quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O NATAL DAS[NAS] RUAS DO RECIFE


João Pessoa/PB.

"Eu Pensei que Todo Mundo Fosse Filho de Papai Noel..."
Hoje eu vi um menino invandir uma lata de lixo. Não me espantei com o fato ou mesmo com a voracidade com que vasculhava o interior do vermelho receptor de lixo afixado ao poste em frente a meu prédio. Mas sem falsos moralismos, me absmei com a indiferença dos tantos que se alvoraçavam nas lojas da cidade. Ele era magro e de pequena estatura, o que lhe possibilitava explorar com as pequenas mãos o interior do recipiente. Restos de comida eram então depositados em um saco plástico que ironicamente estampava a logomarca de rede de supermercados. Misturadas as migalhas vinham detritos que eram cuidadosamente separados e depoisitados num canto sobre um pedaço de papelão velho. Depois de sucessivas investidas o garoto apanhou o amontoado de lixo que não lhe servia e voltou a depositá-los no lixeiro. Se baixou, apanhou a pequena sacola plástica, verificou seu conteúdo e seguiu rumo ao próximo poste.
Parecia não havia resignação em seus atos, nem tão pouco deixou transparecer vergolha ou revolta por sua condição. Ao contrário, revelava uma determinação e prática por demais peculiar a quem tem fome. E não falo apenas da fome de comida que se sente e se sacia, mas da fome de dignidade e respeito que adquirimos ao nos tornarmos conscientes de que todos somos igualmente sujeitos de direitos. Mas o corpo desnudo daquele garoto evidenciava não só a total falta de tal consciência, mas, mais que isso, revelava a fragilidade física e moral dos que não conseguem acessar as possibilidades mínimas necessárias ao desenvolvimento saudável.
Me perdi pensando sobre qual idade teria aquele garoto. De onde vinha, para onde iria, o que sabia da vida, e acima de tudo, o que tinha aprendido ou estava por aprender nas ruas. Meus olhos permaneciam fixados em sua imagem. E naquele momento era mesmo como se tudo ao redor houvesse desaparecido. Apenas ele me despertava a atenção, pois que inclinado sobre outro coletor parecia indiferente aos empurrões e reações de indignação dos transeuntes que se atropelavam com suas sacolas e presentes.
Pouco tempo depois o garoto repetiu seu ritual. Recolocou o lixo não aproveitável de volta ao lixeiro e seguiu adiante com sua sacola repleta de resíduos alimentares. De onde realmente teria vindo aquele menino? Rebusquei na memória e não consegui identificá-lo entre as tantas crianças que povoam as ruas do centro do Recife. De certa forma posso assegurar que conheço quase todos os habitantes de minhas calçadas, pois que há muito se tornaram meus vizinhos. Mas aquele garoto não era desse perímetro, não frequentava esse quarteirão e muito menos circulava no meu campo de visão.
Seria ele um novo estranho que encontrara nas ruas agitadas do centro da cidade o abrigo necessário a sua sobrevivência? Seria mais um dos tantos que buscam as ruas nos finais de ano atras das tão gratificantes esmolas? Tudo e nada podia ser. Eu não sabia nada de sua vida e história. Como a maioria das pessoas não sabem nada sobre a população em situação de rua. No entanto, o mas estranho é que ele não estava mendigando como os demais que ocupam as calçadas e cruzamentos do Recife. Não, ele estava buscando comida. E tabém pelo jeito como se comportava não demonstrava fome aparente naquele momento. Então talvez, aquela comida coletada das sargetas urbanas fosse a provisão da noite solitária e vazia, ou mesmo, a garantia de sua única refeição no dia seguinte.
Mas se assim o fosse significaria que amanhã aquele garoto não iria para casa jantar com sua família. Que talvez nem tenha uma família com quem partilhar sua ceia, e muito menos uma verdadeira ceia digna de ser compartilhada. E amanhã, novamente por mais uma ironia da vida, é véspera de natal. Então pensei que talvez nem mesmo soubesse de tal coincidência, pois que para ele hoje seria apenas mais uma das tantas quintas-feiras em que coleta os restos de comida das cidades. Assim, amanhã será também apenas mais uma sexta-feira agitada na qual seu estômago irá emitir os mesmos roncos vazios e ele recorrerá novamente aos restos que não destinamos nem aos porcos.
Duvidei em seguida da minha própria lógica, pois seria impossível não saber de tal data mesmo perdido em referencial cronológico ou histórico. As vitrines lhes diriam. As lojas apinhadas revelariam um frenesi traduzido no desvario e entusiasmo delirante do consumismo que aquela não seria uma quinta-feira comum. Seria fácil identificar a existência de algo diferente no ar. Mesmo indiferente ao agitado movimento do vai e vem humano que entope e congestiona as ruas desestruturadas e esburacadas do Recife, seria impossível não reconhecer a influência das luzes e cores que iluminam a cidade provocando o tão comum arrebatamento de excitação coletiva. A anciedade das pessoas em busca das melhores ofertas e promoções não passariam imperceptível nem mesmo a um cego, o que diria a uma criança.
Definitivamente concluir que estava errado. Aquele garoto sabia sim da existência e da proximidade do natal. Talvez contudo, não saiba ao certo seu sentido e/ou essência, se é que no natal existe algum tipo de sentido ou mesmo alguma essência para quem vive nas/das ruas. Como será então o natal para quem mora ou subexiste das ruas? As luzes coloridas não devem iluminá-los. Sim, pois ao contrário como poderíamos não vê-los ou percebê-los? Também não creio que existam papais noeis e logicamente não existem presentes. Eles não compram roupas novas e não brindam a passagem da noite magica e milagrosa, pois que para eles não existe esperança de milagres.
De minha janela me limitei a observar o garoto que agora sentava em um canto de um muro qualquer, provavelmente cansado ou perdido em devaneios e sonhos inalcansáveis. Meus olhos permaneceram gongelados. Eu estava frio e  estático mais uma vez, como em tantas outras situações e sircunstâncias em que me senti completamente impotente. Mais uma vez não sabia o que fazer. Não tinha respostas ou soluções concretas. Me resignei a me indignar diante de minhas próprias impossibilidades.
E ao contrário de me muitos, não me permiti chorar porque talvez isso aliviasse um pouco minha angústia e sentimento de co-responsabilidades. Naquele instante decidi que essa seria a imagem do natal que guardaria em minhas lembranças. Resolvi que não quero imortalizar as imagens das ruas e praças iluminadas e cuidadosamente decoradas, mas ao contrário, prefirei remoer mais uma vez minha incapacidade e fraqueza enquanto cidadão político e consciente das injustiças. Quero sim, cultivar e perpetuar essa indignação para que possa de forma consciente respaudar e justificar minha permanência e atuação ética e política na Assistência Social.
E entendo que se existe algo que tenho buscado preservar e fortalecer durante esses anos de investimentos e luta por igualdades e garantias de direitos, este refere-se a essa minha capacidade de ainda me poder e conseguir me sentir indignado diante de tais situações e fatos. Até porque sei e acredito que no dia que a perder me tornarei igual aos tantos cidadãos e políticos corruptos e descomprometidos que se mostram apáticos e insessíveis as mazelas sofridas por quem se encontra abaixo da linha da miséria. E isso me tornaria tão miserável e vulnerável quanto aquele e a tantos garotos que habitam as ruas das grandes cidades, pois que o pior tipo de falta e ausência não é a de comida que alimenta o corpo, mas a de consciencia social e política que só alimenta a alma de quem entende o que é justiça.
A todos uma boa noite de reflexões natalinas.

domingo, 19 de dezembro de 2010

NATAL: MOMENTO DE FÉ OU ESPAÇO DE EXCLUSÃO SOCIAL?



O NATAL COMERCIALIZADO NA MODERNIDADE
Lembro que quando criança o natal era sagrado. Com as férias da escola começavam os preparativos que incluiam roupas novas e compra (ou melhor confecção) de fogos. Tinha também a decoração e assim nos envolviamos na montagem da árvore de natal, simbólo maior da grande festa familiar. Algumas vezes ganhavamos brinquedos e a prática do amigo secreto formalizou a possibilidade de não se ser eventualmente esquecido. O peru era sempre preparado um dia antes, a casa precisa estar limpa e as crianças asseadas. A noite ficava iluminada e enquanto os adultos se reunião em conversas animadas, nós crianças aproveitavamos para brincar ou assistir aos especiais de final de ano. Confesso uma certa saudade desses tempos e não nego mesmo que o natal é um momento impar para o reencontro familiar onde os vinculos parecem se fortalecer.
No entanto, hoje percebo que o natal se tornou um produto de consumo. A gente não vive o natal em seu sentido, mas ao contrário, consumimos os produtos, que transformados em presentes parecem ter substituidos definitivamente os simbolos sagrados. Assim, a cada dia que passa acho que transformamos o natal em algo comerciável, disponível nas várias e luxuosas lojas dos shopping centers. Não existe mais o espirito natalino, mas em seu lugar figura o espírito do consumismo desenfreado, onde não nos basta ganhar o presente, mas quantificar e valorar o mesmo através das grifes e marcas. Assim, ninguém mais espera (ou deseja) receber uma simples lembrança como demonstração de afeto e carinho. Espera-se e anseia-se pelo ultimo modelo de celular, o CD do momento, a roupa da ultima tendência. Coisas concretas que possam ser exibidas e que passem também a exibir nosso status alcançado. Antes mandávamos cartões de natal com mensagens melosas e repletas de votos de felicidade. Hoje, enviamos e-mail ou cartões virtuais sem a menor criatividade (sem falar na falta de originalidade) a todas as pessoas de nossas redes de socialização. A tecnologia substituiu nossa capacidade criadora e inventividade. Nos tornamos pasteurizados em nome da modernidade e por isso perdemos a afetividade das palavras originais.
Desisti então de todas essas cerimonias impostas pela civilidade moderna e pela etiqueta comercial. Descartei de meu natal os velhos amigos secretos e trocas de presentes que para mim não fazem mais sentidos, até porque eles próprios perderam o sentido concreto. Na verdade não gosto mais do natal, pois que a data nos impõe uma felicidade impócrita e descabida, nos induzindo a confraternizar muitas vezes com pessoas com quem passamos o ano inteiro travando verdadeiras batalhas de guerra. Funciona então como uma trégua onde asteamos uma especie de bandeira branca e definimos um período de tempo (ou de horas, as vezes até de poucos minutos) para relações mais diplomáticas. Findada a trégua voltamos aos mesmos atos e comportamentos repreváveis e mesquinhos e assim tecemos novas redes de intrigas, fofocas, comentários maldosos, artimanhas e estratégias de luta que nos garantam a manutenção do poder que se dá através da efetivação das diferenças.
Penso então, porque comemorar o natal? Porque nos reunirmos em bares e restaurantes repletos de falsas felicidades e solidariedades direcionadas a quem voltaremos a apunhalar dias depois? Porque investir tempo e dinheiro comprando presentes para quem não gostamos, pelo simples azar de te-lo tirado no sorteio do amigo secreto institucional? Porque pintar a casa e colocar guirlandas nas portas e janelas se não estamos realmente abertos a receber o outro, princiaplmente os estranhos e os indesejados? Porque nos vestirmos de forma especial se toda a fantasia durará apenas uma noite e logo em seguida voltaremos a ser realmente quem somos (ou quem sempre fomos)? E finalmente, porque contribuirmos e participarmos de covenções chatas das quais não acreditamos mais (se é que realmente chegamos a acreditar algum dia)?
Penso também, que se o natal tem como objetivo nos levar a reflexão sobre nossos atos considerados politicamente incorretos, porque não perpetuamos seu espírito durante os trezentos e sessenta e cinco dias do ano? Assim, não precisariamos de uma noite para purgar nossos pecados ou sentimentos mais secretos e inconfessáveis. Estariamos limpos o ano inteiro. Mas talvez por ser estremamente cansativo nos mostrar integros e corretos, e acima de tudo éticos, definimos uma data para a caridade de nossa simpatia e respeito ao próximo. E logicamente esperamos que possamos ser entendidos e comprendidos em nossa logica comportamental e sentimental nataleira.
Porque insistimos naquele dia especial em nos sacrificar a sermos bons, atenciosos, prestativos, parceiros, espirituosos, solidários e fraternos? De irmos a missa e pedirmos aos céus por dias melhores para todos, se não fazemos durante o resto do ano por onde concretizar nossos desejos? Porque pleitearmos junto aos santos e entidades divinas melhores condições de vida aos desafortunados e àqueles que tiveram “menos sorte ou oportunidades” na vida ao invés de cobrarmos dos políticos? Porque muitas vezes até choramos pelo sofrimento alheio, por aqueles que vagam pelas ruas sem lar e sem abrigo, pelos famintos, doentes e morimbundos apenas na noite de natal? E acima de tudo, porque dessa forma imaginamos lavar nossa alma, livrando-nos do egoísmo e indiferença tão caracteristico da espécie humana?
Vivemos o extase e a plenitude da purificação durante todo o dia vinte e cinto, mesmo que na manhã seguinte mantenhamos os vidros e portas de nossos carros novamente devidamente travados para nos sentirmos seguros; que voltemos a não enchergar mais as pessoas em situação de rua; nos mostremos indiferentes as crianças e adolescentes em situação de prostituição e exploração sexual que se espalham pelas ruas da cidade; e, desconheçamos a quantidade enorme de pessoas que sofrem nas filas dos hospitais públicos por falta de respeito e políticas públicas sérias.
É por isso que neste natal, ao invés de fazerem seus pedidos ao “papai do céu” os aconselho a direcioná-los aos tantos “papais da terra” eleitos através de nossos votos. Particularmente não enviarei “cartinhas” ao papai noel, até porque a muito tempo já deixei de acreditar em duendes, fantasmas e pokemons. Aproveitarei esse espaço para apelar e cobrar aos políticos, sejam esses presidentes, governadores, prefeitos, senadores, deputados e vereadores, pois a eles realmente cabem o poder de transformar o natal uma data extensiva a todos, sem restrições e exclusões. Assim acredito que poderiamos transformar o natal não numa data de pedidos divinos, mas de consolidação de responsabilidades por parte daqueles que receberam nossos votos (não de feliz natal, mas de confiança e crença ideológica que depositamos nas urnas durante as últimas eleições).
Desta forma, resolvi começar minha relação de pedidos (ou melhor combranças) aproveitando o trocadilho com 2011, para lhes fazer onze simples pedidos:
1º - que pelo menos a partir deste natal, ao menos os políticos que elegi, se iluminem de boa vontade e lutem pela aprovação de leis mais justas que possibilitem a efetivação do exercicio do respeito as diferenças e igualdade de direitos para todos independente de credo religioso, raça/etnia, idade, classe social, oreintação sexual ou identidade de gênero;
2º - que se conscientizem dos papéis que lhes cabem e horrem com seus compromissos e promessas políticas feitas durante as longas campanhas eleitorais, pelas quais receberam nossos valiosos votos;
3º - que montem suas equipes de trabalho com profissionais técnicos qualificados ao invés de distribuir as pastas governamentais entre amigos, conhecidos e correligionários partidários como tem pregado a tradição nacional;
4º - que entendam que fazer política é extremamente diferente de fazer politicagem, e que enquanto servidor se faz necessário gerir os recursos públicos com respeito e competência necessários, afinal de contas esse é um dinheiro do povo, que vem dos bolsos de cada um de nós, seus eleitores ou não;
5º - que passem a crompeender que os recursos públicos precisam retornar ao povo em forma de ações concretas que beneficiem à sociedade como um todo e que por isso devem ser aplicados em obras e ações eficázes e transparentes, e nunca em benefício próprio, pagamentos de propinas ou favorecimentos de amigos, parente e/ou aliados polítiqueiros;
6º - que invistam em ações que possibilitem a diminuição das diferenças e desigualdades sociais, garantindo saúde, educação, trabalho e renda e assistencia social de qualidade a todos, pois que essa é a única forma de contribuir com a redução dos altos indices de violência que tanto incomoda a burguesia que distribui sopas no natal e dá esmolas nas ruas;
7º - que dediquem maior atenção as políticas públicas voltadas ao enfrentamento da violência contra as mulheres, responsabilizando de forma séria e justa os agressores para efetivar o direito a vida das mesmas;
8º - que invistam seriamente em programas de inserção social voltados a população em situação de rua, mas nunca numa perspectivia higienista presente nas políticas atuais, e sim pautados nas premissas dos direitos humanos;
9º - que consigam perceber que a vida é um dereito fundamental e universal, e que consequentemente a educação de boa qualidade é a unica forma de se garantir o desenvolvimento saudável do ser humano;
10º - que passem a enxergar as crianças e adolescentes, independente de faixa etária, sexo, classe social, raça/etnia e oreitação de gênero, como patrimônio universal, sujeitos de desejos e também sujeitos de direitos, cabendo ao Estado a garantia das condições necessárias a manutenção de sua integridade física e mental, bem como ao seu desenvolvimento saudável;
11º - e que finalmente consigam se tornar exemplos em dignidade, honestidade e ética para os milhôes de eleitores que depositaram suas crenças e esperanças em seus nomes, e que por isso nunca se permitam deixar iludir e encantar pelas facilidades e possibilidades sedutoras das falcatruas, propinas e ações ilícitas que tanto mancham o cenário político nacional.
É dessa forma, que também aproveitando o momento natalino, proponho transformar essa carta em corrente, como as tantas correntes vazias e desconexas que enchem incansávelmente nossas caixas de e-mail durante o ano. Meu objetivo é fazer essa relação de pedidos-lembretes chegar aos milhões e milhões de brasileiros que como eu acreditam que o natal não pode se restringir a uma única data, e que muito menos pode se mostrar e/ou se fazer tão excludentemente comercial como a muito se tem verificado.
Ruas do Recife/PE, 2010.

Ruas do Recife/PE, 2010.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO BRASIL - Capitulo IV - Quem Foi Pedro Álvares de Cabral?



QUEM REALMENTE DESCOBRIU O BRASIL?

Acho que era início dos anos setenta, talvez metade, não sei ao certo. Faço as contas considerando que entrei para a escola formal com sete anos de idade, logo entre 1973 e 1974. Logo que comecei minha jornada estudantil fiquei fascinado pelas histórias que ouvia em salas de aulas. Estas envolviam sempre grandes heróis de verdade que realizavam descobertas capazes de mudar o mundo. Sempre gostei de histórias, mas aquelas eram diferentes porque eram de “verdade verdadeira”, como chamávamos na época. Assim me tornei um bom e aplicado aluno na disciplina de história (antes a gente chamava de “cadeira” ao invés de disciplina) e aprendi a decorar nomes e datas importantes. Lembro de uma prova que tirara nota máxima por ter dado apenas uma resposta para três grandes e difíceis perguntas: Quem descobriu o Brasil? Em que data o Brasil foi descoberto, e como os descobridores chegaram as terras brasileiras?

De imediato respondi que os portugueses eram grandes navegadores que dominavam os desconhecidos mares bravios e revoltos, e que por isso, no final do século XV várias embarcações denominadas caravelas partiram mar a dentro a caminho das índias. No comando da tripulação que incluía marinheiros, soldados da Coroa Imperial Portuguesa e religiosos, estava Pedro Álvares de Cabral, corajoso navegador que viria a se tornar o maior herói brasileiro. Eles viajaram por muito tempo em águas desconhecidas e enfrentaram grandes tempestades. Algumas caravelas naufragaram e muitos tripulantes morreram. Perderam a rota que os levaria as índias, terras ricas em ceda, ouro e especiarias que tanto encantavam os reis de Portugal. Ficaram perdidos por muitos e muitos dias em alto mar, até que graças à inteligência de Cabral conseguiram encontrar uma nova rota que os levaria ao destino certo. No dia 22 de abril de 1500, Pedro Álvares de Cabral avistou um grande monte de terra a sua frente e gritou: “terra a vista!” Ele acreditava que se tratava de uma nova ilha, ainda desconhecida pelos navegadores europeus. Como era época da páscoa, lhe deu o nome de “monte pascoal” e ao desembarcar em terra firme encontrou vários indios. Por isso acreditou que tinha finalmente chegado às índias. Mas como não havia mercadores, nem cedas e muito menos ouro percebeu que tinha descoberto terras onde habitavam homens nativos que andavam nus e não sabiam falar. Voltou então para Portugal e registrou sua descoberta. Anos depois os portugueses perceberam que aqui existiam muitas árvores conhecidas como “pau-brasil”, e assim, batizaram nossas terras com o nome da mais importante árvore nacional.

É lógico que na época a minha escrita não era exatamente essa, porém como relembro da prova (ou talvez da nota, por ter sido o meu primeiro 10) tentei manter a essência do conteúdo textual. Mas o importante é que comecei a me considerar inteligente a partir daquele momento, afinal de contas sabia falar sobre a história do Brasil. Assim, durante os muitos anos seguintes de estudo acreditei piamente que o Cabral tinha sido um inocente desbravador que também inocentemente descobrira o Brasil. Mesmo sem entender direito os reais motivos e fatos históricos, por muito tempo acreditei que nossa existência e desenvolvimento (ou seria processo de civilização?) estaria ligado a uma espécie de acidente geográfico. E de certa forma, dava graças a Deus por termos sido descoberto, uma vez que imaginava, caso não tivesse acontecido eu não poderia ter nascido. Ou seja, devia minha própria existência ao Cabral. Porém, apesar de todo meu interesse e esforço para entender a história do Brasil, bem como adimiração e fascínio pelo nosso primeiro grande bem feitor, concluia a cada dia que nunca soube de fato a história completa. Por exemplo, nunca soube onde nascera o Pedro Álvares de Cabral, qual sua idade na época que descobriu o Brasil, quem fora sua família ou como fora sua vida antes de se tornar esse grande descobridor. Era como se sua vida começasse naquele momento, o que significaria que ele não tinha um passado. Mas como então poderia ser? Já não acreditava nos contos de fadas e sabia que o descobrimento não havia se dado por um passe de mágica. Pensava eu, que talvez por forte intuição aquele homem tivesse deduzido que havia novas terras do outro lado do continente e que também sem grandes explicações ou experiência o mesmo tivesse nos descoberto.

O pior de tudo é que para mim ele representava nossa origem. Isso quer dizer que em minha concepção éramos unicamente descendentes de portugueses. Isso porque até aquele momento não sabia ou entendia o que era miscigenação, e muito menos imaginava a possibilidade das misturas das raças. Na verdade nem ao certo sabia como nascíamos, apenas não mais acreditava na velha fábula da cegonha que nos trazia emburalhos numa frauda presa a seu bico. Assim também não poderia imaginar que essa missigenação significaria contato sexual entre os indivíduos de culturas diferentes. Sexo era uma coisa proibida para crianças, pois ameaçava nossa inocência e desenvolvimento mental. Ninguém falava de sexo, e muito menos entre brancos e outras pessoas de "etnias inferiores". E foi dessa forma que cresci também acreditando que era branco e que nada tinha haver com os índios, que eram selvagens; e os negros, que eram escravos e por isso inferiores. Será então que é assim que se desenvolve a xenofobia? E será que a aversão e preconceitos as diferenças, sejam culturais, etnicas e sexuais são construídas também com a influência da educação formal? Acho que isso é outra discussão para momento posterior.

O que desejo realmente destacar é o fato de que naquela época nós aprendíamos por pedaços, ou melhor, por partes. Primeiro sabíamos dos feitos dos grandes heróis para depois descobrir quem realmente foram esses homens e quais os motivos que os trouxeram até aqui. Na verdade o processo de aprendizagem se tornava uma grande e complicado quebra-cabeças que não conseguíamos completar nunca. Um exemplo dessa desestruturação pedagógica (na minha leiga concepção, claro) é o fato de que a primeira palavra que aprendi a soletrar foi “chocolate”. Como já disse antes, lembro que o processo de ensino se dava pela associação das sílabas que formam as palavras. Assim a professora me ensinara que: a torneira fazia “Chó”; a galinha fazia “có”; e o cachorro “late”. Isso era igual a "cho-co-late". Mas como saber da suada feita pela água que escorre de uma torneira se em minha casa, ou melhor, em meu bairro (hoje chamado de comunidade) não existia saneamento básico?

Ah, mas a grande questão era que na escola onde estudava tinha torneiras e logicamente água encanada (como chamávamos). Logo, a escola se tornava um espaço distante de minha realidade. Eu então tentava associar o som do “Chó da torneira da escola” com o “chuá” que saia da suada da água que tirava da cacimba com uma lata para encher a bacia em que tomava banho todos os dias. Fato é, que aprendíamos a associar devidas sílabas aos ruídos, barulhos e sons imitados com um fonema ou palavra, sem mesmo saber que isso era classificado como onomatopéia (figura de linguagem onde determindas palavras pronunciam a imitação do som natural das coisas significadas, tais como: murmúrio, sussurro, cicio, chiado, mugir, pum, reco-reco, tique-taque, etc).

Mas também, penso que seria demais entender uma coisa que nem conseguiriamos pronunciar. O-no-ma-to-pé-ia, seria assima a separação de sílabas? E a que sons irríamos associá-las? Não. Realmente as professoras tinham razão, haveria uma época e idade certa para aprender determinadas coisas. O problema talvez é que eu sempre gostei de me antecipar. Acho mesmo que tinha pressa em aprender novas coisas. Era por demais curioso, e isso me fazia sempre inconformado com o pouco de informações que me davam. Hoje penso que doses homeopáticas só surtem efeito em tratamentos de saúde, mas não em educação juvenil. E sempre acreditei que os professores estivessem alí para responder nossas perguntas e esclarecer nossas dúvidas, mas ao contrário estavam apenas para determinar quando e o que deveriamos aprender (ou decorar para responder nas avlaiações orais).

Mas o que importa que também não conhecia chocolate, e muito  pior  que  as torneiras, só os econtrava nas figuras dos livros, pelos quais saberia que era doce, de uma cor marrom escura e derivava do cacau. Mas o que era mesmo cacau? Seria alguma espécie de árvora de dava chocolates pendurados e já embrulhados como os das figuras que via? E mais uma vez nos livros descobria que cacau era apenas o fruto e que era derivado da Bahia. Aí a coisa se complicava mais ainda porque não sabia onde ficava esse lugar? Até aquele momento eu achava que tudo era Brasil e ninguém nunca tinha falado nessa tal de Bahia, e muito menos que Cabral foi quem descobriu as terras bahianas, que para mim era descoberta do maravilhos Jorge Amado ( a quem só descobri muitos anos depois).

Acho que esse é um excelente exemplo que demonstra como o ensino deixava em aberto várias dúvidas em nossas pequenas cabeças. Não nego, contudo, que de certa forma isso nos estimulava a buscar novas respostas, mas considero que tal fato ou argumento não se generaliza. Se considerarmos que a escola falava de coisas (ou ainda fala?) que não conhecíamos, das quais não tínhamos referências concretas, como se conseguia manter a atenção, concentração e interesse do aluno, se a vida através das descobertas reais se mostrava mais prazerosa aos mesmos? Se pelo menos os professores aproveitassem nossas dúvidas para ampliar a discussão e nos fornecessem assim maiores informações que satisfizessem nossas inquietudes, talvez até a coisa se tornasse mais atrativa, e talvez tivéssemos “descoberto” na época quem finalmente tinha sido o grande Pedro Álvares de Cabral e tantos outros importantes personagens de nossa história. Será então que tal processo de ensino-aprendizagem contribui de alguma forma para a grande evasão escolar? (peço então descupas por tantas conjecturas sem grandes fundamentos, afinal, são apenas reflexões pessoais).

Revendo então essas lacunas, mais uma vez resolvi recorrer a internet, aos livros didáticos e pesquisas para descobrir que o tal Cabral nascera no castelo de Belmonte. Logo, ao contrário do que me ensinaram, ele nunca foi um pobre e inconsequente navegador que se arriscava por mares revoltos e desconhecidos. Na verdade, era o terceiro filho do fidalgo português que foi governador da Beira (uma das seis províncias em que se dividia Portugal até o século XIX) e alcaide-Mor de Belmonte (magistrado de origem nobre, designado pelo rei e que desempenhava funções militares em uma cidade ou província) Fernão Cabral e de sua esposa, também de família nobre, Isabel Gouveia de Queiroz.

O tal descobridor foi na verdade educado na Corte de D. João II, tanto que aos onze anos de idade se mudou para Seixal, onde estudou em Lisboa, literatura, história, ciência e artes militares. Mais tarde, o já jovem Cabral se especializou em cosmografia e marinharia, voltando a corte como fidalgo. Assim, percebe-se que o mesmo era um astuto homem do mar e que portugual já dominava a navegação a muito tempo. Então porque é que não me disseram isso antes e não me explicaram melhor as regras do jogo que se dava na Europa, o que possibilitava aos descobridores a se apossar de terras pretensamente descobertas? Será que não teria idade e inteligencia suficiente para entender, ou os professores da época estavam desinformados por também não tinham lhes contados tais detalhes?

Voltando a Portugual e suas artimanhas políticas, descobre-se que com a morte do Rei D. João II (mas então não era o D. João VI?), seu primo D. Manuel I sobe ao trono e outorga ao tal Cabral o título de Fidalgo do Conselho do Rei, conferindo-lhe o hábito de cavaleiro (título nobiliárquico ou título de nobreza dado aos fidalgos vassalos, ou indivíduos fieis ao rei em troca de status social e proteção) da Ordem de Cristo (ordem religiosa e militar criada em 1319), pelo qual recebia pensão anual em dinheiro. Assim, Cabral era na verdade pago pela corte para descobrir novas terras e ampliar o poder português, o que fica dificil acreditar em sua pura e simples inocente sorte que o levou as novas terras continentais. Outro fato interessante é que nunca me disseram que havia um rei portugues antes do pai do D. Pedro I. Sempre soube que foi D. João VI que governava portugual quando nos tornamos colônia (acho que preciso urgentemente voltar aos registros históricos e pesquisas).

Bom, mas aos trinta e dois anos de idade, já em 1499, Pedro Álvares de Cabral foi nomeado Capitão-Mor da armada que se dirigiria a Índia, conhecida já na época como civilização do Vale Indo, que era um território da Ásia Meridional que serviu de berço para muitas civilizações, e que tinha rotas comerciais históricas e vastos impérios. Tal território era identificado como de grande riqueza comercial e cultural (o que significa que já eram civilizados). Desta forma, sua missão era estabelecer relações diplomáticas e comerciais com o “Samorim” (soberanos do antigo Estado Hindu), para reerguer a imagem de Portugal após a investida do também navegador Vasco da Gama (assim não confundam a Glória Perez com o verdadeiro descobridor dos caminhos das índias, dois anos antes de Cabral viajar, em 1497). O fato era que Portugual queria instalar um entreposto comercial ou feitoria (que se configuravam como simples casa ou até conjunto de equipamentos e estruturas militares ou de acolhimento e manutenção de navios, para além de armazéns, capelas e edifícios da administração, justiça e da diplomacia) nas ricas terras indianas e assim expandir suas relações comerciais.

Porém na viagem que durou 43 dias, a cruzada comandada por Cabral, mesmo seguindo a trilha já descrita e registrada por Vasco da Gama, afastou-se da costa africana após passar pelo Cabo da Boa Esperança (este, descoberto em 1488, pelo navegador portugues Bartolomeu Dias, hoje conecida como Cidade do Cabo, pertencente a África do Sul). Assim, o inocente Cabral resolveu mudar de rota e em 22 de abril de 1500 chegou ao Monte Pascoal, que era um pequeno monte com 586 metros de altura, localizado a 62 km de Porto Seguro, no estado da Bahia. Foi exatamente ali, segundo alguns estudiosos historiadores da modernidade, onde se registrou os primeiros contatos dos portugueses com os selvagens habitantes das terras brasileiras.

Penso então que seria por demais incrível, ou talvez fantasioso imaginar que apenas uma forte tempestade tivesse arrastado todas as caravelas, que formavam a mais cara e experiente espedição portuguesa, para uma mesma rota diferente. Não seria assim, mais provável que as caravelas se perdessem em lugares opostos e findassem em vários espaços oceânicos? Mas também não vamos exagerar, afinal parece até que algumas se perderam no caminho (quantas eram mesmo as caravelas, ou naus? Talvez 11?). De qualquer forma, revelam alguns estudos, que quando perdidos a tripulação percebeu que aves atravessavam o oceano em direção contrária a África, o que logicamente os levou a pensar na existencia de terra nas proximidades. Esperto e especialista em marinha, Cabral seguiu então a rota das aves e depois de alguns dias e milhares de milhas navegadas em águas calmas chegaram a avistar novas terras (é assim que se calcula as distancias maritimas?). No entanto, o que mais me chama a atenção e o fato de acharam que tinha finalmente chegado as Índias. Acho mesmo que neste sentido, a única semelhança entre as duas terras consistia no nome dado as habitantes de sexo feminino que se mostravam exuberantes e lindas em sua nudez. Se buscavam as riquesas da Índia e esperavam estabelecer relações diplomáticas com o governo e ricos comerciantes como poderiam imaginar, diante de tão extença mata virgem, que ali estivesse o rico, desenvolvido e civilizado povo hindu? Ainda mais, considerando que Vasco da Gama já havia aportado tais terras indianas? Assim, penso que muito além de um simples descobrimento que se deu ao acaso, os portugueses já conheciam a existência das terras americanas e logicamente resolveram se antecipar aos Espanhoes. Não seria, por exemplo, o mesmo processo atual pelo qual a Nasa - agência America, se apressa a chegar em Marte? Afinal de contas que acha, torna-se dono, ou não será tão simples assim?

O que se destaca é que dois dias depois de chegarem as novas terras, a as caravelas seguiram rumo ao norte em busca de abrigo, chegando a Terra de Santa Cruz (baia localizada ao extremo sul do estado baiano, onde hoje se localiza o munícipio de Santa Cruz Cabrália), e por lá permaneceram até dia 02 de maio. O então confiante e grande navegante, em nome da Coroa Portuguesa, tomou posse das terras brasileiras, batizando-as de Ilha de Vera Cruz. Em seguida, logo enviou uma de suas embarcações de volta a Portugual para oficializar a notícia que se daria através da Carta de Pero Vaz de Caminha (primeiro registro oficial brasileiro, considerada como marco inicial da obra literária nacional). Assim, cinco dias após o “descobrimento” foi celebrada a primeira missa católica no Brasil, realizada em 26 de abril, num domingo de páscoa, pelo Frade Henrique Coimbra, oficializando a colonização portuguesa.

E como não se poderia deixar de enxergar, fica dificil acreditar no desconhecimento por parte de tão experiente navegador sobre a existencia de terras no novo continente. Mais incrível seria acreditar que após todas a disficuldades e turbulencias fantasiosamente enfrentada (ou inventadas?) pelas tripulações das caravelas, Cabral tivesse devidamente registrado o caminho de volta a Portugual com tanta precisão e rapidez. Mas considerando nossa história oficial, talvez o mesmo tenha realmente aprendido com as aves que sobrevoavam o oceano Atlantico naqueles dias em direção ao continente e serviram como orientadoras bússulas divinas aos náufragos inocentes e perdidos navegantes .

De qualquer forma acho que considerar o Tratado de Tordesilhas, de 07 de junho de 1497, ou seja, dois anos antes de Cabral sair para sua grande aventura pelos caminhos da Índia, assinado entre o Reino de Portugual e o recém formado Reino da Espanha, possa nos dar algumas pistas mais concretas sobre as “Reais” intenções dos nossos conterraneos portugueses. A todos, boa viagem rumo as novas descobertas.




sábado, 4 de dezembro de 2010

A VERDAERIA HISTÓRIA DO BRASIL - capítulo III - Reencontro com a África Brasileira

Maceió/AL - 2008

QUILOMBO DOS PALAMARES - Primeiro Modelo de República Verdadeiramente Livre das Américas.
Era uma vez, um negro inocente que chegava as terras brasileiras acorrentado e arrastado mato adentro. Aquela não era uma viagem comum, planejada ou desejada, mas era o mais significativo retrato do tráfico de seres humanos que tanto se fala e se combate nos dias atuais. O negro não conhecia aquele lugar e muito menos os perigos que enfrentaria. Apenas era conduzido de forma forçosa e sem grandes explicações ou justificativas. Não cometera crime algum, mas estava preso. Julgado pela imoralidade dos homens brancos e condenado a subjugação étnica praticada pelos civilizados europeus. De repente uma enorme colina surge à frente. Automaticamente seus olhos invadem a floresta e ele reconhece a similidade de sua terra. Tinha voltado para casa, pois que aquela região em muito se assemelhava a velha África. Era na verdade um pequeno pedaço de chão transplantado, que em muito se parecia com a região onde crescera livre. Perdido em pensamentos busca na memória os momentos de felicidades outrora vividos, porém o peso das correntes o trás de volta a realidade. Estava com as mãos e pés acorrentados a tantos outros da mesma cor, que arrastados atravessavam vales desconhecidos. Observa então ao redor e rapidamente avalia como mínima as possibilidades de fuga. Também não saberia para onde ou como fugir, afinal de contas havia atravessado um oceano inteiro. Vinha do outro lado do mundo, onde deixara suas origens. O medo, a revolta e a principalmente a saudade dos seus fizeram seus olhos mareados. Lágrimas caiam como que demarcando e definindo uma espécie de trilha. Sabia que retornaria aquela colina, e mais que isso, ali construiria sua aldeia e junto com sua gente voltaria a ser feliz em uma nova pátria.
Exatamente ali, entre os tantos montes, colinas e cômoros da antiga Serra da Barriga, no interior do estado de Alagoas, surgiria o maior e mais importante refugio dos negros escravos, que como ele, fugiriam em busca da liberdade. Alí seria erguido o quilombo dos Palmares. Numa região montanhosa que se estendia desde o planalto de Garanhus, no sertão pernambucano, até a serra dos dois irmãos, em Viçosa, município de Alagoas, e que se mostrava como terras virgem e extremamente férteis mostravam-se também propícias a implantação de uma grande e nova espécie de sociedade. A fantástica cidade seria então cortada de um lado pelos rios Ipojuco, Serinhaém e Una; e pelos Paraíba, Mandau, Panema, Camaragibe, Porto Calvo e Jucúpe de outro. Havia uma floresta povoada de árvores frutíferas e palmeiras pindoba que se localizava exatamente na divisa dos dois estados do nordeste brasileiro. Seu choro então começou a lhe fazer sentido, pois o cheiro do sal, oriundos das lágrimas e suores dos corpos escuros serviriam de rastro para um retorno à terra encantada. O negro ao passo que caminhava ia imaginando uma grande cidade onde voltariam a viver da caça e pesca em plena comunhão com a mãe natureza. Aquela região, não por coincidência então, seria escolhida para abrigar o maior e mais renhido centro de resistência negra em todo período colonial.
Este conto nunca foi ouvido, ou transmitido por nossas mães ou pais. Muito menos pelas nossas velhas e bondosas professoras a quem aprendemos a chamar de tia. Mas na verdade esse conto revela e integra a história de tantos negros barbaramente traficados dos confins africanos e que tanto contribuíram para o desenvolvimento nacional. A terra encantada, na verdade nunca foi um mito, mas realidade concreta estabelecida pelo primeiro movimento de resistência e lutas por direitos de igualdade racial no Brasil. Renegar ou ainda reduzir a importância de Palmares, e logicamente de Zumbi e tantos outros homens que ali viveram é negar nossa própria história e constituição social e cultural. Assim, o conto acima se referencia pelo histórico e justo resgate realizado por historiadores que acreditam como eu na importância de revisitar a história oficial do Brasil para que esta seja contada tal qual ocorreu de fato.
Em primeiro lugar é preciso salientar que “não foi um simples acidente geográfico e nem tampouco um campo de batalhas sangrentas que deu o nome a região de Palmares no altiplano da Serra da Barriga; foi a frondosa e grande Álea de Palmares que ali se estendiam, ululante e viçosa, magnetizada pela natureza portentosa dos trópicos, caprichosa na sua beleza e rica na sua fartura [...]Todas as palmeiras desta floresta deram aos negros aquilombados os alimento para o corpo e para o espírito, material para seus tijupares de amor e seus palácios e fibras para suas roupagens e estrepes na construção de suas defesas tiradas de seus caules endurecidos e fibrosos. E se mais não dessem, deram na saudade da África um pouco de esperança na terra magnífica que delas recebeu o nome Palmares [i].” Surge então o grande e historicamente renegado líder negro, Zumbi dos Palmares, símbolo máximo da resistência negra contra a barbárie da escravidão.
A bibliografia de Zumbi merece em si, um capítulo a parte, fato já realizado por verdadeiros historiadores. E no sentido de sintetizar a verdadeira história brasileira, saliento que me deterei apenas aos principais fatos que marcaram sua vida de luta por direitos humanos. Nascido em 1655, no quilombo dos Palmares, o pequeno descendente dos guerreiros “imbangalas” (ou jagas, de Angola), foi capturado pela expedição de Brás da Rocha de Cardoso, por quem foi entregue aos cuidados do padre do povoado de Porto Calvo, Antônio de Melo. Criado e educado no catolicismo, foi imediatamente batizado como Francisco. Na infância aprendeu a falar e a escrever em português e também em Latim. Inteligente, foi favorecido pela adimiração do padre, tornando-se aos doze anos coroinha na igreja matriz do povoado.
Porém ao completar quinze anos, o adolescente foge da pequena cidade e volta para Palmares, de volta a suas origens. Adota o nome de Zumbi (que significa guerreiro) e passa a trabalhar junto as lideranças do quilombo, participando de várias batalhas com as expedições enviadas pela Coroa Imperial. Em 1676 as tropas comandadas por Manoel Lopes Galvão invadem Palmares e no conflito, Zumbi é atingido com um tiro na perna. Dois anos depois o líder do quilombo Ganga-Zumba assina um acordo de paz com o Império Português.  Revoltado com a decisão, Zumbi envenena Ganga-Zumba e assume definitivamente a liderança de Palmares. Em 1685, no comando de mais de dois mil homens volta a atacar vários povoados pernambucanos em busca de armas e munições. Um dos grupos de ataque, no entanto, é derrotado pelos colonizadores e seu comandante, Antonio Soares, é capturado e torturado pelo bandeirante paulista André Furtado de Mendonça. Em troca da liberdade, o mesmo é convencido a revelar o esconderijo de Zumbi.
Segundo relatos, ao se reencontrarem, durante um abraço, Zumbi é esfaqueado no estomago pelo antigo companheiro de luta. Era a data 20 de novembro (atualmente adotado como dia da consciência negra), dia em que o quilombo dos Palmares foi novamente invadido de surpresa e vários homens foram mortos, incluindo Zumbi. Seu corpo foi levado ao povoado de Porto Calvo, onde deceparam sua cabeça por ordem do governador de Pernambuco enviaram a Recife para ser espetada em um poste e exposta em praça pública, onde permaneceria até sua total decomposição.[ii]
Uma das curiosidades relativas às batalhas e resistência dos negros do quilombo é o fato de Palmares ter se configurado como Estado paralelo. Independente da Coroa Imperial, o quilombo definia suas próprias regras e leis, forçando o Império a recuar em muitas das estratégias de controle e batalhas travadas. Registros históricos revelam, por exemplo, que o próprio Rei de Portugal, D. Pedro II, chegou a escrever uma carta a Zumbi, propondo o perdão a "todos os excessos que haveis praticado contra minha Fazenda Real" [iii]. Porém o perdão estaria condicionado ao fato de Zumbi e todos os seus comandantes e capitães tornarem-se fiéis e leais súditos da Coroa Portuguesa, possibilidade não considerada pelo líder negro.
Outro fato refere-se ao desfecho da sangrenta batalha na cidade de Macaco, capital do quilombo. Segundo alguns autores, Zumbi a se ver impotente diante da situação, preferiu lançar-se num despenhadeiro junto a vários guerreiros, a voltar à escravidão marcada pelas algemas e exploração do trabalho forçado. Assim verifica-se, que o grande líder negro era acima de tudo um detentor de grande fascínio sobre seus liderados, algo que talvez justifique tamanho sacrifício por parte de tantos. Mas independente disso, fato é que para a Coroa Real a destruição de Palmares, bem como a subjugação de seu líder máximo, não era apenas uma necessidade, mas representava antes de tudo uma questão de honra. Penso que com a morte de Zumbi, não se marca a soberania hegemônica do homem branco no Brasil, mas ao contrário, se reafirma a primazia de um líder que em muito contribuiu para consolidar a “primeira república verdadeiramente livre das Américas". E isso em pleno século XVII, onde um Brasil era apenas uma colônia e a monarquia era a referencia de civilização e modernidade social.
Nesse sentido é preciso recontar a história pernambucana, pois a república não surge apenas de um movimento burguês contra a monarquia e em busca da soberania e cidadania brasileira, mas sim de um passado de luta por direitos e conquista da liberdade cultural de um povo e de uma raça que ainda hoje luta por igualdades e reconhecimento. É preciso esclarecer as nossas “antigas tias” de escolas desatualizadas que história incompleta (ou compilada) torna-se conto, e este se configura apenas como narrativa pouco extensa, concisa, e que contém unidade dramática, concentrando-se a ação em apenas um ponto de interesse. Acredito assim, que seriamente não se educa um povo através de contos, que se tornam engodos e embustes, mas unicamente através da história verdadeira e completa, respeitando os personagens reais e fatos vividos em sua integridade. Em suma, a história não pode ser mutilada para satisfazer interesses e salientar ou hiper-valorizar primazias de uma determinada categoria ou classe em detrimento de outra, atendendo a interesses puramente políticos que objetivam a manutenção do poder. Faz-se necessário fornecer os elementos concretos que estimulem as possibilidades de reflexão por parte dos ouvintes de cada história, principalmente entre nossos jovens alunos, afinal de contas a ditadura também é coisa do passado.
É urgente a necessidade de se “dar nome aos bois”, pois que nossa história que é pernambucana, e consequentemente brasileira, se fez e se faz através de recortes de classe, gênero e raça, com heróis/heroínas, mocinhas/mocinhos e bandidos/vilãs de ambos os lados. Por isso não cabe ao Estado estabelecer e “ensinar” os heróis nacionais, pois que esses cabem a escolha popular, que o fará por identificação ideológica, afinidade, confiança e respeito aos mesmos. À escola cabe a neutralidade e concretude dos fatos, e não a manipulação maniqueísta onde o bem sempre vence o mal. Até porque neste sentido é preciso primeiro definir o que realmente significa “bem” e “mal”, como também se buscar entender sob que perspectiva tais conceitos se estabelecem e acima de tudo a quem beneficia. É neste sentido que proponho então que deixemos os contos apenas no campo das “fadas” e das “carochinhas” e partamos para ensinar as nossas crianças diferenças básicas entre contos e histórias, objetivando melhor a qualidade do ensino brasileiro.
[1] Fonte: HTTP://www.zbi.vilabol.uol.com.br
[1] Fonte: HTTP://educacao.uol.com.br/biografias
[1] Fonte: www.pe-az.com.br

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO BRASIL - Capítulo II - A Origem dos Quilombos


Blumenau - SC, 2008


QUILOMBO DOS PALMARES - Outra História Que Sua "Tia" Nunca Contou.
Quando criança, sempre que lia em algum livro ou mesmo assistia na televisão filmes ou novelas algo sobre a escravatura, me perguntava porque se os negros eram maioria e trabalhavam armados com facões, enxadas e demais equipamentos de manuseio da cana-de-açúcar não se rebelavam contra os senhores de engenho. Para mim era estranho imaginar que homens fortes e temidos se deixassem acorrentar e subjulgar por outros homens aparentemente mais frágeis. Na verdade nunca entendi como um ser humano era capaz de suportar tanta arbitrariedade e humilhação sem esboçar reação ou lutar contra o sistema de opressão.
Imaginava então o quanto eram burros os negros, e me perdia mesmo imaginando estratégias de fuga ou de confronto. Para mim era fácil acreditar que se todos se reunissem e lutassem contra os mal feitores, logicamente sairiam vitoriosos. Seria como nos antigos filmes de faroeste americano onde os indios expulsavam os brancos invasores. Acho que essa inquietante pergunta, para qual não encontrava respostas em livros e menos ainda nas escolas, me fez desenvolver uma certa angustia em relação a passividade humana diante de situações de opressão. De certa forma, por muito tempo me indignei com o fato dos negros serem naquela época tão passivos. Como podiam, por exemplo, assistir inertes a um de seus membros ser chicoteado até a morte, algemado em um tronco?  Porque não reagir e partir para o ataque?
Hoje penso no quanto fui tolo e no quanto a minha inocência de infância não me permitia entender as coisas e fatos de forma mais ampla. Acredito até que éramos na verdade adestrados para esse fim. Afinal de contas nunca se podia questionar um professor, e muito menos, duvidar de suas informações. É que sou de uma época onde os professores eram autoridades. E depois dos pais e do padre, os professores eram pessoas a quem devíamos obediência cega e irrestrita. E como já dito antes, nas aulas a escravatura era passada como algo quase natural. Era-nos dito que os negros eram inferiores e que biologicamente (ou naturalmente) eram aptos para o trabalho pesado. Assim, de certa forma assimilamos que negro não tinha inteligência e que nunca poderia, por exemplo, ser doutor. Eles eram serviçais, braçais e perigosos, por isso nunca se podia confiar plenamente nos mesmos.
Durante minha infância e adolescência sempre que uma pessoa negra tentava contrariar essa regra e buscava novos espaços, eu ouvia os adultos dizerem que aquele era “um negro metido a gente”. Tinha até um ditado popular muito usado que dizia que “o negro quando não caga na entrada, caga na saída”. Atualmente refletindo sobre o meu passado percebo que se naquela época, quase um século depois da abolição da escravatura, era difícil ao negro se firmar enquanto sujeito de direito, imagina na época da colonização portuguesa.
Achei que era então tempo de buscar por respostas concretas a minha angustiada inquietação sobre a passividade dos negros escravos. E descobri o quanto fui enganado em minha formação. Comecei então a entender o quanto seria difícil que os mesmos, ainda que em maioria pudessem reagir diante de capazes ferozmente armados, quando muitas vezes eram colocados para trabalhar algemados ou presos a grossas correntes, atados uns aos outros e vigiados por homens a cavalo. Pior ainda seria tentar fugir para algum lugar totalmente desconhecido, perseguido até a morte pelos capitães do mato. E mesmo diante de todos esses contratempos e fatores desfavoráveis os negros nunca se mostraram passivos, mas pelo contrário se fortaleceram em movimentos de resistência e luta.
Hoje entendo que se a escravidão perdurou por tanto tempo, em hipótese alguma foi por falta de iniciativa ou coragem dos negros traficados da África, mas porque o sistema de opressão era estrategicamente pensado e elaborado para mantê-los subjugados. Exemplo disso era o fato dos colonizadores espalharem os negros de uma mesma nação por áreas geográficas diferentes e distantes. Assim, membros de um mesmo grupo eram separados ainda nos portos ou mercados de escravos. Com as nações misturadas, tanto a comunicação como as relações eram dificultadas entre os próprios negros, pois apesar da mesma origem continental, as culturas eram diversificadas.
Outro grande exemplo da não inércia ou passividade diante da opressão era o fato histórico (logicamente não valorizado em sala de aula) de que em pleno  século de 1600, existia nos confins dos sertões brasileiro um lugar para todos, chamado Palmares. As autoridades pernambucanas estimavam que em tal quilombo se somava uma população aproximada de três mil pessoas, entre índios, negros e brancos. E suas estimativas eram baseadas nos registros de fugas dos negros escravos, contabilizadas diariamente pelos senhores de engenho.

Neste sentido, na atualidade dispomos de registros e pesquisas onde historiadores, antropólogos e sociólogos e mais uma infinidade de acadêmicos das mais distintas áreas destacam que independente do mito, o Quilombo de Palmares, já naquela época representava uma estrutura alternativa à sociedade colonial. Palmares era na verdade uma rede de cidades, formada por onze povoados, entre os quais, Amaro (com média de cinco mil habitantes e estrutura bastante organizada), Subupira (a 36 Km da capital Macaco), Zumbi, Tabocas, Acotirene, Danbrapanga, Sabalangá, Andalaquituche.
Tinha como capital o povoado de Macaco, localizado na Serra da Barriga, e contava com uma população aproximada de mil e quinhentas pessoas. Havia infraestrutura organizada com oficinas de artesões, igreja para orações e ruas espaçosas. A agricultura era desenvolvida de forma mais avançada que a da colônia. Pois, enquanto esta conhecia apenas a produção da cana de açúcar, nos povoados de Palmares a agricultura se fazia diversificava através das plantações e colheitas de milhos, mandioca, feijão, cana de açúcar, legumes, batatas e frutas. Suas leis regulavam a vida das pessoas, sendo o roubo, o adultério, a deserção e os homicídios punidos com pena de morte, e as decisões mais importantes eram tomadas em assembléias compostas por todos os habitantes adultos de cada cidade integrante do quilombo.
Sabendo então da verdadeira história, ou melhor, da história não oficializada como verdadeira, me surgiu uma outra pergunta, ainda mais complexa e que a meu ver continua em aberto. Quando se originaram os quilombos brasileiros? Assim, alguns teóricos e pesquisadores salientam que até hoje nunca se conseguiu precisar exatamente quando e onde surgiu o primeiro refugio dos negros escravos fugitivos. Alguns até afirmam que sua origem não coincide com a entrada dos primeiros escravos no país, por volta de 1538, e que também não foram originados das raças trazidas da África no primeiro século da descoberta. Para estes, a formação dos quilombos brasileiros só se tornou possível através da associação que o negro efetuou com o índio, vítimas unidas pela resistência a escravidão.
Desta forma, evidencia-se que um século depois de chegarem as terras brasileiras os negros já lideravam os movimentos de resistência e passaram a formar e consolidar os maiores e mais temerosos quilombos que tanta apreensão causavam aos colonos e aos governos. E é importante que se destaque que registros históricos revelam a intensificação da estratégia de controle dos negros, objetivando eliminar movimentos de revoltas e conflitos de guerra que ameaçassem o poder da Coroa Imperial. Temendo a perda do poder e das terras (indevidamente conquistadas, ou melhor invadidas) os colonizadores aumentaram a distribuição dos negros originários de uma mesma raça em localidades e territórios cada vez mais distantes. Foi assim, por exemplo, que os grupos étnicos e numerosas tribos foram espalhados pelas diversas seções regionais da colônia portuguesa.
Neste aspecto, outros historiadores e estudos salientam também que registros históricos mostram que a estratégia de separar as nações africanas se mostrou frustrada, uma vez que os negros Sudaneses concentraram-se na Bahia, ao passo que os negros de origem Banto foram divididos entre os estados do Rio de Janeiro e de Pernambuco. Já relativo à fundação de Palmares, alguns estabelecem a data de 1630 como marco para o inicio de seus quilombos constitutivos, que se deu pela entrada e distribuição de negros escravos provenientes de Angola. Estes, pertencentes a tribo “Jagas”,  eram considerados por demais indomáveis e amantes da liberdade, e povoaram por muito tempo as fazendas de Pernambuco e Alagoas.
E como não poderia deixar de ser, me ponho a refletir se o velho sistema de opressão e subjugação de classes e raças, impetradas naquela época, não tem se mostrado extensivo em nossos dias atuais. Afinal de contas, não é o mesmo modelo, logicamente repaginado (ou atualizado) que se configura pela eterna briga entre o proletariado e a burguesia em nossa sociedade pós-moderna? Será que não somos em questão de sistema político, econômico e social, contemporâneos do Brasil colonial? Ou seria sandice demais imaginar que replicamos ainda o velho paradigma classista, estabelecendo os grandes centros urbanos como atualizadas “Casas Grandes”, rodeadas de “Senzalas” e “Quilombos” configurados como “Favelas” que nos circundam nos dias atuais?
Assim, acho que revisitar nossa história oficial talvez nos forneça elementos de extrema significância e importância para se entender nossa estruturação social e cultural na atualidade. Porém, ciente de que mais de quinhentos anos de história não pode ser recontada em poucas linhas, deixo profundas reflexões para os próximos capítulos.