domingo, 11 de julho de 2010

A HISTÓRIA DA MINHA VIDA - A Juventude



















Auto Retrato/2006

Capítulo IV – Tornei-me Adulto

Na década de noventa me tornara adulto, mas como dito, refiro-me apenas a um marcador cronológico e legal. Ou seja, não me sentia adulto apenas por ter vinte e quatro anos (sugestivo não?), mas simplesmente pelo fato de me sentir maduro, responsável e autônomo. Graças ao Lula, as pessoas têm hoje em dia sua juventude prolongada até os vinte e nove, mas sou de uma geração anterior, de uma época onde as categorias etárias não eram tão bem definidas. Existia naquelas épocas certa indefinição cultural sobre os limites de infância e adolescência, por exemplo, e a gente se tornava adulto ao começar a trabalhar. Depois do Estatuto da Criança e do Adolescente, parece que tudo ficou mais claro (será?). Penso eu, que essas fases são muito mais definidas no âmbito psíquico do que legal. Mas, claro que é preciso definições jurídicas para respaldar procedimentos e normas sociais. Considero mesmo que isso seja um avanço, prova de nossa maturidade enquanto nação.

Mas neste momento, peço licença para retornar um pouco no tempo, pois que especificamente no meu caso, não posso falar de minha vida adulta, sem falar dos anos oitenta, pois como já dito também, sempre fui acelerado. Acho que me tornei realmente adulto ao ingressar no mundo do trabalho, como se entendia no inicio do século passado. E posso dizer que a década de oitenta mudou não só minha história, mas a do país inteiro. Com a queda da ditadura militar em 1984, iniciou-se o processo de abertura política e os antigos exilados puderam voltar ao Brasil. Era a época das grandes inspirações políticas, artísticas, educacionais, sociais e logicamente culturais de forma mais abrangente. Época das grandes canções, dos grandes discursos e das grandes causas em nome da democracia. Certo, que como tudo no Brasil, a queda da tirania também foi reflexo de um movimento externo, mundial. É bom que se saiba que fomos um dos últimos países a impetrar a tão sonhada liberdade democrática. E quantos pagaram por isso? Quantos sofreram, desapareceram, foram torturados e mortos? Não podemos esquecer nossos verdadeiros heróis que foram as ruas, enfrentaram canhões e ser puseram frente a fuzis e metralhadoras. As passeatas, as caminhadas e as palavras de ordem ecoavam pelos quatro cantos. A música já dizia: “vem vamos embora que esperar não é saber, pois “quem sabe faz à hora e não espera acontecer” (é do Geraldo Vandré). E era assim, “caminhando e cantando, e seguindo a canção”, que éramos também todos iguais, de “braços dados ou não”. E neste sentido éramos sim, iguais em desejos, sonhos e ideologias.

Não vivi estas lutas e hoje penso que se as tivesse vivido, provavelmente não estaria hoje contando partes de minha vida. Acho que sou de ir até as ultimas consequências por ideal. Às vezes não entendo como me tornei tão controverso se era filho da ditadura. Vivi o auge das mudanças e presenciei, e porque não dizer, participei de outras lutas que vieram (pois que elas sempre vem), e que também se tornaram tão importantes quanto. Assim foram os anos oitenta. Uma verdadeira ebulição nacional, que era minha também. Lembro que na época da Escola Técnica eu falava de política como se entendesse. Gostava de me imaginar engajado e consciente de minha própria realidade. As diferenças sociais me incomodavam, os governos tiranos me machucavam e eu discutia com meus colegas de turmas como gente grande. Fazia movimentos internos contra professores opressores, liderava campanha de “abaixo fulano” e de “vamos exigir nossos direitos”. Colocava-me contra a maioria, em movimento inverso, muitas vezes, apenas para causar polêmica e gerar debates. Ia votar pela primeira vez e logicamente colei adesivos no peito, para mostrar meu posicionamento político. “Meu primeiro voto é de Arraes”. Na verdade ainda nem sabia direito quem tinha sido aquele senhor, mas ouvia velhas histórias de perseguições, das peregrinações pelos interiores do Estado e das lutas pelo povo nordestino. Tornou-se meu herói, e de muitos também.

A ditadura tinha acabado em 1984 e o movimento das “diretas já” era um sonho. Pleiteávamos o direito de escolher nosso presidente da república. E eu estava ali, estava vivo e me sentia cidadão lutando pelos meus direitos e por igualdade de fato. Não me sai da cabeça a imagem de Fafá de Belém cantando o hino nacional. Como também é impossível esquecer o povo invadindo o campo da alvorada. Queria está lá e levantar bandeiras. Queria gritar e cantar com todos aqueles, que como eu não concordava com as arbitrariedades dos governos. A proposta da emenda Constitucional Dante de Oliveira, que nos outorgaria tal direito foi reprovada no congresso conservador. Mas conseguimos uma vitória parcial. A eleição de Tancredo Neves para presidente aprovada pelo Colégio Eleitoral (concordam agora que o brasileiro não faz política e sim acordos?). Assim se podia agradar a gregos e a troianos. Amenizava-se a fúria do povo e se mantinha o poder nas mãos de poucos. Tancredo era a grande esperança de mudanças, porém, fomos traídos por um “golpe” do destino (terá sido mesmo?). Sua morte (ou assassinato?) foi chorada pelo país inteiro, que indignado assistiu a posse do Sarney (O mesmo que hoje senta em uma das cadeiras da Academia Brasileira de Letras. Mas o que foi que ele escreveu mesmo? Alguém já leu?). Eram os resquícios de vinte anos de atraso e violências promovidas pelos homens de farda.

Lembro das músicas. Com Cálice, do Chico Buarque, acho que entendi o que significava metáforas. Acho mesmo que é um excelente recurso para se dizer o que não pode ou deve ser dito. Serve como alegoria da poesia. Cálice é um exemplo clássico de poesia, criada por um gênio da nossa música popular que não se calava. E era exatamente do que não precisávamos naquele momento. Não queríamos cálice e não queríamos cale-se! Pelo contrário, buscávamos liberdade de expressão e direito a voto. Era momento de eleger nossos representantes, definir e validar uma cidadania nacional. Queríamos ser brasileiros de fato e não passageiros de terceira classe. Isso é política, que logicamente se diferencia do movimento atual, ao qual devemos denominar apenas como politicagem. Chico, Caetano, Gilberto Gil, Vandré, Milton Nascimento, Belchior, Elis Regina, Fernanda Montenegro, Marília Pêra, Armando Bógus, e mais uma quantidade enorme de artistas nos inspiravam. Era como se falassem por cada um de nós, e assim cumprissem seu principal papel. A arte é cria e amiga da liberdade, por isso os movimentos culturais, aliados aos sociais, cresciam enquanto os sindicatos forçavam a barra e empurravam o governo contra a parede. Era preciso quebrar muros. Não os de Berlim, pois isso os próprios alemães souberam fazer no final de 1989, mas falo das muralhas socioeconômicas que separavam norte e nordeste do sul do país. Era época de provocar incêndios, enfrentar a polícia armada, se amontoar e acima de tudo gritar em nome da democracia.

No mesmo ano de 1984 me apaixonei, ainda aos dezessete anos, e iniciei uma vida a dois. Foram anos de grandes mudanças e descobertas. Ingressei no teatro profissional, e assim acompanhei todo o processo de consolidação do que chamaríamos de queda da censura. Lembro que em um dos espetáculos que participei, tivemos que fazer uma leitura ou ensaio geral para os censores. Eles ficavam sentados, com o texto nas mãos e acompanhavam cada fala, de cada ator, para depois definir o que podia e o que não devia ser falado ou encenado. Incrível, não? Mas posso dizer que vivi para ver isso. Nesta época também tinha me tornado profissional de carteira assinada. Era meu passaporte para uma vida adulta. Mudei-me para o centro do Recife e assim abandonei os subúrbios. Tornara-me urbano, a ponto de não mais conseguir viver sem a agitação, bagunça, violência e comodidades dos grandes centros. Morava no centro, trabalhava no centro e estudava no centro.

Sair da casa de meus pais, talvez tenha sido a decisão mais difícil da minha vida. Abandonar a comodidade e segurança da família é sempre um corte, uma ruptura violenta e dolorosa. É preciso romper com a zona de conforto e entender que a partir daquele momento seremos responsáveis pelos nossos atos. Lembro que neste dia, não sabia como agir, o que falar e os sentimentos se misturavam a uma quantidade enorme de emoções que me fragilizavam. Lógico que minha saída foi acontecendo paulatinamente, mas sempre existe um dia que demarca a saída efetiva. Não lembro o que falei ou mesmo se falei, sei apenas que me encaminhei, e como diz o Roberto Carlos, “parei em frente ao portão”, que nos fechava em muros altos. E pior, não tinha cachorro pra mi sorri latindo. Afinal estava mais uma vez na contramão. Aquele não era um momento de regresso, mas sim de partida. Sei também que pensei que não teria coragem, ou que simplesmente deixaria para depois. Não dava para voltar e não dava simplesmente para abandonar um plano de vôo em direção a liberdade que desejava. Acho que andei teso e reto. Cada passo era um peso em meu corpo. Não queria olhar para trás. Queria correr e ficar. Sorrir, chorar ou mesmo simplesmente escutar alguém pedir para que não fosse. Na verdade não sei o que sentia naquele momento, mas confesso que as lembranças me fazem chorar ainda hoje. Meu sobrinho fechou o portão as minhas costas e neste momento acelerei os passos para não chorar pela rua. É engraçado como as crianças resolvem os conflitos dentro de uma outra lógica. Entrei no primeiro ônibus que apareceu, pois precisa sair rápido antes que pensasse em desistir. Acho que naquele momento queria colo de mãe. Chorei sozinho, como muitas vezes o fiz em toda a minha infância e adolescência. E as vezes me pego fazendo mesmo nos dias de hoje. A viagem parecia não terminar nunca e eu ficava pensando no medo que sentia em relação ao futuro. Era um novo rio, que mais uma vez mudava meu destino.

O apartamento ficava na Rua da Concórdia. Era uma quitinete, em um prédio meio esquisito. Havia apenas uma sala, um quarto e um banheiro. Não havia cozinha e por isso durante muitos anos lavei pratos e talheres na pia do banheiro. Dizem que o amor é lindo e nos deixa bobo. Posso dizer de carteirinha o quanto isso é verdade, pois de outra forma, como uma pessoa fresca como eu poderia viver num apartamento sem cama, televisão, e tudo mais que é necessário ao mínimo de conforto? Tínhamos apenas uma geladeira e um fogão. Foi o que deu para comprar de imediato, e assim, no primeiro mês dormimos no chão, ou melhor, sobre os papelões que antes serviram de embalagens. Mas não relembro disso com sofrimento, muito pelo contrário. Vivia um grande amor e isso era suficiente. Depois compramos mesa e levei da casa de meus pais duas camas de solteiro, uma televisão preto e branco, e umas prateleiras feitas por meu pai, que arrumadas serviam como uma espécie de guarda-roupas. Com o tempo as coisas iam se organizando e o apartamento tomando forma. Era meu lar. Minha casa. E isso significava pagar contas, fazer compras, arrumar, limpar. Eu era adulto de fato. As vezes a saudade batia forte, e a vontade de voltar pra casa me invadia. Sentia-me fragilizado, e nessas horas, sozinho, voltava a ser pequeno e inseguro. Engraçado que até hoje quando digo minha casa, refiro-me muito mais a casa dos meus pais do que a minha própria residência. Acho que isso é normal (não é?).

Lembro que depois de um ano, tirei minhas primeiras férias. E de presente, comprei uma “radiola Panasonic”. Era uma daquelas bem grandes e modernas. Tinha uma tampa em acrílico que a gente podia fechar enquanto o disco tocava. Os caixas eram grandes também e podiam ficar em pontos estratégicos da sala para ampliar a sonoridade. E eu tinha uma quantidade enorme de LPs, que nos finais de semana gostava de arrumar e rearrumar enquanto os colocava para ouvir. E assim, em 1985 descobri um dos maiores poetas de minha geração: Cazuza. Era incrível como ele conseguia transformar o feio em beleza. E cantava as mazelas do país de uma forma que me tocava e emocionava. Um jovem que como eu, parecia está à frente de seu tempo. O “exagerado” que adorava “um amor inventado” e que se apaixonava por pessoas e não por homens ou mulheres. Que não precisava “usar de tanta educação para destilar terceiras intenções” e que clamava para que o Brasil mostrasse sua cara de fato. Cazuza abria frente contra a hipocrisia social e política. Proclamava a liberdade de expressão e quebra de conceitos morais ultrapassados. Era um louco lindo demais, mais que um homem, mais que um ser. Não existiam definições e não havia modelos em que se pudesse colocá-lo ou rotulá-lo. Era a simbologia viva da falta de limites e da intensidade. Com ele descobri o Oscar Wilde e vivi um amor “que não ousava dizer o nome”. Aliás, naquela década, os nomes eram desnecessários, assim como as regras e as normas sociais e religiosas tradicionais também o eram. Encontrei em Cazuza meu primeiro referencial. Alguém que era diferente como eu, e que adorava se diferenciar. E é impressionante como os ídolos tem essa importância fundamental no processo de identificação e construção (e estruturação) emocional de cada pessoa. Buscamos sempre uma referência que justifique e explique nossos comportamentos e posturas. E por mais que queiramos nos diferenciar, o que buscamos na verdade e em essência é a igualdade. Não é assim que construímos nossa identidade? E o “eu” não se constitui a partir do olhar do “outro”?

Mas nem tudo era poesia naqueles tempos de liberdade, e assim, os jornais começavam a divulgar a descoberta de uma nova doença fatal. Era a síndrome da imunodeficiência adquirida que ameaçava destruir o sonho de liberdade sexual que se consolidada não apenas no Brasil, mas no mundo. E logicamente a grande igreja não perderia a oportunidade de lançar suas garras contra uma sociedade desinformada e alarmada diante daquele “castigo divino”. A “peste gay” escancarava de vez os mais bem guardados e protegidos segredos de uma parcela da humanidade que lutava (ou será que ainda luta?) pelo respeito às diferenças. Era o momento de se evidenciar a sexualidade brasileira e contrariar os dogmas das religiões. E logicamente o momento ideal para que as igrejas, mais uma vez aliadas ao Estado, ressuscitassem o ultraconservador modelo de moralização e higienização social denominado “caça as bruxas”. A AIDS tornou-se o álibi perfeito para uma parcela conservadora e hipócrita da sociedade, que via na liberdade sexual os prenúncios do fim do mundo. Segundo eles fazia-se necessário uma providencia dos céus, um castigo que nos ensinasse o valor e importância da castidade, da virgindade, da fidelidade, bem como a validação do já tão consolidado modelo heterossexista. As cidades amanheciam cheias de pichação com frases violentas e preconceituosas, do tipo “Jesus abomina os gays” e os meios de comunicação divulgavam a descoberta de novos casos de homossexuais contaminados, internados e mortos.

Grandes estrelas do cinema americano e mundial foram “desmascaradas” diante da multidão de fãs que se dividiam entre a indignação e a piedade. Os grandes ídolos e símbolos sexuais, exemplos de masculinidade, foram desfeitos, destituídos e expostos em sua intimidade. Vidas inteiras foram escacavilhadas para que fossem julgados e condenados culpados por suas obscenidades. Em 1982 registraram-se os primeiros casos no Brasil e a ciência corria em busca de explicações e controles. Era o pânico que se instalava nos principais centros urbanos. Os homens de fé gritavam pelos quatro cantos de Recife que as Sodomas e Gomorras modernas queimariam nas chamas do inferno. Lembro que tinha verdadeiras diarréias diante do sensacionalismo impresso nas páginas dos jornais. Sentia suores percorrendo o corpo e ao mínimo sinal de gripe ou inflamação na garganta corria ao espelho em busca das tão faladas ínguas. Eram os sintomas do pânico. O medo tomava conta de todos. Os bissexuais foram taxados como responsáveis pela falência das famílias. Era a exposição das orientações sexuais que entravam em debate. As travestis foram perseguidas e estigmatizadas mais uma vez e os gays se escondiam em parcerias afetivas e sexuais que contrariavam seus desejos e orientações. Ninguém queria ser identificado, indicado e perseguido. Era preciso esconder desejos e amores. Era preciso calar e se abafar mais uma vez.

Comecei uma campanha de conscientização e esclarecimentos para os funcionários da empresa em que trabalhava. Era uma forma de fazer minha parte, e mais uma vez, em movimento contrário me posicionar de forma racional. Explicar as formas de contaminação, destituir os mitos e alicerçar um posicionamento social pautado na lógica e na concretude das informações. Mas como falar de sexo, de relações sexuais, de intimidades e desejos? Era preciso chamar a atenção para os prejuízos da histeria coletiva. Iniciei os treinamentos e reuniões, trazia noticias, esclarecia dúvidas (que também eram minhas) e tentava empregar um tom natural nas conversas e palestras. Coloquei a AIDS na pauta institucional e apresentei os resultados da experiência no primeiro seminário internacional sobre AIDS realizado em Recife. Junto a mais duas empresas pernambucanas nos destacamos como exemplos de campanhas bem sucedidas. Isso me mostrava que estava no caminho certo e que a racionalidade é a base para se enfrentar grandes desafios. Descobria ali minha vocação de pesquisador e formador de opiniões.

Iniciei a faculdade, financiada pela empresa. Estabeleceram que fizesse arquitetura em horário diurno e que compensasse as horas no turno da noite. Isso atenderia aos interesses da empresa, mas não os meus. O programa de incentivo era restrito ao staff da organização e como era chefe, teria que ingressar na faculdade o mais rápido possível. Assim, fui aprovado em uma das mais caras, mas não das melhores. Não fiz arquitetura como possam imaginar. Não me renderia às determinações do poder e nem permitira que traçassem meu destino. Seria psicólogo e buscaria entender a humanidade (quanta ilusão, não?).

Dizem que a época de faculdade é a melhor fase de nossas vidas. E isso acaba sendo uma grande verdade. Aprendemos não só nas salas de aula, mas, e talvez principalmente, nos corredores, praças e logicamente bares. Adorava Freud e sua psicanálise. Id, ego, superego, instinto, racionalidade, pulsão e libido passaram a fazer parte de meu cotidiano. Descobri por exemplo que o que sentia ao ler os jornais da época se chamava somatização. Um processo irracional, sem justificativas palpáveis, desencadeadas por um medo imenso de adoecer. Ou principalmente, carregar mais um estigma. Acho que me tornei psicólogo, antes mesmo de concluir o curso. Dava aulas aos colegas, fazia grupos de estudo e logicamente em troca pagavam minhas cachaças. Tornei-me uma espécie de líder, ou melhor, ditador para um grupo formado por umas oito mulheres (novamente?). Como já dizia minha mãe: “bendito sois entre as mulheres”. Acho que era uma espécie de profecia, ou ainda, o velho instinto materno que permite as mães conhecerem e reconhecerem seus filhos em essência. Minha mãe sempre teve isso, talvez por isso fosse e é tão difícil lhe esconder alguma coisa.

De todas as coisas boas que uma formação universitária pode lhe propor talvez o conceito de universalidade de conhecimentos seja o mais importante. Não aprendi apenas os conceitos da psicologia tradicional e moderna, mas tirei lições de vida. Não foram apenas os professores que direcionaram meus estudos, mas todas as pessoas com quem convivi e seus posicionamentos diferentes aos meus. Coloquei em prática o velho conceito do ponto de vista individual e buscava interpretar as situações sob as várias perspectivas possíveis. Aprendi a me “colocar no lugar do outro” ampliando minha compreensão sobre os fatores e motivos envolvidos e motivadores das ações e reações humanas. Tornava-me mais centrado, ao passo que pesquisava teorias e efetivava meu processo de auto-análise. E a cada dia descobria que deseja ouvir as pessoas, acreditando poder contribuir de forma direta para seus processos de crescimento pessoal.

Lembro de uma das muitas situações embaraçosas por que passei naqueles anos. Certo dia, encontramos uma das colegas de turma muito mal. Tinha ingerido uma grande quantidade de tranqüilizantes, que nunca soubemos qual. Entramos num carro e saímos em disparada para um hospital. No caminho ela vomitava compulsivamente sobre minha camisa. Ao passo em que tentava manter a situação sob controle, as demais passageiras e cúmplices de situação inédita, precipitavam vômitos por nojo e desconforto. Em certo momento, a vítima após nova crise de vômito, levou uma das mãos à boca. Em meu desespero, por imaginar que a mesma fosse ingerir uma nova quantidade de comprimidos, tentava impedi-la gritando que não e prendendo seus braços. Ela em desespero igual, ou maior que o meu, se contorcia e tentava se desvencilhar a fim de atingir seu objetivo. Comecei a prendê-la com mais força ainda, puxando sua cabeça para trás até que ela conseguiu falar: “é minha chapa!”. E eu explico, é que ao vomitar, a dentadura da criatura tinha caído e o que ela estava tentando fazer era apenas recolocá-la no boca. Sei que conseguimos rir muito da situação, porém confesso que na hora o desespero tomava conta de mim. Lembro também que voltei para a faculdade sem camisa e ao passar pelos corredores a caminho do banheiro, todos comentavam o feito e de certa forma nos tornamos heróis.

Outra situação refere-se aos meus movimentos de protesto e igualdades de direitos. Sempre fui às aulas trajando um pequeno short (é assim mesmo que se escreve?). Na verdade era uma espécie de cueca pijama, dessas que a gente usa em casa. Bom, colocava uma camiseta, uma sandália nos pés e estava completa a indumentária universitária. Adorava também sentar nas cadeiras da frente e realizar movimentos, num abrir e fechar de pernas que desconcertava meia dúzia de professores. Em determinado dia, a coordenadora do curso me chamou para solicitar que abandonasse o pequeno short e logicamente utilizasse calças compridas como a maioria dos garotos. Aproveitei o desconcerto dela diante da situação para protestar meus direitos. Aleguei que deixaria de usá-lo se as moças fossem proibidas de trajar mini saias e shortinhos curtos. A partir dali meu figurino passou a ser causa e bandeira de luta. E assim reforcei meu guarda-roupas com novas peças e continuei por um bom tempo desfilando minhas pernas pela faculdade.

Outros movimentos se referiram aos protestos contra os altos preços da mensalidade, ao fato absurdo de alunos não poderem assistir às aulas ou ainda fazer as provas por estarem com as mensalidades atrasadas. Também fazia os movimentos de “fora professor tal”. Acho que perdi a conta de quantos foram expulsos da grade curricular. Desafiava os mesmos em sala de aula, discutia as teorias e quando sentia fragilidade de argumentação, pronto, era motivo suficiente para iniciar um novo movimento por melhor formação profissional. Fazia valer meus direitos e valorizava meus parcos recursos investidos no meu tão sonhado futuro.

A AIDS nos atingiu em cheio com a doença e morte de um amigo de curso. Era um jovem, que como todos, batalhavam e investiam esforços para se firmar e se estabelecer economicamente. Foi um grande amigo com quem pude partilhar histórias, segredos e alegrias. Em um determinado semestre ele sumiu das aulas. Liguei para saber noticias e soube que tinha trancado o curso e não queria mais ver ninguém. O caso tornou-se um dos maiores mistérios. Questionávamos como uma pessoa podia simplesmente renegar um grupo de amigos, sem motivo aparente. Tempos depois nos chegou a suspeita de sua doença. Alguém o vira muito magro e esquisito, em comparação ao corpo malhado e forte que tinha. Acho que em menos de três meses chegou a falecer sem mais nos ter dado a chance de revê-lo. Era um choque, principalmente para mim, pois éramos quase irmãos. Tinha verdadeira admiração por ele, mesmo considerando seus desvios de caráter e forma estranha de atingir objetivos. Mas tinha aprendido a lição básica da psicologia a ponto de não fazer julgamentos pautados nos meus próprios valores.

Com o tempo a doença chegava mais perto de todos, e aos poucos, se multiplicavam os casos de pessoas conhecidas ou pessoas que conheciam pessoas infectadas pelos HIV. Assim, a AIDS trouxe a abertura necessária para se debater sexualidades e a geração de oitenta se tornou a “geração camisinha”. Os namoros e relações sexuais e afetivas não se restringiam mais a homens e mulheres. Se fala abertamente em sexo, transas e trepações. A virgindade perdia seu valor e todos queriam relatar suas experiências e logicamente trocar informações. É incrível como a gente aprende sobre sexo e sexualidade na faculdade, mesmo ainda que o assunto não esteja no conteúdo de sala. Formei minha opinião em relação a vários assuntos correlatos, tais como infidelidade, divórcio, condição de amantes, homossexualidade, bissexualidade, prazer, ejaculação precoce, gravidez indesejada e aborto. A cada dia revia meus velhos conceitos e atualizava pontos de vista.

Exemplo disso refere-se ao constrangimento que causei a alguns colegas ao afirmar que iria “beber o defunto”. Acharam-me grosseiro e insensível, contudo, talvez não tenham entendido que naquele momento não via a morte de meu amigo como algo negativo, mas ao contrário, apenas como um ciclo que se fechava. Uma passagem para uma “outra dimensão” que não conhecemos, mas que nem por isso deve deixar de ser comemorada. Lembro também que ao final do curso refizemos as eternas juras de amizade eterna (imagino que estejam recontando mentalmente agora, pois acabei de fazer o mesmo) e criamos uma “cápsula do futuro” (acho que era modismo naqueles dias), onde na confraternização de natal enchíamos com nossos grandes sonhos e desejos de felicidades, para só abrir no ano seguinte. É engraçado refletir agora sobre a relação de tempo. Doze meses pode ser um período enorme para se planejar vidas e estabelecer objetivos. Digo isso, porque um em desses momentos de abertura da tal fantasiada cápsula, uma de nossas colegas de turma tinha falecido. Doze meses, foram suficientes para descoberta do câncer, retirada dos seios e morte de uma das pessoas mais puras e sofridas que já conheci na vida. Eis a relatividade de um demarcador chamado tempo. Assim, entendo que seis anos de curso foram mais que suficientes para me ensinar muito mais do que simples teorias cientificias.

Em 1990, vibrei com a posse do Collor, não por acreditar no discurso da caça aos marajás, mas como até os dias atuais, muitas vezes por falta de alternativas mais poupáveis. Era ruim com ele e pior com os militares. Mas sempre votei no “analfabeto” mais inteligente que pretendia mudar o país. Uma, duas, três vezes. É preciso acreditar num sonho e saber que nada muda de uma hora para outra, ou do dia pra noite. É preciso entender que o brasileiro não é político, mas politiqueiro. Que nos introjetaram paulatinamente a “Lei do Gerson”. Aquele jogador, que num determinado comercial dizia: “Eu gosto de levar vantagem em tudo!” E assim, aprendemos a brigar por vantagens e não por direitos, por oportunidades e não por possibilidades de mudanças coletivas. Instaurou-se no país a cultura política do pão e circo. Prá isso serviram as copas conquistadas, prá isso se criou produtos como os tantos reis e rainhas propagados pela mídia. Já pararam para pensar no quanto do sentimento de súditos mantivemos em nosso sangue? Temos rei do futebol, rainha dos baixinhos, princesinha do Brasil, a rainha do lar, rainha do milho, rei da música, rei das cochinhas, rua do príncipe, rua da princesa, da imperatriz e do imperador, rei momo, rainha do carnaval e toda uma realeza, que a fora no maracatu pernambucano não nos deveria representar mais nada. Afinal foi com a realeza que aprendemos a ser roubados e violentados em nossos direitos. Foi com eles que aprendemos a cultivar um sonho de nos tornarmos uma espécie de europeu do novo continente. Muitas vezes chego a achar que continuamos a ser plebeus, que em dicionário brasileiro pode ser traduzido como pé-de-poeira. Tornamos-nos república e cultuamos monarquias sociais. Expulsamos a realeza, mas até hoje pagamos a manutenção dos descendentes dos chamados sangues azuis, com parte de nossos impostos (você não sabia?). Insistimos em eleger ídolos e a eles oferecemos impunidades e regalias, para fazê-los intocáveis e imortais. Entregamos nas mãos de Deus nossos destinos e aos políticos nossos futuros. Acostumamos a baixar a cabeça e pedir que, por favor, nos joguem suas migalhas. Migalhas essas pagas com nossos impostos. Apostamos nossas esperanças de uma vida melhor e mais digna nos jogos de azar. Nos tornamos pândegos e por isso não precisamos ser levados a sérios. Ficamos atrofiados e débeis em iniciativas e autonomia. Paramos na eterna espera dos líderes e dos corajosos para que se arrisquem por nós. Como dizia o Zé Ramalho, levamos uma “vida de gado”. E povo marcado é povo feliz (não é?).

Mas a era do “Collorido” se mostrou um bom exemplo de como estávamos preparados para novas batalhas. Naquela época a inflação atingia os mais altos patamares da desvalorização monetária. Não se sabia realmente o quanto se ganhava em salários. Não se tinha noção do poder de compras. Aí, veio a grande solução, coordenada por uma ministra da economia que parecia viver em outro mundo. Era a primeira mulher a ocupar cargo tão importante. Confiscou a poupança e salários. De uma hora para outra vimos nossas economias desaparecerem sobre nossos olhos inertes. Alguém tem outro nome para isso que seja diferente de golpe político? Depois vieram os escândalos envolvendo o presidente atleta (lembram dele correndo e fazendo marketing de sua jovialidade?). A casa da dinda tornou-se o núcleo da máfia. A imprensa mais uma vez cumpria seu papel e a “Vênus Platinada” mais uma vez seguia sua filosofia e estratégia de manutenção do poder: dar ao povo não que se precisa, mais o que merece. E assim, mostrando sua força, do mesmo jeito que o “collocou” no governo, nos fez tirá-lo. Alguém se lembra de um seriado chamado “Anos Rebeldes”? E da novela “A Pátria é Minha”? “Meninos eu vi!”, como dizia o radialista assassinado, a Globo revelar sua força e capacidade de elaborar e disseminar fenômenos de massa. Mas claro que tudo não se deve a ela. Pelo contrário, acho que mostramos a força de um povo, que consegue inclusive tornar uma grande potencia tradicionalista e mantedora do poder burguês, em aliado de luta. Não foi isso que aconteceu? Ou será que perdi algum capitulo de uma novela chamada vida real?

Fomos para as ruas caçar os marajás. Pintamos a cara de verde, amarelo e preto, e nos tornamos uma tribo dos “caras pintadas”. Parecia um resgate de nossas origens indígenas. E isso emocionava e nos orgulhava enquanto jovens conscientes. Era o movimento estudantil aliado aos movimentos sociais e políticos para o “Fora Collor”. Os escândalos se sucediam, conhecidos como “PC” (não, isso não é linguagem da informática, mas até poderia já que terminou com queima de arquivo). Aqui, PC significa Paulo Cesar, o grande mentor da maior corrupção que o país já viu. Assassinado na praia de guaxuma, em Alagoas, levou para o túmulo, junto com a namorada Suzana, os segredos e mistérios que envolviam uma grande conspiração. Mas, continuamos nas ruas, em passeatas, carreatas e caminhadas. Importamos até palavra americana (e mais uma vez esquecemos o tupi guarani) e assim, em 1992 vivemos nosso primeiro “impeachment” político.

Aquilo nos encheu novamente de orgulho e coragem para enfrentar as novas batalhas que viriam no governo do Itamar Franco, vice do Collor. Faltava carne nos supermercados. Tinham filas e cotas para compra de produtos. E existia uma maquininha de remarcar preços que normalmente era mais rápida que o mais rápidos dos mortais. Nossa dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI, alguém lembra?) alcançava cifras estratosféricas. Éramos devedores e endividados. Estávamos falidos e lutando contra um dragão, que não era o japonês que trazia sorte e fertilidade, mas sim o da inflação que consumia nossa produção nacional. Mudou-se a moeda (nem lembro mais de todas, pois que foram tantas). Primeiro cruzeiro, depois cruzado e em seguida cruzado novo. Inventaram um tal de ágil que se cobrava em cima dos valores reais. Mas tinha outro tal de abono que enganava o povo dando a sensação de que as perdas salariais eram equiparadas. Lógico que esse não entrava nos encargos contratuais, uma vez que não era agregado aos salários. Era uma espécie de auxilio antecipado, um acréscimo nos rendimentos (lembram das migalhas?). Uma galinha custava tantos zeros que não sabíamos calcular. Até por nós brasileiros somos péssimos em cálculos, fruto de nossa educação de base. Os militares nos endividaram e tivemos que pagar o preço. A Zélia nos roubou e tivemos que ficar calados e agora nem comer a gente podia, pois não tínhamos com o que pagar. Até que em 1994, foi implantado o Plano Real. Sim, pra quem não sabe o Real é do Itamar e não do Fernando Henrique, que logicamente pegou carona e se beneficiou a ponto de se eleger presidente da república. E olha que foram dois mandatos consecutivos.

Chegávamos ao final do curso e estávamos prestes a nos formar e a parti dali nos tornar os grandes profissionais que prometemos, ou pelo menos, pretendemos. Tinha acabado de abdicar de um cargo de gerente de recursos humanos e estava desempregado. Aquele financiamento da faculdade era passado e terminara ao aceitar uma proposta profissional mais vantajosa, fruto do trabalho apresentado no seminário que falei anteriormente. Depois mudei novamente de organização e agora tinha que pagar as mensalidades com as economias que restaram da indenização. No último período, tínhamos também que estagiar. E isso significava pagar duas mensalidades em valores orbitantes. Não daria para fazer as duas coisas ao mesmo tempo o que representaria atrasar minha formação. Recorri à diretoria da instituição e ouvi a frase celebre destinada aos menos afortunados: “não fazemos caridade, isto aqui é uma instituição privada e se não pode pagar as mensalidades tranque o curso”. Nunca esqueci esse discurso e acho ali entendi as regras do capitalismo selvagem. Não tinha mais dinheiro para pagar as duas ultimas mensalidades, estava no fundo do poço e vendo meus planos irem por água abaixo. Descobri naquele momento o significado de companheirismo e amizade sincera. Percebi a importância de estabelecer e consolidar relações. E descobri a capacidade de me surpreender e me emocionar ao ver meus colegas de turma iniciar e efetivar um movimento coletivo de amparo para financiar minhas dívidas. Descobri também o sentido da gratidão e respeito. Penso até hoje em todos que participaram dessa ação e de certa forma me orgulho ao saber que consigo despertar nas pessoas os melhores sentimentos e emoções. Que consigo me fazer gostar.

A crise me levou de retorno a casa de meus pais, ou melhor, de uma de minhas irmãs. Para entenderem melhor é preciso que explique um dos motivos de toda essa reviravolta. Num determinado dia, minha vizinha foi assassinada na recepção do tal prédio esquisito da rua da concórdia. Ela era a típica mulher marcada para morrer. Ex-prostituta, negra, pobre e viciada. Confesso que de certa forma não a entendia e na verdade buscava me proteger, uma vez que mantinha certas relações que podemos denominar como perigosas. Muitas vezes, durante noites seguidas ouvia seu choro. Reclamava um amor que não tinha, o afeto que nunca chegava na hora certa e o custo de manter um “homem” que ainda conseguia lhe tirar o pouco que tinha. Violentada pela vida e sucessivamente por ele, levava uma vida de louca e em dias de crise caminhava nua pelas ruas noturnas. Gritava os nomes de poderosos e gente conhecida e defecava pelas escadarias, muitas vezes para provocar a sindica. Para chegar ao meu apartamento tinha que passar por um corredor que também dava acesso ao dela, protegido por uma grade de ferro. Dessa forma mantinha minha porta fechada, evitando o confronto com usuários e traficantes. Com a sua morte, provavelmente seriamos testemunhas de alguma coisa, ou pelo menos receamos tal envolvimento. Dessa forma decidimos nos mudar, passando a dividir um apartamento com um amigo e sua família. Como o cotidiano era muito complicado, percebi a necessidade de sair para salvar minha relação.

Mas estava desempregado, para finalizar um curso, fazendo estágio e logicamente recebendo menos de um terço do que costumava receber. Não tinha alternativas e uma quantidade de problemas enormes. Minha irmã me sugeriu a solução e me transferi de volta para o subúrbio. A casa era pequena, desenhada por ela e construída por meu pai e irmãos. Talvez seja nessas horas que vemos e reconhecemos o verdadeiro valor e significado de família. Sentia-me o próprio personagem do livro, onde o protagonista volta para casa depois de todo tipo de sofrimento. Sentia-me bem vindo de volta ao lar e isso foi extremamente importante para consolidar velhas relações e rever ressentimentos e mágoas passadas. Restabelecer relações com meu pai e desfazer mal entendidos já esclarecidos em terapia.

Terminei o curso e ingressei numa empresa multinacional o que me permitiu voltar ao centro, dessa vez na Manoel Borba, no centro do Bairro da Boa Vista. Eram outros tempos. Tempo que podíamos chamar de modernos. O admirável mundo novo começava a impor suas definições de conforto e comodidade. Existia o telefone fixo, e agora não era tão necessário andar com aquela quantidade enorme de fichas para se ligar de orelhões. Com o tempo essas fichas de orelhão, como se chamavam, foram sendo substituídas pelos atuais cartões de telefone. E pensar que naquela época o fato de se ter linhas de telefone era sinônimo de status e investimento econômico. Cheguei a possuir duas, que com a chegada do celular tivemos que vender para aproveitar o valor de mercado. Por falar nisso, meu primeiro celular foi um Motorola daqueles que mais pareciam um tijolo. O carregador de bateria mais parecia um equipamento eletrônico de grande porte. Meu aparelho tinha o famoso flip (acho que era assim que se chamava) e uma antena ridícula que tínhamos que puxar para captar sinais. Era a modernidade que chegava para facilitar nossas vidas.

Minha televisão era uma CCE de 14 polegadas e era colorida. E pensar que bem antigamente existiam umas telas que se colocava na frente das televisões para dar o colorido das imagens. A tela era dividida em quatro cores, azul, amarelo, verde e vermelho, e logicamente os personagens iam mudando de cor de acordo com a movimentação das cenas. Tinha também comprado um novo aparelho de som, que tinha deixado de se chamar radiola. Era um gradiente, daqueles grandões que tinha toca disco, CD, amplificador e mais uma porrada de coisas que nem sabia para que servia. Nos toca-discos não existia leitura óptica e isso era feito através de uma agulha (era assim que se chamava, agulhas de radiola) que a gente precisava substituir quando se desgastava. E era muito comum riscar os discos por causa dessas agulhas ou mesmo na movimentação do braço do equipamento. Uma vez riscado, o vinil estava praticamente perdido. Era um tempo onde se falava das músicas do lado A ou B do disco tal. E lembro que quando fazia festas em minha casa alguém sempre pedia: toca a faixa dois do lado B. Mas era também o inicio da substituição dos antigos discos de vinil. Ainda lembro-me de meus primeiros CDs, um de Nana Cayme e outro de Gal Costa. Adorava meus antigos discos, mas como tudo nos dias atuais, tornaram-se obsoletos.

Acho que os anos noventa podem ser definidos como a geração de consumo desenfreado. Hoje vivemos processo semelhante com o aparelho de telefone fixo. O meu, por exemplo, tem fax. Alguém consegue explicar nos dias de hoje qual o valor real de um fax na vida de alguém? E vídeo cassete? Tinha de duas e quatro cabeças. E aquelas fitas enormes que ocupavam espaços de nossas estantes e que depois se enchiam de mofo? Alguém se lembra do limpador de cabeçote? Engraçado pensar que mantenho em minha casa um aparelho de DVD, que pelo tempo que não uso acho que nem funciona mais.

E as câmeras fotográficas? Sou de um tempo que retrato, pois era assim que se chamava, era coisa para retratista. Ele chegava a sua casa, escolhia o cenário e tudo virava festa. A gente esperava não sei quanto tempo para ele trazer a foto, que era em preto e branco. Tinham também os tais binóculos onde a gente tinha que esfregar um dos olhos para ver a foto que ficava em seu interior. Era só a película do filme e logicamente cabia apenas uma foto. Assim, se tinha um bocado de pequenos binóculos coloridos. Depois tinhas os retratos de família. Lá em casa eram dois, cada um com cinco filhos e ficavam pendurados nas paredes da sala de visitas (sim, as casas tinham salas de visitas). A gente tinha que tomar banho, pentear cabelos e vestir roupas novas para ser fotografado. Lembro que nesse dia, que logicamente esperamos ansiosamente, tive que tirar a foto meio que de perfil. É que numa das muitas brigas com meu irmão menor, ele atingiu meu rosto com um pedaço de cano. Não queríamos que o ferimento aparecesse na foto e aí não teve outro jeito. Lembro também que existia uma técnica de colorir as fotos. E um dia minha irmã mais velha contratou um retratista para colorir uma foto sua. Poderíamos dizer que a técnica funcionava como uma espécie de foto shop da época. Quando ele entregou o material, tinha adicionado uma medalhinha num trancilim de ouro (alguém sabe o que é trancilim? Nem sei se é assim que se escreve). Só sei que o resultado não foi muito agradável. Depois vieram as câmeras fotográficas com flash. Você comprava um “flash”, adaptava no equipamento e conseguia tirar até quatro fotos. E aí se levava para revelar e em média uma semana depois podia ir buscar para ver os resultados. Era comum a gente passar pelas ruas ver as fotos das pessoas girando pelas engrenagens das máquinas de revelação. Isso era sinônimo de modernidade.

Os anos noventa trouxeram também a informática e os computadores cada vez mais potentes. Mas antigamente se utilizava as máquinas de datilografia. Na minha época todo mundo que era atualizado e queria trabalhar tinha que ter diploma de datilografia. Tive uma daquelas máquinas de escrever “Ollivette”, daquelas de ferro. Era portátil, o que significava que já era moderna para a época. Tinha-se que comprar as fitas, que eram preta e vermelha e que se utilizava ao máximo. Quando a fita acabava a gente tinha que rebobinar os carretéis, instalar novamente e seguir datilografando. Os trabalhos de escola ficavam imensos e os relatórios de trabalho verdadeiros calhamaços de papel. Acho que ainda existiam as enceradeiras, aquelas máquinas enormes que a gente utilizava para encerar o piso. Lembro que quando crianças a gente encerava sempre o terraço que na época já era de cerâmica. Porém nos anos noventa já usava cera liquida que a gente esfregava com um pano limpo. E era impressionante a quantidade de quedas e escorregões que se levava nos pisos encerados. Lembro também que sou de época em que se utilizava filtros de barro. E todo mundo tinha em casa uma jarra grande, que também de barro servia para armazenar água. As quartinhas eram bem menores e normalmente ficavam em cima do balcão de cozinha. Ah, que saudade de água de quartinha. Quando a água encanada chegou lá em casa, na época de infância, foi uma novidade. Como já relatei, lá tinha uma cacimba e meu pai instalou uma máquina elétrica que bombeava a água para a caixa d’água. A tubulação foi toda feita em cano de PVC. Era um verdadeiro engendrado com tubos, joelhos, roscas e fita de vedação. As geladeiras substituíram as jarras e quartinhas, mas a água não tinha o mesmo gosto. E aí peço desculpas para a licença poética, pois sei que água não tem gosto. Mas até hoje, ao beber água busco por um sabor que se perdeu na minha infância.



quinta-feira, 8 de julho de 2010

A HISTÓRIA DE MINHA VIDA - A Adolescência





















Auto Retrato/2007

Capítulo III - LEMBRANÇAS DE UM ADOLESCENTE DIFERENTE

No final da década de setenta sai finalmente do subúrbio limitado para descobri a tridimensionalidade da capital. Fui estudar em uma escola do Recife, junto com uma de minhas irmãs. Inicialmente a escola exclusiva para meninas, passou a aceitar meninos e tornou-se mista. Curioso relembrar, que mesmo sendo uma escola estadual e logicamente mantida com nossos impostos, era basicamente uma instituição religiosa. Descobri que o Estado não era laico, mas isso também só se tornaria constitucional em 1988. Anexa à igreja da Soledade, a escola seguia os ditames da fé cristã e os alunos precisavam ser católicos apostólicos romanos. Certo dia, uma freira entrou na sala e questionou quantos dos alunos já tinha feito a primeira comunhão. Do total, apenas uns cinco responderam negativamente, entre os quais, eu e minha irmã. A partir desse momento fomos inseridos num cursinho de catecismo, que acontecia depois das aulas, e onde aprendemos os mandamentos da igreja e as várias histórias fantasiosas da bíblia.

Se soubesse que mentir não era um pecado tão grande e que não nos levaria ao inferno, pois que digam os políticos, teria omitido tal fato a “irmã”, e assim, evitado todo aquele suplicio enfadonho. Tivemos também que assistir as sucessivas missas para nos preparar para o grande momento. Tinha uma amiga que, na época, não tinha os dentes da frente. O que era muito comum, pois que éramos um país dos desdentados. Ela era “banguela”, e logicamente a apelidei de “vampira”. Digo logicamente porque é muito comum as pessoas discriminadas também discriminar. A gente termina replicando as normas e regras estabelecidas, e eu não seria diferente. Logo, se me sentia fraco e menor, precisa menosprezar alguém para me sentir superior. Mesmo que fosse um grande amigo. Não é o mesmo processo que relatei anteriormente? As pessoas me rejeitavam porque gostariam de saber o que sabia e assim, poderem se sentir iguais a mim. Não é assim que se dá o processo de inclusão, onde buscamos nada mais, nada menos, do que a aceitação do outro e do grupo? Mas disso também me vem à reflexão que na verdade sempre desejamos o que é do outro. É assim até hoje e acho que sempre será. E olha que segundo a bíblia isto é um dos sete pecados capitais: cobiçar o que é do outro. Mas, essa é a mola mestra do mundo capitalista, onde se vale pelo que se tem. Neste sentido lembro até de um comercial que dizia: Sabonete “Phebo”, vale quanto pesa. Alguém lembra? Sim, sou da época do sabonete Phebo (com ph mesmo) e também do “Alma de Flores” e do “Solemar” (um sabonete a base de limão que deveria ser um terror). Acho que a filosofia phebo se tornou regra, porém como sempre fui diferente preferi acreditar desde muito jovem que ao contrário, na vida se vale o quanto pensa. Sim, porque quem pensa, cria, desenvolve e evolui.

Bom, mas voltando ao sabonete, e neste momento peço mais uma vez desculpas pela quantidade de devaneios. Mas justifico que ao relembrar o passado torna-se difícil, e por não dizer impossível, estabelecer uma relação cronológica exata dos fatos. Lembro apenas, que em um dos meus aniversários ganhei de presente um sabonete. E isso, pasmem, era presente que se dava naquela época. Como lá em casa tudo era para todos, claro que meu querido sabonete, que tinha um enorme valor sentimental (acho que devido ao fato de meus outros irmãos não terem um sabonete só deles), foi parar no banheiro. Vai explicar o sentido de coletivo a uma criança chata e metida como eu. Percebo agora que desde pequeno já era meio egoísta. Pensando hoje, acho que essas situações demarcam o inicio de processo de individualização, quero dizer, não individualismo, mas o processo pelo qual descobrimos que somos uma pessoa separada das outras. Se antes pensávamos que éramos todos iguais, naquela linha meio os três mosqueteiro: um por todos e todos por um, a partir de algum momento descobrimos que não. Que não somos tão iguais, e assim começamos a demarcar nossos territórios. Penso também, se não seria a partir desse momento que começamos a nos sentir sozinhos. Será esse o inicio da solidão humana? Aquele sentimento que nos invade de vez em quando, e que temos a sensação de que mesmo rodeados de muita gente, estamos sós?

Mas voltando a escola, ou melhor, ao grande momento religioso de minha vida, lembro que durante as missas ficava intrigado com o corpo dos santos. Sim, porque corpo de sento é feito pé de cobra, quem ver morre. Já repararam que as imagens sacras estão sempre bem vestidas, arrumadas e com um ar de perfeição? Bem, como era curioso, queria saber se os santos eram iguais a mim e a todos os mortais. Queria ver se eles tinham pernas, barriga, peito, bunda e logicamente, se eles tinham pênis e vagina. Certo dia, depois que a missa terminou e todos saíram, voltamos a igreja, eu e minha amiga, e começamos a levantar as roupas dos santos. E para nossa surpresa e decepção, não havia nada. Ou melhor, não havia corpo, apenas uns cavaletes de madeira que uniam cabeças e mãos de gesso. Logicamente fiquei decepcionado. Mas confesso também que minha descoberta me rendeu certo status de corajoso. Afinal, quem teria coragem de cometer uma obscenidade daquelas com os santos da grande igreja?

Durante as missas ficava extremamente irritado quando tínhamos que ficar de joelhos para rezar. Aquela posição, além de incômoda, me lembrava dos castigos que sofríamos nas escolas. Sim, porque sou de um tempo, onde alunos mal comportados ficavam de castigo. Muitas vezes, passávamos as aulas inteiras de joelho ou ainda virados para a parede. Realmente penso que o Brasil evoluiu muito a partir da definição dos conceitos relativos a direitos e cidadania. Como se poderia imaginar, que a escola, que seria um local de aprendizagem, inclusive sobre nossos direitos e deveres, seria também um espaço de tortura e maus tratos? Acho mesmo, que na época já fazia esses tipos de questionamentos, tanto que sempre tive certa dificuldade com regras muito rígidas e também com figuras de autoridade. E isso devia ser um conflito enorme em época de ditadura militar.

Bom, mas ainda nas missas, também me irritava não poder receber a hóstia (é com h?). Ficávamos naquelas filas enormes e quando chegava nossa vez tínhamos que sair pelos lados com a boca vazia. Tinha vontade de gritar para o padre que a igualdade é para todos. Mas tinha que concluir todo aquele ritual para finalmente me tornar cristão, ou pelos menos, passar a ser reconhecido como tal. Minha primeira hóstia foi na comunhão. Criei uma expectativa enorme, confesso que fiquei até nervoso. Era a primeira vez que receberia a graça do Senhor, pelas mãos de seu representante. Sei que fechei até os olhos, acho que estava esperando ver Jesus, tolinho que eu era. Quando senti aquele gosto de farinha, que se dissolvia em minha boca pensei: que coisa ruim. É esse o corpo de Cristo? Fiquei olhando a cara das pessoas e todas pareciam satisfeitas e felizes. Estavam saciadas com o Senhor. Porém, não sentia nada. Só uma coisa grudenta que ficou colada no meu céu da boca e que tive que decolar com a língua. Finalmente o negócio desceu de goela a baixo e nunca mais quis saber de hóstia, de missa e de todos aqueles mandamentos.

Mas surpreso fiquei ao ver, dias depois, que nada havia mudado em minha vida. Eu continuava o mesmo e sofria as mesmas perseguições e brincadeiras que tanto me faziam sofrer. E pior, não acontecia nada. Mas como? Eu não era agora filho de Deus? E como ele não me ajudava e nem me amparava? Acho que foi aí que comecei a questionar sua existência e também se ele era justo. Por outro lado, pensava que talvez meu sofrimento se desse pelo fato de não ter sido aceito por ele. E aí, me revoltava, pois se me diziam que o reino de Deus era dos justos, porque não tinham me aceitado? Teria sido por violar a intimidade dos santos? Ou seria porque o paraíso nunca existiu, e se existia era tão injusto quanto o mundo real? Quero salientar, que falando assim, podem até me taxar de herege ou mesmo um pecador. Mas confesso que não e digo que até tenho uma relação muito boa com o divino. Apenas descobri o meu próprio deus, que logicamente não podia ser tão intransigente, bravo e ameaçador como aquele divulgado pela igreja.

Lembrei agora, minha indignação com o padre que fumava. Ficava pensando que se fumar era pecado, como aquele homem que era representante dos céus podia cometer tal heresia? Comecei até a duvidar que ele realmente acreditasse em Deus. Coitado do pobre padre. Terminou sendo julgado pelo simples fato de ser tão viciado quanto sou agora. O que fica da lição é que não devemos julgar para não sermos julgado. Viram só como eu aprendi? Só sei que a primeira comunhão só me fez mais confuso. Digo isso, porque como nunca gostei muito de “histórias da carochinha”, e na época já questionava alguns dogmas, como por exemplo, a virgindade de Maria. Achava aquela historinha da serpente tão fantasiosa que não conseguia entender como Adão e Eva poderiam ser tão tolos. Outra coisa que me preocupava e despertava a curiosidade era o seguinte raciocínio: Se Caim e Abel eram filhos do primeiro e único casal criado por Deus, e se todos nós somos seus descendentes, como se deu o processo de procriação no mundo? Quantas vezes a Eva teve que engravidar para super populacionar o planeta? Eles tiveram filhas? E essas, engravidaram de seus irmãos? E depois, o processo foi se dando primo com primo? Mas como, se o encesto era um pecado abominável? Acho que a partir deste momento se tem uma pequena idéia da amplitude e complexidade de divagações e questionamentos que transbordavam em minha cabeça de “adolescente diferente” e inquieto.

Como a velocidade de resposta das escolas era menor que a minha necessidade de explicações e justificativas para uma quantidade enorme de divagações, para as quais não conseguia soluções concretas, me enveredei nos livros. Foi uma das melhores fases de minha vida e reconheço o valor fundamental para minha formação e por que não dizer, paz de espírito. Descobri que não estava sozinho e que já não era tão diferente o quanto imaginava. Outras pessoas também pensavam de forma diferente, como eu. E também pareciam sofrer ao buscar por respostas, que muitas vezes contrariavam verdades consolidadas cientificamente ao longo dos séculos. Imaginava por exemplo o quanto seria tolo da parte de “Deus” criar um universo tão extenso, com nove planetas flutuantes e soltos no ar, onde só em um existiria vida. Também não me satisfazia à idéia de termos vindo do pó. Preferia a descendência dos macacos. E olha que nem conhecia o Charles Darwin e sua teoria da evolução das espécies. Isso não se falava nas escolas. Acho que era considerado revolucionário demais, e revolução era coisa de comunista.

Certo dia ao contemplar a mansidão do mar e perceber que um navio ia em direção ao horizonte pensei: por onde ele seguiria? Na minha visão o mundo acabava ali. Então, descobri nos livros que o mundo era redondo e que o horizonte representa apenas o limite de nossa capacidade visual a partir de uma determinada perspectiva. Mas como o navio não afundava? Depois, como um avião tão pesado se tornava mais leve que o ar e conseguia alçar vôo e cruzar os ares levando pessoas de um lado para o outro? Como ligar um equipamento em uma tomada elétrica e visualizar uma imagem, um fato, que acontecia há milhares de quilômetros? Foram os livros que me mostraram que para tudo existe uma lógica e uma teoria, que baseada em cálculos numéricos precisos tornava o homem capaz, inclusive de chegar à lua 9foi em que ano mesmo?). E eu que pensava que os bebes eram trazidos por cegonhas bondosas, e que papai Noel cruzava os ares num carrinho de trenó. Quanta inocência será que cabe na cabeça de um adolescente?

Acho que comecei minhas leituras por alguns clássicos da literatura moderna. Admirável Mundo Novo me deixou perplexo com a teoria dos clones. Para mim, era um livro revolucionário e a frente de seu tempo. Depois vieram Eram os Deuses Astronautas, que confirmou minha suposição em relação à vida em outros planetas; tentei ler O Capital de Max e percebi que não estava preparado, pois não tinha base suficiente. Voltei às ficções científicas, entre elas, Cavalo de Tróia, que conta outra história de Jesus. Segui pelos romances “água com açúcar” e elegi Sidney Sheldon meu autor favorito (não é o que fazem hoje com o Paulo Coelho?). O Outro Lado da Meia Noite é inesquecível e confesso que de certa forma me identifiquei com a Noele Page. Tanto que achava que quando me casasse e tivesse uma filha, ela teria o mesmo nome. É engraçado como a gente cresce achando que seguirá os mesmos caminhos dos pais e adultos próximos. Assim, cresci também achando que um dia me casaria com uma linda jovem e que com ela teria filhos. Imaginava até que iria trabalhar para sustentar a família e viveríamos felizes para sempre. Hoje tenho a certeza de ter entendi o conceito de construção social. Mas, voltando as minhas “mil e uma viagens submarinas” (é de Júlio Verne, não é?) depois li Um Estranho no Espelho, Nunca é Para Sempre, O Céu Está Caindo, A Herdeira, e tantos outros, até perceber a regularidade da escrita e recorrência do estilo fácil utilizado pelo meu querido autor (coincidência novamente com Paulo Coelho?). Assim, enveredei pelos mistérios e crimes de Ágatha Kristie e seu detetive infalível “Poirot”. O Caso dos Dez Negrinhos, para mim é o melhor, depois O Martelo Amarelo e mais um bocado que adquiri e formei uma considerável coleção. Dela, fui para Harold Hobbins e sua 79 Park Avenue. Pense no dramalhão, só não era mexicano porque se passava nos Estados Unidos. Mas tirando a velocidade da escrita, em muito se parecia com o Sidney Sheldon (ou com Paulo Coelho?).

O interessante da leitura é a possibilidade de conhecer o mundo. E sob várias óticas, dependendo do autor. Começava a gostar de perceber como cada pessoa podia ver um mesmo local de forma diferente. Enquanto alguns salientavam a boemia e a riqueza arquitetônica de uma Roma ou Veneza, por exemplo, outros por sua vez, às vezes salientavam as sujeiras e a falta de organização de uma mesma cidade. E assim, percebi que tudo na vida depende do ponto de vista de quem ver e descreve determinado fato. Encontrei nos livros as possibilidades que precisava e dispunha para rodar o mundo e conhecer novos horizontes. E isso é extremamente fantástico e disponível a todos (será mesmo? Talvez seja melhor perguntar ao Ministro da Educação ou ao Secretário de seu estado, de sua cidade...).

Depois de toda essa canseira, correndo com os personagens por países distantes e nunca visitados, resolvi voltar e conhecer meu país através da nossa literatura. E assim me deliciei com a Iracena dos lábios de mel, Senhora, O Tronco do Ipê e A Alma de Lázaro, do José de Alencar. A Mão e a Luva, de Machado de Assis, era uma excelente crônica, porém detestei A Morte de Brás Cubas e sua frase celebre: aos perdedores as batatas. Menino de Engenho e Fogo Morto, de José Lins do Rego, deve ser lido por todos. Devorei algumas obras de Jorge Amado, entre as quais Tocaia Grande, Tereza Batista Cansada de Guerra, Dona Flor e Seus Dois Maridos e Capitães de Areia. Considero esse, excelente e fundamental para quem é da área social, e que, aliado as obras do pernambucano Nelson Rodrigues, entre os quais Bonitinha Mas Ordinária, O Beijo no Asfalto e Perdoa-me Por te Trair, proporciona uma excelente reflexão sobre a hipocrisia da sociedade e da família brasileira burguesa.

Também li O Cortiço, de Aluisio de Azevedo e Maria, Maria, que não relembro o autor. De Raquel de Queiroz, As Três Marias. E era engraçado ver depois esses romances em forma de novela. Muitas vezes os personagens que imaginava em nada se pareciam com os da ficção, e mais uma vez me confirmava a teoria do ponto de vista individual. Retornei aos autores estrangeiros com Volte Para Casa Piter e Querida Mamãe, que também não relembro os autores, mas que eram autobiografias; O Mundo Transparente, de Irving Wallace; O Maior Vendedor do Mundo, de O.G Mandino; e o inesquecível Retrato de Dorian Gray, do Oscar Wilde, me foram livros inesquecíveis. Também conheci alguns que classifiquei como de auto-ajuda e melodramáticos, tais como Pollyanna e O Menino do Dedo Verde; o livro das misses, O Pequeno Príncipe, é quase obrigatório porque afinal “somos responsáveis por aquilo que cativamos”. Fernão Capelo Gaivota, com seu vôo cada vez mais alto até se espatifar nas pedras, trás uma bela mensagem de perseverança e desafio aos limites (por favor, não me levem a sério), e por fim, para fechar a coleção, o Deus Negro, do Neimar de Barros. Este último de uma estupidez absurda e princípios morais equivocados. Os livros também têm esse poder de proporcionar pontos de vista totalmente diferentes dos nossos. Hoje entendo como positivo, mas confesso que na época suas colocações excludentes me causaram grande desconforto. Alguém conhece esse livro? De qualquer forma aconselho a não perderem seu tempo com tal leitura. Garanto que vocês sobreviverão melhor sem ele, mas lógico, isso é o meu ponto de vista

Outra coisa importante que aprendi com os livros foi formar minha própria opinião sobre determinadas coisas e fatos. Quantos livros li questionando determinados posicionamentos e colocações dos autores. Em determinados momentos chegava mesmo a duvidar do relato ou ainda pensar outras formas de resolver os problemas. Isso nos leva a pensar e pensar é sempre positivo e enriquecedor (lembrem que a gente vale o quanto pensa). Sei que também adorava os livros de terror e suspense. O que mais me marcou foi “Damein, a Profecia”. Eram três livros que contavam a história do filho do anticristo. Lógico que li os três. Acho que tenho uma queda pela vilanice. Fiquei tão impressionado, e fascinado ao mesmo tempo, que procurava ver no espelho se tinha o símbolo 666 no couro cabeludo. Imaginava que como tinha nascido no dia seis do ano de sessenta e seis, poderia ter também o número da besta. Legal, não é? Mas, de modo geral como me achavam metido à besta, terminei por me satisfazer de certa forma.

Na verdade acho que todo esse período me foi de extrema riqueza, contribuindo inclusive, para facilidade que acredito ter na escrita. Ah, por fim, não poderia esquecer nosso escritor maior, o Paulo Coelho! Sentiram firmeza na exclamação? Será que alguém poderia me explicar a febre que se deu depois do Alquimista? Acho que só isso realmente justifica tanto sucesso. Ou será o nível da educação brasileira? E olha que eu, como todo bom brasileiro, já li também Verônica Decide Morrer e Cinco Minutos. Tentei até lê aquele que fala do caminho de Compostela, mas confesso que no meio da estrada me deu um enjoou que até pensei que estava grávido. Para evitar maiores celeumas prefiro não tecer maiores comentário e apenas me limitar a dizer que não gosto do estilo. Talvez se perdesse menos tempo lendo aquelas coleções tipo Sabrina e tantas outras que existem ou existiram por aí. Mas tudo bem, o que importa é que ele é membro da Academia Brasileira de Letras e isso já o torna um grande escritor, não é mesmo? Mas, por outro lado, se considerarmos que o José Sarney também é titular de uma daquelas cadeiras... Bom, é só meu ponto de vista. Melhor parar por aqui, afinal não sou nenhum especialista em literatura e espero que entendam que falo apenas como leitor.

Já nas aulas, detestava matemática, mas me virava como podia. Gostava de português e ciências. As descobertas me fascinavam. Em determinados momentos começo a rir ao lembrar que fazíamos provas para passar em disciplinas como religião, moral e cívica, OSPB. E viva os militares. Hoje entendo que não podia ser diferente e agradeço aos coronéis e todas as patentes do poder, por terem, de certa forma, tentado destruir o trabalho que meus pais e irmãos tiveram em me fazer aprender a pensar por mim mesmo. A disciplina era ensinada pela força e acredito que nunca houve realmente interesse do Estado em educar a população. Não estamos vivendo esse mesmo processo nos dias atuais? Manter o povo não informado garante a manutenção do poder burguês, não é mesmo? Mas felizmente a ditadura acabou (Será?). Mas deixemos as conjecturas políticas e sociais para outro momento. Lembro apenas que éramos um país de futuro. O Brasil sempre foi “um pais que ia prá frente”, como já dizia a canção, mesmo sem nunca ter saído do lugar (passamos quanto tempo mesmo sendo classificados como país em desenvolvimento?).

Não liguem, acho mesmo que devo ter sido um adolescente muito chato. Talvez por isso, minha diferença também tenha se destacado na nova escola. Agora eu era um adolescente fresco demais e que só conversava com as meninas. Acho que em toda a escola só existiam cinco alunos do sexo masculino. Dois deles eram maiores que eu, mais fortes que eu, e logicamente menos inteligentes que eu. Eram os lideres da bagunça e não tinham vindo em busca de novos conhecimentos, mas sim, transferidos de outras escolas que os expulsaram. Tinha um garoto mais novo que eu e com um nível de educação compatível com o que julgava necessário para estar numa escola como aquela. Não esqueçam que tinha vindo do limitado e subalterno mundo dos subúrbios. E por mais que não me enquadrasse no modelo de subjugação, tinha introjetado alguns traços de submissão e inferioridade em relação à burguesia. E olha que o Brasil é um país para todos e que todos somos iguais perante a Lei (já leram isso na Constituição? E acreditaram?). Para mim, aqueles garotos eram burgueses, logo, de certa forma, se encontravam acima de mim. Eram superiores em tudo, inclusive na esperteza e malandragem. O quarto garoto era como se diz no popular, “tapado de pai, mãe e madrasta” e não conseguia me relacionar com ele. Só me restaram o garoto mais novo e as meninas.

Meu inferno começou a mudar no final daquele ano. Os dois grandões foram reprovados e ficariam em outra turma. Segui com meu pequeno companheiro para a turma mais elevada. Aqueles já não tinham tanta superioridade em relação a mim. Sabiam menos que eu. Precisava de aliados, por isso ensinava a meu amigo as matérias e assuntos que não conseguia aprender. Na verdade não só por isso, mas porque também gostava realmente dele, e hoje me pergunto qual terá sido seu destino. Engraçado é que o seu nome era Jerry e eu pensava que era por causa do desenho. Depois concluir que seus pais deveriam ser fãs do Jerry Adriano, que era cantor. No segundo ano, novos alunos e novas amizades. Definir as pessoas de quem me aproximaria. Tinha uma garota carioca. Não sabia como eram os cariocas e achava que o rio de Janeiro era muito distante e muito desenvolvido e rico (coisa de nordestino). Como ela era diferente, parecia confirmar minha hipótese. Era moderna e comunicativa, criou um grupo de teatro e começou a ensaiar Os Saltimbancos, obra de Chico Buarque. Ia aos ensaios, muito mais interessado na carioca do que no teatro. Era a primeira vez que me apaixonava. Era o tão falado amor platônico dos tantos livros que li. Queria estar perto dela e logicamente fazer parte daquele grupo.

Aos poucos fui estabelecendo contatos e quando precisaram de uma substituição, entrei no elenco. O espetáculo foi sucesso na escola. Descobrir o valor dos aplausos e definir que queria aquilo para mim. Mas a carioca era centralizadora e liderava o grupo, sem grandes possibilidades de troca ou negociações. Não haveria grandes espaços para mim e logicamente não queria ser apenas um integrante de elenco. Outra integrante tinha escrito um texto. Não lembro bem o enredo, mas acho que era sobre uma tribo indígena. O grupo forçou uma votação e mesmo sabendo que não me restaria personagem, pois que todos eram femininos, votei contra a carioca. Queria desafiá-la e consequentemente destituí-la de um lugar que desejava. O novo texto foi aprovado e ela reduzida a um papel secundário. A autora tornou-se a diretora do espetáculo e tornei-me seu melhor amigo. A essa altura já achava a pequena carioca insuportável e pedante.

Em seguida sugeri a montagem de Monica e Cebolinha no mundo de Romeu e Julieta, texto de Ziraldo. Interpretei meu primeiro grande personagem principal, o Cebolinha Romeu. Fazia agora, parte do primeiro elenco. Destacava-me na escola e despertava a admiração de algumas professoras e também de alguns alunos. Eu era conhecido e reconhecido. Mas não só por causa do teatro, é que também diziam que eu desenhava bem. Cresci de certa forma ouvindo isso. Lembro que até pintei um painel enorme, com uma imagem sertaneja, com a oração de São Francisco por cima. Isso a pedido da temida vice-diretora de olhos violetas. Depois montamos O Cavalinho Azul, de Maria Clara Machado, e dividi a cena com a carioca. Estávamos no mesmo patamar. Éramos os personagens principais, sendo que agora era também co-diretor. Foi o auge. Descobria que conseguia chegar onde queria. Fazia-se necessário apenas ser paciente e estratégico. E isso eu estava aprendendo aos poucos.

Acho que deixei tomar pela vaidade e no ano seguinte fui reprovado. Tive que refazer meus planos e precisava recuperar meu status de inteligente, que por hora estava ameaçado. Montei um segundo grupo de teatro, e agora tínhamos uma competição. O primeiro grupo porém, foi desfeito e alguns integrantes se incorporaram ao meu, menos a carioca, claro. Seria demais para ela. A partir daí me tornei não apenas o diretor do grupo, mas o próprio dono. Escrevia os textos, dirigia e logicamente protagonizava os espetáculos. Fiz do teatro escolar meio reino. Ninguém mais me incomodava, afinal, eu me tornara referencia e ganho o jogo. Agora dava as cartas e mantinha sobre controle os inexperientes e jovens atores. Penso que na verdade teria sido um excelente aprendiz de ditador.

Aquela escola foi especial para mim. Foram quatro anos de coisas boas e de muita aprendizagem. Foi onde me apaixonei sucessivamente pela garotas mais fortes de minhas turmas e onde também dei meu primeiro beijo de boca. Sempre tive atração pela força (será que isso é simbólico?). Descobertas a parte, nunca poderia pensar que minha vida seria tão diferente daquela imaginada naqueles anos. Tantos planos, tantos sonhos vividos juntos, com tantos amigos. Promessas de amizades eternas. Nunca mais reencontrei nenhum deles, e acho mesmo que hoje não os conseguiria reconhecer. São os rios das vidas de cada um que correm em destinos opostos. Uns em maiores velocidades, outros em águas mansas. Acho que naquele final de ano, meu rio correu novamente em alta velocidade e me levou mais uma vez pra longe. Fui aprovado na Escola Técnica e fechei um ciclo coroando uma história de sucesso. História que aprendi a escrever com minhas próprias mãos, e que como eu, se fazia mais uma vez diferente da história de tantos outros.

A escola técnica federal representava outro mundo, outra história. As aulas eram mais elaboradas em conteúdo, os professores mais bem preparados. Era educação de qualidade, salvo as exceções de alguns profissionais, que sem querer ofender, correspondia perfeitamente às representações sociais que se tem do funcionário público. Tinha-se certa liberdade para decidir sobre quais disciplinas pagar em cada período. O ensino era moderno, as salas amplas e se podia sair da aula sem precisar pedir permissão. Fui bolsista e de certa forma ingressei no mundo profissional. A partir daquele momento comecei a desejar a independência. Estava pronto para ser dono do meu nariz e tinha ansiedade em me “profissionalizar”, sonho de todos daquela época.

A curiosidade agora não era só cientifica, mais também sexual. Como dizem os grandes estudiosos, que para tudo encontram justificativas biológicas, os hormônios gritavam e a sexualidade era um terreno desconhecido a ser explorado. Antes dos quinze anos fui violentado. Descobrir as dores que acompanham as descobertas práticas. As teorias são sempre mais fáceis, porém menos didáticas, pelo menos era no que acreditava. Confesso que hoje tenho outra percepção e compreensão a respeito dos abusos sexuais. Na época não existia estatuto da criança e do adolescente, e não se tinha como fazer denuncias. Também, como denunciar? Para quem contar? Não se falava de sexo, e a noção de pecado se referia diretamente as práticas desviantes. Mas o que eram mesmo práticas desviantes? Independente disso, o que fica realmente da experiência é o peso que a vitima é obrigado a carregar e a suportar. A dor física e momentânea parece dilacerar não só o corpo, mas principalmente a alma. O sentimento de culpa por ter procurado por algo “errado”, para o qual, com certeza não se estava preparado; o medo de ter cometido um pecado e por isso ser condenado a queimar nas chamas do inferno; a dor abafada e sufocada pela vergonha; o sentido de desonra; e acima de tudo, a revolta por ter sido violado, subjugado e reduzido ao nada, já seriam bastante para acabar ou desmoronar uma pessoa madura.

Mas o que pensar de um adolescente despreparado e imaturo? Sei que a dor física é passageira, pois que o corpo encontra formas para a cura. Mas quando falo de dor, me refiro a uma sensação que se traduz num misto de ansiedade, angústia, medo, tristeza, impotência e solidão que se transforma em sofrimento profundo. Uma dor que não cessa. Uma dor que ressurge a cada nova lembrança. Dor que se intensifica toda fez que pensamos ou desejamos novas experiência sexuais ou afetivas. Uma dor que não passa com remédios e não se cura em curto prazo. Só a maturidade te leva ao perdão, primeiro de você próprio e por último do agressor. E confesso que só esse perdão foi capaz de diluir a mágoa que me acompanhou por anos a fio. Neste sentido, acho que mágoa é um sentimento extremamente nocivo. É muito mais forte que o ódio, que ao menos te motiva a vingança. A mágoa ao contrário parece te afundar num poço de impossibilidades e incompetências.

Descobri de uma forma cruel que nem todas as pessoas eram boas em essência e que no mundo do sexo, o jogo de poder muitas vezes gera muito mais prazer do que o próprio ato em si. Foi assim que descobrir as emoções e aprendi a controlá-las. Acho que isso me levou a racionalidade e hoje consigo perceber que de certa forma tal experiência se tornou fundamental para o meu crescimento pessoal. Não que a considerasse positiva, mas porque era uma parte da minha história que não poderia ser apagada. Não teria como negar para mim mesmo, então passei a vê-la e tratá-la como simples tragédias da vida, das quais não estamos livres. Assim, encontrei formas de sobreviver, de me manter integro e inteiro, e dessa forma, me preservar. Sabia que o rio estava prestes a mudar novamente o rumo de minha vida. Tinha um futuro de felicidades e descobertas, menos ou talvez igualmente dolorosas pela frente. Então descobri que podia inventar minha própria correnteza. Iniciei o curso técnico e dois anos depois me apaixonei verdadeiramente por alguém com quem convivi por vinte e um anos de minha vida. Uma das pessoas mais belas e importantes em toda a minha vida. Foram anos maravilhosos e de grande aprendizado. Acredito que também pude ensinar muito, afinal, qualquer relação se estabelece na troca.

Tornei-me adulto antes do tempo. Claro que fiz grandes amizades, chorei as despedidas dos que ficaram atrasados, e refiz promessas de novas amizades eternas. Sempre fazemos isso e depois de um tempo esquecemo-nos de cumprir. Lá não fiz teatro, mas pratiquei esportes. Participei de jogos escolares e cheguei mesmo a ganhar medalha de prata nos quatrocentos metros rasos. Incrível imaginar que de vez em quando reencontramos grandes ex-amigos e percebemos não ter mais algo tão incomum, e que cada um seguiu seu rio. Ao terminar o curso técnico comecei a trabalhar e passei a ser definitivamente responsável por mim mesmo. Era a tão sonhada autonomia. Era adulto e agora acessaria outros mundos. Faria novas descobertas e viveria novas experiências. Conheceria milhares de pessoas com quem trocar conhecimentos.

Em poucos meses me tornei chefe pela primeira vez. Não tinha ainda completado dezenove anos e assumir talvez um dos maiores desafios de minha vida. Comandei um grupo com mais de vinte homens adultos, casados e moldados numa cultura machista. Não admitiam o fato de ter que responder a um garoto. Mas eu já era adulto, só eles que não percebiam. Eu tinha certeza disso. E precisava ter. Eu era diferente, lembram? Era preciso crescer rápido e me tornar cada vez mais forte para enfrentar os desafios da vida. E assim, se foram os três primeiros anos de minha vida profissional.

Apresentei meu primeiro trabalho científico num seminário internacional, relatando a experiência institucional da campanha de prevenção a AIDS. Estávamos no inicio dos anos oitenta e a “peste gay”, como proclamavam os católicos fervorosos e evangélicos desinformados, se tornava epidemia. Fui convidado por uma empresa concorrente, e lá assumi novo cargo de chefia. Não havia coordenadores de áreas, era-se reconhecido como chefe. Isso gerava status. E por isso, as pessoas matavam e morriam, trapaceavam e investiam todos os seus esforços. Era época de altas inflações, economia desequilibrada e inicio da era da informatização dos processos. Com a década de oitenta o pais passou, talvez, pelo maior processo de transformação que já si viu. Abertura política, queda da ditadura, eleições diretas, movimentos sociais e estudantis, greves sucessivas, mudanças de moedas e a chegada da qualidade total, que trouxe a reengenharia e tantos outros modelos e programas de eficiência que precisavam ser absorvido com um atraso de pelo menos dez anos.

Findava também a minha juventude, pois que chegaria aos anos noventa com vinte e quatro anos. Começaria “os melhores anos do resto de minha vida”. Assistiram a esse filme? Talvez então entendam o que quero dizer. E naquele momento, acho que pela primeira vez me questionei se realmente queria, ou ainda, gostaria de me tornar um adulto. Acho que também pela primeira vez me pesou a falta da juventude real. Diziam que todo mundo passava pela crise dos trinta. Talvez a minha tenha chegado antes. Não sabia quem eu realmente era e o que realmente queria. Faria vinte e quatro anos e já estava casado a sete. Fazia faculdade, e em menos de cinco anos de vida profissional tinha chegado ao cargo de Gerente. Penso hoje, que talvez tenha corrido demais, corrido na velocidade de um rio descontrolado e desgovernado, que avança exigindo mais espaço e abrindo fronteiras. Acho que minha vida sempre foi acelerada. E talvez por isso tivesse a sensação de que tudo tinha sido tão fácil, e que talvez por isso não tivesse sido tão prazeroso. Não sei. Talvez, achasse naquele momento, que simplesmente tinha cansado decorrer tanto, sem nem mesmo saber o real motivo para tanta pressa.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

A HISTÓRIA DA MINHA VIDA - A Infância


















Auto Retrato/2007

Capitulo II - LEMBRANÇAS DA INFÂNCIA

Como já dito, nasci diminutivo. Pelo que sei, no bairro da Tamarineira. Gosto de imaginar que tinha de antemão o primeiro requisito para uma vida futura bem sucedida: viver em bairro nobre. Mas as grandes catástrofes naturais têm o poder e papel de mudar destinos, vidas e histórias. Criar uma reviravolta e mexer com as pessoas. Tal como tantas crianças, atualmente castigadas pela cheia que atingiu as várias cidades de Pernambuco nos últimos dias, tive meu destino tragado pelas correntezas. Acredito que eu devia ser uma criança linda e feliz.

Mas, também como essas tantas que hoje se encontram desassistidas, em meio à lama e escombros, também devo ter me sentido desamparado. De forma violenta um rio mudou para sempre meu destino. A força das águas me levou a terras distantes e mal habitadas. Como se diria no popular, fui parar no “cafundó de Judas”. Eu e minha família. Pai, mãe e sete irmãos. Sim, éramos oito irmãos até a chegada de mais dois, totalizando dez filhos. Logo, posso dizer que sou de uma época onde as famílias eram extensas. E é engraçado constatar que a redução da taxa de natalidade brasileira pode ser comprovada através de minha própria família. Num cálculo simples, verifica-se por exemplo, que o número de filhos foi sendo reduzido consideravelmente e as famílias se tornaram mais compactas.

Minhas duas primeiras irmãs tiveram três filhos. Os três irmãos subsequentes tiveram apenas dois, e uma teve apenas uma filha. Logo, pode-se imaginar que se todos os dez filhos de meus pais tivessem seguido uma filosofia familiar cristã que se pautava na idéia de que “cada filho era um saco de dinheiro”, teríamos hoje cem novos rebentos. Porém, tais criaturas foram reduzidas a apenas treze, o que significa uma queda de mais de 85% na taxa de natalidade familiar.

Bem, mas é melhor voltar a 1966, dois anos após o golpe militar, quando uma linda e singela criança foi traída pelo destino. Levada em um caminhão, que gosto de pensar, se assemelhava aos velhos paus-de-arara (só para dar um toque brejeiro e regionalista), descobriu a pobreza. E que, afastada da civilização, em um bairro longe, de um subúrbio distante, sem energia, saneamento e sem água encanada (não se iludam, era assim que se chamava), criou um mundo de fantasia em um reino encantado só seu. Também gosto dessa passagem, pois acho que lembra um pouco as histórias de grandes heroínas como a Noele Page em “O Outro Lado da Meia Noite”, do saudoso Sidney Sheldon, ou mesmo, da Scarlet Hohara, vivida pela Vívian Li, no clássico cinematográfico “E o Vento Levou”.

Nestas lindas, encantadoras e bucólicas terras, brincávamos nas ruas até a lua se pôr “por detrás da bananeira” e tomávamos banho com água de cacimba. Nos dias de chuva corríamos no quintal e às vezes nos banhávamos na biqueira (espécie de calha que adaptada ao telhado fazia a chuva correr em jatos fortes). Nos dias seguintes comíamos bagos de jaca serenada para não resfriar, subíamos em árvores frondosas e ficávamos com as línguas roxas de tanta azeitona. Também tinha pitomba, caju, abacate, carambola, jambo, graviola, goiaba, araçá, jenipapo, ceriguela e umbu. Havia um viveiro grande com uma variedade enorme de pássaros: papa-capim, pintor, crista de galo, sangue de boi, casais de burguesas, sabiás, azulão e periquitos coloridos. Espalhados pelo quintal andavam guinés, galinhas, galos, pintos surús e patos. Ah, quase esqueço os coelhos e os preás.

Lembro de uma cabra chamada “bita” e acho mesmo que todas as cabras de estimação se chamam assim, talvez como diminutivo de cabrita. Fora essa verdadeira fauna aparecia cobras, e essas eram muitas; tejus, que comiam os pintos; sapos, grilos, gafanhotos e timbus que atacavam as frutas. A esses servíamos aguardente misturada a açúcar, numa bacia de alumínio. No dia seguinte encontrávamos os animais embriagados ao lado da armadilha. Era um fim trágico para os selvagens cachaceiros.

No topo da escala de preferências estavam o cachorro chamado “Ping” e gata chamada “Pong” (qualquer referência ao chiclete ping-pong não terá sido mera coincidência). Depois veio “Paquito”, que logicamente muito antes da Xuxa, já nos trazia alegrias ao correr conosco em meio a canteiros e árvores. Era um cachorro que ria e demonstrava afeto como gente. Foi também um grande sobrevivente. Jogado duas vezes na cacimba, atropelado pelo menos umas cinco vezes, esfaqueado e muitas vezes apedrejado por pessoas da vizinhança. Era nosso protetor, pois que ninguém entrava em meu reino sem recear um ataque. Era nossa fortaleza e também mascote das muitas brincadeiras, que variavam entre “trinta e um alerta”, “barra ou bandeira”, jogar espeto, bolas de gude e queimado (que na época era chamado de matar-morreu).

Fazíamos pernas de paus com cabos de vassouras, patas de cavalos com quengas de coco, carrinhos com latas de leite ou óleo. Tinha os patinetes e carrinhos de rolimã. Só não podíamos brincar de amarelinha (que antes se chama academia, e não me perguntem o motivo ou a origem), porque dava azar. Segundo os mais velhos era “agouro” e que por isso o chefe de família poderia morrer. As crendices eram tantas, que muitas vezes se misturavam as histórias reais, contadas e recontadas nas noites enluaradas. Na verdade era um mundo fantástico, onde os vizinhos se falavam e a comunidade em si formava uma rede social onde todos cuidavam de todos e todos se protegiam e protegiam a todos.

E novamente vinham as chuvas e com elas uma quantidade enorme de formigas. E dos formigueiros voavam tanajuras. A gente corria, com galhos nas mãos, tentava acertar as coitadinhas que saiam para acasalar. Um dia desses vi meninos na beira de uma estrada a correr e a gritar como fazia no passado: “Cai, cai tanajura. Tua bunda tem gordura”. Depois todos os meninos se reunião para contar as picadas, que muitas vezes sangrava. Mas, o que importava mesmo era pegar o maior número das formigas gigantes. Arrancávamos suas asas e elas eram cozidas na manteiga. Depois se misturava farrinha e a gente comia como se fosse alguma especiaria gastronômica.

Aliás, neste sentido, deve-se destacar que antigamente as crianças tinham uma relação mais próxima com a cozinha. Em dias de festas, se fazia buchadas. Os menores acompanhavam atentamente os preparos e até participavam das atividades. No São João, a briga era para quem ficaria com a panela onde era preparada a canjica. Tinha fogueira, onde se assava milho e se formava rodas de conversas. As noites ficavam iluminadas com tantos fogos. No cardápio de minha infância ainda entrava as “cambrimbas”, peixinhos pequenos assados que serviam de petisco. Já ouviram falar em passarinha? Até hoje sinto o gosto na boca. Depois descobri que eram feitas do baço do boi, que depois de escaldadas eram assadas e servidas ainda quente. Na Páscoa só se comia peixe e feijão de coco. E brêdo, alguém conhece? Uma espécie de hortaliça (acho eu), que cozinhada ao coco é servida com peixe.

Aos domingos tinha galinha à cabidela, preparada por minha mãe. A galinha era abatida na hora e o sangue escorria em uma vasilha. Adicionava-se vinagre para que o mesmo ficasse qualhado e desse aquele sabor especial. Também era servido feijão com farinha, que com as mãos fazíamos bolinhos. Quantas vezes me divertir comendo de mão? Acho que depois que cresci fiquei “metido a besta” e meio que esqueci esses detalhes e simplicidades da vida de quem é pobre.

A culinária se estendia as brincadeiras e era muito divertido imitar os adultos. As vísceras das galinhas, por exemplo, nos serviam de ingredientes para fazermos cozinhados. Usávamos latas de carne Wilson como panelas e preparávamos fogareiros com gravetos e pequenos pedaços de madeira. Em nossas experiências infantis, bancávamos os arquitetos e assim íamos construindo casas com pequenos pedaços de tijolos e telhas, colados com areia molhada. Os animais eram inventados. Com os guinchos das palmas de bananas inventávamos cavalos. Com buchas do mato e palitos de fósforos surgiam bois e vacas. Muitas vezes prendíamos gafanhotos, que amarrados viravam animais alados. Fazíamos o mesmo com os “zig-zag”, que a gente conhecia como cavalo do cão. Não tínhamos brinquedos caros e elaborados, mas tivemos a feliz oportunidade de exercitar nossa criatividade, inventando e reinventando tudo. Hoje me questiono se teria sido mais feliz se tivesse recebido tudo pronto. Considero meus pais exemplos de vida, pois nos mostravam a todo o momento que a felicidade estava nas coisas simples. Não se faziam de forma consciente ou inconsciente, porém sei que o afeto e o carinho substituíam as ausências e faltas.

Não sabíamos o que era o lúdico, mas nossa imaginação era exercitada a cada minuto, contribuindo de forma direta para nossa formação cultura, pessoas e logicamente intelectual. Aprendemos a criar e a desenvolver alternativas, exercitar as possibilidades, experenciar a autonomia e acima de tudo tomar decisões. Isso não é pedagógico? Lamento que, pelo menos em minha família, essas possibilidades se restringiram a minha geração. Penso no quanto seria gratificante ver meus sobrinhos repetirem e vivenciarem tais experiências.

Nas vendas (ou barracas) se comprava “língua de sogra”, suspiros, confeitos xaxá e azedinho, pirulito zorro, chiclete “ploc” que vinha com anéis de pedras coloridas, pipocas e guaraná fratelivita. O vinagre era vendido em garrafas de vidro, feito as de cerveja de hoje em dia. Manteiga era comprada em quilo, pesada em balança e embrulhada em papel de ceda. E o mel de engenho era misturado em farinha para ser comigo com os dedos na boca. Na padaria do bairro, além do tradicional pão francês, se comprava pão bolachão, pão carteira e pão criolo. Tinha também os pães em forma de jacarés, tartarugas, além do pão bengala.

Pegava-se estrume de vaca para espantar muriçoca, se dormia com mosquiteiros e os colchões eram de palha, forrados com chita colorida. Tinham também as “colchas chenil” em variadas cores entre laranja claro, bunina e azul natiê (adoro esse nome). Nos quartos, trepávamos em beliches, de onde ficávamos conversando até chegar o sono. A gente tinha “venta” (nariz), “zoio” (olho) e “zoreia” (orelha), tinha “suvaco” (axila) e “furico” (ânus). Éramos felizes numa ignorância inocente, peculiar as crianças de subúrbios.

Como mecanismo de proteção social contra os adultos maus, meus pais contavam histórias sobre o “papafigo” e tarados. Acho que o papafigo era o que se chama hoje de pedófilos, pessoas que sentem atração sexual por crianças. Segundo esses relatos, crianças eram capturadas e tinham o fígado comido por tais criaturas. Gosto muito da “Cabra Cabriola”, espécie de animal que batia a porta três vezes e tentava capturar crianças que ficavam em casa sozinhas, quando os pais saiam pra resolver questões médicas ou profissionais.

Imaginava uma cabra enorme, furiosa e de couro ouriçado que devorava crianças indefesas. Na mata morava a “Comadre Folôrzinha”, que também as capturava e prendia em gaiolas para o processo de engorda. Depois, jogava os inocentes num grande caldeirão e fazia uma sopa de criancinhas. Até hoje quando vejo fumaça saindo da mata, penso na chaminé acesa da comadre folôrzinha. Essas coisas me remetem imediatamente à infância e me vejo com medo, me escondendo do antigo Rural azul, espécie da veiculo antigo, que pra mim pertencia ao papa-figo.

O medo era nosso companheiro em muitos momentos e isso nos tornava precavidos. Um dia minha mãe me disse que quando estivesse sozinho e com medo, assoviasse uma canção qualquer, ou que ainda cantasse baixinho. Hoje me pergunto quantas vezes fiz esse exercício mental? São coisas que a gente aprende e não esquece nunca, até porque o medo parece nos acompanhar pela vida inteira. Talvez seja um mecanismo de defesa. Mais uma das perfeições da vida. Ou talvez seja sinal de fraqueza. O sei é que continuo assoviando ou cantando baixinho para me sentir forte e vencer desafios e dificuldades. E é incrível como tem funcionado.

O caminho que levava a minha casa, ou reino encantado, se chamava ladeira do Príncipe, que findava numa grande chácara onde morava uma família feliz. Lembro de um casamento, para o qual, logicamente, não fomos convidados. Passamos o dia contando o número de carros que subiam a ruela de paralelepípedos pontiagudos. Era uma rua encantada que nos levava a outro mundo, o dos ricos, e que não podíamos acessar. Tinha piscina e grandes campos verdes com enormes jardins coloridos. Mas para mim, aquele cenário se assemelhava aos contos de fada. E se a rua era do príncipe, é porque logicamente existia uma realeza, o que me fazia acreditar que reis e rainhas, príncipes e princesas, e logicamente, as bruxas e demais seres sinistros e cruéis eram mais que simples fantasias.

Outra rua que tenho como referência se chamava Ladeira do Alemão e também dava acesso a uma chácara que pertencia a pessoas ricas. Por esse caminho se chegava a Escola de Dona Marival, como era conhecida no local. Dona Marival era uma senhora séria e muito exigente. Foi professora de meus irmãos e logicamente minha também. Ela falava alto, e numa foz anasalada e fina, que até hoje mantenho viva na memória, gritava: Meninooooo! A extensão do “ó” é proposital, como forma de tentar revelar a dor que nos causava nos ouvidos a entonação ameaçadora que saia daquela boca quase infernal. A palmatória não existia mais, porém a temível criatura se utilizava de uma enorme régua de madeira para nos bater na cabeça no mínimo sinal de desobediência ou desatenção. A gente apanhava a cada vez que errava os cálculos da tabuada. Acho que detestava Dona Marival, mas ela era amiga de minha mãe, ou melhor, acho que de todas as mães, e isso lhe conferia autoridade máxima sobre nós.

Assim, estudar parecia um suplicio. Um castigo imposto às crianças que completavam sete anos. Algumas vezes não tivemos cadernos e chegávamos a usar até papel de embrulhar pão para fazer as lições. Às vezes recebíamos cadernos usados de outras pessoas, acho que de parentes “mais afortunados”, com algumas páginas ainda em branco. Os lápis eram usados até o final, e os livros eram emprestados ou doados.

Mas o sofrimento era amenizado pela televisão. A nossa era de uma marca chamada “Colorado RC”. Os aparelhos da época possuíam válvulas, que quando queimadas precisam ser trocadas para garantir a transmissão. O sinal era fraco e quando chovia muito era preciso colocar lã de aço (ou Bombril) nas hastes das antenas. Agente assistia Tarzan, Robson Cruzué, Daniel Bonn, Dinnye é um Gênio, a Feiticeira, Terra de Gigantes, Túnel do Tempo. Tinha também o Dr. Smity (oh, céus... oh, terra... oh, dor) que a gente não podia gostar muito porque diziam que ele era gay (naquela época, se chamava mariquinha ou fresco).

E tinha ainda as novelas como Bicho do Mato, Meu Primeiro Amor, Uma Rosa com Amor, que a gente só podia assistir até as 18:00 horas porque éramos crianças. Lembro-me que antes de cada programa surgia na tela o registro do governo federal, com carimbo bem grande da censura que estabelecia a faixa etária apropriada a cada programação. E quantas vezes as cenas sumiam... No melhor da trama a programação saia do ar e agente ficava na sala aguardando e contando bolinhas pretas que pareciam borbulhar diante de nossos olhos. Muitas vezes, quando voltava, a gente ficava sem entender o que tinha acontecido. Não sabia o que tinha sido dito.

Nesta época tudo ainda era em preto e branco, como foram os anos de chumbo. O jornal nacional era apresentado por Cid Moreira e Sergio Chapelen (é assim mesmo?), mas as noticias eram veladas, incompletas e não muito claras. Iniciava-se o processo de alienação cultural encabeçado pela “Venus platinada” e que tomou conta do país por mais de vinte anos (será mesmo que acabou?). Mas tinha o globinho. Ah, que saudade da Paula Saldanha! E também dos Flistones, Formiga Atômica, Tutubarão, A Lula Lelé, Corrida Maluca e Ton e Jerry. Lembro do Willy, desenho sobre uma turma de motocicletas crianças, onde um dos personagens sempre dizia: Eu te disse, eu não te disse? Até hoje repito esse bordão.

Já existia até “radiola” e os discos eram de vinil. Tinha LP e compacto, com lado A e B. Os LPs tinham em média de seis a oito faixas de cada lado e sempre ao final das músicas, tínhamos que suspender o braço da radiola, trocar o lado do disco e recolocá-lo para tocar. Imaginem que num desses compactos, o ator Francisco Cuoco recitava poesia, com um fundo musical melodramático. Como era tempo de ditadura, não se podia ouvir ou cantar Chico Buarque, Caetano Veloso e nem Gilberto Gil.

Não entendia nada, pois nada era explicado e as conversas de adultos eram sempre muito baixas e por isso, só escutávamos algumas palavras ou nomes, que não sabíamos o que significavam. Mas diziam que eles eram comunistas e que por isso eram perigosos. Dessa forma se a gente cantasse ou repetisse suas palavras de ordem, seriamos considerados comunistas também e seriamos presos.

Nas escolas era ensinado a rezar a Ave Maria e o Pai Nosso, que devíamos repetir todas as noites antes de dormir (e pensar que tantos anos depois me pego muitas vezes repetindo o mesmo ritual, ainda que não seja católico). Uma de minhas irmãs se tornou professora e lembro-me de ir com ela até a escola onde ensinava adultos analfabetos a ler e escrever. Era o Mobral, uma versão precursora do programa de educação para jovens e adultos, que hoje se chama EJA (Educação de Jovens e Adultos).

Começava minha vida acadêmica. Com ela aprendi a soletrar as sílabas e a construir palavras. Era fantástico saber ler e descobrir a cada dia uma palavra nova. Por falar nisso, a primeira palavra que aprendi na escola foi chocolate. E olha que nem sabia o que era, nunca tinha visto e muito menos provado. O ensino era por correlação aproximativa, do tipo: a torneira faz “Chó”, a galinha faz “Có”, e o cachorro “Late” = a Cho-co-la-te. Impossível de acreditar? Pois te digo que eu vivi para ver isso. E pensar que da primeira palavra que aprendi, tinha apenas uma referência ilustrativa aproximativa.

Penso se não foi esse processo didático, a base para que nós brasileiros, politicamente incorporássemos a “cultura do papagaio”, repetindo apenas o que se manda. Logicamente, na época eu não conseguia fazer esse tipo de reflexão, afinal de contas deveria estar ocupado demais com a infindável quantidade sílabas e contas da tabuada que precisava decorar. E entenda-se que decorar não correspondia a entender. O objetivo era saber falar certo, mesmo sem ter noção do significado literal.

De qualquer forma, não tinha com o que me preocupar, pois que só viria saber sobre Paulo Freire muito anos depois. O importante é que conseguia andar pelas ruas lendo os nomes e palavras que surgiam na minha frente. Isso me dava o status de inteligente. E eu, claro, me orgulhava por ser inteligente, mesmo que isso não fizesse sentido nenhum para mim. Descobri que ser inteligente era um passaporte para o reconhecimento e respeito por parte das pessoas. Eu tinha o que muita gente não tinha, e pior, nem chegaria a ter: conhecimento.

Mas como tudo na vida, paguei um alto preço por me destacar. Era ameaçado, ridicularizado e muitas vezes perseguido na escola. Naquela época não existia o “bulling” e as violências sofridas faziam parte do cotidiano escolar. Eu era considerado um menino fresco demais. Educado demais, inteligente demais e que gostava de mostrar que sabia mais que os outros. Percebi que quando te tratam de forma diferente, a melhor arma é validar e salientar a diferença outorgada. Também não queira ser igual a todos.

Acho que já entendia o sentido de singularidade e individualidade. Destacava-me e me destacavam porque realmente era diferente. Gostava de coisas diferentes das coisas que a maioria das pessoas gostavam e consequentemente aprendi a pensar de forma diferente. Nem melhor, nem pior. Apenas diferente. Mas, não podia brincar em grupo, porque era diferente. Não podia me relacionar com os garotos da mesma idade, porque era diferente. Não podia me pronunciar, porque era diferente. Não conseguia valer meus direitos. Eu era diferente e pronto. Todo mundo via, todo mundo sabia e todo mundo dizia. Só eu, o diminuto diferente não entendia onde estava a tal diferença tão proclamada. Como não me restava outra saída, aprendi a viver essa diferença. E talvez dela tenha feito minha marca, minha conduta e acho que meu caráter.

Pela terceira vez, fui levado a encontrar e montar estratégias de sobrevivência. E só consegui quando descobri que o que causava, muitas vezes, a ira das pessoas, causava também desejo e/ou despeito. De certa forma, me tornara diferente por possuir algo que muitos gostariam de possuir para poderem se sentir iguais. Contudo, não tinha maturidade suficiente para repartir. Dividir conhecimento talvez fosse à arma necessária e simples para conquistar meus algozes. Mas a maturidade só vem com o tempo e com as experiências de vida. Eu era apenas uma criança, que acuada colocava, ainda que instintivamente, em prática a lei da ação e reação (é de Isaac Newton?). Assim, penso que em muitas situações o ataque é a melhor forma de defesa e essa se tornou minha principal estratégia de sobrevivência.

A HISTÓRIA DE MINHA VIDA - Introdução






































Auto Retrato/2008


CAPITULO I - O Começo de Tudo

Hoje tenho quarenta e quatro anos. E apesar de dizerem que não parece, sei que os tenho. Por muito tempo tive medo ou receio de envelhecer. Era terrível imaginar que ficaria um “velho gagá” dependente de todos. Que as rugas invadiriam meu rosto e que a beleza, pelo menos a que imagino ter se tornaria perecível. Não que tenha complexo de Dorian Gray, mas não posso negar meu lado narcísico. Também não penso em recorrer aos infindáveis recursos tecnológicos da medicina moderna. Primeiro, porque não anseio a eterna juventude; e segundo, por concordar com a Fernanda Montenegro que sabiamente acredita que cada ruga conta um pouco de nossa história. Desta forma, só me resta apelar aos céus para que tenham piedade de mim e me possibilitem uma velhice digna e justa.

Hoje prefiro acreditar que estou apenas amadurecendo. Não sei se muda muita coisa, mas acredito que a vida tem seus propósitos e como tudo no mundo tem um começo, meio e fim. Não sei se estou no meio, já que a estimativa de vida do brasileiro aumentou consideravelmente. A única coisa que posso dizer que tenho certeza é que não estou no começo e muito menos no fim. Acho que começamos a morrer quando abandonamos nossos ideais e sonhos, e confesso não ser meu caso.

Posso começar dizendo que cresci ouvindo que todo ser humano deve marcar sua passagem na terra, e que para isso, seriam necessárias três coisas fundamentais: plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Não necessariamente nesta ordem. Também nem sei se isso faz mais sentido. Conheço muita gente que marcou sua passagem sem escrever livros ou ter filhos. Muitos até se tornaram personagens famosos e ilustres sem nunca mesmo redigir uma única linha.

Mas, seguindo essa lógica, gosto de pensar nas árvores que plantei durante minha infância vivida num subúrbio, a poucos quilômetros do Recife. Em especial, lembro de uma jovem mangueira que em certa ocasião se abriu ao meio, e que, eu e meu pai amarramos os dois grandes galhos com fios de plástico amarelos (daqueles que eram usados para cobrir as “cadeiras de ferro” que enchiam os antigos terraços. Sim, sou da época em que as casas tinham terraços enormes). Talvez essa tenha sido minha primeira ação responsável com o mundo. Não sei se fui eu quem plantou a tal mangueira, mas sei que foi uma as das coisas mais importantes que já tive na vida. Tornara-me responsável por algo que tinha vida e que como qualquer outro ser, precisava de cuidados e carinho. Acredito até, que ali começava meu processo de humanização.

Quanto aos filhos, confesso que já os desejei. Criei nomes mirabolantes, meio hollywoodianos, que coitados, sofreriam muito para aprender a pronunciar, e que por isso, com certeza, se tornariam alvo de muitas gozações. Penso sinceramente que nome de filho é coisa séria. Nomear alguém pode significar interferir ou até definir uma vida de sucesso ou fracassos. Lembro que na escola (e acreditem, também fui da época em que se fazia primário, ginásio e curso superior, ao invés de fundamental, curso técnico e faculdade) sofria por não gostar de meu próprio nome. Não sei se verdadeiramente do nome ou do “apelido carinhoso” pelo qual me chamavam. E logicamente porque, como toda criança, não tinha o direito de reclamar. Era meu nome e pronto. Não temos o direito de escolha. Somos o que nos nomeiam, e isto é fato.

Assim, eu era uma espécie de diminutivo de meu pai, que logicamente herdou o nome do meu avô. Questionava inclusive por meu primeiro irmão homem não tinha o meu nome, já que ele era o primogênito. Não entendia porque meus pais resolveram me eleger o herdeiro de uma dinastia familiar, cujos antepassados eu nem conhecera. Bom, só sei que cresci diminutivo e ainda gago. Era o meu fim. Uma criança feia, com um nome feio e uma fala estranha. Não deu outra, me tornei motivo de gozação e piedade. Tive todos os tipos de doenças e dizem até, que ainda recém nascido caí nas águas de uma grande cheia que inundou Recife. Não creio que de fato tenha acontecido, mas confesso que gosto de pensar que sim, afinal de contas, tem um toque de tragédia que torna a história mais atraente. Não deixa de ser um ato heróico. Eu era um sobrevivente. Uma criança determinada a contrariar até as leis da natureza.

Mas de volta aos filhos, ou melhor, aos nomes dos filhos, acho que alguns pais deveriam mesmo ser obrigados a se desculpar diante de suas proles. Penso que deveriam até instituir um curso de formação de pais. Afinal, o que um pai ou uma mãe despreparada pode fazer com a vida de um filho? Digo com propriedade que um nome mal escolhido pode acarretar prejuízos incalculáveis. Sou vitima disso e sei o que é sofrer por não se reconhecer em uma identidade que não me cabia.

Sempre quis ser Renato, Roberto, Thiago, Bruno, como muitos amigos meus. Mas não era. Tinha o nome de meu pai. Nome que as pessoas achavam difícil, para não dizerem estranho, e que mal sabiam pronunciar. Bom, mas o importante é que pela segunda vez em minha vida, consegui sobreviver. E hoje agradeço por não ter que me desculpar diante de meus filhos pelas escolhas erradas que com certeza teria feito. Acho também que meus filhos em potencial foram mais felizes com outros pais reais que porventura conseguiram. Com o tempo descobri não ter equilíbrio emocional para ser pai. Seria no mínimo nocivo a eles. Sou possessivo como todo bom canceriano (até parece que acredito em horóscopo) e não os saberia criar para o mundo. Resumindo, seria um fracasso nesse quesito, e não saberia dizer se meus filhos sobreviveriam a mim.

Desta forma, só me resta escrever um livro. E neste sentido tranquilizo-os que não o farei agora. Talvez estes escritos sirvam apenas como exercício. Uma brincadeira que nem sei onde vai dar. De qualquer forma, confesso ser inquietante imaginar que alguém poderá lê-los e a partir daí começar a imaginar toda uma vida, que como muitas, não têm nada de especial. Talvez até o que escrevo só tenha sentido real para mim. São minhas histórias, emoções, dores, amores e dissabores, que só eu vivi. E por mais que compartilhados tenham sido esses momentos, apenas eu consigo entender em essência o significado de cada palavra e de cada linha traçada.

Também se deve considerar que a escrita nunca corresponde à verdade. Uma vez floreada, arrumada ou organizada literariamente, demarca uma espécie da história de uma história. Mas nunca a história real. Assim, acredito que não existe autor fiel, pois sempre nos tornamos prezas fáceis dos subterfúgios romancistas ou romancescos que tem como principal objetivo emocionar ou formar opiniões perante o leitor. Por isso, alerto que escreverei do meu jeito. Sem lógica, métrica ou rima. E de antemão peço clemência aos críticos de carteirinhas como eu. Afinal de contas, isso não é uma obra literária. É apenas a história de uma vida, que com certeza não mudará a sua. Ou talvez até mude, mas não por conter receitas de como fazer as coisas certas, mas apenas por conter relatos com os quais, em alguns momentos, podem provocar identificação, ou pelo menos reflexão. Assim espero.