaval do mundo, mas com certeza nos orgulhamos em fazer a melhor festa de todos os tempos. E neste sentido torna-se válido o registro de nossa capacidade e disposição para a irreverência. Quebramos regras, rompemos barreiras e desafiamos nossos próprios limites. Ampliamos a tolerância e exercitamos a cordialidade.

É que quem é de Pernambuco tem compromisso com o fantástico. Aqui não se faz necessário convite ou formalidades, pois é só chegar a qualquer hora para acompanhar o “Homem da Meia Noite” ou mesmo a “Mulher do Dia”. Também não tem lugar marcado, pois que a festa se espalha por diversas ruas e becos. Invadimos os rios atravessados por pontes não por falta de espaço, mas porque assim como a “Galinha D´água”, brincamos com os quatro elementos da natureza. No sábado de “Zé Pereira” superlotamos os cantos e recantos para ver o “Galo da Madrugada” passar arrastando multidões. E se antes a Rua da Concórdia era insuficiente em espaço, este ano não se fará diferente na Av. Dantas Barreto. É que viramos recorde e nos transformamos no maior bloco carnavalesco do mundo.

Durante cinco dias nos transformamos em exemplo de democracia social. Esquecemos diferenças, sejam sociais, geracional, de raça, de gênero, de credo ou de orientação sexual. Neste sentido não nos dividimos entre pretos e brancos, mas nos agrupamos também em amarelos, vermelhos, verdes e azuis para colorir nossas sombrinhas que garantem o equilíbrio e charme as acrobacias tradicionais do frevo. Nossas sexualidades se tornam fluidas para nos permitir brincar com os gêneros e nos fazer “Virgens de Olinda” ou “Catraias de Boa Viagem”, que sedutoramente dengosas ou perigosas encantam os desavisados. Espichamo-nos e logo nos transfiguramos em “Bonecos Gigantescos” para melhor prestigiar, bem do alto, a mistura e a diversidade religiosa que se consagra em desfiles de côrtes negras e em rituais indígenas. Também esquecemos a idade e voltamos a ser bebês de chupetas ou criancinhas de lancheiras que saem de casa sem precisar da autorização dos pais.

Em Recife ou Olinda, não é raro virarmos garis, garçons, gogo-boys, prostitutas, policiais, gladiadores, enfermeiras, babás e até presidentes ou presidentas. Quem é daqui, muito menos se nega a mudarr de lado e assim incorporar perigosos ladrões, perversos vilões ou bons mocinhos. Pelo menos uma vez na vida nos tornamos e gostamos de ser verdadeiros palhaços, Pierrôs e Alerquins, com ou sem colombinas. Damos-nos a permissão necessária para experimentar a corrupção em personagens demagogos para desta forma poder denunciar os escândalos, injustiças e roubalheiras dos políticos federais, estaduais e municipais. E na tentativa louca de reverter a ordem natural, muitas vezes buscamos a força e coragem dos super heróis para salvar a humanidade de seus golpes de maus feitores.

Diria mesmo que psicanaliticamente falando, fazemos uma espécie de catarse coletiva que nem o próprio Freud ousaria tentar explicar. Até porque ele, na verdade “Nem Fode e Nem Explica” muito sobre a nossa libido e histeria carnavalesca. Além do mais, é sabido por todos que o carnaval pernambucano não tem e nem precisa de explicações acadêmicas. Desprezamos a cientificidade e não nos preocupamos, e até gostamos de ser reconhecidos como grandes animais, sejam “Burras”, “La Ursas”, “Siris”, “Saberés”, “Emas” ou “Elefantes”. Enfiamos o “Pé na Jaca” e fazemos uma verdadeira salada que se serve em blocos, seja de “Oitis” ou de “Pitombeiras”, que misturada a batida de limão nos provoca um "Birinaite Classe A" que "entra pela boca... e acaba no pé". E somente assim aguentamos o sufoco e o calor do empurra-empurra e a excitação no esfrega-esfrega das/nas multidões.

É que no carnaval esquecemos as dificuldades financeiras para recuperar o equilíbrio no passo do frevo e/ou no gingado do samba. Não existe espaço ou lugar certo para expressar sensualidade e erotismo. Saltamos sobressaltados com o “Acorda” geral, enquanto alucinadas mulheres sobem na “Vara” ou na "Cama"npara simular verdadeiros striptises. Por sua vez, homens sobem na “Porta” e “Arriando SuaSunga” são elevados em meio a multidão que se comprime e pula sobre históricos paralelepípedos.

Quando as ruas se tornam pequenas, invadimos os clubes, casas de festas, boates e espaços alternativos. Com alguma sorte conseguimos nossos quinze minutos de fama, seja dando pinta de entendido no “Baile dos Artistas” ou diante dos milhares de flashs disparados por ensandecidos visitantes que chegam em “Blocos de Turistas”. Caprichamos em fantasias para as noites de gala num baile que há muito deixou de ser “Municipal” para se tornar mega internacional, ou mesmo em máscaras para brincar de esconde-esconde no “Bal Masquê”. Os mais alternativos voltam no tempo e angariam acessórios para compor estilos ultra-mega-retrôs e homenagear a cafonice no “I Love Cafuçú”, que saiu do “Preto Velho” em Olinda, aportou no “Armazém 14”, no Marco Zero do Recife e esse ano chega ao não menos brega night, “Clube internacional”.

Tanto nas ruas como nesses espaços a irreverência torna-se sinônimo de permissividade e possibilidades eróticas. Tanto, que não raramente pode-se flagrar Batmans aos beijos com Robins, Cawboys amassando bombados Gladiadores e Mulheres Maravilhas aos afagos com Fadas nada encantadas. Todos misturados aos sedutores Zorros e suas belas Melindrosas e caricatos Bruxos que se esforçam em encantar inocentes e indefesas Princesas. Aos inconformados com os riscos que a tão famosa festa da carne pode oferecer, e que por isso acreditam que o carnaval é o melhor momento para se discutir a relação, restam-lhes o “Casou Por quê?”, ou mesmo o “Baile dos Casados”. Mas é bom lembrar que nos casos de conflitos, independente de qualquer que seja a melhor solução, as partes envolvidas podem sempre aguardar “Enquanto Isso na Sala da Justiça” para acalmar os ânimos. Melhor do que ter que encarar um "Camburão" repleto de soldados fogosos.

Talvez em alguns casos seja melhor assumir de vez a “Cabeça de Touro” e cair na festa para não engrossar o  “Bloco da Saudade” e bancar o “Arlequim que ficou chorando pelo amor da Colombina no meio da multidão”. E já que você vai estar mesmo sozinho, quem sabe não aproveita para correr atrás do “Minhocão” que corta as ladeiras e se perde na apertada “rua 13 de Maio” em Olinda? Se o seu problema é privacidade, melhor repaginar aquela velha fantasia de Peter Pan e inverter a história “aquendando” o “Pirata Gay” na Metrópole em pleno centro do Recife? Mas independente de suas preferências eróticas o importante mesmo é entender que no carnaval pernambucano a filosofia dos mais velhos adoradores das noites calientes já ensinava que “Nem Sempre a Lili Toca Flautas”. É que para nós da terra do sol escaldante nos valemos pela máxima que afirma que "não existe pecado do lado de baixo do equador".

De qualquer forma, sendo quem você é ou ainda fantasiando quem gostaria de ser, aproveite o carnaval e divirta-se ao máximo. Se jogue no frevo pernambucano, pois aqui "Nós Sofre Mas Nós Goza". Até porque temos “Bumba Meu Boi”, “Caboclinhos”, “Maracatus de Baque Solto e Rurais”, “Afoxés”, “Escolas de Samba” e muito mangue beat animando a azaração. Temos Blocos Líricos colorindo e animando as ruas com os frevos canção. E acima de tudo, temos fôlego para subir e descer ladeiras sem reclamar do cansaço que só chega mesmo na quarta-feira, e que se faz de cinzas por recolher a alegria e as cores da maior festa popular do mundo. E prá quem não sabe ou ainda não conhece, é bom salientar que o carnaval de Pernambuco não é só a festa da carne, mas do peixe também, servido em grande banquete regado ao famoso “Bacalhau com Batatas” no último dia.

E para nós que vivemos o carnaval e sempre "Achamos é Pouco" cinco dias, aconselhamos que para você, folião, não ficar com "Ovo na Vara" será preciso que "Segure o Cú" e espere mais 365 dias para coimeçar tudo de novo.
Normando Viana no I Love Cafuçú - Recife/PE.


Rogério Ribeiro - I Love Cafuçú - Recife/PE.


sábado, 26 de fevereiro de 2011

O ESPIÃO DA VIDA ALHEIA - UMA NOVELA REAL E URBANA - Capitulo II



UMA JANELA PRÁ LÁ DE INDISCRETA.

Diante de minha janela se eleva um prédio com mais de quatorze andares. Da minha sala posso visualizar milhares de pessoas em suas atividades corriqueiras. São os personagens da vida cotidiana. Em uma das janelas abertas, um casal parece se preparar para a noite. Ela é alta, magra e de longos cabelos louros. Usa um vestido justo que deixa as costas amostra. Arruma-se diante de um espelho instalado na parede central que divide os dois cômodos do pequeno apartamento. Ele, também alto, revela um corpo malhado por longas horas de academia. Traja uma calça jeans bastante justa e exibe o tórax desnudo. Caminha até a janela e parece olhar o movimento das ruas. Enquanto ela passa batom nos lábios e capricha na maquiagem dos olhos, ele caminha até a geladeira instalada próxima a entrada do banheiro, pega um cerveja e em seguida volta à janela. O apartamento é simples, com pouco móveis e tem cortinas floridas nas janelas. Mudaram-se a pouco tempo, o que talvez justifique certo recato em relação aos demais moradores.

No apartamento ao lado uma senhora negra cozinha enquanto assiste à novela das oito horas. De minha sala consigo ver a Camila Pitanga aos beijos com o Lázaro Ramos. O diálogo vem de minha própria TV, que sintonizado no mesmo canal, me coloca a par da trama da cena. Neste momento, alguém chega à porta e começa a estabelecer uma conversa enquanto a mulher prepara algo no fogão. Uma grade de ferro, tão comum aos apartamentos urbanos, faz a visita permanecer no corredor. São vizinhas colocando o assunto em dia. Um homem branco e gordo sai do banheiro, enrolado em uma toalha branca e senta-se a sala. A mesa fica atrás do sofá que dá de frente para a televisão. Automaticamente a mulher prepara o prato e coloca sobre a mesa, diante do marido. O homem janta enquanto as duas mulheres seguem conversando à porta. Ele pede algo e ela vai até a geladeira, enche um copo com água e coloca em sua frente. Ele seca o copo e ela repete o ato para em seguida voltar à conversa.

Um movimento no andar de cima chama minha atenção. Uma jovem se coloca a janela enquanto penteia os cabelos e faz as sobrancelhas. Parece indiferente a loucura da cidade que se mostra apressada. Afasta-se, sumindo do meu campo de visão, mas antes mesmo que vaguei por outras janelas, retorna com o celular nos ouvidos. Alguém parece lhe contar algo engraçado, fazendo-a rir enquanto continua extraindo seus pelos. Parece programar alguma coisa, acenando com a cabeça em sentido afirmativo. Alguém do outro lado da rua acena e ela corresponde. Rapidamente acompanho o olha na direção indicada, já que a mesma faz sinal que vai descer ao encontro de alguém. Volta ao celular e provavelmente explica ao interlocutor sua decisão, finalizando a ligação. Sai para o corredor fechando a grade a suas costas. Embaixo do prédio, uma jovem trajando short jeans e blusa branca a aguarda na entrada.

Desvio meu olhar mais uma vez e vejo agora que o esposo da mulher que cozinhava se encontra na janela me observando. Ele fuma e sopra a fumaça para cima. Enquanto isso as duas continuam na porta. Percebo que a senhora negra traja um vestido surrado e mantém um pano de pratos sobre um dos ombros. Ela é magra e de estatura mediana, ao passo que a vizinha é gorda e pequena. A televisão anuncia alguns comerciais para o vazio. Volto ao casal ao lado e entendo que parecem aguardar por alguém. O rapaz volta à geladeira e antes de retornar à janela entra no banheiro. A moça fala algo enquanto apanha a bolsa. Ele agora, ainda com a calça aberta retira algo da carteira e lhe entrega. Depois veste uma camiseta escura que salienta sua musculatura. Não parecem casados, pois que não revelam demonstrações de carinho ou algum tipo de afago, tão comuns nas janelas a minha frente. Talvez sejam apenas amigos que dividem apartamento. A despedida das vizinhas me chama a atenção devido às reclamações do homem branco. Ele esbraveja algo enquanto a mulher fecha a porta e finalmente senta-se diante da televisão. Imóveis, parecem estranhos habitando um mesmo espaço.

A garota do andar de cima chega à portaria do prédio e abraça uma amiga. Conversam algo e olhando o relógio parecem combinar um local e hora para se encontrarem. Sorriem, voltam a se abraçar e em seguida a moça de short se afasta acendendo um cigarro. A garota retorna correndo pelas escadarias. Neste mesmo instante a moça loura do andar de baixo atende ao celular. Fala alguma coisa e desliga. O casal se apressa em sair. Apagam as luzes e fecham a porta.

Numa sala, dois andares acima, um rapaz chega à porta. Eles se abraçam e se beijam. O morador, trajando uma bermuda escura se encaminha para o quarto. O namorado acompanha e o observa enquanto se despe diante de um espelho. Ele coloca uma calça, vai até o guarda-roupa e escolhe uma camisa. O outro faz sinal de reprovação. A cena se repete umas três vezes seguidas até que se decidem por uma camisa de malha vermelha. Um dos rapazes volta a sala e liga o som. Eles dançam, se abraçam e riem bastante. A moça da janela volta ao apartamento. Entra no quarto e em seguida volta enrolada em uma toalha. Encaminha-se para o banheiro enquanto conversa com a mãe. Parecem discutir sobre sua saída. Ela fecha a porta do banheiro ao passo que sua mãe continua falando. Num aceno de raiva, começa a bater na porta e agora parece gritar. A senhora de cabelos claros e enrolados caminha de um lado para o outro enquanto continua a reclamar.

O casal sai do prédio. Consigo perceber que o decote de seu vestido desce até abaixo da cintura e que por ser de malha, salienta suas nádegas. Andam de mãos dadas. Ele mais apressado, parece puxar a jovem que tenta se equilibrar em um sapato de salto alto e fino. Atravessam a rua e se colocam em esquina. Enquanto ela se ajeita, ele volta a telefonar para alguém. Sua calça destaca o volume das coxas e salienta o pênis, talvez propositalmente arrumado a provocar olhares. A camiseta parece curta, deixando a mostra parte da barriga. Um carro preto se aproxima e para lentamente. O motorista abre a janela com vidros fumê e parece se identificar. O rapaz se inclina e olha para dentro do veículo, trocam algumas palavras até que ele abre a porta traseira para a jovem loura. O rapaz então senta-se na frente, ao lado do motorista, sobe o vidro da janela. O carro permanece parado por alguns instantes e depois lentamente entra pela Rua do Hospício e some.

A garota sai do banheiro e parece enfrentar a mãe que esbraveja e ameaça lhe bater. Ela se esquiva e segue para a sala enquanto veste uma blusa estampada. A mãe segue atrás e se antecipando fecha a porta com chaves. Elas começam uma discussão e o telefone toca. A garota atende. Num ato de extrema violência a mãe toma-lhe o celular e parece gritar com ao aparelho. A garota aproveita seu descuido, pega as chaves em sua própria bolsa e apressadamente abre a porta e sai. A mãe corre até o corredor. Volta desesperada e vai para a janela. Pouco tempo depois a garota chega a recepção, passa pelo segurança e sai para a rua e se encaminha ao encontro da amiga que lhe aguarda na praça de alimentação. Elas novamente se abraçam e seguem juntas e abraçadas pela Rua José de Alencar, sentido Riachuelo. A mãe liga para alguém e parece discutir com alguém sobre o comportamento da filha. Gesticulando muito, parece esbravejar, caminhando em movimentos circulares pela sala.

Já é meia noite e a cidade parece ficar cheia. Os ônibus chegam trazendo milhares de jovens que se espalham pelas ruas fazendo suada. Muitos se encontram nas paradas, combinam roteiros e seguem por vários caminhos. Jovens gays se abraçam, fazem comprimentos e dão “pintas” exageradas. Alguns se beijam e andam de mãos dadas como se usufruíssem a liberdade noturna. Muitos vêem dos subúrbios e revelam a estética das comunidades populares. É noite de boate, e neste sentido, Recife como todo grande centro urbano, oferece opções e possibilidades estratificadas por classes sociais e status econômico. Veículos cortam as ruas em movimento mais intenso. A mistura dos sons revela os gostos musicais. Tem espaço para tudo, desde o Bolero de Ravel ao funk das Pouposudas. Em pouco tempo as tribos se dispersam, o movimento diminui, porém a cidade permanece acordada.

Com a reorganização do centro da cidade, promovida pela Prefeitura, as carrocinhas de cachorro quente se espalharam pelos cruzamentos, o que torna as ruas ainda mais sujas e desorganizadas durante a noite. Neste sentido, não dá para entender reordenamento sem planejamento social. Não é polícia que resolve o problema dos ambulantes, mas sim, gestão comprometida e eficiente, o que não parece ser o caso ou foco do atual prefeito João da Costa. Estes mesmos espaços servem de point aos finais de noite. É onde muita gente, ao sair das festas, se abriga até a chegada do bacurau, até porque em Recife, a meu ver, polícia não garante a segurança de ninguém.

Há essas horas as janelas começam a se apagar. É como no velho Big Brother, aonde as telinhas vão se apagando para revelar quem saiu do jogo. As paradas agora estão vazias. Um rapaz vestindo calça e camisa preta chega a esquina. Ele parece excitado e com movimentos firmes acaricia o pênis. Olha desconfiado para os dois lados da avenida parecendo se certificar sobre a presença de alguém. Abre a calça e começa a se masturbar em plena rua. Pessoas das janelas de meu prédio começam a gritar, chamando-o de tarado. Ele fecha a calça e muda de lugar, sentando-se nos bancos da parada de ônibus que fica em frente a meu prédio. Tempo depois se levanta, volta a esquina e novamente começa a se masturbar. Alguém joga um ovo e erra o alvo. O rapaz parece indiferente em seu ato de exibicionismo. Nova tentativa e dessa vez lhe acertam os sapatos. Os protestos aumentam e as janelas começam a se acender novamente. É como se um alarme tivesse sido disparado e a cidade acordada de sobre salto. – “Olha o tarado!” sinalizam alguns e o alvoroço toma conta da noite. O rapaz se sente escorraçado e provavelmente sai em busca de outro lugar mais tranquilo a fim de realizar sua fantasia ou tara.

Já é madrugada e o céu começa a clarear. Um carro preto com vidros fumê nas janelas se aproxima lentamente. Para em frente ao prédio e o casal desce. A jovem loura segue na frente e entra apressada enquanto o rapaz de calça justa, inclinado na janela parece trocar algumas palavras com o motorista. Eles se despedem e o veículo segue em frente rumo ao Derbi. O rapaz ajeita a camiseta e entra também no prédio. Tempo depois a luzes do apartamento se acendem. Ele retira a camiseta e joga sobre o sofá. Ele entra no banheiro e ele vai para a cozinha. Chega a janela mastigando algo, olha a rua, se espreguiça e depois vai para o quarto. A moça sai para a sala, completamente nua. Percebe-me na janela e se apressa em apagar as luzes. Na penumbra a vejo se encaminhar para o quarto e através das réstias na janela a vejo trocar de roupas. Apagam-se as luzes e a noite parece ter fim. Tomo minha ultima taça de vinho e fecho também minha janela, finalizando mais um capitulo da novela real da vida urbana.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O ESPIÃO DA VIDA ALHEIA - UMA NOVELA REAL E URBANA - Capitulo I

AS JANELAS INDISCRETAS DA CIDADE

Quem mora no centro das grandes cidades termina por se tornar testemunha ocular da “privacidade” alheia. Não necessariamente essa invasão de privacidade se dá de forma desproposital ou inocente. Porém, em muitas situações nos tornamos cúmplices acidentais em demonstrações de afetos e também de desafetos entre vizinhos. Do meu campo de visão, que vai da Ponte Maurício de Nassau, que separa a Av. Conde da Boa Vista da Av. Guararapes, no sentido centro; e no sentido subúrbio se estende para além do cruzamento com a Rua da Soledade, posso acompanhar diariamente o cotidiano de mais de mil famílias que se sobrepõem umas sobre as outras em centenas de edifícios instalados no perímetro. E tudo funciona como um verdadeiro Big Brother sem fim. Neste sentido, prefiro pensar em uma novela real que se descortina diante de meus olhos. Recheada de personagens reais em situações cômicas e/ou dramáticas, geralmente desperta uma mistura de emoções que podem variar da simples curiosidade à ansiedade gerada pela impotência imposta pelo anonimato. São dramas cotidianos que se repetem; melodramas que acompanhados por músicas melosas revelam o final de relações amorosas, passageiras ou duradouras; situações de suspense e perigo, que muitas vezes envolvem agressões físicas; e até mesmo tragédias de vidas humanas expostas através de janelas nada discretas.

Nesse jogo comandado pelo voyeurismo observa-se ao passo que se é observado. Exemplo da simples constatação se dá pelo fato de milhares de pessoas se debruçarem sobre suas janelas, muitas vezes, ao mesmo tempo. São momentos onde olhos se cruzam ou se encontram num sentido confirmatório de que se observa o mesmo alvo. Inconscientemente as ruas se tornam extensões de nossas casas, onde as janelas permitem uma amplitude de espaço que vai além dos limites territoriais. Não existem fronteiras e muito menos monotonia. O privado se torna público. E neste exercício de curiosidade nos damos ao direito de mudar de janela, e consequentemente de história, como se muda os canais de uma televisão. Selecionamos as imagens e muitas vezes ajustamos os focos com auxílio de óculos ou binóculos objetivando vasculhar detalhes. E como no cinema mudo, as expressões corporais substituem o áudio. Assim parece não existir um texto pré-determinado como nos filmes ou espetáculos de teatro, pelo menos não no campo da oralidade, o que permite ao observador rechear a cena com intenções que nada mais são do que frutos de sua própria imaginação. É preciso ficar atento aos gestos e performances para concatenar a atuação de cada ator social num escripite que vai se construindo no imaginário de quem observa. Não existe direção de cena ou de arte e assim os enredos parecem se desenrolar por si, divididos em capítulos que não tem tempo exato para acabar. Começo e fim ficam a critério do espião de vidas alheias. E talvez, esse seja o título mais apropriado para a novela da vida real que se vislumbra diariamente em minha janela: “O Espião de Vidas Alheias”. Novela que não define de forma exata os papéis de vilões e mocinhos, cujos desfechos serão sempre imprevisíveis, com ou sem finais felizes.

Milhares de histórias vão aos pouco sendo colecionadas. Algumas tristes, outras maravilhosamente cômicas. Mas em sua maioria dignas de crônicas urbanas, pois que retratam a forma e conteúdo das relações sociais de uma cidade. Penso então no quanto seria interessante e ao mesmo tempo divertido poder escrever sobre tais histórias, tendo como pano de fundo o retrato social de um grande centro urbano. Lógico que se faz necessário destacar que tais escritos trarão muito da minha própria compreensão e concepção de cada fato, de cada situação envolvida. Meu objetivo não expor o privado das relações, mas analisar através do registro a dinâmica destas relações, bem como os contratos de convivência estabelecidos entre os envolvidos, e entre estes e a cidade grande. Para tanto as histórias que passo a relatar imprimem-se em pequenos recortes, recheados de observações, e por vezes, de comentários que objetivam dinamizar a narrativa.

Neste sentido, saliento a não existência de uma prévia seleção de temas ou enredos. Estes iram surgindo de acordo com casualidade e imprecisão da própria vida real. Serão apenas histórias de anônimos abertas ao mundo através de uma janela do terceiro andar de um prédio qualquer na principal avenida do centro da cidade. Logicamente serão observadas as questões éticas envolvidas, no sentido de não possibilitar a identificação das personagens a fim de se poder preservar a integridade das pessoas. Melhor dizendo serão histórias de ficção, baseadas em fatos reais. Desta forma, qualquer semelhança com nomes, dados ou características pessoais poderá ser apenas pura coincidência.

Um desses capítulos teve inicio quando fui acordado durante a madrugada por gemidos, ou melhor, gritos, que vinham do outro lado da rua. Eram pedidos de ajuda no melhor estilo tragicômico. Uma mulher, provavelmente jovem, fazia sexo com alguém no apartamento em frente ao meu. O quarto aceso revelava cortinas finas que balançavam ao vento e pareciam desenhar coreografias que muito bem poderiam traduzir os movimentos de seus corpos. Ela gritava por ajuda. Alguns transeuntes que aguardavam o ônibus na parada abaixo do prédio olhavam aflitos para cima tentando desvendar o mistério. “Ai, Jesus! Ai, meu Deus”. A ansiedade aumentava entre milhares de observadores que acompanhavam o sofrimento da jovem senhora.

Todos queriam saber o que se passava naquele quarto. Alguns mais proativos se avexaram em indagar o vigia que se mostrava indiferente a situação. Novos gritos de socorro: “Me ajuda Jesus. Ai, meu Deus do Céu!”. E mais pessoas se juntavam a multidão de cabeças erguidas. De repente risadas invadiram o ar e se espalharam pela avenida. A reação de espanto e incerteza incomodava aos observadores. “Eles estão é na safadeza”, afirmou uma mulher que perambula todas as noites pelas ruas da cidade. “Cala a boca cadela safada. Tá dando pro teu macho e fica aí gritando, sem vergonha”. Tais reclamações causaram risadas que logo se perderam na madrugada. Minutos de silencio se seguiram até que novos e sucessivos gritos insistiram em insinuar uma aparente violência comum em brigas de maridos e mulheres: “Ai, para, por favor... desse jeito vai me matar”. Novos olhares para o alto, novos sobressaltos, novas insinuações.

Uma travesti que ocasionalmente faz ponto na redondeza respondeu: “Vai morrer? Só se for de tanto fuder... puta safada”. Os comentários se tornavam cada vez mais alto e se criava uma verdadeira algazarra abaixo do prédio. Nos carros e ônibus as pessoas olhavam para cima de suas janelas. Poderia mesmo se dizer que aquele era um acontecimento de parar o trânsito. Os gritos agora variavam de intensidade, alguns bastante altos, alguns baixos e outros abafados. No entanto, apenas se ouvia a voz feminina. Nenhuma palavra era proferida pelo suposto agressor. Isso parecia contribuir para aumentar o suspense entre os ávidos espectadores. Algumas pessoas que bebiam na banca de cachorro quente localizado próximo ao prédio se aproximavam para se inteirar do inusitado acontecimento. Ao passo que as conversas se tornavam mais afloradas, e logicamente apimentadas, a mulher continuava, em espaços ritmados, a clamar por piedade.

Em muitos momentos seus gritos podiam ser confundidos com gemidos, o que dividia as opiniões: “Ai, eu não agüento mais”. Para uns ela estava sendo barbaramente espancada, para outros, não passava de “uma cadela no cio”. O público se agitava em suas apostas e formavam grupos de discussões. Era a vida exposta sem o menor pudor. Uma velha senhora sentada a espera do bacurau se benzia enquanto lia a bíblia. Provavelmente considerava tal situação uma grande heresia. Seria o fim dos tempos? Estaria a mulher possuída pelo demônio? Ou apenas dava ela vazão as suas fantasias e prazer? As janelas do edifício iam se acendendo uma após outra. O mesmo ocorria nos prédios vizinhos. A avenida estava completamente iluminada e as conversas já não se limitavam aos transeuntes. Pessoas das janelas trocavam ou pediam informações para as pessoas na rua. Tinha se estabelecido uma verdadeira rede. As informações também ocorriam de prédio para prédio. Alguém do outro lado perguntou: “estão vendo alguma coisa?”. Me senti desconfortável em estar sendo descoberto. Alguém no andar de cima respondeu: “Porra nenhuma. Só consigo ver as cortinas balançando”.

“Sabe que é a piranha?”, perguntaram de outra janela de meu prédio. “Acho que ela é novata aqui”, veio em resposta do outro lado. Gritos saltavam de várias janelas ao mesmo tempo pedindo silêncio. Ninguém conseguia dormir com aquela agitação toda. Havia certa excitação no ar. A essa altura a policia já havia sido acionada e os soldados se juntaram a multidão que exigia providencias. “Parem com essa putaria. Eu tenho crianças pequenas em casa”, reclamou uma senhora do penúltimo andar. Os soldados pareciam se preparar para invadir o prédio quando de repente, um último grito, sonoramente alto selara o êxtase da platéia: “Ai, meu Deus. Eu vou gozar porra! Eu vou gozar...”. Neste exato instante a multidão foi ao delírio. Gritos, assovios e até aplausos se misturaram as ofensas. A algazarra se espalhara por toda a avenida e as pessoas se divertiam em zombarias. Os policiais coordenaram a dispersão do público e a noite começou a voltar ao normal. No silêncio do quarto o indiferente casal caminhou nu até o banheiro. Depois de um tempo reapareceu na janela, juntos observaram o céu sob o aplauso de muitos. Discretamente fecharam as cortinas e por fim apagaram as luzes.

Aos poucos os andares foram escurecendo até que os prédios se aparam por completo. As pessoas se recolheram e o silêncio se fez na cidade. Tudo voltava ao normal. Nunca mais o casal foi visto e para o bem dos bons costumes e moral puritana da cidade a sexualidade voltou a se reservar ao silencio dos quartos.

domingo, 23 de janeiro de 2011

A TRANSEXUALIDADE E O SENSACIONALISMO DO BIG BROTHER



A TRANSEXUALIDADE NA MÍDIA

Abaixo do meu prédio alguns camelôs ocupam a calçada. Vende-se de tudo, desde CDs e DVDs piratas, a bombons e bebidas. Na esquina já é famosa a carrocinha de variedades, onde durante as noites vários moradores da redondeza se reúnem para trocar conversas. Hoje a temática era o famoso programa global, o Big Brother 11. Cheguei em meio a conversa, mas logo identifiquei sobre o que falavam. “O que é isso?”, disse uma comerciante a quem compro cigarros. O assunto girava em torno da participação da primeira transexual no reality show e as colocações fervorosas confirmavam o desconforto em falar sobre a temática. “O que vou dizer aos meus filhos, que podem ser homem ou mulher quando quiserem?” Questionava indignada a senhora enquanto reabastecia seu copo de cerveja. “E ainda dizem que ela vai pousar nua. Quero ver se ela é mulher mesmo”, completava um senhor que a acompanhava. “Tá essa revista vou fazer questão de comprar, só pra ver se ela tem ´priquita` de verdade”. O comentário apesar de me parecer meio cafajeste provocou risadas. “E se ela tiver?” perguntou a astuta comerciante tentando apimentar a discussão. “Aí, vou levar ela pro meu banheiro”, completou de forma sarcástica o bem humorado senhor. Apesar da vontade em acompanhar a conversa, resolvi que não seria tão sensato me meter naquela animada celeuma que prometia varar a madrugada.

Por fim, a transexualidade saiu do anonimato das ruas e chegou definitivamente aos lares. Através da mídia o “transtorno de identidade de gênero” invadiu milhões de casas nesta última semana. O tema vem ganhando força nas discussões em sites da internet, revistas e jornais, além dos programas televisivos. Fato positivo quando se considera o papel da mídia enquanto instrumento de formação de opiniões, contribuindo diretamente para as transformações necessárias a uma sociedade mais justa e igualitária. Fato negativo, porém, quando a temática é explorada como simples alavancador de ibope sem grandes compromissos com o público e principalmente com os sujeitos envolvidos e alvos dos refletores ávidos por novidade. É que neste sentido a transexualidade torna-se apenas uma curiosidade, e não uma vertente da sexualidade humana que precisa ser compreendida e respeitada em sua essência.

Por mais que se fale sobre os efeitos negativos do Big Brother sobre a grande maioria da população, não se pode desconsiderar seu caráter “inovador” em transformar temas ainda tabus em melodramáticos folhetins do horário nobre. Foi assim que aconteceu com a homofobia “Douradamente” premiada da edição passada e também com a homossexualidade panfletária de Jean Willis. No primeiro caso premia-se o estereótipo da masculinidade exacerbada com demonstrações gratuitas de violência e discriminação. No segundo premia-se a vitima que clama justiça ao público. Contradições? Com certeza não se considerarmos que o único compromisso do programa restringe-se ao fortalecimento do mechandising dos patrocinadores que financiam a maior atração da televisão brasileira. Assim, a polêmica torna-se o grande mote para garantir os recordes sucessivos de audiência, confirmados em onze edições nacionais. Evidencia-se a velha máxima de que nada desperta mais interesse do que a vida alheia. Estimula-se então o voyeurismo popular e ao prazer gerado alia-se o direito de escolha sobre o que pode ou deve ser observado por todos. Numa grande inversão de valores ilude-se ao telespectador levando-o a acreditar em um utópico poder de decisão pelo voto pago. Desta forma vende-se a idéia de um programa pretensamente interativo e democrático onde caberia ao público decidir o destino dos personagens (reais?).

Porém, apesar de todas as manipulações e induções magistralmente regidas pelo (já desacreditado) apresentador Pedro Bial, não se pode desconsiderar a opinião pública (apresentada) enquanto fator de análise. Os índices de rejeição ou aceitação a determinados temas ou sujeitos não deixam de desenhar um retrato de nossa sociedade. Seria, por exemplo, precipitado observar a “coincidência” dos três primeiros candidatos a eliminação serem negros? E o que dizer sobre o fato de se oferecer ao público o poder de escolha entre um negro gay, uma transexual negra e uma negra bailarina? O que estava em jogo, à eliminação de simples competidores ou de identidades sexuais representadas pela heterossexualidade, homossexualidade e transexualidade? E por fim, o que pode nos dizer os 49% de rejeição da Ariadne?

De repente o público teve que lidar com uma personagem misteriosa que tinha realizado um grande sonho. Além de negra, Ariadne se disse transexual e revelou que a prostituição foi o meio viável a efetivação de sua identidade feminina, conseguida através da cirurgia de transgenitalização, ou mais popularmente, cirurgia para mudança de sexo pela qual pagou. Assim, etnia, gênero, classe social e “transgressão sexual” parecem ter se tornado, direta ou indiretamente, motivos mais que suficientes para sua eliminação. Propagar em horário nobre da Rede Globo que se entende ou se reconhece quanto “tri”, por gostar de homens, mulheres e “bichas” não faz de Paula (outra concorrente) uma ameaça a tradição burguesa de nossa sociedade; assim, como já não incomoda o fato do Lucival e do Daniel assumirem publicamente sua homossexualidade, temáticas já comuns em suas telenovelas; ou ainda da Diana falar abertamente sobre sua lesbiandade e se categorizar como “pan” em referencia a abertura para se relacionar afetiva e sexualmente com qualquer pessoa, independente de orientação ou identidade sexual. Mas falar publicamente, para milhões de brasileiros, que preferiu abrir mão de sua masculinidade para se sentir mais confortável enquanto mulher parece ferir de vez a norma reguladora da sexualidade e moral da família tradicionalista.

Independente de minhas opiniões sobre a qualidade e repercussão de tal programa, tendo a considerar mais que oportuna a possibilidade de se evidenciar a discussão relativa ao direito concedido pelo SUS – Sistema Único de Saúde, relativo à gratuidade da cirurgia de transgenitalização. Também indiferente a divergência de opiniões, considero prova de que o Brasil vem progredindo e avançando no entendimento ao que se refere à garantia de direitos para todos. O grande risco dessa discussão tão alardeada pela mídia nos dias atuais, muitas vezes de forma irresponsável, parece se referir ao fortalecimento e/ou retorno da concepção patologizante da transexualidade. Nunca se falou tanto em transtorno da identidade de gênero, e neste ponto é preciso entender que não se trata apenas de um simples desejo que um indivíduo possa ter em ser do sexo oposto. Mas de um complexo de sensações, emoções e desejos que formam e estruturam o entendimento deste indivíduo enquanto pessoa.

Para além do pensam alguns especialistas e profissionais da medicina e da psiquiatria, vista ainda como anomalia e/ou distúrbio, a transexualidade precisa ser entendida e concebida enquanto formação de identidade e personalidade individual. A grande dificuldade e logicamente motivo dos transtornos emocionais e psíquicos, que não podem ser generalizados, consiste das implicações sociais, legais e culturais de alguém se reconhecer enquanto mulher num corpo de homem, ou vice-versa. Assim, a dificuldade é muito mais de inadequação social do que propriamente emocional. E esta quando corre, com certeza deriva também das normas reguladoras de determinadas sociedades.

Talvez nesse sentido, o Big Brother pudesse ser mais responsável promovendo debates sobre as temáticas exploradas, ao invés de lançar dúvidas reforçando estereótipos e preconceitos. Afinal de contas é papel da mídia esclarecer questões abordadas e exploradas em seus programas. Isso sim contribui de forma efetiva para o desenvolvimento de um povo. Por isso, neste quesito penso na importância de se salientar o irreparável despreparo do apresentador, que a cada dia se consolida, e só confirma, sua vocação quase natural para mero apresentador dos shows de calouros a celebridades instantâneas.

sábado, 8 de janeiro de 2011

TRANSEXUAIS E TRAVESTIS - RETOQUES E REFLEXÕES SOBRE OS CORPOS


São Paulo, 2010



TRANSEXUALIDADE - OPÇÃO OU ORIENTAÇÃO SEXUAL?

Em outubro passado este blog completou um ano de existência. Iniciei minhas reflexões falando sobre mim mesmo, talvez  na busca de autoconhecimento. Confesso no entanto, certa surpresa com as repercussões que tais reflexões e pensamentos podem ter causado e ainda estarem causando. Acredito que esse é um espaço democrático onde as pessoas podem e devem contribuir ao expor suas opiniões, pois desta forma ampliamos as discussões de temas muitas vezes invisibilizados por diversos motivos que não nos cabem agora. Independente das [dis]cordâncias, saliento mais uma vez, que essas são apenas minhas reflexões e por isso partem do entendimento e da percepção de como vejo o mundo, com posicionamentos políticos e ideológicos que são meus e não necessariamente precisam ou pretendem se tornar coletivos. Desta forma, não objetivo levantar bandeiras, mas apenas me dar o direito de opinar sobre assuntos que fazem parte de meu cotidiano.

Talvez por isso, muitos “digam que sou ácido, mas também me achem doce. Prefiro dizer que sou humano e por isso convivo com minhas próprias contradições. Vivo em eterna ebulição e alguns acham que tenho picos de sensibilidade. A esses dedico meu respeito e adimiração, pois que me conhecem e reconhecem enquanto pessoa. Aqueles que me olham, apenas observam, e a partir de suas próprias convicções tendem a me rotular. Contudo, àqueles que se arriscam a me conhecer, correrão sempre o risco de não conseguirem me adequar ou enquadrar em seus modelos "estanques" de comportamentos pré-moldados. Sou crítico e por isso me chamam de "Espetácio". Alfineto e incomodo porque sou direto, sem rodeios, sem máscaras e Sem Luvas” (trechos da primeira postagem). E assim me posiciono no mundo por acreditar que essa é a minha identidade, e por entender que esta se estabelece pela diferença.

Coaduno então, com a teoria de que nos reconhecemos a partir do outro, a partir do qual também nos constituímos. Neste contexto, diferença e identidade são inseparáveis, só existindo uma em razão da outra, o que a torna “Legal” (inclusive no âmbito jurídico) por possibilitar nossa individualidade enquanto sujeitos do coletivo. E é desta diferença que me proponho mais uma fez a reflexão. Diferença que tanto tem causado as guerras, os conflitos, os mal entendidos, as injustiças e as barbáries, sejam através da subjugação, das ameaças, das agressões e da morte do outro. Em muitos dos treinamentos, palestras e workshops que tenho desenvolvido sobre identidade sexual, voltados a técnicos da educação, psicologia, assistência social e/ou da área jurídica entre outras, bem como a turmas de estudantes de faculdades e universidades, um questionamento comum é sobre como denominar a atração sexual e desejo que alguém sente ou pode sentir por outra pessoa. Desejo e atração que se diferenciam da nossa, e que consequentemente por isso, nos parece fugir e contrariar a norma. Acredito que neste ponto torna-se pertinente nos questionar sobre que norma estamos falando. Da que estabelecemos enquanto premissa para nortear nossas próprias concepções de comportamentos e condutas no âmbito pessoal e social; ou da norma construída culturalmente, e que até hoje tenta se estabelecer enquanto regulação moral da sexualidade humana? No fringir dos ovos o grande embate parece consistir no fato da grande maioria, através de suas concepções pessoais, tender a classificar e/ou justificar as orientações sexuais do outro enquanto “opção”, e não enquanto “orientação” tão natural quanto a sua própria.

No senso comum a denominação “opção sexual” tem ganhado força por se acreditar que tanto o desejo quanto a atração sexual pode ser direcionada ao nosso bel prazer, e assim, optar-se-ia em direcioná-los a homens ou mulheres. Considerando que a norma heterossexista estabelece as relações sexuais entre pessoas do sexo oposto como regra comum e natural, parece que tal denominação se mostra, muitas vezes, carregada de juízos de valores relacionados à “safadeza ou imoralidade” alheia. Desta forma, não se mostra incomum pessoas verbalizarem que os homossexuais, por exemplo, escolheriam gostar e se relacionar afetivo e sexualmente com pessoas do mesmo sexo, o que se configuraria por extensão como opção consciente pelas “práticas desviantes a norma”. Mas muitas vezes, o que está por trás de tal concepção e posicionamento é o julgamento de valor moral sobre o caráter do outro, base dos tantos preconceitos e também da homofobia.

Acredito que tal concepção equivocada encontra-se pautada no processo de formação cultural e na educação que por muito tempo nos limitou a uma discussão acerca do sexo ao invés das sexualidades. Por séculos nos restringimos a falar sobre os órgãos genitais, que enquanto conformação particular distingue o macho da fêmea, atribuindo-lhes um papel determinado na geração. Dentro desse contexto ao pensarmos o sexo, imediatamente relacionamos o tema aos conjuntos das pessoas que possuem o mesmo sexo biológico, ou seja, grupos que dividem homens e mulheres. Em outras palavras, falar em sexo nos leva a pensar automaticamente em pênis e vagina, bem como nos atos e práticas possíveis e permitidas a cópula através de seus corpos, que se traduzem pontualmente no ato sexual em si. De outra forma, falar em sexo nos leva diretamente aos papéis e representações sociais do que vem a ser homem e a ser mulher na sociedade, distinguindo as coisas de um e de outro.

No entanto no esquecemos, ou ainda pior, não conseguimos ampliar a discussão para campo analítico da qualidade desse sexo ou sexual, o que se configuraria na discussão sobre a sexualidade. Presos ao tabu inicial não nos permitimos ir além do aceitável socialmente, o que parece contribuir diretamente para o desconforto sentido pela maioria dos profissionais e estudantes durante tais treinamentos ou conversas. Um ótimo exemplo dessa tensão e incomodo refere-se às dificuldades das pessoas em expor suas opiniões quando questionados em público. A sexualidade então será sempre descrita como “relação sexual”, “ato sexual” e/ou “fazer amor”. Quase nunca se destacará o prazer e o erotismo envolvidos, muito menos, os jogos e variações possíveis que possibilitam explorar os corpos enquanto conjuntos de pontos e fontes sensoriais a serem descobertos e estimulados. Nesse prisma o exercício da sexualidade tende a se mostra “mecanicamente” restrito aos genitais, impedindo a percepção e concepção do corpo num contexto totalitário enquanto fonte de prazer, que a meu ver nada mais é do que o resultado moralista empregado pelo modelo higienista das décadas passadas.

Outro aspecto que chama a atenção é a definição de prazer diretamente limitada ao gozo. Gozo esse que se configura na ejaculação. Logo, para se sentir e demonstrar, ou ainda, demonstrar sentir prazer com ou por alguém é preciso que a ejaculação se faça presente. Chamo novamente atenção para o fato de se fazer necessário refletir sobre o que vem a ser “gozo”. Refere-se esse ao orgasmo, que é puramente orgânico e biológico; ou ao prazer e satisfação sentidas e provocadas pelo toque e contato do e com o outro? O orgasmo é apenas biológico ou psicológico e subjetivo? A gente goza apenas com a genitália ou com o corpo como um todo? Toda essa reflexão que proponho tem muitas vezes viabilizado uma preparação necessária para se pensar nas variedades e possibilidades do prazer e da excitação sexual gerados pelos corpos. Uma tentativa de nos desviar do modelo anatomo-fisiológico, centrados em corpos de machos e fêmeas, para pensarmos em instâncias mais amplas e assim transitarmos por perspectivas menos rígidas de masculinidades e feminilidades. Para adentrarmos num universo de sexualidades e identidades sexuais mais fluidas, onde transitam não só os corpos, mas os prazeres e as excitações sejam essas, hétero, gays, lésbicas, bi ou trans.

Especificamente relativo às pessoas transexuais, femininas ou masculinas, penso que uma visão limitada do gozo enquanto resultante unicamente do biológico inviabiliza o entendimento necessário a concepção mais ampla de prazer. Se ficarmos presos a tais concepções, sempre nos equivocaremos em acreditar e/ou creditar que as pessoas trangenitalizadas (em outras palavras, pessoas que se submeteram a cirurgia de mudança de sexo) não gozam. Porém, se pensarmos na perspectiva de que o gozo mostra-se subjetivo, no sentido de algo que é individual, pessoal e particular, entenderemos que este integra o domínio das atividades psíquicas, sentimentais, emocionais e volitivas (ato pelo qual a vontade se determina a alguma coisa) de cada sujeito individualmente. Assim, esse gozo foge do conceito limitante do biológico para se estender/expandir numa concepção de prazer que gera bem-estar emocional, orgânico e psíquico. Ainda nessa perspectiva, o orgasmo transcende o fisiológico para se alargar no campo das sensações ou sentimentos agradáveis, harmoniosos, que geram satisfação e deleite não só ao corpo biológico, mas a alma, sede de afetos, dos sentimentos e das paixões.

Talvez essa concepção, se mostre inclusive como meio viável a reflexão às tantas mulheres e aos tantos homens, “não-trans”, que por vários motivos não atingem o orgasmo durante o ato sexual compartilhado com o outro. E neste sentido, talvez o alívio gerado pela compreensão de que não necessariamente se precise gozar especificamente pela genitália, lhes possibilitem a descoberta de muitas outras possibilidades de prazer e excitação que os levem ao clímax sexual. Acredito que as “mulheres-trans” e os “homens-trans” têm aberto em nossas sociedades e culturas o espaço necessário para a resignificação individual e coletiva dos velhos conceitos que mantém a sexualidade no campo dos tabus (entendendo-se por extensão a proibição convencional imposta por tradição ou costume a certos atos, modos de vestir, temas, palavras, etc., tidos como impuros, e que não pode ser violada, sob pena de reprovação e perseguição social).

E por fim, ainda no universo das reflexões sobre temas viabilizados pelas sexualidades tidas como transgressoras, se faz necessário entender que “opção” relaciona-se diretamente ao ato ou faculdade de optar, ou seja, se configura como livre escolha do indivíduo. De outro modo, “orientação”, como a palavra mesmo já exprime, relaciona-se ao sentido de direção dada, impulso, tendência e/ou inclinação. É neste sentido, que no campo das sexualidades humanas (que deve ser entendida no plural, pois que têm se mostrado variável e flexível) não se pode pensar em “opção” enquanto determinante fundamental a construção de uma identidade sexual. Mas ao contrário, torna-se necessário o entendimento dessa construção enquanto resultado de uma “orientação”, ou seja, do sentido e foco para qual o nosso desejo se encontra e/ou se mostra direcionado. De forma mais simplista podemos dizer que não escolhemos de quem gostar, mas apenas nos descobrimos gostando de alguém ou de algo. E este ou isto se torna nosso objeto do desejo, independente de ser masculino ou feminino. O direcionamento do nosso desejo não é fruto de processos conscientes. Assim, no campo dos desejos, prazeres e excitação a única “opção” que realmente, e conscientemente, nos cabe é decidir por nossa felicidade ou frustração emocional.

Resta-nos então entender que enquanto sujeitos do desejo e de direitos não precisamos mais, e muito menos devemos, nos restringir aos corpos biológicos, que nos é dado. Mas ao contrário, nos expandir em possibilidades e viabilidades dos corpos que não se constituem apenas enquanto carne, mas sim constituído e construído num conjunto de prazeres, sentimentos, sensações e gozos, ainda que para isso se torne necessário resignificá-los e adequá-los a nossa identidade. É neste sentido que acredito e aprovo as iniciativas e motivações tecnológicas da medicina moderna que tem possibilitado a construção de novos corpos. Pois para mim não são os corpos biológicos que devem determinar nossa identidade, mas inversamente, são as identidades que devem adequar e moldar esses corpos ao nosso bel prazer para nos fazer íntegros conosco e perante o coletivo.

E fechando momentaneamente as reflexões registro meu desconforto relativo aos termos “reparativo” e “corretivo” tão comumente empregados as cirurgias de transgenitalização. Em minha concepção não existem corpos errados, logo não existindo o que reparar ou corrigir. Existem sim, corpos que precisam de retoques e aprimoramentos possíveis através da sapiência e arte do homem, o que o torna divino em essência, como também os são todos os corpos, transgenitalizados ou não.

São Paulo, 2010.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A VITÓRIA DAS TRAVESTIS E TRANSEXUAIS PERNAMBUCANAS

Parada da Diversidade - Av. Paulista/SP - 2009.




UMA LUTA PELA LEGALIZAÇÃO DO NOME SOCIAL

O ano de 2010 termina com uma excelente vitória para todos nós que lutamos pela efetivação da garantia de direitos e igualdades sociais. Finalmente foi publicado o Decreto Lei nº 35.051, que garante as travestis e transexuais pernambucanas a inclusão do nome social nos registros estaduais relativos a serviços públicos prestados no âmbito da administração pública estadual direta, autarquias e fundacional, sendo tal conquista resultado da I Conferência Estadual LGBTT, realizada ainda em 2008, e dos esforços de muitos que direta ou indiretamente participam e contribuem para a consolidação e fortalecimento do reconhecimento do segmento LGBTTI (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e intersexos).

Dizer que tal medida contribui diretamente para a afirmação dos direitos humanos, bem como para a construção de uma sociedade mais justa e livre de toda forma de preconceito e discriminação seria desmerecer a importância da vitória de uma batalha que já se arrasta por muito tempo - reconhecer definitivamente as travestis e transexuais enquanto sujeitos de direitos. Mais que isso, significa o reconhecimento dos integrantes desse segmento da população não mais como passageiros de segunda classe, garantindo-lhes a efetivação de uma identidade social e pessoal, direito irrestrito e fundamental a toda pessoa humana. Tal medida exige dos órgãos públicos tratamento igualitário e reitera o entendimento de que identidade se configura naquilo no que me reconheço e aceito. Não é um nome legalmente oficializado que diz de minha orientação, mas ao contrário, minha orientação diz de minha identidade e me possibilita definir o que me nomeia. O decreto estabelece os parâmetros necessários e legais para que milhares de travestis e transexuais não sofram mais constrangimentos e assédios morais no acesso aos serviços de educação, saúde, assistência social e justiça, entre outros. Antes de tudo, retira da clandestinidade quem sempre esteve na invisibilidade e na exclusão.

Relembro então uma importante e significativa passagem de minha inserção pela Assistência Social. Estávamos exatamente no ano de 2008, quando abordamos a temática junto a um grupo composto por mais de cinquenta profissionais, técnicos das áreas de psicologia, pedagogia e serviço social, integrantes do quadro técnico do Programa Vida Nova – Pernambuco Acolhendo a População em Situação de Rua, política pública do Governo do Estado, voltada a população em situação de rua, do qual muito me orgulho em ter participado e contribuído para a construção da proposta pedagógica piloto para os Centros da Juventude, bem como da implantação de uma metodologia pautada no Respeito, Dignidade e Direitos – RDD, desenvolvida e implementada enquanto estratégia de inserção social.

Percebemos o quanto difícil ainda se tornava discutir Sexualidade e Gênero, mesmo entre profissionais com formação acadêmica e o dito conhecimento relativo às premissas básicas que regem os direitos humanos. E neste sentido, destaca-se a fundamental diferença entre conhecimento e entendimento, fato evidenciado ao percebermos o quanto os discursos se tornam e se apresentam contraditórios quando levados e guiados por uma cultura machista e heterossexista como a nossa. Reconheço logicamente, a dificuldade sentida por muitos em abandonar as velhas concepções construídas sócio-culturalmente ao longo de suas vidas, resultantes do modelo higienista que configurou o sexo unicamente aos fins reprodutivos. E é neste sentido, que a meu ver, revela-se ainda entre tantos profissionais a necessidade da quebra dos velhos paradigmas para se possibilitar a uma concepção e compreensão mais ampla do individuo enquanto sujeito do desejo.

Na referida capacitação técnica o que se pode observar foi à intolerância, a mesma muitas vezes fundamentada na ignorância e desconhecimento dos fatos. Naquele momento formou-se uma barreira de resistências que muito bem poderia ser traduzida como pânico infundado em contrariar a norma reguladora que estabelece a heterossexualidade como primazia da sexualidade humana. É fato que somos e fomos educados e formados por rígidas regras sociais que nos estabelecem como homens ou mulheres, não existindo a possibilidade de meio termo. E que inevitavelmente dentro desse contexto, as sexualidades que contrariam a regra reprodutiva tornam-se desvios de conduta e caráter, logo se configurando ou sendo configuradas como patologias. Em outras palavras, o que se apresentava ali nada mais era do que um reflexo ou reação “natural” que objetivava a proteção e manutenção de suas zonas de conforto. Afinal de contas o que se colocava diante de seus olhos era a inevitável reflexão, individual e coletiva, sobre os conceitos pré-estabelecidos que regiam a décadas seus comportamentos e compreensões acerca do outro, e por que não dizer, de suas próprias identidades.

O grande entrave parecia consistir exatamente na dificuldade da grande maioria em entender que não é um órgão genital, apenas, que nos diz de nossa construção identitária, mas uma gama de fatores, sentimentos, emoções, identificações e desejos aliados, que formam complexos processos subjetivos para nos constituir em plenitude enquanto pessoa. Por outro lado, para nós capacitadores, ou melhor, pretensos facilitadores, o imenso desafio consistia em como conscientizar a grande parte dos presentes de que o fato de ser possuidor de um pênis ou de uma vagina pode não ser suficiente para uma pessoa se configurar e se constituir enquanto sujeito do masculino ou do feminino, sucessivamente. Sabíamos que falar de gênero nunca fora fácil para a maioria das pessoas, mas não se tornaria impossível se conseguíssemos que de boa vontade, os que ali estavam exercitassem a tendência e capacidade humana em admitir modos de pensar, de agir e de sentir diferentes dos de um indivíduo ou de determinados grupos, sejam esses políticos ou religiosos.

Por isso seria preciso mais que apresentar novas concepções conceituais, fazê-los entender que no amplo e vasto território das sexualidades humanas as categorias identitárias e classificatórias já não se mostravam suficientes e/ou adequadas para abranger às diversas e diversificadas orientações sexuais dos adolescentes e jovens inseridos no Programa. Era preciso acima de tudo oferecer-lhes o ambiente e o clima adequados às reflexões menos estanques e rígidas sobre as sexualidades, favorecendo análises mais abertas para poderem considerar as possibilidades de fluidez no fato e/ou ato de “ser” e “estar” hétero, homo ou bissexual em determinados momentos e/ou ciclos da vida. E nesse sentido investimos nossos esforços objetivando preparar o terreno para o objetivo principal e foco da capacitação.

As propostas levantadas pela equipe de Coordenação Técnica da qual fazia parte na época, visavam o atendimento as reivindicações das jovens travestis e transexuais quanto à necessidade e direito da adoção de seus nomes sociais, bem como, relativas ao uso dos banheiros femininos, nos Centros da Juventude. Levantou-se então o principal questionamento: afinal de contas, “os mesmos” deveriam ser considerados enquanto sujeitos do feminino ou do masculino? Iniciamos discutindo sobre o emprego do artigo definido, bem como sobre as possibilidades plurais de configurações de masculinidades e feminilidades. Não para nossa surpresa, o corpo anatomo-fisiológico lhes servia como principal fundamento, e por tanto, considerava-se homem todo indivíduo com pênis e mulher quem tinha vagina. O discurso estava pautado no recorte do sexo biológico e não no de gênero como desejávamos. Para a maioria era impossível desvincular a concepção biológica da construção da identidade de cada sujeito, e logicamente desconsideravam a subjetividade envolvida, na contramão da concretude de um falo ou ausência deste.

Outra discussão se referia à contrariedade da concepção aprendida sob o prisma legal. O nome designava o sexo de cada adolescente e jovem daqueles centros, logo se deveria respeitar tal normatização. Tudo isso de certa forma já nos era esperado. Mas, o mais preocupante era o fato de que para alguns daqueles profissionais o programa deveria atuar numa perspectiva de ajuda aos jovens que enfrentavam uma fase transitória e conflituosa. Em outras palavras, em suas concepções pessoais e profissionais era preciso adequar e contribuir com os jovens que apresentavam as tais “famosas crises de identidade”, e nunca estimulá-los as possibilidades e variáveis de suas próprias sexualidades. Constatamos então que para muitos daqueles, aquela ainda era a concepção concreta de juventude, momento transitório ou conflituoso onde se precisa e se busca orientação direcionada, o que muitas vezes justifica uma fundamentação didática e conceitual pautadas nos dogmas cristãos.

Não conseguia esconder minha frustração diante da sensação de fracasso, avaliada por mim, sucessivamente, como falta de capacidade de persuasão e fundamentação teórico-metodológica. Porém o tempo e a experiência me mostraram a importância de persistimos em nossos intentos, e acima de tudo, de fortalecermos nossas convicções ideológicas para encontrar caminhos e estratégias de sucesso. Era preciso insistir em falar sobre o que acreditávamos e antes de partir sozinhos para a luta, angariar adeptos e parceiros a nossa causa. Também foi preciso compreender que muitas vezes não se ganha uma guerra em uma única batalha. Quase sempre se faz necessário aliar paciência a persistência para aproveitar as possibilidades que se apresentam e assim contribuir para o verdadeiro processo de transformação cultural de um povo e/ou sociedade.

Aquela batalha estava vencida, mas não perdida. Outros momentos mostraram-se mais proveitosos. Foram capacitações, encontros, congressos, oficinas, mesas redondas, mini cursos e palestras. Era preciso multiplicar a informação para abrir espaços para discussões mais profundas e abrangentes. E se dois anos podem parecer muito tempo para a efetivação de mudanças que se mostram urgentes para a garantia de direitos de igualdade, os mesmos tornam-se insignificantes quando comparados a séculos de estruturação e formação de uma cultura tão tradicionalista como a pernambucana. Fato é que hoje me sinto participe desse processo de mudança, e fortalecido no meu entendimento relativo ao real sentido e significado do que vem a ser direitos humanos. E acima de tudo, sinto-me orgulhoso por contribuir para o fortalecimento de que enquanto sujeitos, somos livres para as mudanças que se fazem e se fizerem necessárias, não só no coletivo ou individual, mas principalmente no âmbito pessoal, seja no que se refere aos ajustes e alterações dos corpos, nomes ou identidades.

Assim, parabéns a todos os profissionais conscienciosos e cumpridores de seus papéis. Parabéns a todas as travestis e transexuais conscientes de suas capacidades de luta pela conquistas de Respeito, Dignidade e Direitos. A primeira etapa já foi consolidada na representação de Lei. Agora é exigir a aplicação do que agora se transforma em norma e regra de conduta moral e social.

Parada da Diversidade/SP - 2010.