segunda-feira, 16 de agosto de 2010

HISTÓRIAS DO RECIFE - Capitulo XIV - A Tribo dos Emos



















Baile Municipal - Chevrolet Hall - Recife/PE - 02.2010

EMOs: fragilidade Ideológica ou Lugar Comum?


Quem passa pela Rua do Giriquiti, vindo da Rua do Progresso, ou ainda pela Rua José de Alencar, seja na quinta, sexta, sábado ou domingo, pode se espantar com a quantidade de adolescentes que se aglomeram em um pequeno trecho do cruzamento dessas duas ruas. Se estiver de carro controle o stress e mantenha a calma e simpatia ao solicitar passagem. As vias ficam interditadas e é preciso experiência para espremer o veículo entre uma enorme massa compacta de jovens, que a cada dia se torna mais extensa. Falar sobre as “Tribos do Recife” é necessariamente falar sobre uma gama de personagens que se dividem em grupos e adotam condutas e comportamentos próprios e definiram aquele espaço como território da juventude gay.

Com a reestruturação do centro da cidade, ainda no inicio dos anos noventa, os territórios passaram a se configurar enquanto espaços demarcados por categorias específicas. A instalação do Shopping Boa Vista trouxe para o centro da Boa Vista uma geração mista em estilos e ideologia política (se é que realmente existe alguma). Talvez neste sentido, o descompromisso ideológico seja marca registrada de uma juventude que busca a diversão e o entretimento instantâneo tão característico aos tempos modernos. Assim, tudo e todos parecem ter pressa, pois que é necessário está sintonizado com a ultima moda, conhecer o mega ídolo pop do momento, usar a maquiagem certa e elaborar penteados que em conjunto com a indumentária componham uma espécie de codificação relacionada as identidades sociais de cada tribo.

Em umas das caminhadas pelo local, me chamou a atenção uma adolescente, com talvez seus mal completados doze anos. Parecia indiferente a agitação ao seu redor. A calça jeans parecia colada ao corpo e de tão apertada que se assemelhava a uma camisa-de-força que prendia seus movimentos. Uma bota de couro preto lhe subia pelas pernas até a altura dos joelhos. Uma blusa branca no melhor estilo mini-top, com decote amplo e mangas largas deixava a mostra o sutiã rosa choque. O cabelo acompanhava o tom róseo, que aparentemente despenteado lhe reforçava o ar de desleixo ou sofrimento por depressão aguda. Mas não se enganem, pois ela é apenas uma das tantas “meninas-Emo” que habitam o lugar!

Em outro ponto, um garoto aparentando não mais que quatorze anos, com cabelos pretos brilhosos que caiam sobre o rosto, se movimentava de um lado para o outro da rua. Seus braços pareciam voar a cada expressão e o seu gingado nos faziam lembrar as coreografias de Carmem Miranda. Sua calça também se mostrava “mega-extra-ultra-super” acochada, demarcando as bordas da cueca que também parece fixada a pele. Uma blusa com decote em “V” parecia rasgada propositalmente na extremidade para evidenciar uma barriga tão batida quanto uma tábua de carne. No rosto uma camada (ou talvez várias) de pankec lhe conferia um aspecto de porcelana cristalizada. Seus olhos extremante contornados em preto pareciam saltar das orbitas, quando por ventura um movimento de cabelos permitia seu contato com a luz. Ele também é um “menino-Emo”.

Lembro-me de certa ocasião que ao sair do referido shopping me deparei com uma jovem negra sentada em uma das calçadas da loja. Confesso que seu ar de desolação me chamou a atenção, pois que aparentava uma angustia digna das pessoas desenganadas por alguma doença fatal. Senti mesmo o impulso de me aproximar e perguntar-lhe se precisa de ajuda. Seu corpo parecia jogado sobre o mármore frio, parecendo diluir-se na vitrine repleta de manequins coloridos. Perdida em seus devaneios, olhava fixamente algo que me parecia ausente deste mundo. As lágrimas lhe escorriam pela face e se perdiam no preto de suas roupas. De repente ela desliga o aparelhinho do som, ao qual enrola os fios do plug de ouvido, e o coloca em uma bolsa em plástico amarelo reluzente. Levanta-se lentamente, alisa o cabelo sobre um dos olhos e sai andando em minha direção. Mas uma vez me peguei querendo perguntar-lhe se estava bem, porém não tive tempo, pois que apressadamente acenou para alguém no outro lado da rua e atravessou a avenida correndo entre os carros para se juntar a sua “galera” (será que ainda se usa essa expressão?).

Confesso que no início sentia certo estranhamento ao ver tais espécimes circulando em roupas listradas ou quadriculadas, com adornos de motivos infantis e extravagantes. Seria uma invasão de seres de outros planetas? Era carnaval fora de época? Nada disso, eram os Emos que pareciam invadir o centro do Recife. Sempre em grupos, de mãos dadas e aos beijos, garotas e garotos parecem prontos e dispostos a revolucionar as regras. Hoje são tantos e tão variados que se torna difícil entender ou classificá-los em uma categoria específica. Porém, percebo que talvez essa seja apenas uma tendência ou necessidade dos pesquisadores. Não acredito que para os mesmos importe tais denominações ou rótulos que julgamos necessários ao novo.

Ficava impressionado com fato de constatar que ninguém do meu circulo de relações conhecia um Emo de verdade. Ninguém me dizia ter um filho, nem mesmo um sobrinho, ou ainda vizinho Emo. Então me questionava como conseguiam se multiplicar nas ruas? Como se aglomeravam as centenas nas áreas circunvizinhas ao shopping? De onde danado viam aquelas criaturas de aparência apática? O que pensam ou que sentem? E acima de tudo, pelo que lutam? Comecei então a me questionar: afinal de contas o que significa ser Emo? E não pensem que aqui estou me referindo ao macho da ema, espécie de ave que habita os campos e cerrados brasileiros, ou mesmo ao personagem do folclore nordestino. Não, estou falando dos Emos, que em sua maioria, tais como as referidas aves parecem não medir mais que um metro e meio e revelam pernas alongadas que parecem se movimentar com uma sutileza desengonçada e cambaleante. E ao contrário das emas-aves que têm apenas três dedos nos pés, os Emos-humanos parecem não possuir nenhum (alguém já viu os pés de um Emo?), pois que os sapatos tornam-se extensivos as calças.

Um dia na Metrópole havia uma espécie de confraternização Emo, e desavisadamente me deparei com uma grande quantidade de seres encantados que mais pareciam ter saído das histórias em quadrinhos japonesas. Eram em sua maioria magros, quase esquálidos, de aparência melancólica que contradizia uma euforia histérica de criaturas perdidas e cheirando a leite. Eram meninas e meninas que se confundiam em aparências andrógenas, ora feminino, ora masculino, numa verdadeira mistura dos papeis de gênero. Garotos abraçados a outros simulavam beijos e carícias, sempre atento aos olhares alheios. As garotas por sua vez, em duplas ou trios, portavam garrafas de água e faziam poses languidas para as fotos. Um dos Emos me despertou admiração (e aqui peço desculpas antecipadas por não saber que gênero deveria utilizar). Era de baixa estatura e tinha cabelos longos alisados que chegavam ao meio das costas. Magérrimo dentro de uma calça jeans desbotada e aparentemente suja fazia poses estanques no melhor estilo das grandes modelos em desfiles de moda. Seu rosto era pálido contrapondo-se a cor dos braços e colo. De certa forma lembrava a Luiza Brunet, contudo era uma figura extremamente estranha dentro de “look-fashion” também estranho e com uma voz ainda mais estranha.

Aproximei-me do grupo na tentativa de ouvir um pouco da conversa e buscar subsídio para minhas impressões. Era difícil entender algo do que se falava e tive a nítida impressão de que realmente não falavam, pelo menos nada de concreto. Era como naquele grupo estivesse sendo travada uma competição, pois que as frases quase nunca se completavam, ao paço que alguém sempre iniciava um novo assunto (ou melhor tópicos que se perdiam no ar). Achei que estava com problema de audição, ou que em ultima hipótese estava sendo prejudicado pelo barulho provocado pela musica alta. Depois com o tempo, e com a maior proximidade, percebi que a conversa se dava numa espécie de dialeto indecifrável e incompreensível. As vozes são sempre afetadas por uma “afeminamento” (desculpem não encontrar palavra mais apropriada) que incomoda os tímpanos. As risadas me pareciam descompensadas e desconexas, talvez com o único intuito de fazer suada ou chamar a atenção. E definitivamente não consegui entender nada!

Reconhecendo minha ignorância relativa ao tema precisei recorrer à internet para buscar entender que o termo Emo é bastante usual em referencia as bandas ou ao estilo de se vestir com roupas pretas. E é bom salientar que o que caracteriza um Emo de verdade é uma franja que cai sobre um dos olhos, que em certos casos lhes confere cara de coruja ressentida. Essa franja de preferência deve chegar até a altura da boca, e alisada com cremes ou pastas fixadoras formam uma cortina que esconde metade do rosto. Esse estilo de vida ganhou força nos anos 2000, porém enquanto estilo, surgiu ainda na década de oitenta. E se antigamente a palavra designava apenas as bandas musicais de estilo “Emotional Hardcore”, com letras mais emotivas e melancólicas, hoje representa uma categoria social formada por adolescentes que se vestem e vivem (ou parecem viver) de forma diferente.

Em minha viagem pela internet, posso dizer que realmente me espantei com a quantidade de sites e blogs sobre o ser Emo. Não ser no sentido de indivíduo ou sujeito, mas ser no sentido de se sentir, se portar e logicamente se reconhecer enquanto tal. Parece mesmo existir manuais de formação, onde é possível encontrar milhares de dicas que orientam para o processo de transformação. Uns mais números em detalhes, outros mais simples, porém todos como os fundamentos básicos de uma filosofia que se pauta no direito de vivenciar a emoção, livres dos modelos machos e fêmeas que permeiam nossa cultura.

Em um desses sites encontrei vinte e quatro dicas importantes e fundamentais de como ser e se sentir um puro Emo de verdade. E como princípio fundamental e regra, deve-se entender que no mundo Emo não interessa ser apenas mais um, mas tem que ter estilo e assim se diferenciar para se tornar único. Outra lei que rege a conduta destes seres é a busca pela evidência ou “estrelato social”. Assim, vale de tudo para despertar curiosidades de câmeras e flashes que os levem ao lugar de destaque. E neste sentido, penso que a busca por essa diferenciação funciona como recurso para que todos se sintam iguais e assim fortaleçam seus sentimentos de pertencimento. Busca-se a diferença para se conseguir a aceitação dentro de um grupo pasteurizado e monocromático. Afinal de contas, quem vê um Emo, ver todos. Confirma-se então a velha e evidente hipótese de que independente de categoriais ou tribos, o homem continua sendo um animal sociável e por isso necessita da interação e vivência grupal. E que logicamente os grupos se formam a partir da semelhança de seus pares. Então ser Emo parece ser muito mais uma busca pela aceitação e pertencimento do que uma ideologia de mudanças radicais.

Se você pretende adentrar num mundo a que talvez seu filho pertença, é bom saber ou conhecer algumas noções básicas para melhor se comunicar e conviver sem grandes conflitos. Em primeiro lugar acho interessantes destacar que enquanto filosofia, os Emos não têm sexo definido, o que possibilita abertura e o autorizo para beijar pessoas de ambos os sexos e identidades de gênero. Contudo, segundo os manuais de orientações, estes devem evitar as relações sexuais com pessoas do sexo oposto. O que se configura a meu ver, tão radical e separatista quanto a cultura heterossexista. Talvez se configure como reflexo inverso de um modelo que ainda nos serve de parâmetro social e que tenta se manter como norteador da sexualidade humana.

Os Emos devem inclusive evitar manter contatos, conversas ou estabelecer interrelações sociais com pessoas de outras tribos, pois que devem se relacionar apenas entre si. Em um dos fundamentos orienta-se aos jovens a esquecer todas as suas antigas amizades porque agora pertence a um grupo ou sociedade diferenciada, com costumes e culturas próprias. O Emo de verdade chora, e chora muito, mesmo sem motivos. E como diria uma velha amiga minha, para ser reconhecido como integrante do grupo tem que chorar a cântaros, numa hiper sensibilização estereotipada. Outra dica importante e imprescindível a uma boa imagem, e consequentemente bem sucedida aceitação refere-se a utilização de roupas justas e bem apertadas, que como eles mesmos pregam, tem que ficar colada no “chaci da pessoa”.

O cabelo é requisito obrigatório, pois que é talvez o principal elemento de identificação ideológica. E por isso tem que ser moldado no melhor estilo o “boi lambeu”. E vale a advertência, se seu cabelo for liso, seja bem vindo ao restrito universo dos escolhidos e eleitos; se crespo, torna-se necessário alisamento para se aproximar do modelo padrão. Neste sentido penso se não seria uma estratégia para se estabelecer enquanto raça pura. Não basta ser Emo, mais tem que ser branco e de cabelos lisos, e prá isso vale qualquer sacrifício, inclusive clarear a cor da pele (será que o Michael Jackson ditou moda?), dos olhos ou colorir os cabelos. A aparência precisa ser alva e neste caso pode-se recorrer aos truques de maquiagem, sempre com um tom a menos do pó facial. “A cor dos lábios deve ser suavizada com um tom rosado que se consegue com batom cor da pele”, diz uma garota-Emo em seu blog. E acrescenta, “é interessante pintar os lábios com lápis rosa e depois passar o gloss para fixar o brilho”. E neste ponto me questiono sobre qual “cor da pele” ela se refere? (ou melhor eles/elas se referem?). Mas uma vez constata-se o recorte étnico/raça que permeia modelos. Tanto que nos vários sites visitados não encontrei Emos-negros (alguém já achou, ou procurei pouco?).

Outro aspecto importante é que se você for Emo legítimo ao acessar o MSN ou postar em blogs deve se apresentar sempre com pronomes de tratamento formais, do tipo “Sr.”, “Sra.”, “Srta”, “Srto”, “Dona”, “Lady”, “Mister” (...) e mais uma grande quantidade de títulos que talvez se relacionem a lugares de poder (Logo, não parece uma doutrina burguesa?). e lembrem-se que a regra gramatical é não ter regras, por isso nada de pontuações ou acentos. Também vale trocar letras e escrever como se falar. Não se faz necessária a correção ortográfica, afinal o importante mesmo é se comunicar. E neste sentido comunicar algo não necessariamente se correlaciona a se fazer entender.

A maquiagem (ou melhor, Make) torna-se também recurso fundamental e gênero de primeira necessidade, ao possibilitar que se capriche no lápis preto em torno dos olhos para dar uma aparência de tristeza profunda. O blush servirá para contrapor a depressão simbólica com o frescor necessário à composição performática. Por isso penso que talvez seja como um personagem que vai sendo elaborado aos poucos, pois conforme orientação dos manuais-Emos, você vai se descobrindo com o passar do tempo e o visual vai se alternando de acordo com o seu ânimo (conseguem entender agora?). É que no aspecto Make, uma das orientações diz que “a maquiagem precisa ficar próxima a de Hitler!”. E neste ponto confesso que não entendi o contexto e a colocação (será que perdi a piada, ou é isso mesmo?). Talvez a garota-Emo do blog em questão não tenha estudado suficientemente história e não sabe o que referenda. Mas talvez seja uma referencia ao processo de clareamento da pele, no melhor estilo eugenista (será?). Então, realmente não existem Emos-negros? E se for assim, podemos por acaso supor que tal filosofia se fundamenta num recorte étnico? (talvez seja melhor perguntar, caso seu filho ou mesmo sobrinho seja um deles. Porém será que saberão explicar, ou pior ainda, entender sobre o que você vai estar falando?)

Bom, mas voltando as demais dicas, lembre-se que para os Emos a hora de tirar fotografias é única e torna-se “momento brilhante”. Por isso a orientação é que você se transforme e de preferência entorte a boca e faça “cara de pensativo”. Como ideologia, adote o estilo crítico e reclame ao máximo das coisas, seja do governo, da sua escola, do emprego (gente, Emo trabalha? Alguém conhece um em sua empresa?) e principalmente do sistema capitalista (mesmo que não se demonstre saber o que é capitalismo, como parece não se saber o que nazismo). Mas o mais importante é que na verdade um Emo “nunca faça porra nenhuma para mudar nada”, ou seja, apenas critique, mesmo sem ter opinião formada ou acreditar no que está falando (isso quando souber o que fala). Assim, quando alguma coisa lhe incomodar “abra o maior berreiro”, pois é no grito que se ganha uma luta.

O menino-emo deve ouvir “música de fresco”, enquanto que as meninas-emo devem chamar sua melhor amiga de “marida”, mas ambos devem ter “um mau gosto da porra” e se tornarem belos “paga pau”, pois que os micos são características da espécie. E neste aspecto é interessante observar as contradições ideológicas. Os Emos em sim se dividem em meninas e meninos numa cópia fiel, disfarçada em nova roupagem, ou como diriam repaginada. As demarcações que parecem ser de gênero mostram-se também pautadas em sexo – emo macho e emo fêmea. Será que os meninos-Emos chamam seus melhores amigos de esposo? Ou será que no “fringir dos ovos”, eles são tão machistas que não possuem um melhor amigo? Será que o movimento Emo prega o respeito a diversidade ou replicam os papéis e modelos sociais tão tradicionais quanto o fato dos adolescentes desejarem se mostrar irreverentes? Penso que talvez ser Emo seja apenas uma fase transitória entre a criança carente ou mimada e o adulto conservador em que deve se transformar num futuro próximo.

Por fim, as “tábuas de Moisés” da doutrina Emo pregam uma passividade descabida e sem motivos: “com todas as pessoas com quem conversar exponha sempre seus medos, anseios, problemas pessoais e principalmente os defeitos. O que está em jogo é transmitir a imagem de vítima”; ou ainda, “caso sofra violência nas ruas você não deve ligar e se possível aproveite para chorar muito, a ponto de chamar a atenção das câmeras de televisão”. Promulga-se assim uma permissividade a violência e um menosprezo autodirigidos, que aliado ao sentimento de piedade solicitado parece fortalecer a imagem comprometida que tentam passar enquanto sujeitos imaturos e inconsequentes no que se refere às noções de direitos e cidadania.

Assim acredito que antes de acharmos interessante, irreverente ou engraçado as estripolias de nossos filhos-Emos, talvez fosse melhor refletir junto com eles sobre seus anseios, dúvidas e desejos tão comuns na adolescência, para que não repliquem simplesmente por modismo um aprendizado ideológico que parece se pautar no fato de que: “Se alguém te bater chore e agradeça. E se te jogarem numa lata de lixo sinta-se feliz, porque você já fede mesmo”.

Carnaval 2010 - Recife/PE

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

HISTÓRIAS DO RECIFE - Capitulo XIII - Socialização Gay em Recife


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Do Bar do Karalho ao Shopping Boa Vista - A eterna luta pela definição de territórios


Como já dito anteriormente, minha chegada ao centro de Recife coincide com o período de abertura política, onde a censura se tornava mais amena com o passar dos tempos, e assim pude de certa forma, acompanhar as transformações que se deram durante e após a “revolução de oitenta”.

Durante minha pesquisa de mestrado recorri a velhos amigos, a amigos de amigos e pessoas que aos poucos me iam sendo apresentas, com o objetivo de tentar reconstituir um pouco o processo de consolidação e socialização gay em Recife. Através dos vários depoimentos colhidos pude constatar e revelar a efervescência das transformações pós-ditadura, período em que os espaços destinados aos homossexuais e/ou as vivências homoeróticas se restringiam a determinados locais onde, invisíveis aos olhos da sociedade burguesa, tornavam-se possíveis os encontros que se desenvolviam de forma restrita e limitada. Assim, em continuidade a formação e constituição das “tribos de Recife”, resolvi transcrever alguns trechos de minha dissertação no intuito de melhor clarificar a longa trajetória da consolidação de uma cultura gay que vem se afirmando como tendência entre os jovens e adolescentes que povoam nossas ruas de mãos dadas, aos beijos e abraços.

Esses adolescentes e jovens formam talvez a tribo mais alternativa e irreverente da cidade. Concentrados no maior espaço de socialização gay de Recife, misturam-se e diversificam-se em estilos, categorias, ideologias e classes sociais. E aos poucos transformam o cruzamento da Rua José de Alencar com a Rua do Geriquiti, num território que concentra hoje o maior contingente representativo de diferenças, sejam elas de caráter étnico/raça, gênero, geracional ou econômico. O perímetro tem ainda se estabelecido como maior área de empreendimentos econômicos voltados ao público gay alternativo, incluindo o Shopping Boa Vista, conhecido popularmente entre os jovens como “shopping boa bicha”; o Bar Mustang, o mais antigo bar em funcionamento no centro da cidade; Bar Pinthifouse, de público diversificado; Bar Sete Cores, localizado num belo e misterioso casarão antigo e uma sauna.

Considero oportuno, no entanto, voltar um pouco no tempo para melhor entender e explicar a extensão ideológica e cultural do que se pode reconhecer nos dias atuais como reduto da diversidade recifense. Desta forma, mais uma vez esclareço que as descrições a seguir são resultados de dois longos anos nas ruas do Recife e de conversas informais, entrevistas e leituras sucessivas, além claro, da minha própria observação sobre os fatos, que me possibilitaram um panorama geral sobre os processos de construção e reestruturações das performances de gênero em algumas categorias nativas. Saliento ainda, que em alguns trechos as transcrições das narrativas e depoimentos se mantêm fieis ao texto original, e que por isso algumas palavras ou nomenclaturas podem causar certo estranhamento (ou incômodo, porque não?)

Inicio então pelas conclusões de um de meus informantes que, por exemplo, descreve sem grandes romantismos as dificuldades relativas à dinâmica da “pegação” no início dos anos oitenta. Ele relata que existiam naquela época, os cinemas, que não passavam filmes pornôs, e alguns bares, entre os quais, o Savoy, na Av. Guararapes; o HC, na Rua do sossego; o Mustang, que ainda se mantém na Av. Conde da Boa Vista; o Mangueirão e o Bar da Cris, próximos a Universidade Católica, onde as azarações não eram acintosas, mas era onde se namorava e se paquerava. E onde também se podia depois acertar os futuros encontros, não necessariamente seriam sexuais.

A efervescência sexual gay de Recife coincide com o reconhecimento e reafirmação de sua própria homossexualidade, que antes “enrustida” o levou a efetivar uma relação marital, pautada no modelo heterossexista, por mais de trinta anos. Funcionário público, de classe média, pai de dois filhos, ao se separar da esposa fixou residência no bairro da Boa Vista e passou a vivenciar tardiamente a plenitude de sua sexualidade através de encontros e relações fortuitas que se davam em espaços de pegação. Para sua geração, os banheiros dos bares se destacavam como espaços onde os encontros eram certos e onde se tornava possível encontrar “homens que procuravam outros homens”.

Em alguns destes encontros o dinheiro sempre funcionava como “facilitador” e/ou agenciador para as práticas sexuais de caráter homossexual. Outro depoimento a respeito, evidencia que nestes locais, “alguns homens já esperavam pelas bichas com o pau duro. Deixavam a gente chupar e depois pediam o dinheiro da cerveja ou da passagem. Eram desculpas esfarrapadas, porque no outro dia eles estavam lá, do mesmo jeito”. Um segundo informante destaca que entre os espaços citados, os banheiros públicos e o famoso “quem-me-quer”, que margeia o Rio Capibaribe, sempre serviram como espaços de pegação para os homossexuais da cidade.

Neste ponto, vale salientar que atualmente, o espaço ainda hoje se configura como ponto de prostituição masculina homossexual, que se desenvolve no trecho localizado entre a Rua Dr. José Mariano, no perímetro compreendido entre a Ponte Seis de Março (mais conhecida como Ponte Velha) e a Ponte da Boa Vista (também chamada pelos recifenses como Ponte de Ferro). Nesse território, mais conhecido como Cais José Mariano, os vários bancos, árvores e um banheiro público servem, muitas vezes, como espaços para as práticas sexuais comerciais e/ou encontros homoeróticos que se dão na via pública em altas horas da madrugada.

Já nos banheiros dos cinemas “São Luiz”, na Rua da Aurora; e do “Veneza”, na Rua do Hospício, as pegações eram mais discretas e se configuravam como relações homoafetivas entre entendidos (denominação usual entre os gays nos anos oitenta e noventa). Um estudante universitário me relata que descobriu o mundo gay em tais banheiros, que na época ele tinha 19 anos e sua primeira experiência sexual se deu no Cinema Veneza: “o cara chegou no mictório de lado e ficou me olhando. Ele era bem mais velho e tinha uma bunda linda. Já comi muita gente nos banheiros dos cinemas. Naquela época era mais fácil, porque todo mundo sabia o que rolava nas cabines”. Conta ainda que antigamente os jovens gays saiam diretamente dos colégios, localizados no centro, para os cinemas (ou melhor, para os banheiros). E quem viveu a época sabe que muita gente, em sua maioria homens, que se posicionava em pé encostado nas paredes do final da sala de projeção, pouco se interessava pelos personagens fictícios. O atrativo da sétima arte consistia mesmo em presenciar ao vivo, ou mesmo vivenciar as fortes emoções dos explícitos encontros eróticos que se davam entre homens dos mais variados tipos, idade e classes sociais.

No final da década os principais cinemas do centro da cidade, como o “Moderno”, em frente a Praça Joaquim Nabuco; O “Astor” e o “Ritz” na Avenida Visconde de Suassuna; bem como o “Trianon” e o “Arte Palácio”, ambos na Avenida Guararapes, passaram a exibir exclusivamente filmes eróticos, e se tornaram espaços de circulação para prostitutas e boys de programa que atendiam seus clientes tanto nos banheiros quanto nas próprias salas de exibição. Nos dois últimos, haviam os camarotes localizados no final das salas, que nos tempos áureos serviram para demarcar as diferenças sociais, mas que, porém, no final dos anos oitenta serviram como espaços reservados as grandes “surubas” e demais práticas sexuais que envolviam tanto casais heterossexuais quanto homossexuais. Em determinadas horas, tais espaços concentravam mais gente do que mesmo as platéias, onde se tornava frequente a visualização de homens ajoelhados entre as cadeiras, meio às pernas de outros que fingiam prestar atenção ao que se passava na grande tela.

Fora dos cinemas, ao que tudo indica a prática da pegação também acontecia em toda extensão da Avenida Conde da Boa Vista e suas principais ruas paralelas. Tal fato é destacado por alguns entrevistados como marco para o processo de definição e reconhecimento dos espaços e territórios gay de Recife. Desde a década de setenta, os olhares e as trocas de sinais, combinavam os encontros que terminavam nas antigas pensões do centro. E segundo o artigo publicado no antigo Jornal Lampião da Esquina (1980), irreverente publicação voltada ao público gay, a cidade já mesmo na época da ditadura militar apresentava um roteiro de espaços onde os homossexuais podiam encontrar parceiros sexuais ou simplesmente apreciar os jovens rapazes que pescavam às margens do Rio Capibaribe, “onde existe o famoso quem-me-quer, um cais de ambas as margens - Rua do Sol e Rua da Aurora, sendo que nesta última, em frente ao Cine São Luis, a pesca acontece ao contrário, quer dizer, são os peixes que se lançam a pescaria (Albuquerque Jr. & Ceballos, 2004).

Esses registros demonstram que a vida gay recifense passou a se consolidar no bairro da Boa Vista, ainda no final da década de setenta. Mais um informante, destaca o inicio da ebulição da vida noturna no bairro revelando a existência da “Boate de Homero” e a “Boate da Tia”, ambas instaladas no Edifício Novo Recife, que se localiza por trás do Cine São Luis. Eram pequenos espaços de socialização, pois que se configuravam praticamente como apartamentos residências onde se promoviam festas dançantes. Porém já existiam os shows de travestis famosas ou conhecidas, nos mesmos moldes de hoje em dia, dublando os clássicos sucessos das divas estrangeiras. Já um outro antigo morador do bairro, chama a atenção para os bares do local que também funcionavam como espaços de socialização entre os homossexuais. Alguns como o “HC”, o “Louco Amor” e o “Doce Vício” viviam constantemente lotados e eram frequentados por ativistas políticos, artistas e “entendidos”, tornando frequentes as “azarações” e os encontros homoafetivos.

Contudo, ao que tudo indica, as pegações não se restringiam aos espaços privados, mas se estendiam a espaços públicos, como por exemplo, ao Parque 13 de Maio que é margeado de um lado pela histórica Faculdade de Direito do Recife, e de outro, pela Biblioteca Pública Central Presidente Castelo Branco. Esses três patrimônios públicos juntos formam o que se poderia chamar de maior espaço de socialização gay do Recife. Tanto que nos banheiros da biblioteca ou faculdade, as pegações e práticas sexuais entre homens se davam durante todo o dia. Nestes, segundo relatos, parece que questões relacionadas à idade, raça/etnia e classe social não se mostravam como demarcadores de diferenças tão significativos.

Neste aspecto, um funcionário da biblioteca que trabalhava no horário da tarde relata que quando chegava sempre dava uma passada no banheiro para ver como estavam às coisas. Registra-se então que ao meio dia, o movimento aumentava muito com “homens de todo tipo - brancos, negros, altos, magros, senhores sérios, garotos que vinham das escolas, e até estrangeiros”. E para o narrador parecia engraçado observar o clima de nervosismo que pairava no ar, tanto que “aproveitava para escovar os dentes e sempre conseguia ver alguém de pau duro, esperando do lado de fora, enquanto alguém se masturbava dentro da cabine”. Por isso ele sempre escolhia a pia próxima a primeira cabine, porque dava para ver no reflexo no chão, os “membros eretos em movimentos mastubatórios”.

Assim, parece que as estratégias e táticas adotas durante as pegações se diversificavam tanto quanto o perfil de seus praticantes, tanto que “alguns frequentadores, os mais afoitos, deixavam a porta entreaberta e as bichas fingiam que estavam na espera só pra ficar olhando o cara se masturbar”. E nestes momentos “algumas paravam mesmo, bem perto da porta e muitas vezes começavam a pegar no pau do cara, enquanto que outras até se baixavam para chupar”. Em meio a tantos relatos eróticos, ainda sobre as táticas adotas, o funcionário salienta: “Vi várias bichas dando o cu de joelhos nas bacias sanitárias para que ninguém de fora percebesse que tinham duas pessoas na cabine. Mas a gente percebia, porque ficava olhando o movimento das pernas do que estava comendo. Outras vezes, até se ouvia os gemidos quando eles gozavam. E também dava pra ver a gala pingando no chão”. Em outra passagem, deixa evidente a heterogeneidade que caracterizava os atores sociais envolvidos nas práticas sexuais: “Já vi garoto novo agarrado em cacete de negão bem mais velho, como também já vi negão tomar no cu como quem toma refrigerante. Quando as bichas tão na seca, não têm essa coisa de diferença. Todo mundo dá ou come. Na hora do sexo não tem preconceito, o que importa é o prazer”.

Já no Parque 13 de Maio, a pegação apresentava diferentes modalidades. Por ser um espaço aberto, e por isso mesmo mais exposto, os gays de plantão tendiam a se misturar aos transeuntes e visitantes. A paquera era o meio de chegada, e muitos ficavam parados em frente às jaulas dos animais (que na época eram muitos e das mais variadas espécies) e faziam sinais com os olhos, bocas ou movimentos corporais intencionais para deixar claro o interesse por determinado pretendente. Quando correspondidos, caminhavam separados até o banheiro do parque ou seguiam sempre um na frente e o outro atrás em busca de espaços mais reservados como motéis ou residências próprias. Os boys de programa também sempre frequentaram o parque e junto com as prostitutas, cada um a seu modo, aguardavam ou abordavam os clientes. Os boys, normalmente perambulavam pelas ruas mais arborizadas até encontrarem espaços menos movimentados onde fingiam urinar para exibirem seus pênis. Era um sinal para que alguém interessado se aproximasse e a negociação pudesse se realizar.

Nos dias atuais, os códigos e sinalizações assumiram um caráter mais sofisticado, ou talvez mais discreto, e as pegações passaram a se dar na pista de Cooper que se estende por toda a extensão do parque. E também na área reservada aos equipamentos de ginástica, onde corpos suados e malhados são constantemente exibidos através de performances que salientam as musculaturas e evidenciam a potência e suposta virilidade dos machos que buscam outros homens para se relacionarem sexualmente. Contudo, como em quase todos os lugares de socialização gay, os códigos gestuais parecem cumprir sua principal função, invisibilizar socialmente as identidades individuais.

Mas em outro registro de Albuquerque Jr e Ceballos (2004), as pegações em espaços públicos são descritas como práticas corriqueiras que atravessaram décadas e se consolidaram como característica da sexualidade recifense. Tanto que “para quem gosta de pegação de rua, não há nada como a famosa Rua Nova e suas transversais, da Palma e do Sol. Há de tudo, desde travestis bíblicos, passando por tudo que há no meio, até os midinight-cowboys, que geralmente não dispensam o assalto após a ‘operação’”. Já entre os bares mais famosos, onde também era possível se perceber tanto emergência da prostituição masculina, quanto a prática da pegação homossexual, que aconteciam mais frequentemente nos banheiros, o “Bar Nova Portuguesa”, localizado na Avenida Dantas Barreto; o antigo “Bar Savoy” e “O Botiginha”, ambos na Avenida Guararapes; exemplificam a expansão territorial da comunidade gay. Em alguns lugares, como por exemplo, o conhecido “beco do mijo”, localizado na Rua Siqueira Campos (até hoje reconhecido como espaço gay), os prazeres às vezes chegavam as “via de fato”. Neste sentido pode-se entender a ocorrência de práticas sexuais que incluíam sexo oral e sexo anal entre homens. Ali, as batidas policiais apesar de frequentes, não eram suficientes para banir ou mesmo afugentar os frequentadores noturnos. Até porque, como exemplo da Rua da Concórdia (citado no capitulo sobre a prostituição das travestis), era comum a interação dos fardados com alguns frequentadores ou visitantes do beco.

Porém acredito que o período de maior expansão entre os empreendimentos comerciais voltados ao público gay foi marcado pelo surgimento da Thermas Recife, primeira sauna da cidade, localizada na Avenida Mário Melo; bem como pela inauguração da Misty, primeira boate a empregar o conceito GLS (gays, lésbicas e simpatizantes). Esta, voltada à classe média alta, rompeu conceitos e padrões sociais da época, abrindo espaço às relações de gênero mais igualitárias, onde a azaração e sexo sem compromisso não se restringia mais ao mundo masculino. As mulheres agora levantavam as bandeiras da liberdade sexual e econômica, partindo para cima de seus objetos de desejos e assumindo definitivamente a iniciativa quanto a paquera e o assédio. Neste sentido, um bom exemplo de como o social tende a encontrar formas de ajustar novos conceitos, redimensionando e reformulando seus significados de acordo com as exigências de determinadas épocas, relaciona-se a meu ver, ao fato do conceito “azaração” ter se transformado numa tendência que foi ressignificada entre os jovens do novo século em “ficar”.

Essa necessidade de mudanças e flexibilidades nas condutas e comportamentos da sociedade, que marcaram as duas últimas décadas do século passado foi determinante para a consolidação de um comércio específico, destinado a um público multifacetado em estilos e ávido por novidades. A comunidade gay de certa forma estabeleceu e estabelece regras de funcionamento para o mercado, ao qual impõe características vinculadas a uma ideologia acromática quanto as nuances e formas de vida, que se pautadas numa irreverência e fluidez comportamental mostra-se capaz de provocar um redimensionamento geográfico constante e ininterrupto no centro da cidade. Talvez, na compreensão dessa nova tendência mercadológica a boate no inicio da década de noventa tenha se tornado ícone gay, que atravessando gerações adotou um processo de metamorfose identificado com seu público. Assim, as mudanças constantes na decoração e estruturação interna, incluindo a realocações dos bares, salas vips, pick-ups e áreas de socialização, bem como a criação de novos subespaços, davam ao estabelecimento um ar camaleônico capaz de seduzir e atrair públicos das mais distintas camadas sociais.

Essa característica também se evidenciava ao público através das mudanças constantes nas tonalidades de cores de suas paredes externas e fachadas, que mostrando flexibilidade também na construção e definição de sua própria identidade. A casa mudou de conceito e nome várias vezes, sendo chamada anteriormente como “Doctor Freud”, “Alcatraz”, até finalmente se estabelecer como “Metrópole” em meados dos anos 2000, e demarcar definitivamente a ideologia da livre expressão sexual simbolizada na bandeira do arco-íris hasteada na entrada.

Mas na contramão de uma identidade homossexual burguesa, o “Mangueirão”, boate menos glamorosa e mais antiga, localizada na época a Rua Bernardo Guimarães, era reconhecida como espaço gay alternativo comumente frequentado por estudantes, membros e simpatizantes de movimentos sociais, políticos de esquerda, artísticas de todos os seguimentos e mais uma grande variedade de gays. Estes, vindos em sua maioria dos bairros populares e municípios circunvizinhos, eram rotulados pejorativamente como “bichinhas suburbanas”.

O Mangueirão acolhia a um público mais receptivo e “cabeça” ao passo que representava a própria irreverência, personificada nas “bichinhas afeminadas”, boys de programas e travestis que participavam de concursos no melhor estilo Miss Gay, ou ainda de performances artísticas que envolviam coreografias de danças, declamações de poesias e dublagens. O local servia também como escoadouro para um estilo de arte marginal onde o teatro encontrava espaço para experimentar uma linguagem menos erudita, pela qual explicitava a cultura sexual popular através de personagens comuns do mundo gay, envolvidos sempre em situações corriqueiras onde o erotismo e o sexual se misturavam com o simples propósito de fazer rir. Alguns espetáculos satíricos do circuito oficial e profissional do teatro pernambucano, tais como, “A Louca dos Jardins” e “A Assembléia das Deusas”, chegaram mesmo a cumprir temporadas, em horários alternativos que se davam após a meia-noite.

Porém, talvez a grande contribuição deixada pelo Mangueirão, que encerrou as atividades no final dos anos noventa, tenha sido a evidenciação e divulgação das mais variadas formas de expressão sexual, como também a confirmação e reafirmação da multiplicidade de categoriais identitárias da comunidade gay. Neste sentido, as duas casas – a Misty e o Mangueirão - principais opções da época aos homossexuais, contribuíram de forma decisiva, cada uma a seu modo, estilo e ideologia, para o estabelecimento definitivo de uma identidade própria dos gays recifenses.

Posteriormente surgiram outras boates e casas noturnas, tais como a “Dyaguilaif” (será que era assim que se escrevia?), na Rua das Ninfas; o “Bela Bar Tok”, na Rua do Progresso; o “Comida Caseira”, que funcionava como restaurante durante o dia e a noite se transformava em boate, localizado a Rua José de Alencar; o “Taberna Gaúcha”, na Avenida Mário Melo; e o “Etc & Tal”, na Avenida Dantas Barreto. Estes empreendimentos, apesar do pouco tempo de existência parecem ter despertado a atenção do empresariado local para a necessidade de um maior investimento no quesito entretenimento e diversão gay na cidade. Tanto que nos dias atuais os novos espaços ou empreendimentos se multiplicam e se diversificam alterando e recriando a cada dia um novo cenário urbanístico para o centro de Recife.

O processo de territorialização na Rua José de Alencar, deu-se mais precisamente no final dos anos oitenta. Ali, onde hoje se encontra instalado o Shopping Boa Vista, existiu o “Bar do Karalho”, ou simplesmente “Bar do K...”, marcando época por ter sido o primeiro estabelecimento comercial a tornar público os encontros e relações homoafetivas, que eram explicitados através de beijos, abraços e carícias entre casais gays que se aglomeravam na rua sem o menor “pudor ou censura”. Outros tantos ocupavam o dancing, colados em duplas ou grupos, em coreografias que aquecidas ao ritmo das “lambadas” (renovada pela novela A Rainha da Sucata) lembravam sarros frenéticos ou simulações de surubas. Quando soltos, o ritmo da “disco-music” originados pela era discoteca, possibilitava as mais estranhas e divertidas performances gays que, muitas vezes, se estendiam até a rua.

Mas devido à “algazarra generalizada” provocada pela galera da livre expressão homoerótica ou homoafetiva, o bar foi alvo de várias denúncias policiais e ações de justiça, em atendimento aos moradores do bairro que reclamavam da “pouca vergonha” dos frequentadores e reivindicavam a manutenção da moral e dos bons costumes locais. E dos edifícios localizados em frente ao bar, eram jogados ovos, tomates e água nos homossexuais que resistiam à perseguição e à repressão sexual de forma pacífica e determinada. E a cada dia, a rua se consolidava como o território homossexual de maior expressão da cidade, uma vez que além do referido bar, foram inaugurados o “Porção Mágica” e o “Aritana”, que juntos ao “Mustang”, formavam uma espécie de oásis gay.

Esse processo de territorialização definida e bem demarcada coincide exatamente com a entrada das “Drag Queens” no cenário cultural de Recife. Exuberantes, engraçadas e escachadas, as drags divulgavam pelas ruas do bairro os últimos acontecimentos sociais da comunidade. E assim, festas, inaugurações de casas de shows, boates, saunas, vídeolocadoras e sex-shops eram anunciadas de forma divertida e “inconsequente” entre a multidão e a sociedade.

Era o inicio do processo de consolidação de novas tribos, e o começo de uma luta que tinha, e tem unicamente o objetivo de fortalecimento de uma categoria pela demarcação e definição de novos territórios, para assim se tornar visível e garantir direitos. Inclusive o de ser diferente dentro da própria diferença sem, contudo, perder a consciência quanto aos prejuízos da indiferença. Torna-se visível configura-se então enquanto luta, movimento e principio, para se estabelecer e se manter em pé de igualdade enquanto sujeitos e cidadãos plenos em direitos e deveres.


 

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

HISTÓRIAS DO RECIFE - Capitulo XII - Um Arco-Ìris Sobre a Cidade

As Tribos de Recife e a Eterna Luta por visibilidade

Andando pelas ruas podemos observar as transformações pelas quais a cidade vem passando e constatar que como toda grande metrópole, Recife apresenta uma grande variedade relativa ao perfil sociocultural de seus habitantes. São trabalhadores, moradores e visitantes que misturados nas ruas mal conservadas formam uma homogênia massa popular. Porém um olhar mais cuidadoso, ou porque não dizer curioso, perceberá que por trás dessa aparente semelhança evidenciam-se diferenças geracionais, de etnia/raça, credos, classes sociais, e principalmente de gênero. Assim, parecem formar verdadeiras aldeias ou tribos que se estabelecem ao mesmo tempo em que se dividem, para ocupar um único espaço geográfico.

A cidade que aparenta grandiosidade, se espalhando pelas três ilhas (Santo Amaro, Santo Antonio e São José) parece pequena em meio a uma densidade demográfica que se espreme nas apertadas e esburacadas calçadas, superlotadas por ambulantes e camelôs. Nos horários de picos, é preciso mesmo paciência e tolerância as características ou costumes locais que muitas vezes se traduzem em incoerências ou ausência de consciência de coletividade. Nos períodos de chuva, as ruas revestidas por pedras soltas formam verdadeiras poças ou consideráveis lagoas de água suja. As pessoas se alvoroçam e se apertam embaixo de velhas marquises e causam um verdadeiro congestionamento de sobrinhas e guarda-chuvas apressados. E neste sentido é bom prestar atenção nos riscos oferecidos aos olhos devido as suas armações de varetas móveis. E aqui preciso explicar que as sombrinhas em si não apresentam perigo. Porém, considerando a estatura mediana do recifense, aliado a adoção de posturas e comportamentos de proteção egoístas, constataremos que suas hastes de metal podem acertar em cheio a visão de um transeunte um pouco mais alto. Talvez por isso, sempre tenha entendido e adotado como raciocínio lógico, o fato de que se estou protegido por tais equipamentos devo deixar as marquises para os desamparados.

Mas voltando a nossa miscigenação, que além de racial, é cultural e social, em Recife nossas tribos (no sentido antropológico da palavra, claro) se estabelecem dentro de um cenário caoticamente organizado. E neste sentido algumas categorias parecem se acomodar, ou serem acomodadas, a fim de atender as suas necessidades e também as exigências do desenvolvimento econômico. Neste panorama as diferenças parecem se fazer visíveis para estabelecer as hierarquias sociais, onde os indivíduos serão agrupados, nomeados e renomeados, e acima de tudo, valorados. E se a sociedade estabelece seus próprios meios pelos quais categoriza as pessoas, define também os atributos comuns aos seus membros.

Assim, mendigos, assaltantes, pedintes, ambulantes, crianças em situação de rua, bêbados, travestis, traficantes de drogas e boys de programa, entre outros, passam a compor a categoria dos “desacreditados” sob o estigma da marginalização para viverem às margens de uma sociedade onde se encontram as “pessoas de bem”: comerciantes, policiais, estudantes, artistas, moradores, religiosos, profissionais autônomos e uma imensa massa de trabalhadores e grupos de jovens das mais diversificadas ideologias. E cada grupo desses evidenciará características definidoras de suas identidades sociais. Assim, homens e mulheres se dividirão e compartilharão o mesmo espaço territorial, onde visibilidade e invisibilidade se transformam em fatores de necessidade e sobrevivência as “pessoas de bem, ou normais” e aos “marginalizados” (Souza Neto, 2009).

E neste aspecto considero extremamente salutar e democrático os movimentos em prol de reconhecimento de direitos através da visibilidade social que algumas categorias ou grupos sociais têm estabelecido ao longo dos anos. Destaco assim, as lutas sociais em nome do reconhecimento da diversidade sexual, mais conhecido como “movimento LGBTTI”. E antes que perguntem ou contra argumentem em desacordo as tantas letras que a cada dia se multiplicam ou trocam sucessivamente de lugar, esclareço que tal “animação” (e aqui no sentido de manifestação de vivacidade) se deu e se dá, exatamente em respeito à variação de possibilidades que permeiam as orientações sexuais.

Se lembrarmos bem, ainda no inicio dos anos oitenta, se deu origem ao movimento GLS – Gays, Lésbicas e Simpatizantes, que coincidia com o período de abertura militar (ou melhor, queda da ditadura). Era então necessário começar um trabalho de base para efetivar o processo de transformação social e cultural, e mesmo considerando que tal “movimento” tinha muito mais cunho econômico do que sociopolítico, não podemos negar seu valor. É importante que se entenda que a sigla GLS foi criada para evidenciar espaços privados abertos a diversão e convivência harmoniosa entre heterossexuais e homossexuais, que se tornou modismo principlamente em boates e bares que buscavam novos públicos, e consequentemente, maiores lucros.

Mas simpatizar não é pertencimento, pois como explica o dito popular local: “simpatia é quase amor”. E quase é sinônimo de proximidade. Assim, o tal “S” que configurava a participação de heterossexuais estava mais próximo do sentido “sou cabeça” que também se configurou como modismo da época. Simpatizante significa “que ou quem simpatiza com alguém ou algo, ou ainda, que ou quem, sem pertencer a um partido ou grupo, adota suas tendências ou aprova sua política e idéias”. Logo, se simpatia não é amor de verdade a causa social, mas apenas um velado interesse em atender às pretensões de alguém (como também, tratamento intencionalmente amistoso dado a alguém), não se configura enquanto categoria de luta e não se consolida enquanto força representativa.

Em seguida, os tais simpatizantes tiveram que buscar outras tribos, e em seu lugar surgiu os bissexuais, totalmente expostos devido ao advento da AIDS. E as pessoas bissexuais começaram entenderam que era preciso mostrar a sociedade que o fato de sentir atração e desejo sexual por homens e mulheres igualmente (de forma simplista para não dificultar o entendimento, claro) não se tornava motivos para perseguições e exclusões. E assim, o movimento passou a ter representatividade social e política de classes ou categorias estigmatizadas verdadeiramente – gays, lesbicas e bissexuais - GLB.

Mais ou menos nos anos noventa, as travestis foram se incorporando e o arco-íris (bandeira do movimento por representar a convivência harmoniosa das cores, que ao se misturarem criam novas nuances, que aqui equivale a possibilidades) começava a tomar corpo e a sigla transformou-se em GLBT – gays, lésbicas, bissexuais e travestis. E aí me lembro de uma grande confusão em determinada palestra que proferi para trabalhadores de uma empresa. A grande questão era: afinal de contas, gay, lesbicas e travesti não é tudo homossexual? Sim, se considerarmos a homossexualidade enquanto identidade sexual, junto com a heterossexualidade e a bissexualidade (que como diz o povo, são mais antigas do que a posição de cócoras).

Mas quando falamos em orientação sexual é preciso entender as particularidades e especificidades dos desejos. E neste sentido, talvez seja interessante esclarecer que a terminologia “gay” é original do inglês para expressar alegria. E alegria é sentimento e não categoria ou classe. Porém, com o tempo foi incorporada em nossa cultura como sinônimo de homossexual masculino, o que configura o recorte de gênero e consequentemente não abrange as homossexuais femininas – as lésbicas. Então é preciso compreender que as letras não surgem ou migram por brincadeira ou irreverência inconsequente, mas porque simbolizam categorias de gênero. Que traduzindo significa que gay é masculino, lésbica é feminino, travestis é feminino ou masculino (que me desculpem as feministas radicais), assim como os bissexuais são masculinos ou femininos (simples, não?).

Posteriormente foram incorporados mais alguns “Ts”, relativos a transexuais e transgênicos. O primeiro para designar as pessoas que se submeteram a cirurgia de transgenitalização (ou mais comumente entendida como mudanças de sexo) para adequar o corpo a identidade psicológica. E neste sentido se diferenciam das travestis, pois que nem todas desejam mudar o sexo biológico. O segundo T (ou melhor, o terceiro) caracteriza as transgêneros, ou pessoas que transitam tranquilamente entre o feminino e o masculino, caso das “dragg quenns”, “caricatas” e “performáticas” – que podem se entender enquanto gays, lesbicas, bissexuais ou heterossexuais.

Tempos depois a sigla foi mais uma vez complementada e tornou-se GLBTTTI, representando gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros e intersexos (pessoas que possuem os dois sexos biológicos e que antigamente foram denominadas como hermafroditas – lembram da “Buba” da novela o Rei do Gado?).

E por fim, O “L” passou para frente configurando mais uma vez a necessidade de se repensar as questões de gênero. Atualmente então, entende-se que o movimento representa as categorias LGBTTI. E neste caso também, antes que questionem qual a diferença, explico que o fato de “L” vir atualmente na frente evidencia-se que o movimento não se pauta na cultura machista, onde nas relações de poder o homem é sempre visto como superior a mulher. E logicamente se a causa se justifica pela busca de igualdades, independentes de gênero e orientação sexual, não se poderia replicar a cultura pautada em tais premissas preconceituosas.

Mas saliento que não precisam se precipitar em entender ou aceitar, pois que este é apenas um posicionamento ideológico com qual coaduno, porém não comum entre os próprios integrantes do movimento. Porém que realmente considero importante nisso tudo é a possibilidade de refletir sobre velhos paradigmas, ou antigos conceitos, pautados no modelo biomédico ou anato-fisológico. Tais discussões nos mostram que enquanto sujeitos do desejo, e consequentemente, sujeitos do direito, não devemos nos pautar apenas pelo sexo biológico para entendermos, aceitarmos e reconhecermos nossas próprias identidades.

E para ampliar a reflexão, recorro a mais uma experiência vivida em um treinamento para gestores e coordenadores de um programa social voltado ao atendimento de adolescentes e jovens em situação de riscos e vulnerabilidades. A discussão girava em torno da solicitação de jovens travestis para utilização dos banheiros femininos. E todo o posicionamento dos opositores ortodoxos pautava-se no fato destas possuírem pênis, logo não poderiam ser reconhecidas ou aceitas como sujeitos do feminino. Por isso considero importante destacar que todas as pessoas naquele auditório tinham formação nas ciências humanas e sociais, além de experiência em suas devidas profissões da área social.

E é claro que essa é uma discussão que ainda levará muito tempo para uma conclusão harmoniosa, e não se torna exclusiva ao terceiro setor. Porém, o que questiono é o fato de tais profissionais sentirem tanta dificuldade em refletir a partir de novas perspectivas, inclusive possibilitando a efetivação da garantia de direitos, premissa básica da área social (ou não?). Considero então, que tal dificuldade consista na forte influêcia da cultura local sobre nossa formação intelectual e emocional, se assim podemos dizer. Aprendemos que ou se é homem ou se é mulher (no mais restrito sentido biológico), e assim, somos ainda fruto e reflexo de nossa própria ditadura.

Digo isso porque percebo que a intolerância dos generais-governantes, as perseguições políticas, a repressão cultural e principalmente social, contribuíram e refletiram diretamente sobre a construção de nossas identidades. E apesar da palmatória ter sido abolida nas escolas, as condutas autoritárias, o respeito imposto, bem como, as doutrinas e dogmas da “Santa” Igreja mantiveram-se implacáveis para estabelecer padrões de conduta, controlando, vigiando e regulando a sexualidade dos alunos.

Aos sadios, neste sentido entendam-se pessoas com orientação sexual heterossexual: a tolerância quanto às descobertas, curiosidades e afirmações sexuais; aos “desviados”, aqueles que não se enquadravam no modelo hegemônico estabelecido para a sexualidade reprodutiva: os castigos, as penitências e punições possíveis as instituições educacionais, que embora públicas, seguiam e aplicavam a doutrina religiosa. Naquela época, quando se verbalizava dúvidas oriundas da sexualidade, ou mesmo se expressava comportamentos e condutas “invertidas”, a educação respondia e se pautava nas doutrinas de duas poderosas instituições formadoras de caráter e de opinião: Igreja e Estado.

Não existiam as possibilidades de masculinidades, preferências sexuais, e muito menos diversidade sexual, tão comum aos dias atuais. O modelo heterossexista estabelecia limites à vivência e a consolidação da sexualidade dos indivíduos: ou se era homem, ou se era mulher, pois que não existia meio termo e as “aberrações” ficavam restritas ao mundo artístico. A arte era considerada um campo feminino, não extensivo aos homens, que ao contrário eram estimulados a valorização de suas virilidades através dos esportes violentos e competições acirradas como forma de reafirmação da masculinidade. A arte estimulava a sensibilidade, e por isso era apenas motivada e integrada aos roteiros de formação da conduta moral das meninas.

No cenário repressivo do final dos anos setenta, ser homossexual significava negar a própria identidade, esconder desejos, sofrer por paixões, que como diria Oscar Wilde, “não ousariam em dizer o nome”. E por isso adoecer, ou em última instância, se entregar ao estabelecer parcerias conjugais e sexuais com pessoas do sexo oposto através de casamentos fadados ao fracasso. Assumir-se homossexual representava assumir também um caráter de pertencimento vinculado ao submundo estigmatizado e invisível.

A virada da década marca o renascimento da imprensa, por onde as novas temáticas emergiam do submundo, possibilitando que novos sujeitos sociais começacem a ser construídos. O que antes parecia inexistir, ganha visibilidade. E dos subterrâneos das cidades, novos personagens chegam à luz e entram em cena. Com a abertura política tornou-se possível que as práticas até então mantidas em segredo, pudessem se realizar no espaço público. Assim, os anos oitenta tornaram-se era dos questionamentos e de lutas pelos direitos humanos, consolidando movimentos sociais que trouxeram à tona as discussões relativas aos prazeres, aos corpos, às sexualidades e suas possibilidades no campo do erótico.

Iniciava-se o processo de reconhecimento do homem enquanto ser independente e livre em sua plenitude, incluindo a sexual, bem como, o estabelecimento do indivíduo enquanto sujeito de direito e do prazer. O movimento homossexual abriu caminhos às novas possibilidades de práticas, vivências e construções de diferentes identidades no campo da sexualidade pernambucana. O modelo heterossexista, pautado na bipolaridade masculino/feminino, tornou-se insuficiente e defasado para explicar e/ou abranger uma gama de “novas” categorias e identidades emergentes. Os espaços de sociabilidade homossexual foram se firmando no centro da cidade e o espaço geográfico começou a ser redesenhado para acomodar e atender a uma demanda de desejos, experiências e práticas sexuais. Aos poucos as diferenças sexuais foram sendo incorporadas e/ou absorvidas pela sociedade, que as acomodou se não no campo da compreensão ou aceitação, pelo menos no âmbito da convivência pacífica (Souza Neto, 2009).

As Paradas da Diversidade tomaram as ruas, inicialmente na Avenida Conde da Boa Vista, e hoje na Avenida Beira Mar, em Boa Viagem, e tornaram-se símbolo nacional da luta por reconhecimento e visibilidade. A cada dia novos municípios do interior de nosso estado reivindicam espaços nas discussões e vão as ruas por igualdade de direitos. Aos poucos contribuem para a incorporação popular de novos modelos e parâmetros que orientem nossas concepções acerca da sexualidade humana.

Logicamente precisamos entender que todo processo de transformação é lento, e que não se muda uma cultura secular do dia para noite. Mas acredito que um dia poderemos, universalmente, guiar e respaldar nossas relações pessoais e sociais pela equidade de gênero, onde o feminino e masculino se complementaram nas possibilidades de vivências e experimentações das nossas sexualidades.

Acredito mais ainda, que um dia as masculinidades e feminilidades serão escritas e entendidas sempre no plural porque teremos entendido e aceitado definitivamente que o sexo biológico apenas já não responde as solicitações das orientações de gênero. E talvez assim, ou somente assim, passemos a aceitar o outro como ele é, ou se reconhece, e entender que um ser possuidor de pênis também pode se reconhecer enquanto sujeito do feminino, ao mesmo passo que um ser possuidor de vagina pode se entender enquanto sujeito do masculino.

Até porque para isso, nos basta apenas boa vontade em refletir sobre o fato da orientação está relacionada aquilo para, e pelo qual as pessoas se orientam e se guiam por identificação e desejo. E isso é direito individual e constitucional (ou não?).





terça-feira, 3 de agosto de 2010

HISTÓRIAS DO RECIFE - Capítulo XI - Nosso Patrimônio Histórico

Só Quem Preserva o Passado Norteia o Futuro

 
Viver em Recife se traduz em grande oportunidade de reencontro constante com nosso passado. Em cada esquina, em cada rua ou avenida, nossas origens se fazem presente e perpetuam-se ao longo dos anos. Nossas praças, museus, fortes e pontes nos contam das épocas de lutas, dos grandes movimentos em busca da liberdade e soberania, bem como de nossa produção cultural e artística. E se bem atentarmos para a riqueza dos tantos monumentos, casarios e estátuas que se espalham pelo centro da cidade, tomaremos em consideração mais que suficientes justificativas e motivos para nos orgulharmos de ser pernambucanos.

Possuímos um verdadeiro museu a céu aberto, onde cada monumento nos fornece dados sobre quem fomos e como vivemos em épocas remotas. A Rua da Aurora e Rua da Glória revelam-se como exemplos da arquitetura secular, que ao longo dos anos se mostram resistentes e integradas ao progresso e desenvolvimento urbano. Acho mesmo que temos essa característica de aliar a tradição com a modernidade. Atravessando a ponte Princesa Isabel, chegaremos a segunda ilha onde se encontra o maior acervo histórico de nossa cidade. O Palácio Campo das Princesas, construído em 1841, a mando do antigo Conde da Boa Vista, hoje abriga a sede administrativa do Estado. Porém, ainda em 1859 sofreu sua primeira reforma para hospedar a família real, recebendo inicialmente o nome de Campo das Princesas, em referencia aos jardins onde as filhas do rei brincavam. Assim, em conjunto com a Praça da República e o Teatro Santa Isabel registram a época da colonização portuguesa. Considero um dos maiores monumentos vivos de nossa cidade o Baobá centenário, trazida do continente africano.

Porém mais antigo, Palácio de Friburgo, localizado no lado oposto da mesma praça, serviu como palácio de despachos do conde Mauricio de Nassau, e era conhecido na época como Palácio das Torres. Foi demolido em 1770, e em seu lugar foi erguido o Erário Régio que também foi demolido, em 1840. Atualmente em seu lugar encontra-se o Palácio da Justiça. Sua arquitetura destaca-se pelo seu estilo renascentista, com cúpula de quarenta e cinco metros de altura, a mais alta do Brasil e vitrais de Heinrich Moser e pinturas de Murillo La Greca.

Seguindo em frente, atravessa-se nova ponte, a de Mauricio de Nassau, construída em 1643. Na época, em madeira, foi considerada a primeira ponte de grande porte do Brasil, e era conhecida como Ponte do Recife, possuído em suas cabeceiras dois arcos: Arco de Santo Antonio e Arco da Conceição. Chega-se então ao Bairro do Recife Antigo, localizado na terceira ilha que compõe a capital pernambucana. Novamente casarios antigos se espalham pelas ruas formando um bloco arquitetônico secular implantado junto, e em função, do antigo Porto do Recife.

Dessa forma, fica fácil perceber porque Pernambuco, e principalmente Recife, é feito de histórias. Porém acredito que em especial, nossos mercados públicos nos revelam detalhes e importantes informações acerca de nossas origens e, consequentemente, sobre o processo de construção de nossa identidade social. Estudar e conhecer a história de nossos monumentos transforma-se em excelente método didático para aprendizagem e reconhecimento sobre nossa força histórica e cultural. Aconselharia mesmo aos professores abandonarem, de vez em quando, suas salas de aulas e seus birôs de distanciamento acadêmico, para se embrenharem nas ruas da cidade, e assim melhor compartilharem conhecimentos com seus alunos.

Se tomarmos como referência o antigo Mercado Público de São José, descobriremos, por exemplo, que a Avenida Conde da Boa Vista assim se chama em homenagem ao Barão Francisco do Rego Barros, mas conhecido como o Conde da Boa Vista, que em 1839, governava a Província de Pernambuco e tinha como objetivo transformar a cidade de Recife numa espécie de Paris brasileira. Para tanto, trouxe da Europa vários engenheiros, matemáticos e construtores de pontes e edifícios públicos. Seu projeto de modernização e higienização transformou nossa província em uma das mais importantes do Império Português.

E entre os tantos especialistas europeus que aportaram em nossa cidade, encontrava-se o jovem recém formado engenheiro, Louis Léger Vauthier, que inspirado no Mercado de Grenelle de Paris, participou de processo de idealização e construção do nosso atual Mercado de São José. Mas é importante registrar que durante os seis anos que aqui viveu, desenvolveu também projetos de construção e reconstrução de edifícios públicos, a exemplo do Teatro de Santa Izabel, por solicitação do Barão, que foi deposto pela própria Coroa Portuguesa em 1846.

Mas foi somente em 07 de setembro de 1875, que o referido mercado foi inaugurado pelo então presidente da província João Pedro Carvalho de Morais, trazendo de volta o já cinquentão engenheiro. Louis Vauthier tornou-se então, também responsável pelo detalhamento e adequação do edifício ao clima tropical. Desta forma, o atual mercado é um retrato vivo da arquitetura típica do século XIX, com estrutura toda em ferro trazido da Inglaterra, Portugal e França, e desponta atualmente como único edifício desse estilo arquitetônico no Brasil, hoje tombado pelo Patrimônio Histórico. Porém, o espaço onde hoje se encontra instalada a Praça Dom Vital, localizada a frente do mercado, naquela época era conhecido como Ribeira de são José. Ante disso já fora denominado Ribeira dos Peixes, e anteriormente Terreno dos Coqueiros, que foi doado em 1655 aos padres capuchinhos pelos antigos proprietários Belchior Alves Camelo e sua esposa Joana Bezerra.

Caminhando pela Rua Gervásio Pires, chega-se ao Pátio de Santa Cruz e emenda-se com a rua de mesmo nome. O Mercado da Boa Vista, no Bairro da Boa Vista, é tão antigo quanto o de São José, porém não existem registros oficiais relativos à sua data de construção e inauguração. Mas sabe-se, por exemplo, que no local teria funcionado uma estrebaria e o antigo cemitério da antiga Capela de Santa Cruz. Outro dado importante a reconstituição de nossa história refere-se ao fato de que nas pilastras que suportam os grandes portões de ferro, ainda originais, encontra-se visível uma espécie de símbolo que confirma a venda dos escravos que eram trancafiados em seus boxes. Assim, para mim, torna-se incrível saber que bem próximo a minha residência, encontra-se instalado um prédio público onde outrora serviu como centro de leilão de escravos contrabandeados do continente africano. Hoje, serve a comercialização de grande variedade de produtos, bem como, a espaço de laser, com bares espalhados próximo aos boxes, onde aos domingos reúnem-se políticos, escritores, artistas e antigos boêmios moradores do bairro. Não por acaso, o antigo mercado foi escolhido e adotado como ponto de concentração a uma das maiores manifestações sociais que luta por garantias de direitos, denominada O Grito dos Escolhidos, e que sai em caminhada pelas ruas do centro em paralelo aos militares durante o desfile de sete de setembro.

A poucos metros do grande centro localiza-se o Bairro da Madalena, onde antigamente encontra-se um engenho de açúcar. Anteriormente as terras tinham sido doadas por Duarte Coelho ao seu cunhado Jerônimo de Albuquerque, que depois de morto deixou como herança aos filhos. Seu ultimo proprietário, o senhor de engenho Pedro Afonso Durol, mandou construir o Sobrado de São João Alfredo, que depois ficou conhecido como Passagem de D. Madalena, sua esposa. Assim, em 1925 foi implantado o Mercado do Bacurau, denominação em referencia ao horário noturno que atraia boêmios e feirantes que buscavam diversão. Até hoje, o atual Mercado da Madalena, situado na Rua Real da Torre mantém-se como espaço alternativo ao final das grandes farras dos recifenses.

Ainda próximo ao centro, localiza-se o Mercado de Santo Amaro, inaugurado em junho de 1933, na Avenida Cruz Cabugá, onde outrora se encontrava instalado um “correr de casas” pertencentes a Caetano Lopes. Uma das peculiaridades do mercado refere-se ao número do logradouro que é o mesmo do seu ano de fundação.

Outro que se destaca é o Mercado da Encruzilhada, seguindo a tendência arquitetônica dos anos cinquenta. Tornou-se símbolo de modernização por possuir pisos de granito artificiais misturados a cerâmica local, paredes revestidas por azulejos naturais, pavimento superior construído sobre lajes de concreto armado e área coberta de 3.850 metros quadrados, o que o fazia maior que o antigo Mercado de São José. Assim o moderno mercado substituiu o antigo prédio onde funcionava uma estação ferroviária que servia como espaço para comercialização de carnes, peixes e gêneros alimentícios. A frente das obras, nada mais nada menos que o Diretor de Obras da Prefeitura do Recife, o engenheiro Abdias de Carvalho.

Por fim, o Mercado de Água Fria, bairro onde passei meus carnavais de infância, tem sua data de construção em 1952, tendo sido inaugurado dois anos depois de iniciadas as obras, em substituição a antiga feira de rua onde também se comercializava frutas, verduras e gêneros alimentícios. Não existem registros referentes a antigos proprietários do local onde foi erguida a obra. Quarenta anos depois, já nos anos noventa, foi reestruturado o Pátio da Feira, que consiste no agrupamento de mais de cem boxes que se estendem pela Rua Velha de Água Fria. Hoje o mercado se consolida como centro de venda para artigos de Umbanda e Candomblé, miudezas e cerâmicas, além de servir como ponto da gastronomia popular como os demais.

Recife não é apenas uma cidade litorânea, mas uma metrópole histórica. E a exemplo de muitas cidades brasileiras, muitas vezes, relega seu passado. Acredito ser necessária uma reversão de valores, no sentido de conscientizar a população sobre a possibilidade de unir o velho ao novo, pois quem esquece seu passado não norteia seu futuro. É preciso ensinar a nossas crianças e jovens que um país se faz com homens e livros sim, mas que desenvolvimento também se faz com preservação histórica e cultural. E neste ponto, Recife torna-se um grande celeiro a novas inspirações.



segunda-feira, 2 de agosto de 2010

HISTÓRIAS DO RECIFE - Capítulo X - Vozes que Vêm das Ruas

Nossa Origem Mercantilista


Em Recife se vende de tudo! Podemos mesmo dizer que habitamos um grande mercado de variedades que se estende pelas principais ruas da cidade. Assim, além das lojas de departamentos, incluindo grandes magazines, shopping center, sapatarias, drogarias, restaurantes, hotéis e mais uma enorme quantidade de supermercados e mercadinhos, podemos ainda encontrar frutas e legumes nos antigos mercados livres ou bancas de feiras. E se durante o dia o mercado formal dita as regras do sistema de compra e venda, é durante a noite que a informalidade invade ruas e becos para se consolidar enquanto espaços do comercio alternativo e informal.

Para quem busca a liberdade de escolha e melhores preços, livres da grande agitação diurna, as pequenas feiras livres das ruas centrais se mostram excelentes alternativas viáveis. Torna-se cada vez mais constante a presença de feirantes, que aglomerando barracas e/ou carroças de madeiras nas vias públicas, oferecem grande quantidade de legumes, verduras, frutas e hortaliças. Mas também se vende outros artigos, entre os quais CDs e DVDs (pirateados, claro) por preços inimagináveis. Em determinados casos, pode-se mesmo adquirir três filmes inéditos em um desses tantos discos digitais de vídeos. E acreditem, ainda pode-se obter certificado de garantia, pois que na embalagem encontra-se o nome e número do celular do produtor responsável, favorecendo a troca caso o produto apresente defeitos. Também não se torna muito difícil encontrar filmes que ainda estão sendo anunciados no circuito comercial formal, o que viabiliza sair na frente e assistir aos longas-metragens antes de todo mundo, e ainda no conforto de casa (É a velha cultura da Lei de Gerson, lembram?).

Essa informalidade se estende ainda ao segmento gastronômico e de entretenimento e laser. No centro do Recife estabelecem-se verdadeiras praças de alimentação, a exemplo da Rua Sete de Setembro. Ali, vários comerciantes dividem espaços e vendem desde o simples cachorro quente até comidas mais elaboradas da culinária nordestina, tais como sarapatel, feijoada, cucus e vaca atolada. A variedade de bebidas acompanha a diversidade do fest-food popular, indo da cerveja bem gelada as tradicionais cachaças de fabricação regional.

Outro ponto que se destaca é pracinha do Riachuelo, que no cruzamento com o Corredor do Bispo forma um verdadeiro empório ou complexo comercial da informalidade. Pastéis, coxinhas, empadas, bolos dos mais variados sabores se aliam aos espetinhos e arrumadinhos de charque ou carne de sol. Porém esse perímetro oferece outros produtos e serviços que vão além dos comestíveis. Estabelece-se também o mercado sexual, o que torna o espaço em principal território da prostituição masculina (Souza Neto, 2009; Viana, 2010). Assim, o ato de comer pode ir muito mais além do que o tradicional hábito da degustação.

Constata-se então que Recife é um grande centro comercial, onde também se compra de tudo, inclusive sexo, amores e vidas. E neste aspecto, alguns comerciantes, em determinadas situações tornam-se também mercadorias vivas. A consolidação do mercado sexual nas ruas do centro trás como consequência certa naturalização de dois fenômenos envolvendo crianças e adolescentes: a exploração sexual comercial e o trabalho infantil. Assim, torna-se também cada vez mais constante a presença destes em espaços e atividades insalubres, atuando também, em sua grande maioria como distribuidores ou vendedores de drogas, principalmente o crack, que há muito invadiu nossas principais ruas.

Mas o que realmente me chama muito atenção e pretendo destacar são as estratégias de marketing desenvolvidas e utilizadas pelos comerciantes ambulantes. São as vozes que vem das ruas e que tornam o comércio local em verdadeira escola aberta. Um dos bons exemplos, refere-se a um comerciante de confeitos (designação popular equivalente a balas). O seu produto é originalmente regional e chama-se nego-bom, que nada mais é do que o resultado do doce de banana cristalizado, vendido em pequenos pedaços embrulhados em plástico transparente. Sua estratégia de venda consiste no ato de chamar a atenção do povo, gritando: “quarenta nego-bom é um real! Quarenta nego-bom é um real! Você paga pouco, e come muito!” E para trabalhar, o pequeno empreendedor traja paletó e gravata, no melhor estilo grande administrador. E como todo bom gestor, investiu em tecnologia avançada como forma de ampliar seus negócios. Assim, atualmente não desgasta mais sua voz, pois que dispõe de um alto falante que potencializa sua mensagem gravada. Quem mora em Recife, não passa despercebido pela Rua da Aurora sem ouvir a insistente promoção, que de tantas vezes repetida (e consequentemente escutada, devido ao tradicional engarrafamento) torna-se também gravada em nossa memória.

Passando pela histórica Ponte de Ferro, uma das que liga o Bairro da Boa Vista ao de São José, não se pode deixar de prestigiar as perfomances de uma vendedora de inseticidas. Ela, com cabelos longos e louros, se posta parada, por várias horas seguidas em uma das extremidades de acesso. Em determinados momentos, quase que mecanicamente, apóia o pequeno tabuleiro nos quartos (figurativo popular de ancas ou quadris), alisa os cabelos e recita: “Veneno pra rato, barata mosca e formiga. Mata, seca e não fere. Veneno pra rata, barata, mosca e formiga. Mata, seca e não fere.” Em seguida volta a se calar em intermináveis minutos de silêncio e apatia solitária. E assim permanece em meio a multidão que se acotovela e se esbarra pelas laterais da ponte.

Da minha janela indiscreta, escuto uma voz que invade a Avenida Conde da Boa Vista. Para mim, torna-se irresistível observar um senhor negro que em vestido de chita colorida, carrega um carro-de-mão cheio de macaxeira. Em paradas estratégicas, o negociante pega uma macaxeira enorme com a ponta descascada, coloca na altura da cintura e grita: “Olha a rosinha, olha a rosinha. Grande e grossa... Eita macaxeira danada de boa. Olha a rosinha, olha a rosinha. É dura, mas fica mole visse!” E assim, provoca risos e angaria clientes, que muitas vezes entram no clima amistoso de gozação.

Tem também um outro que comercializa certo titulo de capitalização local. Andando pelas ruas ele parece sempre reconhecer alguém que passa do outro lado. E acenando freneticamente no meio do povo, se precipita a gritar: Ei! Ei! Queres. Só tem o teu visse! Ei! Ei! É o (...) da sorte! E diante das reações assustadas das pessoas que se espantam com seu timbre de voz, o desacatado vendedor parece se divertir e seguir sua rotina de trabalho. Enquanto isso, mais um senhor, sentado próximo a entrada de meu prédio apela às crianças, que acompanhadas pelos pais, observam encantadas seus produtos: "Vai neném, chora que papai compra. Vai, vai, chora neném que se papai não comprar, mamãe compra. Chora neném!"

Confesso que alguns criativos apelos comerciais tornam-se mesmo grandes motivos para gargalhadas e alívio do stress urbano. E afirmo ainda, que não é muito difícil me pegar sorrindo diante de tanta malícia e sagacidade popular. Que muitas vezes, acompanhadas de performances mirabolantes ou audaciosas conquistam a atenção e admiração do público. Considero que essas são as vozes das ruas, que logicamente se transfiguram-se em sons da cidade, pois que são rotineiros, e por isso, tornam-se características.

Mas em outras situações, tais abordagens também se mostram inconvenientes. Em determinado restaurante do centro, por exemplo, uma jovem, sentada a um banco de madeira parece provocar os transeuntes com suas batidas de palmas extremamente ruidosas, que acompanhada de uma voz sonoramente incômoda, parece gritar desalentadamente: “Vem gente, almoçar! Vem gente, que está acabando!”. E seu clamor é tão estridente que parece perfurar nossos tímpanos, e assim logicamente, nos faz perder o apetite. Porém esta mesma lógica enfadonha e desagradável parece ter se tornado regra entre os estabelecimentos voltados a alimentação popular. Tanto que em outra rua que forma uma viela, próximo ao referido empreendimento comercial, outra jovem, também a porta, grita chamando os clientes: “Olha, hoje tem vatapá. Hoje tem caruru. Tem feijão e galinha. Vem que é baratinho e é tudo um “reaus” (Reais). Vem que é baratinho e “isso pode”!” (E isso, numa referencia esdruxulamente caricatural da comediante Fabiana Karla).

Outra estratégia importuna é a utilização de carros de som que potencializam as informações estrídulas e sibilantes que alguns anunciantes utilizam como forma de despertar o interesse popular através de uma graça forçada (Penso mesmo, que neste sentido os órgãos competentes deveriam ser mais eficientes em suas ações). Em algumas dessas façanhas, esse pérfido marketing adota ainda como estratégia a contratação de garotas jovens, que em minúsculos shortinhos (no melhor estilo “BC”) realizam ou simulam coreografias eróticas. E aí entram também as bicicletas de som que desfilam com potentes caixas amplificadoras divulgando os produtos de seus clientes. Afora as carroças musicais, espécies de carrinhos-de-mão em madeira, dotados de aparelhos de sonorização onde os ambulantes demonstram as qualidades e variedades de seus CDs pirateados. Assim, muitas vezes, essa mistura transforma-se em verdadeiro ruído intolerável e atróz. São as vozes dos bárbaros.

E por falar em barbaridade, lembro de duas situações onde o bizarro torna-se mote para as estratégias de venda e consumo. Numa delas, um carro antigo, tipo Brasília, com o parta-malas aberto anuncia através de um alto falante: “Venham ver a garotinha. A garotinha está aqui e precisa de sua ajuda.” E tal apelo destina-se ao pretenso tratamento de uma jovem com deformidades físicas, que ri inocentemente diante de seus espectadores curiosamente admirados. Penso que dentre tantas, essa seja a situação mais desagradável e desumana na tática de angariar benesses, pois que se utiliza do sofrimento do outro para provocar a sensibilização e piedade alheia.

Numa outra, um determinado cinema destinado a exibição de filmes pornôs, anunciava em um fusca sonoro: “É hoje! No cinema (...) a grande promoção do almoço. Você paga uma entrada e assiste a três filmes eróticos. É hoje! Grandes estrelas em grandes cenas. É hoje! E o primeiro filme é, A Sueca Safada. Depois, Apalpe-me Pela Manhã. E em seguida, Absurdamente Tua. Faça seu almoço ficar mais gostoso, no cinema (...).” E confesso que essa é minha predileta no rol dos desalentados marqueteiros oportunistas que muitas vezes invadem nossas ruas. E não falo aqui de puritanismo, mas apenas em relação à forma ultrajante com que a mulher é transformada em mercadoria e anunciada como produto de consumo barato. E acredito que a prostituição como qualquer outra forma de atividade remunerada deva ser respeitada em suas atribuições e sentidos.

Assim, nas ruas do Recife se proliferam formas e métodos de vendas e consumos, que vão com tempo se ajustando ou se adequando as novas situações e realidades urbanas. E essas acomodações parecem também provocar mudanças espaciais e geográficas. Em algumas situações chegam mesmo a consolidar novos espaços e territórios de varejos. Assim, foi com a instalação do camelódromo na Av. Dantas Barreto, espécie de shopping popular, que hoje concentra grande quantidade de camelôs em pleno centro da cidade. O mesmo se evidencia atualmente com o fenômeno da prostituição no perímetro entre a Rua da Soledade e Gervásio Pires, como também na demarcação de território dos adolescentes e jovens das “tribos alternativas” que se aglomeram na Rua José de Alencar, a partir da instalação do shopping Boa Vista. É neste sentido, que o comercio formal e informal de Recife parece fluido e flexível o suficiente para se instalar e se reinstalar em novos espaços.

E na cidade onde se vende de tudo, e consequentemente se compra e consome de tudo, o mercado torna-se dinâmico e renovador (e inovador) constantemente. Talvez seja essa uma característica herdada dos antigos mascates que transformaram Recife no principal pólo de desenvolvimento econômico de Pernambuco. E neste ponto, acredito que para se entender a lógica comercial e a identidade cultural de um povo se faça necessário retroceder na história para encontrar os princípios mercantilistas incorporados em nossa sociedade.

E neste contexto, penso mesmo que nossa habilidade para o comércio começa a se consolidar ainda em 1654, após expulsão dos holandeses de nossas terras, comprometendo os resultados e lucros dos grandes produtores de açúcar daquela época. Durante a crise devido a baixa do açúcar no mercado internacional, os senhores de engenhos ainda possuíam o controle político na Câmara Municipal de Olinda. Porém em Recife, os portugueses controlavam a atividade comercial graças às melhorias e empreendimentos realizados durante colonização holandesa.

Olinda por ser a capital da capitania, aglomerava a burguesia em seus grandes casarios, pertencentes aos poderosos fazendeiros, que endividados precisaram recorrer aos mascates portugueses que cobravam altas taxas de juros. Destruída pelas seguidas guerras que objetivaram a expulsão dos holandeses, a Câmara da cidade decidiu pelo aumento dos impostos, inclusive para os mascates. Inconformados os comerciantes de Recife decidiram pela emancipação política e econômica, elevando o antigo povoado à condição de Vila, e assim, formando sua própria Câmara Municipal. Temendo que os comerciantes legalmente pudessem exigir o pagamento das dívidas, os latifundiários de Olinda decidiram impor as fronteiras entre as duas cidades. E em 1710 (exatamente a trezentos anos atrás), iniciou-se a guerra dos mascates, que só terminou um ano depois com a prisão de todos latifundiários olindenses por determinação do novo governante nomeado pela Coroa Portuguesa

Recife foi elevada a condição de cidade, transformando-se posteriormente em capital da capitania. E com a vitória dos comerciantes, tal guerra apenas reafirmou o predomínio do capital mercantil sobre a produção agrícola. E da antiga alcunha depreciativa dado aos comerciantes portugueses pelos habitantes de Olinda, os mascates tornaram-se grandes mercadores ambulantes que percorriam ruas e estradas para vender objetos manufaturados, tecidos, jóias e uma variedade de produtos

A tradição do porta em porta se consolidou nos tempos modernos através dos “prestanistas”, que em pequenas cadernetas registravam os valores parcelados dos produtos vendidos aos seus clientes. Era a lógica do crédito, acrescido de juros. Lógica inversa dos ambulantes atuais, que devido aos baixos juros (ou ausência dos mesmos), ou inda, procedência clandestina de seus produtos, conseguem estabelecer valores bem mais acessíveis em comparação ao mercado formal. É à base da informalidade, que talvez se configure como uma das bases e princípios de nossa cultura.

Somos mercantes a mais de trezentos anos, e uma cultura secular se consolida na perpetuação de costumes e conceitos valorativos e morais por gerações seguintes. Tanto que cultura pode ser entendida enquanto conjunto de características humanas, não inatas, mas sim que se desenvolvem e se preservam ou aprimoram através da comunicação e cooperação entre indivíduos em sociedade. Consequentemente podemos entender que tal vocação comercial configura-se como parte ou aspecto de nossa vida coletiva, diretamente relacionada à produção e transmissão de nossos próprios conhecimentos, à nossa criação intelectual e artística através dos tempos.

Assim tornamo-nos ambulantes dentro do nosso próprio espaço geográfico, o que nos confere mobilização e fluidez, tanto cultural como geográfica, que se traduzem na forma genuína e original de se gritar e cantar a compra e venda do temos, do que queremos, ou simplesmente, do que podemos comercializar.