segunda-feira, 13 de setembro de 2010

PARADA DA DIVERSIDADE DE RECIFE



















UMA PARADA POLÍTICA SEM DIVERSIDADE

A 9ª Parada da Diversidade de Recife aconteceu neste ultimo domingo, 12 de setembro, com o tema: Direitos – Queremos Inteiro e não Pela Metade. E vale salientar que a Parada da Diversidade em nossa cidade sempre foi marcada pela irreverência, originalidade e colorido. Porém, não foi o que se viu nessa ultima e mal organizada edição, que mais uma vez encheu a orla da praia de Boa Viagem. A originalidade mostrou-se tímida e insignificante através de trios opacos e sem o brilho tradicional. A irreverência não marcou presença e o que se pôde ver, em verdade, foi uma massa indiferente e apática a causa dos direitos LGBTTI. E o colorido, ficou simplesmente por conta da enorme quantidade de bandeiras de candidatos a cargos políticos que invadiram a avenida e aproveitaram para fazer campanha eleitoral.

Na verdade penso que o que presenciamos foi apenas o oportunismo clássico numa “Parada da Política Sem Diversidade”. E digo isso porque fiquei impressionado, e por que não dizer decepcionado, com a invisibilidade do movimento. Abriu-se mão da trajetória de lutas contra a homofobia e a favor dos direitos enquanto cidadãos, para abrir espaço à política eleitoreira. E se a parada conseguiu provocar alguma surpresa, o fato ficou vinculado, única e exclusivamente, a quantidade de candidatos que disputarão as próximas eleições, que logicamente se mostraram como verdadeiros anfitriões “patrocinadores” da festa. Tanto que não raramente se podia vê-los saudando a população, com sorrisos amarelos em semblantes de verdadeira ausência a causa social em jogo. E aí, talvez valha o seguinte questionamento: quais os direitos que não se quer pela metade? Quais os verdadeiros ganhos em transformar um movimento social em palanque político?

Será que o movimento LGBTTI se tornou tão político quanto os tantos partidos oportunistas, ou seus representantes e membros incorporaram de vez o sentimento peculiar aos “passageiros de segunda classe”? A meu ver perdeu-se uma grande oportunidade para se negociar o reconhecimento e legalidade de direitos. E com isso fragilizou-se um instrumento de luta, que deveria ser entendido e reconhecido como símbolo máximo de força e estratégia política de uma categoria. Talvez seja necessário ao Fórum LGBT, organizador do evento, maior reflexão sobre o significado de política. E neste sentido, talvez o melhor conceito se refira ao seu entendimento enquanto conjunto de objetivos que enformam determinado programa de ação governamental. Salientando que “enformar” assume aqui o sentido de dar forma, crescer, encorporar e desenvolver-se, em ação conjunta e consciente da sociedade. Que especificamente neste caso, se refere ao sentido de reconhecimento enquanto categoria, e consequentemente na conquista de direitos e legalidade da livre expressão sexual. É este entendimento político que precisa ser formado, e informado, possibilitando as mudanças necessárias a uma sociedade mais justa e menos excludente.

Política neste aspecto tem que ser entendida como “princípio doutrinário que caracteriza a estrutura constitucional do Estado”, no qual se busca direitos igualitários para todos. E aí, é preciso que o movimento incorpore o sentido político no que se refere ao conjunto de “habilidades no trato das relações humanas, com vista à obtenção de resultados” concretos, e não partir do princípio de fortalecimento da tão comum crença popular em promessas pré-eleitorais. Pois para se mudar uma cultura homofóbica como a nossa é preciso mais que promessas de candidatos simpáticos a causa (e logicamente aos votos). É preciso que se renegue a idéia de que “simpatia é quase amor”, pois amor a qualquer tipo de causa só será verdadeiramente sentida por quem se incorpora e se integra ao, e no, contexto.

Por isso, penso que ao se buscar e reivindicar direitos totalitários, “e não pela metade”, não se pode depender da simpatia, mas sim do comprometimento com o eleitor e cidadão que vai às ruas em busca de igualdade política e social. E neste aspecto penso no real comprometimento de todos, e de cada um dos candidatos que encheram os trios elétricos no desfile de domingo. Qual é mesmo a história de luta em favor dos direitos LGBTTI desses potenciais deputados? Quando a lei que pune a homofobia será aprovada em nosso Estado? No próximo governo? Ou irá se esperar mais quatro anos, até a próxima eleição, para se mendigar novas promessas? Quais os acordos e acertos politicos (ou diplomáticos) foram efetivados junto aos nossos futuros representantes?

E onde foram parar as travestis que sempre saíram à frente dos trios? E os demais seguimentos e categorias do movimento LGBTTI, onde estavam? Tiveram que ceder espaços a política, ou travestis e gogo-boys não combinavam com políticos? Será que seus votos não têm valor, ou diante da elite eleitoral que desfilou com seus candidatos, tornaram-se insignificantes? Se pensarmos nessa perspectiva, não poderíamos imaginar que talvez não fosse tão positivo aos candidatos desfilar em trios repletos de gays efeminados, lésbicas pesadas, travestis, draggs, gogo-boys e boys de programa? O que a burguesia de Boa Viagem poderia pensar sobre eles? Que não seriam tão sérios assim, ou que não seriam dignos de seus votos? E por fim, que valores foram agregados as imagens destes candidatos? De simpatizantes ou benevolentes?

Fato é que as palavras de ordem, gritadas de cima dos trios, mesmo que não representassem a opinião do movimento, configurou-se como posicionamento político partidário. Ao invés dos discursos acalorados em prol dos direitos de uma categoria, o que se pôde ouvir foram apenas frágeis declarações de simpatia (ou quase amor?) a determinados eleitoráveis. Mas talvez, se possa relativizar o fato e imaginar que quem comandava os microfones tivessem esquecido o seu papel e lugar de representação coletiva e não individual ou pessoal. Se assim o for, então talvez a necessidade consista na melhor preparação dos locutores escolhidos ou contratados para se evitar tantas gafes ideológicas.

E neste sentido mesmo, exemplifico tais gafes com os sucessivos gritos de ordem, no qual se pregava que: “respeitar os gays não é favor, é obrigação”. Penso então, que talvez ainda seja preciso mais tempo para que as próprias categorias identitárias envolvidas incorporem o conceito de diversidade. Não foi por isso que o evento deixou de ser reconhecida como “Parada Gay” para se transformar em “Parada da Diversidade”? Será que a categoria gay abrange todas as demais identidades, ou ainda os representantes do próprio movimento não conseguem pensar sem ser de forma sectária e excludente? E se estes próprios ainda não incorporaram o conceito de diversidade enquanto lógica de luta como podem esperar que uma sociedade heterossexista e heteronormativa o faça? Assim, acredito que todo discurso cai sempre no vazio quando demonstra fragilidade em fundamentação. É preciso se reconhecer primeiro antes de gritar por questões infundadas. É preciso consciência de pertencimento para se fazer representar uma classe ou categoria.

E acima de tudo é urgente se repensar a Parada da Diversidade enquanto movimento e não como espaço mercadológico, para que não se corra o risco das grandes escolas de samba do carnaval carioca. Um instrumento de luta não pode ser transformado em produto, pelo qual se paga em moeda corrente. Pois que o preço deve ser em garantia de direitos, em conquistas para a coletividade e bem da própria sociedade como um todo.

Que saudade da época em que a parada cruzava a Av. Conde da Boa Vista, pois que nestes momentos era a própria cidade que parava para ver um dos movimentos político e ideológico mais irreverente, colorido e legítimo, como deve sempre se manter a luta pelos direitos LGBTTI. Fica então a reflexão para que nas próximas versões a única bandeira política que possa flamular na avenida beira mar seja a do arco-íris. E que logicamente a diversidade fique por conta das identidades sexuais e afetivas, e nunca pela multiplicidade politiqueira que em nada contribui para o fim da homofobia e garantia de direitos igualitários para todos e todas.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES - O CASO SAKINEH



















"Todos esses anos, o governo tentou me convencer de que eu sou uma mulher adúltera, uma mãe irresponsável. Não deixem que me apedrejem diante do meu filho" (Sakineh/2010).

QUESTÃO DE DIREITOS HUMANOS OU CULTURA?

Você provavelmente já ouviu falar sobre o “Caso Sakineh”! Não? Então talvez seja pertinente discorrer um pouco sobre sua história para que possam entender porque o considero importante para uma reflexão brasileira sobre violência contra mulheres . Sakineh Mahomadi Ashtiani é uma mulher de 43 anos, mãe de dois filhos, hoje acusada de adultério. Nada demais até aí, caso não tivesse o triste destino de ter nascido no Irã, onde adultério ainda é crime e por isso a mulher adultera torna-se alvo de violência. De fato parece que falamos de uma cultura machista, pautada no poder e na honra do homem (mas estamos falando do Irã ou do Brasil?). No ano de 2006, Sakineh foi condenada a 99 chibatadas por ter se envolvido sexualmente com dois homens, após ter ficado viúva com a morte de seu marido. Confinada no corredor da morte, há seis anos espera pela sentença final: “É como se me apedrejassem até a morte todos os dias” (disse recentemente Sakineh, em entrevista ao The Guardian, 2010).

Mas nesse mesmo ano, um dos seus “amantes” foi responsabilizado pelo homicídio de seu marido, e com a reabertura do caso, Sakineh foi condenada a morte. Por isso credita sua sentença capital ao fato de ser mulher, pois o homem que assassinou seu marido – e cujo nome não foi revelado – está livre da pena de morte porque o filho da iraniana o perdoou. Para ela, “a resposta é simples. Tudo isso está acontecendo comigo porque sou mulher. Eles pensam que podem fazer qualquer coisa a uma mulher neste país. Por causa deste governo, o adultério é considerado um crime pior do que o assassinato – mas não para todo o mundo. Um homem adúltero pode nem sequer ser preso, mas, para uma mulher, isso é o fim do mundo” (acreditam que se ela tivesse nascido no Brasil há alguns anos atrás seu destino teria sido muito diferente? será que em nossa sociedade, ainda hoje, se permite que mulheres sejam assassinadas por comprometerem a honra de seus maridos?).

“Vivo num país em que as mulheres não podem se divorciar dos maridos e são privadas de seus direitos mais básicos. Todos esses anos, o governo tentou me convencer de que sou uma mulher adúltera, uma mãe irresponsável, uma criminosa. Mas, com o apoio internacional, uma vez mais me vejo uma pessoa inocente. Não deixem que me apedrejem diante do meu filho", implora Sakineh (qualquer semelhança com nossas brasileiras será apenas mera coincidência?).

Apesar de todo o sofrimento e humilhação, o que tem chamado a atenção da mídia internacional consiste no fato (além dos envolvimentos políticos, claro) da mesma ter como sentença a execução por apedrejamento. E é incrível como em pleno século XXI consigamos assistir imparcialmente tal brutalidade, não? O caso tornou-se de repercussão mundial nos últimos dias, e hoje representa um grande problema diplomático que envolve a primeira dama francesa, Carla Bruni; seu marido e presidente da França, Nicolas Sarkozy; o governo brasileiro, através do Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva; a Anistia Internacional, que luta por direitos; A ONU, organismo internacional; a Igreja Católica (que nunca se posiciona verdadeiramente), e sociedade mundial, que se opuseram as barbaridades de um governo tirânico comandado pelo tão conhecido presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad (o mesmo que atormenta atualmente o mundo com seus experimentos bélicos a partir do aquecimento do urânio, base de tecnologia para a produção de  bombas atômicas).

Mas para se entender melhor toda essa confusão é preciso avaliar os motivos e suas implicações. Em agosto, o Jornal Iraniano Kayan publicou uma carta assinada por Carla Bruni, na qual solicita o cancelamento da pena de morte para Sakineh, e deixa claro que seu país não se mostraria indiferente a um crime bárbaro e que contraria os preceitos dos direitos humanos. A primeira dama, comprometeu-se ainda que seu marido iria defender o caso com afinco, e em nome da França, afirmou que não abandonariam Sakineh. Carla Bruni, conseguiu assim o apoio do mundo ocidental, porém teve como resposta do governo iraniano, sua carta publicada sobre a legenda: “As prostitutas francesas entram no tema dos direitos humanos”.

Piorando a situação, três dias depois o mesmo jornal reiterou suas criticas, alegando que: “analisando o histórico de Carla Bruni, vemos claramente os motivos pelos quais uma mulher imoral estaria defendendo uma iraniana condenada à pena de morte por adultério e por ser cúmplice no assassinato de seu marido e, de fato, ela mesma merece morrer”. E para amenizar os atritos políticos, o governo iraniano acrescentou ao crime de adultério, a acusação sobre Sakineh, de envolvimento no assassinato do marido.

Com a opinião pública chocada com tanta sandice e autoritarismo, o presidente do Brasil, em nome do governo, e por manter boas relações diplomáticas com o presidente iraniano, ofereceu asilo a Sakineh. A oferta foi rejeitada, ao passo que o mundo foi informado por um porta-voz do ministério de relações exteriores daquele país, que o presidente brasileiro não deveria se preocupara com o fato, uma vez que não tinha sido plenamente informado sobre o caso.

Nesta semana, a Anistia Internacional, declarou que embora no dia 4 de agosto a condenação à morte de Sakineh tenha começado a ser revisada no Tribunal Supremo iraniano, é muito provável que essa revisão seja apenas uma tentativa das autoridades do Irã para reduzir a pressão internacional. Desta forma, vem recolhendo assinaturas no site: www.actuaconamnistia.org, como forma de pressionar o governo iraniano a revogar a pena de morte da vítima (é fácil de acessar e torna-se importante sua participação, por isso, sugiro que dê uma paradinha nesta leitura e acesse o site).

Por sua vez, o Vaticano se “pronunciou” neste domingo, 05 de agosto, pela primeira vez sobre o caso, alegando que “o apedrejamento é uma forma de punição capital particularmente brutal”, e que sua forma de interceder junto às autoridades do Irã se dá pelos canais diplomáticos e não publicamente (isso é que exemplo de diplomacia, não?). Apesar dos apelos de um dos filhos de Sakineh, para que o Papa Bento XVI intervenha no caso, o Vaticano se limitou a divulgar que a “Santa Sé” está seguindo o caso de perto, e que poderá usar a diplomacia nos bastidores para tentar ajudar.

O caso de Sakineh ficou mais inda complicado, ao ser condenada por ter “propagado a corrupção e a indecência”, ao ter sua foto, sem véu, publicada em um jornal britânico. O jornal britânico Times, que publicou a fotografia em 28 de agosto, afirmou, no entanto que na verdade se tratava de uma ativista política iraniana que mora na Suécia, e não de Sakineh. Diante do público, e das implicações cabíveis, o jornal se desculpou pelo erro da informação através de uma nota aos leitores, em setembro ultimo (isso que é ética profissional, não?).

No dia 13 de agosto, Mina Ahadi, militante do Comitê Internacional contra Apedrejamento, solicita em carta aberta ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que o órgão internacional envie uma delegação ao Irã para revisar o caso de Sakineh. Também alerta que devido ao fato dela correr o risco de ser executada a qualquer momento, se faz necessário o envio de uma delegação da ONU ao Irã para investigar as acusações feitas pelo regime contra a iraniana e rever seu caso (será que a burocracia diplomática vai permitir?).

Tal documento destaca ainda que “hoje, há 170 pessoas condenadas à morte na prisão de Tabriz. Quatro delas são mulheres condenadas à morte por apedrejamento. Há dezenas de homossexuais presos em Tabriz. Entre eles, há um garoto de 15 anos também condenado à morte. Seu crime é ser gay. Ele divide a cela com homens adultos que são criminosos, e nos escreveu pedindo ajuda. Essas atrocidades ocorrem diariamente no Irã. Há uma necessidade urgente de uma ação global”.
Diante de todos esses fatos e implicações políticas e diplomáticas, estão em jogo outros fatores que precisam ser repensados. Primeiro, sobre o que é Direitos Humanos? E segundo, sobre o que é soberania nacional? Assim, penso que antes de tudo, esse caso nos serve como fonte de inspiração para reflexões sobre até que ponto se pode interferir sobre a cultura de uma nação. Se considerarmos que nossas leis ocidentais são mais justas e humanitárias, partiremos do principio de que tal sentença se coloca contrário ao principio fundamental do direito a vida. E parece ser neste argumento que nos apoiamos para que nos julguemos no direito de interceder e até impor nossas regras. Mas se consideramos a cultura local, talvez percebamos o quanto intrometidos nos tornamos por tais decisões. 

E aqui saliento que não me coloco contra tais intervenções, muito pelo contrário, acredito que a barbárie deve ser varrida da face da terra. O que proponho à reflexão se refere ao fato de se pensar sobre quem violenta quem? O governo iraniano com sua arbitrariedade, pautada numa cultura machista e conservadora/religiosa; ou nós ocidentais com nossas pretensas regras humanitárias e do bem viver? Talvez se o fato não se tornasse público, a comoção mundial não ganhasse tanta força, e Sakineh seria apenas mais uma entre as tantas iranianas apedrejadas até a morte.

E penso nisso, considerando a quantidade de mulheres assassinadas no Brasil, e principalmente em Pernambuco, que se transformam apenas em números estatísticos de governos. Não é a mesma situação, quando um determinado assassinato se torna mídia? Porém, penso naqueles que ocorrem diariamente e nunca chegam às manchetes.  Onde fica a comoção da sociedade e dos nossos governantes? Quais as estratégias e políticas públicas serão necessárias para se garantir o direito a vida a essas milhares de mulheres que são brutalmente “apedrejadas” e mortas por seus (ex)maridos, (ex)namorados, (ex)amantes, pais, irmãos? Será que no Brasil não existem centenas de mulheres, que como Sakineh, encontram-se encarceradas e confinadas em corredores da morte, nas quais se transformam suas próprias casas?

Como profissional da área social, destaco que basta apenas olhar nossas estatísticas para ver o quanto não temos sido eficientes na resolução de um problema, que para nós já se tornou domestico. Não validamos os direitos dos nossos próprios habitantes. Nossa rede de proteção a vida é frágil, mas oferecemos asilo “caso a iraniana esteja causando problemas ao Irã”. Talvez essa fala do nosso presidente diga do tanto quanto estamos despreparados para tratar a violência contra mulher. E nesta situação, a lógica seria pensar que o governo iraniano está causando transtornos na vida dela, e nunca o contrário (será que algum assessor mais sensível a causa poderia ter advertido isso ao presidente?). O pior, é que neste caso, nosso representante de governo parece ter preferido abrir mão dos mecanismos diplomáticos e oficiais que credenciam seriedade a nação, para lançar mão de um costume maleficamente incrustado em nossa cultura: o jeitinho brasileiro.

Prefiro acreditar que tal ato e posicionamento tenham sido motivados apenas por precipitação, e não por acreditar que as boas relações pessoais e políticas que mantém com o presidente iraniano fossem suficientes para dissuadi-lo de um posicionamento que parece ir muito além de uma vontade pessoal. E neste caso, penso se o fato de oferecer asilo não se torna reducionista, pois que não resolve a situação de todas as mulheres iranianas.

Acredito mais ainda, que desse jeito voltamos ao velho ditado popular que diz: “o sujo falando do mal lavado”. É só pensar a quantas mulheres brasileiras temos anistiado de suas situações de violência corriqueira? Como explicamos “diplomaticamente” a população, por exemplo, sobre caso Bruno? O fato de uma mulher ser devorada por cães, mesmo que depois de brutalmente assassinada, nos torna menos violentos e bárbaros do que os iranianos? E o fato de nossas mulheres serem reconhecidas internacionalmente como prostitutas as tornam menos ofendidas do que a Carla Bruni? E o que temos feito em relação a essas necessárias reparações quanto à dignidade dessas mulheres, bem como sobre seus direitos a vida e a liberdade?

Será que para nós brasileiros o que está em jogo verdadeiramente, neste caso, é a discussão sobre direitos humanos ou sobre política? Para o regime dos aiatolás, a condenação de uma mulher à morte por apedrejamento ou enforcamento sob a acusação de adultério e assassinato – “não é uma questão de direitos humanos”. Tanto que segundo o chanceler iraniano: “se libertar aquele que cometeu um assassinato agora é percebido como uma questão de direitos humanos, então todos os países europeus deveriam libertar os assassinos presos”.

O que penso no momento, é que considerando as condenações à morte a que temos submetido tantas das nossas crianças, adolescentes, jovens, mulheres, homossexuais e idosos (e mais uma infinidade de pessoas que sofrem pela desigualdade social), não nos tornamos grande referência para discutir o assunto internacionalmente. Principalmente com ações tão imediatistas e simplistas como a proposta pelo governo brasileiro. Talvez seja urgente (re)fazermos o dever de casa, e assim olhar para nosso próprio umbigo. Se aprendermos com nossas experiências talvez possamos sim, expressar nossas opiniões sem parecermos “intrometidos incoerentes”.

Acredito que para tentarmos ajudar a livrar uma mulher iraniana do apedrejamento (que logicamente se configura como barbaridade), nos seja necessário aprendermos primeiro a livrar nossas brasileiras das facadas, tijoladas, foiçadas, bofetadas, murros, esganamentos, asfixiamentos, queimaduras por ácidos, envenenamentos, afogamentos e tiros. E antes de julgamos a cultura alheia como ultraconservadora, machista e arbitrária, talvez seja pertinente refletirmos sobre nossa própria cultura social que parece ainda se pautar em conceitos conservadoramente déspotas e tiranos.   

Por fim, digo que antes de atirarmos a primeira pedra, devemos verificar se nosso telhado não é de vidro. Por isso, divulguem e se engajem em movimentos de defesa de Sakineh Mahommadi Ashitiani, nem que seja apenas para aprenderem a refletir sobre o significado das lutas por direitos humanos. Mas não esqueçam que no apartamento vizinho ao seu, pode haver uma brasileira em condições tão terríveis quanto. E que você pode dar o primeiro passo para tornar tal situação pública através dos equipamentos e instrumentos competentes. Afinal é com iniciativa que exigi providências e faz justiça, e isso é lutar por direitos humanos.

Assistam ao vídeo.



Fontes:
IstoÉ, nº 2130, 08 de setembro de 2010, pag.98

sábado, 4 de setembro de 2010

A CONSTRUÇÃO DOS CORPOS

























Mercado Público de Florianópolis/SC - 2010


REFLETINDO SOBRE NOSSOS CORPOS


Apesar de termos virado o mês, saliento que ainda preciso de algum tempo para atualizar os escritos. Dessa forma, aproveito para destacar a iniciativa de nosso órgão representante através da realização do I Encontro da Psicologia Pernambucana, ocorrido no período de 11 a 14 de agosto. Como já relatado, venho desenvolvendo alguns trabalhos de pesquisa e estudos relacionados a sexualidade e gênero, que aos pouco compartilho com todos através do blog. Nestes trabalhos tem tido o grande prazer de dialogar com um grande profissional, que considero mesmo, um dos meus principais e grandes mestres na psicologia social, Normando Viana, com quem divido posicionamentos teóricos, abordagens e metodologias. Acima de tudo, considero-o uma das pessoas mais generosas, com grande capacidade para dividir conhecimento.

Durante o Encontro da Psicologia Pernambucana, tive a imensa satisfação de, além de dividir com ele os trabalhos de planejamento, elaboração e desenvolvimento de um mini curso sobre a exploração sexual comercial de meninos, poder ouvi-lo em uma mesa redonda discorrendo sobre a construção dos corpos, em análise direta sobre corpo biológico, gênero e identidade sexual.

Considerando a importância e a pertinência de tal reflexão, solicitei ao mesmo a autorização para postagem no blog, o que faço a seguir, objetivando ampliar as discussões relativas a gênero e identidade, bem como oferecer-lhes novos pontos de vista e posicionamento metodológico. A todos, desejo boa leitura. E a Normando Viana, meu agradecimento especial.


Corpo biológico, gênero e identidade sexual

Artigo apresentado em mesa redonda no I Encontro da Psicologia Pernambucana, em 14 de agosto de 2010.

Psicologia (Cultural) do Corpo
Normando José Queiroz Viana [1]

O exercício aqui proposto inicialmente, o de pensar corpo biológico, compreende uma reflexão sobre qual corpo ou quais corpos queremos falar e sobre que biologia é esta, se aquela que encontra referente na perspectiva anatomo-fisiológica dos corpos ou a que leva em conta os aspectos bio-psico-sociais e culturais?

Penso que quando falamos sobre corpo é importante lembrar que aquilo mesmo que chamamos de corpo foi um modo que a sociedade ocidental se utilizou para falar da modalidade de experiência física dos atores com e no mundo, experiência esta que sofre inevitavelmente as marcas da sociedade que o produz (Rios 2004).

Assim, o que se define como corpo pode ser entendido como: [...] ferramenta e invólucro de uma mente/razão; instrumento de labor; integrante dos arsenais postos a serviço da reprodução da espécie e da reprodução do capital; corpo/carne formado de instintos que precisam ser controlados para que a ordem natural e/ou sagrada seja mantida; anatomo-fisiologia incessantemente investigada pelas ciências médicas que vêm buscando estratégias para mantê-lo saudável e funcionando; corpo-forma, constantemente moldado para adequar-se a modelos estéticos e significado para servir como demarcador de status e prestígio social (RIOS, 2004:32-33).

Marcel Mauss (2005) demonstra como o corpo, longe de ser uma entidade exclusivamente biológica, com autonomia própria, separado da cultura, é construído pela e na cultura na qual está inserido.

Na mesma perspectiva, Le Breton (2007) nos chama a atenção para o fato de que é do corpo que nascem e se propagam as significações que fundamentam a existência individual e coletiva. [...] ele é o eixo da relação com o mundo, o lugar e o tempo nos quais a existência toma forma através da fisionomia singular de um ator. Através do corpo, o homem apropria-se da substância de sua vida traduzindo-a para outros, servindo-se dos sistemas simbólicos que compartilha com os membros das comunidades (LE BRETON, 2007:7/ MEUS GRIFOS).

Ao se relacionar com o mundo, esse corpo, mais plural que singular, constituído no/pelo social e (re)produtor de significado, encontra-se imbricado na estreita e dinâmica relação entre as dimensões biológica, psicológica e social, conforme nos lembra Mauss (1974), em sua antropologia das emoções.

Simpático a este entendimento, Geertz (2001) alerta para o fato de que tornar a reunir o cérebro, o corpo e o mundo é uma tarefa difusa e ambiciosa; contudo, possível e, mais do que isso, necessária.

É nesse sentido que o autor questiona aquelas formas de compreensão que identificam o corpo de maneira fragmentada e desarticulada, tal como aquela que localiza a mente “dentro da cabeça” e a cultura fora dela.

Parafraseando Geertz (2001), a partir dessas dualidades, dentro-fora, interno-externo, psicológico-social e de certa hierarquia que parece privilegiar tais dualidades na relação entre corpo, biologia, mente e cultura, considero pertinente pensar a natureza cultural da biologia, bem como a natureza biológica da cultura, revelando um paralelo de contribuições e influências que ratifica o quanto é estreita essa relação.

Para além da perspectiva anatomo-fisiológica, se faz necessário considerar o campo de tensão que surge a partir do diálogo constante entre as diferentes formas de se conceber e se entender corpo, seja o corpo anatomo-fisiológico, o corpo subjetivado, corpo/carne ou o corpo da cultura. E é desse diálogo que surge a concepção de corpo com a qual comungo. Corpo que ao ser mais do que matéria e mente, é sentido e significado de diferentes formas, em diferentes culturas, contextos e por diferentes grupos.

E é este corpo, no meu entendimento mais que biológico, que performa um gênero que encontra na anatomo-fisiologia o “respaldo”, o “autorizo” para tal. Partindo deste princípio, que se assemelha com o modelo sexo/gênero apresentado por Gayle Rubin (1975), o masculino deve ser performado por corpos com pênis e o feminino por corpos que possuidores de vaginas, e qualquer subversão desta regra causada pela “inversão” desta ordem do sexo/gênero ou pela indefinição anatômica dos sexos (a exemplo dos intersexos) é responsável pela instalação de um mal estar tremendo.

As diferenças anatômicas entre os sexos parecem ainda funcionar como a base que estrutura as feminilidades e a masculinidades, fazendo do corpo lócus de aprendizagem e vitrine do que é, ou deveria ser, o ser homem e ser mulher.

Butler (2008), ao compreender gênero como significados culturais assumidos pelo corpo sexuado, nos chama atenção para o fato de que as discussões sobre gênero, corpo e cultura não são universos dispares, e que identificar o lugar por eles ocupado não revela uma ruptura na interpretação e sim a possibilidade de estabelecermos uma análise menos tendenciosa e unilateral, que por vezes privilegia o substrato biológico em detrimento do aspecto cultural.

“Concebida originalmente para questionar a formulação de que a biologia é o destino, a distinção entre sexo e gênero atende à tese de que, por mais que o sexo pareça intratável em termos biológicos, o gênero é culturalmente construído: conseqüentemente, não é nem resultado causal do sexo, nem tampouco tão aparentemente fixo quanto o sexo. Assim, a unidade do sujeito já é potencialmente contestada pela distinção que abre espaço ao gênero como interpretação múltipla do sexo” (Butler, 2008:24).

No entanto, os prejuízos advindos do movimento oposto oriundo dos estudos pautados na perspectiva do construcionismo social hard1, apagam da análise a presença de um corpo que pesa e que é marcado pelo contexto sociocultural no qual está inserido.

“Em algumas explicações, a idéia de que o gênero é construído sugere um certo determinismo de significados do gênero, inscritos em corpos anatomicamente diferenciados, sendo esses corpos compreendidos como recipientes passivos de uma lei cultural inexorável . Quando a ‘cultura’ relevante que ‘constrói’ o gênero é compreendida nos termos dessa lei ou conjunto de leis, tem-se a impressão de que o gênero é tão determinado e tão fixo quanto na formulação de que a biologia é o destino. Neste caso não a biologia, mas a cultura é o destino” (Butler, 2008:26).

Ao criticar o construcionismo hard, onde tudo é construção e o sexo é ficção, Butler (1999), considera que “não se pode, de forma alguma, conceber o gênero como um constructo cultural que é simplesmente imposto sobre a superfície da matéria – quer se entenda essa como o “corpo”, quer como um suposto sexo” (Butler, 1999: 54).

A autora revela que a distinção sexo/gênero sugere uma descontinuidade radical entre corpos sexuados e gêneros culturalmente construídos. Supõe ainda que por um momento a estabilidade do sexo binário, não está associada à idéia de que a construção de ‘homens’ estaria vinculada exclusivamente a corpos masculinos, e por sua vez as ‘mulheres’ a corpos femininos.

“A hipótese de um sistema binário dos gêneros encerra implicitamente a crença numa relação mimética entre gênero e sexo, na qual o gênero reflete o sexo ou é por ele restrito. Quando o status construído do gênero é teorizado como radicalmente independente do sexo, o próprio gênero se torna um artifício flutuante, com a conseqüência de que homem e masculino podem, com igual facilidade, significar tanto um corpo feminino, como um masculino, e mulher e feminino, tanto um corpo masculino como um feminino” (Butler, 2008: 24-25).

E é neste corpo performado pelo gênero ou deste gênero performado pelo corpo que se esforça ou não para romper com o modelo binário dos gêneros, que se constitui a identidade sexual.

Enquanto a identidade de gênero postula uma posição de operador classificatório universal, a problemática da identidade sexual ganha sentido e relevância em um contexto histórico e culturalmente relevante. Ela se ancora e se impregna do lugar que a sexualidade desfruta/ocupa na cultura ocidental como lócus privilegiado da verdade do sujeito (Heilbron, 1992).

O foco desloca-se das formas de subjetivação e fabricação do sujeito (no gênero) para incidir sobre o modo sobre como se constitui uma condição de “sujeito sexual”, isto é, segundo Foucault, para a indagação da maneira como os indivíduos foram levados a exercer uma hermenêutica do desejo.

Tal condição encontra fundamento na divisão das pessoas em categorias socialmente significantes dentre as quais se mostram relevantes as categorias da heterossexualidade e da homossexualidade.

Ou seja, este corpo não exclusivamente/predominantemente, mas também biológico, de uma performatividade que não apresenta uma aderência exclusiva a ordem de sexo/gênero, surge para os sujeitos como uma espécie de “terreno fértil” onde estes, balizados por suas culturas e seus contextos históricos, encontram elementos necessários à constituição de uma condição de sujeito sexual.


[1] VIANA, N.J.Q - Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Peranambuco - UFPE; Pesquisador vinculado ao Laboratório de Estaudos da Sexualidade Humana - Lab-Eshu/UFPE; Especialista em Psicologia Social e Comunitária - FAFIRE; Consultor Social do Centro Brasileiro de Reciclagem e Capacitação Profissional - CERCAP, OSCIP executora de programas e politicas publicas da Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos - SDSDH/PE.
 
I Encontro da Psicologia Pernambucana - 2010

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A CONSTRUÇÃO DE NOSSOS DEUSES

Vôo Aéreo Sobre São Paulo/2010

Eram os Deuses Astronautas?

O dia amanhece e acordo sobressaltado. A tensão me invade, pois que este será mais um dia de viagem. Certa apreensão seca minha garganta e não sei explicar o motivo. Arrumo as malas enquanto tento evitar um olhar de despedida, mas é sempre inevitável. Fecho a porta e saiu tentando organizar melhor minhas idéias. Chego ao aeroporto e caminho como se cumprisse um trajeto que me levará a condenação. Entro na aeronave, não antes de pedir proteção aos deuses. Criei um ritual, tornei-me neurótico. Tenho que seguir sempre os mesmos passos, como se de tal ato dependesse minha própria sobrevivência. É interessante como nos tornamos maníacos e repetimos comportamentos, muitas vezes fundamentados em superstições ou crendices. Assim, criei meu próprio procedimento de vôo. Estou agora dentro de um equipamento que mal conheço e me sinto engolido por uma máquina que tem poderes maiores que os meus. E isso logicamente representa ameaça.

Relembro ainda do meu primeiro vôo. Foi em um desses aviões pequenos, tipo bi-motor (será que é assim que se chama?). Lembro que suava em bica e uma mistura de ansiedade e euforia me invadia a alma. Chegaria a Petrolina/PE em mais ou menos uma hora, período de tempo relativamente pequeno para tanto pânico. Mas dizem que para morrer basta estar vivo e que apenas um segundo pode mudar toda uma vida. Meu acento ficava sobre as asas e por isso tive a grande e ingrata satisfação de poder visualizar as hélices que giravam incessantemente. Foi uma das experiências mais excitante e aterradora que já vivenciei. A cada instante olhava o circulo formado pelas pás em seus movimentos giratórios. Estavam presas as asas do grande pássaro metálico e produziam um som infernizante que invadiam meus ouvidos e tirava o sossego. Imaginava o que aconteceria se por algum motivo elas parassem. Seria uma queda livre, a não sei quantos metros de altura. E como num simples apagar de luzes minha vida teria se findado.

E aqui estou eu novamente preste a repetir tal experiência. Andando pelo corredor repleto de sorrisos e conversas misturadas, procuro por minha cadeira. Sempre tento evitar as asas, como também os fundos do avião. No primeiro caso porque em casos de emergências não sei se teria condições de contribuir com alguma coisa que favorecesse ações imediatas e precisas; e no segundo, porque imagino que caso o avião se parta ao meio, os fundos cairão primeiro num abismo interminável. Lógico que isso não tem fundamento, mas para nossos medos fundamentação é o que menos importa. Em um dos vôos, por exemplo, que fiz em junho próximo, rumo a São Paulo, só consegui um dos últimos acentos. A tripulação parecia inexperiente e a cada instante deixava cair algo no chão. Assim, talheres, bolsas, objetos pessoais e até uma garrafa de refrigerante caiam em sucessivos momentos, provocando sustos e espantos. A suada da descarga era terrível e as conversas dos comissários de bordo não me deixaram pregar os olhos. Resultado, a partir desse dia em diante resolvi que procuraria cadeiras instaladas entre as asas e os fundos. Não que tal localização seja menos arriscada, mas de qualquer forma me sinto mais seguro e confortável (se é que algum dia já me sentir assim voando).

Encontro finalmente meu lugar, e para sorte minha ela se localiza na janela. Penso então nas maravilhas em poder desfrutar da visão panorâmica e romântica que se tem da terra quando se está suspenso no ar. E digo que é realmente uma experiência incrivelmente válida, pois que nos dá a dimensão do quanto somos pequenos. É interessante também constatar que lá embaixo a vida segue seu rumo normal e as pessoas continuam fazendo as mesmas coisas e mostram-se indiferentes a sua ausência. E pior ainda, ninguém nem se quer percebe ou dá importância ao fato de você está passando sobre suas cabeças. Lá de cima, todos são anônimos. As casas e prédios parecem marionetes entrecortadas por caminhos que interligam cidades e povoados. Fora isso, voar acima das nuvens também te dará a noção exata de um mundo que muitas vezes ignoramos. Um mundo muito maior do que o que vivemos ou estabelecemos como espaço geográfico no qual enquadramos nossas vidas. A imensidão do espaço aéreo parece te mostrar a existência de algo superior, que mesmo não sabendo identificar, explicar ou ainda nomear sabemos que existe.

Busco mais uma vez relaxar e novamente os milhares de pensamentos me invadem. E se um outro avião se chocar com o nosso? Se um pássaro invadir as turbinas? E ainda, se os equipamentos falharem? Ou mesmo, se uma nave espacial pilotada por seres extraterrestres nos interceptarem? Impossível? Não creio, pois sei que na imensidão azulada, a terra é apenas mais um dos milhares de planetas e satélites que parecem perdidos a ermo.

Assim, não faria sentido imaginarmos que se apenas no nosso sistema solar existem nove planetas, como poderia existir vida somente aqui. E não me refiro, logicamente, à vida humana. Pelo menos não nos padrões que criamos para nos reconhecermos. E se hoje conseguimos chegar a planetas que se situam a milhões de anos luz em relação ao nosso, porque outros seres não podem ser tão, ou mais inteligentes que nós para fazer o mesmo? Alguém já leu "Eram os Deuses Astronautas"? Então talvez entendam sobre o que estou falando. Mas o importante é que independente de existirem ou não, a única certeza que tenho é que não pretendo ser abduzido, e muito menos fazer nenhum contato de terceiro grau com eles.

A essas alturas (e logicamente nessas alturas também) as minhas reflexões começam a perder a lógica e misturam-se em temas os mais diversos possíveis. Afinal de contas, são longas e intermináveis horas sem ter muito por fazer. E se conseguimos manter o corpo inerte, o mesmo não se consegue com a mente. Assim talvez precise fazer Yôga, ou quem sabe, aprender as técnicas de meditação com os monges do Tibete. Porém, contudo e toda via, independente de todas essas delongas, entendo e sei que meu medo está diretamente relacionado a tubarões. e logicamente neste momento podem imaginar que enlouquecir de vez. Mas confesso que tenho fobia (existe algum nome para fobia de tubarão?). E claro que vários amigos já me questionaram como um psicólogo não consegue lidar com seus medos. Para estes, saliento apenas que antes de ser psicólogo sou humano como todo mundo. E ainda, que logicamente um tubarão não irá se preocupar em saber minha formação ou área de atuação profissional. Não esqueçam que essas terríveis feras marinhas mordem primeiro para só depois descobrirem que erraram o alvo. Confesso que realmente me incomoda o fato de saber que nem sequer seremos comidos, mas apenas estraçalhados por centenas de dentes afiadamente serrilhados. Mais absurdo ainda é saber que simplesmente seremos cuspidos por um animal que de tão primitivo dilacera e destrói institivamente tudo que ver pela frente. Conforta-me apenas o fato de saber o quanto de irracionalidade existe em seus atos, afinal de contas são apenas animais e não humanos. Considero porém que quanto à irracionalidade primitiva não estamos tão distantes desses assustadores dentuços (alguém discorda?). E ainda penso, que estes são ferozes predadores, nós humanos e seres racionais não nos mostramos tão diferentes assim. Tanto que no topo da escala alimentar nos mostramos bem mais agressivos e destruidores.

Acho que nesse momento é significativo esclarecer que já trabalhei tal conteúdo em terapia, onde descobri que tubarão está ligado simbolicamente a figura de autoridade, e no meu caso se relacionava diretamente a figura de meu pai (com quem logicamente tinha sérias dificuldades). Mas isso é outra história, e para simplificar direi apenas que na terapia desconstruímos a palavra (e o sentido, claro) ao dividi-la e pronunciá-la de várias formas. Chegamos então a “TU-BARÃO”. Assim, TU, segunda pessoa do singular, diretamente se correlaciona ao outro. BARÃO, título de nobreza outorgado a pessoas que tinham posses e poder, determina um lugar de destaque e status social ocupado por outro que não sou eu. Logo, figura de autoridade. E psicanaliticamente falando, para uma criança essa primeira figura se traduzirá nas imagens de seus pais, e no meu caso especificamente no pai (só Freud explica). Deste modo, ser devorado por um tubarão seria apenas uma representação do ato simbólico de ser devorado pelo meu pai, ou ainda, ser aniquilado e subjugado pelo mesmo. Confuso? É simples quando se entende o contexto psicanalítico. A pergunta que talvez se façam ao ler essas sandices será: o resultado da terapia não foi positivo? É certo que não me livrei da fobia, mas passei a entender os motivos correlacionados e originários, o que me possibilita conviver e entender minhas angustias até hoje.

Mas continuando, como os tubarões habitam os mares, nada mais natural do que imaginar que caso o avião caia sobre os oceanos e por um milagre consiga sobreviver, posso ser atacado e devorado (e depois cuspido em pedaços) por um desses admiráveis e temidos peixinhos. Isso é fato. É real. O que mostra que não sofro de esquizofrenia ou quaisquer outros transtornos alucinatórios e/ou psicóticos. Resumindo a ópera, o medo de voar está correlacionado diretamente ao medo que tinha de ser aniquilado pelo que representava meu pai. Loucura? Insensatez? Digo apenas que é preciso acreditar, e neste caso penso que psicoterapia e religião não são muito diferentes. A cura vem pela crença (com focos e filosofias diferentes, logicamente). Sei apenas que até hoje tenho dificuldades com as figuras de autoridades e que sinto-me ameaçado por elas, o que tenho trabalhado em intermináveis reflexões e auto-análises (mas acho que agora acabei “viajando na maionese”, como se dizia antigamente). O importante é que em minha “viagem” real, descubro que não consigo dormir em avião. E isso se dá porque não consigo relaxar, o que é resultado do fato de achar que devo permanecer alerta durante todo o vôo. Sinto-me aterrorizado ao imaginar que algo pode acontecer enquanto esteja dormindo. Como se o fato de estar acordado pudesse mudar a hipotética gravidade da situação em alguma coisa. aí volto a me sentir novamente pequeno e inseguro, fraco e covarde. Rememorizo os maiores riscos que corri e percebo que minha maior aventura foi e é, exatamente, viajar nessas geringonças voadoras. A sensação de me perceber solto no ar me provoca distonia, e confesso, são as horas mais intermináveis e infernais de minha vida.

E dois anos depois estou a refazer o mesmo percurso Recife/Florianópolis - SC, que se torna sempre maior devido às escalas e conexões que surgem como se fossem maravilhosas promoções a que temos direito. É como uma espécie de “plus” em nossa excursão. E o melhor é que quase sempre não somos informados sobre o fato, o que se torna sempre uma surpresa na hora de fazer o “check-in”. E também tem as mudanças de rotas e as situações imprevistas, tais como mudanças de aeronaves por motivos mecânicos e outros mais. Somos sempre tomados de surpresa ao ser informados que nosso destino foi alterado. E se o medo já me consome pelo simples fato de sobrevoar a terra, que significa me tirar do solo (e consequentemente da minha área de conforto), imagina saber que mudaram meu plano de vôo e consequentemente meu destino. Sair do planejado é sempre desconfortável para mim (e esclareço que estou falando de desconforto e não de impossibilidade, afinal não sou uma pessoa tão rígida). Mas o que me incomoda é que nestes casos ficamos a mercê da sorte. Quem irá se responsabilizar caso este novo avião que me impuseram sofrer algum tipo de acidente? E isso não é loucura, pois chama-se probabilidade. E foi assim com uma amiga minha que estava no acidente da Gol (Alguém ainda se lembra? Conhecem alguém que pagou por isso? Viram alguém ser penalizado? Acreditam que dinheiro ou justiça paguem uma vida?).

Fato é que ficamos a deriva, pois que nada nos garante maior segurança ou sucesso da viagem com a troca das aeronaves. Desta forma, fui informado da impossibilidade de seguir meu roteiro original, para o qual logicamente me preparei várias semanas antes (falando psicologicamente, claro). De uma "simples" escala no Rio de Janeiro, tive que fazer uma conexão em Brasília e uma escala em São Paulo, para finalmente seguir para Floripa. Além dos transtornos pessoais e práticos tive um acréscimo de riscos, afinal de contas permaneci por mais tempo suspenso no ar. Alguém pagou por isso? Adiantaria eu reclamar? Teria alguém que pudesse me entender? E neste caso, sem alternativas e ainda com todo esse tempo de sobra resolvi parar e refletir sobre esse medo que sinto.


Engraçado é perceber que nem mesmo consigo explicar tal sentimento (se é que é sentimento e não apenas sensação). Sei apenas que uma tensão paira sobre o ar, a respiração torna-se lenta e pesada, um calafrio sobe pela coluna e chega à cabeça para bombardear minha mente com pensamentos que se traduzem em imagens. Essas, por sua vez, parecem querer me dizer algo como se mostrassem situações para as quais não estou preparado. O pânico se instaura e o corpo começa a reagir como se aquela possibilidade tivesse se tornado real. Por determinados instantes chego a ficar paralisado, talvez pela simples constatação de minha impotência para controlar determinadas situações ou acontecimentos que podem me causar desprazer e sofrimento. É como se me jogassem um balde de água fria, mostrando o quanto presunçoso me tornei ao imaginar poder controlar todas as adversidades e perigos.

Tememos então a morte? Creio que sim, até por acreditar que não nascemos para morrer. E neste sentido me pergunto qual a graça em saber que nascemos, lutamos para sobreviver, fazemos todo um esforço em prol de nosso próprio desenvolvimento, para no fim simplesmente deixarmos de existir? Talvez esse seja um sentimento coletivo, o que justifica nossa incessante busca pela vida eterna. Talvez nosso medo não se refira propriamente à morte, mas sim a possibilidade de inexistir. A morte em si seria apenas um ritual de passagem, o problema consiste (pelo menos a meu ver) no fato de não sabermos para onde essa passagem nos leva. Se é que nos leva para algum canto, ou mesmo tempo, ou ainda dimensão diferente. E talvez por essa incapacidade tenhamos criado o céu. Seria para lá que iríamos após a morte? E acho até que essa seria uma hipótese interessante e consoladora, mas será real? Acho que neste sentido, precisamos inclusive não fazer grandes questionamentos a respeito de sua existência, pois que o céu deve e precisa ser muito melhor para justificar nossas apreensões diante das incertezas. Se questionarmos demais correremos sempre o risco de perder a crença, pois que nada comprova sua existência (alguém conhece uma pessoa que tenha voltado da morte para nos dizer como tudo funciona e para onde vamos realmente?). Fato é, que ao se perder a crença não poderemos mais buscar nos céus a velha idéia da felicidade eterna. E aí penso no quanto contraditório para mim se torna essa idéia, pois que é exatamente nos céus que me sinto mais inseguro, desconfortável e infeliz. Voar para mim tem que ser de preferência num sentido figurativo. Nunca tive o sonho de Ícaro e não pretendo chegar ao sol real.

Questiono assim, para que nos serviria uma felicidade eterna se já somos felizes? E aí nos vem outra grande dúvida. Será que realmente o somos? O que é felicidade? Será que temos realmente consciência sobre o significado da felicidade, ou simplesmente criamos uma palavra para tornar de certa forma palpável o que não pode ser concreto? A necessidade da palavra passa então a se respaldar numa necessidade humana que consiste em conceituar sentimentos, pensamentos, devaneios, sensações e tudo aquilo para o qual não conseguimos respostas. Neste caso, talvez a palavra mais apropriada para conceituar felicidades seja imprecisão. Então a felicidades não são precisas? Mas como pode ser se vivemos num mundo onde a felicidade se tornou obrigação? Não é para satisfazer nossos desejos, que se traduzirá em felicidades, que consumimos todo que seja novidade? Não aprendemos a nos tornar motivados (e até ambiciosos) ao estabelecer parâmetros de realização pessoal através da aquisição de bens? Não é pra isso que acumulamos fortunas? Não é por isso que buscamos a segurança, conforto e estabilidade econômica?

Assim, penso que tais sensações prazerosas não podem ser imprecisas, pois que criamos parâmetros para medir nosso grau de felicidade. Dentro de uma escala, somos sempre muito ou pouco felizes, mas em geral a felicidade é quase um patrimônio da humanidade. Aprendemos desde pequeno a cultuar o medo da infelicidade, e isso nos norteará a vida inteira. Só buscamos a felicidade porque sentimos o inverso. Logo, uma só existe em detrimento da outra. Como saber o que é ser feliz se não conhecermos a infelicidade? Essa não se torna uma regra lógica para tudo na vida? Só conceituamos a morte a partir da definição do que é vida. Só entendemos e codificamos o que é bom a partir das referências, também criadas, sobre o que nos é ruim ou mau. Só aceitamos a compreensão do que é saúde por que conseguimos dar nome ao que se entende por doença. Assim, morte é ausência de vida; doença é oposição a saúde; e infelicidade é apenas o inverso da felicidade. E o medo, o que é finalmente? Será apenas a falta de segurança e concretude?

Sempre me perguntei, por exemplo, como algo tão pesado como um avião consegue voar. Afinal de contas o ato de voar se pauta na certeza de leveza. Logo, algo que não é leve não voa. Confesso que até hoje me surpreendo ao ver imensas aeronaves decolando do chão em alta velocidade rumo aos céus e ao infinito desconhecido. E por mais que me expliquem os mecanismos e procedimentos técnicos, bem como teorias fundamentadas na exatidão da matemática e física (ou demais ciências), continuo sem entender como conseguimos viajar pelo espaço, vagando pela imensidão do cosmo e depois retornar ao ponto de partida. Como sempre fui péssimo em números e cálculos estratosféricos, prefiro reconhecer minha ignorância e simplesmente acreditar na inteligência humana. Afinal de contas, crer na capacidade de respostas do outro também é uma forma de amenizar nosso sofrimento ao identificarmos nossa incompetência no que se refere à inabilidade para encontrar nossas próprias respostas. Tanto que em muitas situações delegamos ao outro a responsabilidade por nossas incertezas. E assim, também parece que aprendemos a “acreditar” na certeza do outro. A crença só existe por que nos é natural a duvida e a incerteza.

E essa crença naquilo ou naquele que não conhecemos, que nos sentimos incapaz de entender, codificar, assimilar, compreender, ou seja, lá a palavra que inventaremos para nos justificar, se pauta na certeza que não somos plenos em conhecimento e sabedoria. Traduzindo, somo seres limitados! Muitas vezes essa mesma crença na capacidade alheia se justifica pela nossa preguiça em raciocinar, ou mesmo, no medo de encontrarmos respostas desconfortáveis. Não será assim para a morte? Não será por isso que criamos o paraíso prometido? Afinal de contas, mesmo não conseguindo explicar a morte, ou ainda suas implicações sobre nossas vidas (ou pós-vidas), não poderemos negar que ela é real. Nascemos sabendo que iremos morrer um dia. O que nos angustia parece então ser o fato de não sabermos quando, como, onde e em que circunstâncias. Vivemos na expectativa do quando será? E penso que essa angustia se pauta no fato de acreditarmos e reconhecermos como injusta tal constatação. Não somos eternos e nada podemos fazer em relação a isso. E se viajar no espaço, ou nos ares, tornou-se tão preciso quanto navegar nos temos de Camões, a vida tem sempre se revelado imprecisa em si e por si mesma.

Essa imprecisão parece justificar o medo que me invade todas as vezes que preciso ou pretendo viajar. Medo que aos poucos vai se transformando em pânico. E mesmo sem querer não consigo parar de pensar que minha vida está nas mãos de pilotos que não conheço, e por tanto não possuo referências quanto as suas experiências e profissionalismos. Sinto-me coagido a uma situação sobre a qual não tenho domínio. Desta forma, não me resta alternativas a não ser entregar-me a própria sorte e apelar aos deuses à clemência e piedade justas a um ser tão indefeso. Porém, mesmo consciente de minha impotência, a cada viagem me pego pensando em todas as possibilidades possíveis para se sobreviver a um acidente aéreo. E é engraçado que em meus devaneios fantasiosos sempre consigo sobreviver. Até porque penso mesmo que não teria graça nenhuma passar por tal experiência sem poder contar detalhes ou expressar opiniões. E isso tem me confortado de certa forma, mesmo sabendo que são apenas devaneios e que tais possibilidades são quase que inexistentes. Talvez pelo simples fato de exercitar um mecanismo de autodefesa e preservação. Uma tentativa de prever o imprevisível, e assim acreditar nas possibilidades de controle, mesmo que utópicos.

Na impossibilidade de me tranquilizar recorro ao destino, tentando mais uma vez acreditar que todos têm um dia e hora certa e marcada para morrer. Nesse novo devaneio tudo funciona como se nossa própria história seguisse um roteiro já traçado e definido. E mesmo sem saber quando será o meu dia, passo a imaginar que será sempre em outro momento, e nunca no que estou vivendo. Então, minha morte será sempre futuro e nunca presente. Viabilizo uma eternidade que me faz consiguir entrar num avião e até aparentar uma calma que não é real. E isso se torna mais fácil se estiver em viagem acompanhado. Afinal de contar deve ser muito triste morrer sozinho. E não penso nisso como egoísmo, mas porque talvez se torne menos penoso fazer a tal “passagem” em companhia de alguém conhecido. Talvez seja mais um mecanismo de defesa, pelo simples fato de saber que a morte é um ato solitário. E mesmo estando em meio a muita gente, fato comum nos vôos, penso que talvez seja mais confortável se este momento for compartilhado com alguém de quem gostamos.

Esses pensamentos logo me trazem outros e começo a divagar sobre o fato de que se existe mesmo um destino traçado para cada pessoa, qual a vantagem do livre arbítrio? Reflito então sobre o quanto me é difícil imaginar que independente do que fizermos teremos sempre o mesmo fim. E que também nossa história segue apenas uma cronologia de fatos sobre os quais não temos autonomia e muito menos poder de decisão. Seria então, como se fossemos pequenos fantoches nas mãos de um deus que se divertiria com a criação e desenrolar de suas histórias. Decido então que não, pois que definitivamente isso seria fantástico demais para uma pessoa que não acredita em destino e muito menos na passividade humana diante de determinados fatos e acontecimentos. Busco justificativas plausíveis para minhas hipóteses e recorro à lógica do desenvolvimento humano. A prova para minhas certezas estaria no fato de termos chegado aqui, ou seja, em pleno século XXI. E assim, prefiro acreditar que somos donos de nossas próprias vidas e que desfrutamos de inteligência e legitimidade para traçar nossas próprias histórias.

Mas independente disso, logicamente não poderemos controlar todas as situações, o que nos leva novamente a certeza da exposição a desfechos imprevisíveis e imagináveis. Então não temos domínio sobre nossas vontades e muito menos sobre nossas vidas? Estamos à mercê novamente do deus cruel que brinca com suas marionetes? Dependemos de seus caprichos e vontades para nos mantermos vivos? Será por isso que temos sido sempre bonzinhos e nos comportado de acordo com o que se costumou julgar como certo? Será por isso que também nunca se quer pensamos em contrariar nossos deuses? Por medo de sofrer as penalidades de sua ira? Não foi isso que aprendemos com as religiões? Ou melhor, não terá sido por isso que as criamos? Não é a mesma repetição da regra que aprendemos em outorgar ao outro, mesmo que desconhecido e invisível, o poder sobre nossas vidas? Não foi para isso que criamos os deuses? Para que possamos em determinadas situações lhes atribuir as responsabilidades sobre nossos “destinos”?

E se estendermos tais reflexões a vida prática, não fazemos o mesmo com nossos políticos? Não lhes entregamos o direito de nos representar e defender nossos direitos, porque de certa forma nos sentimos incapazes de lutar por eles? Será que não nos é mais cômodo criar ídolos? Venerar o outro se torna então mais fácil que venerar a si próprio? De qualquer forma, acho que partimos do principio de que assim corremos menos riscos, afinal de contas se este outro fracassar poderemos criticá-lo e até crucificá-lo. Colocamos então o pescoço do outro na forca e livramos nossas cabeças. E logicamente nos vangloriamos por acreditar que isto é um ato de inteligência e perspicácia. Somos sábios e não burros? Talvez, penso eu. Mas apenas se tivermos sempre em mente a certeza consciente de que tanto os deuses, quanto os ídolos e os politicos nada mais são do que construções socioculturais. São construções e criações nossas, que precisamos perpetuar em nossas culturas para repassar geração após geração.

Então criamos heróis para compensar nossas fragilidades? Seres supremos e superiores, a quem podemos responsabilizar por nossos futuros, erros, acertos, nossas vidas e nossas mortes, para que finalmente encontremos a tão sonhada felicidade. E neste sentido, acredito também nos pilotos enquanto heróis, meio homens, meio máquinas, e por isso, precisos e dignos de confiança. Estes se transformam em deuses astronautas, com poderes para decidir entre a vida e a morte de suas “marionetes passageiros”. Então aconselho que ao entrarem em um avião, apertem o cinto, relaxem e tentem fortalecer suas crenças em seus próprios deuses, pois que eles saberão guiar suas vidas. Eu, por minha vez, confesso que mesmo assim nunca conseguirei deixar de fantasiar uma ultima estratégia como plano de “salvação”. E nestas situações, como nos filmes de minha infância, prefiro acreditar que em casos de emergência e/ou fatalidades o Super-homem chegará a tempo de evitar a catástrofe da minha vida.

Serei salvo por um herói imaginário e fantasioso, mais que representa uma figura de autoridade, tanto quanto os deuses que nos ensinaram a reverenciar e aos quais aprendemos a clamar por clemência e piedade. É fim de vôo, o avião aterriza tranquilamente graças aos deuses, e nestes momentos tenho sempre o pressentimento e a grata sensação de que mais uma vez escapei da morte. E logicamente, e por vários motivos, consigo entender o real significado da felicidade. E esta, para mim, se traduz no ato e fato de estar vivo.

Aeroporto do Rio de Janeiro/2010